Pensando a eleição

20 de novembro de 2020 § 57 Comentários

A eleição devolveu o bolsonarismo ao tamanho que o fenômeno tinha antes da facada”, disse Rodrigo Maia citado por Maria Cristina Fernandes no Valor … e o lulismo ao tamanho que tinha antes do endeusamento pela imprensa, acrescento eu. Nenhum dos dois conseguiu eleger qualquer dos seus “apoiados”.

Não ha mais super “caras”. O Brasil caiu na real de novo. Abstenções, brancos e nulos batem vencedores do 1º turno em 18 capitais e outras 465 cidades. É a maior em 20 anos. Em São Paulo 3,6 milhões de eleitores escolheram “ninguém”. Covas teve 1,7 milhões de votos (32,85% dos válidos) e Boulos 1,1. Nem os dois somados batem a votação em “ninguém”. Em outras oito capitais “ninguém” bateu a soma dos dois primeiros colocados. Porto Alegre é a campeã com 33,1% de abstenção.

A “democracia brasileira” macunaimizou-se e abandonou o povo. Agora o povo está abandonando a democracia macunaímica…

Quem ainda vota defende-se como pode. 

Houve leve desvio para a esquerda nas capitais e forte desvio para a centro-direita no resto. Segundo o termômetro da Folha de S. Paulo, 999 prefeitos mais à direita tomaram o lugar de prefeitos mais à esquerda e 547 mais à esquerda tomaram o lugar de prefeitos mais à direita. 3.965 “posições” permaneceram estáveis.

Mesmo com todos os ônus da pandemia a taxa de reeleição foi de 63,7%. É de admirar considerando que são os prefeitos que mandam abrir ou fechar as coisas. 3.510 disputaram um novo mandato e 2.237 levaram. Do total de municípios brasileiros 40,4% serão administrados por prefeitos reeleitos e 59,6% por prefeitos novos. Dois fatores pesando: 1) apesar dos prejuízos e incômodos o povo sabe quando o problema é real e topa sacrifícios; 2) como o problema tornou-se muuuuito real ninguém está querendo saber de novidades e experiências arriscadas.

Àparte isso, consagrou-se o óbvio: não há caminho por fora da política. Se não é possível governar sem o congresso, muito menos contra o congresso. O que é preciso, agora, é tornar a política permeável ao país inteiro e não reconhecer o direito ao protagonismo a apenas metade dele. Michel Temer, depois da irascível Dilma, governou pelo diálogo e prosperou. A “patrulha” tentou mas não teve tempo para destruí-lo. Joe Biden também é lido como a reafirmação da fé na política. Mas o ponteiro só passou – e bem pouco! – do meio porque a bandeira dele é a da “recuperação do valor de todos e de cada um dos cidadãos como protagonistas da vida publica”. A ver se deixam… 

Trump e Bolsonaro foram reações à expulsão sumária de metade da população do espaço político pela “patrulha ideológica”. A domesticação da “patrulha” brasileira está vindo a galope pelo mercado com franquias de jornalismo que se vendem pelo equilíbrio, um passo adiante das atabalhoadas iniciativas amadoras das redes sociais que a “patrulha”, associada ao que ha de mais reacionário no establishment (o STF), tenta matar a pau. Nos Estados Unidos não ha grandes sinais de recuo. Mas os 71 milhões de votos de Donald Trump avisam que “vai ter que”. Ainda ha um longo caminho pela frente mas o que tem de acontecer sempre tem muita força…

DINHEIRO SIM

A perspectiva para Bolsonaro é o enfraquecimento da retaguarda militar, a perda de referência com a queda de Donald Trump e o abismo fiscal, o que faz com que a alternativa seja, cada vez mais, “Paulo Guedes ou dólar”. Ou seja, ele está cada vez mais parecido com um “pato manco”, só que com o mandato a meio. Resta torcer para que Rodrigo Maia, que dá sinais do peso na consciência que sente por ter empurrado a ajuda na pandemia dos R$ 200 de Paulo Guedes para R$ 500 contando que restaria a Bolsonaro ir para os R$ 600 que arrebentaram com as contas do Brasil pelos próximos 10 anos ou perder a marca, consiga deter no congresso a bola de neve que pôs para rolar provando que aquele adágio construído pela História – “Teta dada não retorna jamais” – não é absoluto.

DIREITA/ESQUERDA

No Brasil real a divisão continua sendo vertical – nobreza x plebeus – mas esses dois campos se enxergam pela divisão horizontal. Mistérios da televisão…

O DEM é a direita “da política”. É profissional e razoavelmente civilizada. Desde 1985 está excluido da disputa direta pelo poder. Quem permaneceu nele permaneceu por ideologia pois, até pra ser só carona os profissionais subiam na boléia do MDB. Mantiveram oposição ao PT esses anos todos e encolheram. Mas agora virou. É o pouco que resta no cenário que ainda não foi experimentado. Não faz parte, diretamente, do governo Bolsonaro. Sobe naturalmente para a ribalta neste momento de debacle da direita “outsider”. 

Foi o partido que mais cresceu entre 2016 e 2020. ACM Neto fez seu vice, Bruno Reis, com  64,2% no 1º turno. O partido fez 459 prefeituras (de 266 em 2016) no 1º  turno. O PSDB caiu de 785 para 512. O DEM tem capilaridade, tem Luis Mandetta e tem Rodrigo Maia e é, nas palavras de ACM Neto, “Um partido leve, que não tem de justificar nenhum passivo recente mais sério”.

E O BOULOS? 

O eleitorado que votou nele sempre existiu. O difícil era achar alguém com carisma positivo e ficha limpa na esquerda. Esse PSOL “paulistano” – com garantias de dona Erundina – é a esquerda que ainda não foi pega roubando. Só que o DNA do PSOL mesmo é carioca. Não tem base na “classe operária” que, coitada, quase não existe mais, como tinha o PT. É o partido dos “aparatchiks”, os funcionários da privilegiatura. Aquela turma que se aposenta cedo e tão bem que vai morar no Rio, quer-se intocável até o fim dos tempos e se garante sempre, seja o governo da vez da “esquerda” ou da “direita” da privilegiatura (a “nobreza” que – ainda! – tem exclusividade na disputa pelo poder). 

Agora casa-se com os “movimentos sociais” que vivem de peitar o direito de propriedade e namora abertamente o crime. Boulos é o João Pedro Stédile com carisma positivo. Mas ninguém, no PSOL, já trabalhou, no sentido que se dá à expressão aqui fora, ou tem qualquer coisa a ver com o mundo do trabalho. O partido tem, portanto, um duelo de morte marcado com o outro Brasil que é pra já. O dinheiro acabou e não tem mais mágica neste mundo em que comida é dólar. O favelão nacional literalmente explode se a privilegiatura não der uns tantos passos atras…

E no meio do caminho tem um João Dória e um Huck, tem um João Dória e um Huck no meio do caminho. E mais um Ciro Gomes de troco. Mas se Ciro Gomes não decolou até hoje, o novo “Boulinhos paz e amor”, com 30 (e quantos?)% de SP já está voando. Baixo ainda, mas tá. E tem “conversa” bastante pra ir longe.

A URNA, AINDA

Domingo o problema era um. Na segunda passou a ser outro. E tem “ataque hacker”, aqueles a respeito dos quais nunca se chega a conclusão nenhuma, pra todo tipo de conveniência, de chinês e de russo a de “miliciano antidemocrático”, passando até por de português, ouve lá! Tudo só para confirmar o resumo da ópera: sobre a questão das urnas é ocioso discutir tecnicalidades, a questão é de princípio. Qualquer sistema que o cidadão comum não possa aferir com seus próprios olhos num suporte inteligível para o comum dos mortais; qualquer um que o faça ter de aceitar a palavra de alguém para lhe “garantir” o que aconteceu ou não aconteceu, não serve. É como trata a questão a constituição da Alemanha. E eu estou de pleno acordo.

Quanto aos que vêm “inimigos da democracia” debaixo da cama, é bom lembrar: não precisa mais que esse decreto esdrúxulo declarando o voto impresso “inconstitucional” para “semear a duvida sobre as instituições democráticas e desmoraliza-las aos olhos dos cidadãos”.

DINHEIRO NAO

Nos Estados Unidos da ultima eleição havia 37 partidos. Só que lá quem manda é o povo e ele só financia palanque para dois (mais uns caquinhos) enquanto aqui o Estado financia e dá palanque obrigatório a todos e acaba elegendo 26. É isso que torna o país ingovernável. É isso que aleija o Brasil. 

O viés do Estado é sempre “de democratização” … mas de democratização do privilégio. Quando os empresários financiavam as eleições davam mais dinheiro para quem achavam que ia ganhar. Então o resultado das urnas tendia a ser coerente com o dinheiro recebido por cada partido. E vinha o berreiro: “Olha aí, interferência do poder econômico”, e coisa, e tal. O sistema era “podre” não porque as odebrechts da vida faziam o de sempre e ficavam impunes, mas tão somente porque eram ricas o bastante para financiar eleições. 

Solução? A de sempre: estatizar o financiamento de eleições (e manter todos os larápios impunes, lógico). 

Nesta da semana passada o PSL (com R$ 287,3 milhões) e o PT (com R$ 275,3) foram as legendas que mais receberam dinheiro dos fundos Eleitoral e Partidário. Mas tiveram desempenhos medíocres. O PT foi o 6º e o PSL o 12º partidos mais votados. O “custo” de cada voto no PT foi de R$ 39,49 e no PSL de R$ 102,89. O do voto tucano foi o mais baixo no grupo dos 15 maiores partidos: R$ 16,47. Ou seja, só o povo sabe o que faz (embora só faça o que pode) nessa barafunda do sistema eleitoral brasileiro. 

Se as instituições brasileiras fossem do povo e para o povo, como são as americanas, a solução poderia ser parecida com a deles. Lá todo mundo pode dar quanto quiser a qualquer candidato ou partido (mesmo porque sempre ha jeito de furar qualquer limite que se tente impor), com uma única condição: no prazo máximo de 5 dias depois do recebimento, muito antes da eleição, portanto, o candidato ou o partido têm de comunicar ao eleitorado quanto ganhou e de quem. Assim, um dos principais temas das campanhas lá é o candidato ser denunciado pelo oponente por estar sendo “comprado” por financiadores suspeitos, o que lhe tira, em vez de lhe dar, milhões de votos.

A VACINA

Não se deixe enganar. Ha democracia quando o povo manda no governo. Não ha democracia quando o governo manda no povo. Em qualquer sistema a condição humana continua a mesma. Mas o voto distrital puro com direito à retomada de mandato traído a qualquer momento (recall) põe o povo no poder. E todos os outros modelos tiram o povo do poder. E o efeito na corrupção é fulminante. É isso que explica porque os Estados Unidos, que usam o sistema ha mais ou menos 100 anos, têm três ou quatro empresas do tamanho do PIB do Brasil e o resto é lambuja. É muito, mas muuuito mais confortável você criticar a democracia a partir desse patamar do que do fundo do favelão nacional.

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