O olho de Obama

11 de setembro de 2013 § 1 comentário

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Enquanto o PC do B, o protetor de Cesare Battisti, negocia com Vladimir Putin, o protetor de Bashar al Assad, para ouvir Edward Snowden de modo a deter a espionagem americana que ameaça a segurança do mundo e a lisura do jogo econômico internacional (Democratas, unidos, jamais serão vencidos!), é provável que os especialistas daquele “tradicional grupo de profissionais que blinda Dilma na rede” (veja a matéria “Top, top secret” aí embaixo) estejam examinando com o mais alto interesse o mais novo segmento da corda que vem sendo pacientemente trançada pelos capitalistas para o seu futuro enforcamento.

A imprensa especializada americana destaca hoje os novos sensores instalados no iPhone 5S lançado ontem pela Apple, como a mais decisiva confirmação da tendência, generalizada nessa indústria, de transformar todos os aparelhos de uso pessoal intensivo, especialmente o onipresente “celular inteligente”, em plataformas de múltiplos “sensores permanentemente ligados” (“always-on sensors”).

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O iPhone 5S vem agora com um “co-processador de movimentos” empacotado num novo chip, o M7, cuja função é “monitorar permanentemente todos os sensores de movimentos já embutidos no seu telefone como o acelerômetro, o giroscópio e a bussola”.

Esses sensores, em si mesmos”, esclarecem os especialistas, “não são novidade. Mas dedicar um chip exclusivamente para monitorá-los, sim. O M7 acoplado a algo chamado CoreMotion API, que é um software que transforma os impulsos medidos por esses sensores em informações combinadas legíveis, torna essas informações disponíveis para qualquer aplicação que se baseie no seu uso”.

Um dos aplicativos baseados nessa API, informa a Apple, será o Nike+Move que fará com que o seu celular substitua o Fuelband da própria Nike, que são aquelas pulseiras que medem quanto você andou, por quanto tempo, em que direção, a que velocidade, empurrado por quantos batimentos cardíacos por minuto e queimando quantas calorias, entre outras informações.

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Os Galaxy S3 e S4 da Samsung também embutem “acelerômetros”, por enquanto usados para funções inocentes tais como rejeitar uma ligação virando o aparelho para um lado e para o outro ou “dar zoom” numa foto imitando o gesto de afastar ou aproximar o telefone dos olhos. Os S4 já incluem, também, sensores de umidade e temperatura, por enquanto usados, alegadamente, apenas para “fazer os telefones contribuírem para sistemas mais amplos de previsão do tempo”.

Já os MotoX, da Motorola, estão “sempre ouvindo”. O chip de processamento de áudio que ele incorpora é “especializado na supressão de ruídos e no reconhecimento de voz”. Como reconhece certas palavras e movimentos, outro tipo de processamento dessas informações “allways-on”, segundo o site especializado AllThingsD, permite que esse telefone “antecipe os movimentos do usuário”. Por exemplo, segure o telefone como se fosse tirar uma foto e ele ligará automaticamente a câmera.

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Todos, entre esses aparelhos, que são motorizados pelo sistema Android, do Google, transmitem, ainda, dados sobre os deslocamentos físicos de seus usuários a partir dos GPS’s “allways-on” dos seus sistemas, mantidos assim “para montar e animar os Google Maps e os sistemas de monitoramento de tráfego”, muito em voga ultimamente.

Todos esses “features” e inocentes comodidades, entretanto, custam dezenas de bilhões de dólares e anos de trabalho para serem desenvolvidos, o que nos põe diante de uma flagrante desproporção entre custo e benefício.

Mas quando saímos do transe do brinquedinho novo e nos damos conta de que a pergunta sobre a real utilidade de todas essas aparentes bobagens poderia ser perfeitamente respondida com a mesma frase que o Lobo Mau devolvia à Chapeuzinho Vermelho quando ela candidamente o interrogava sobre a serventia daquelas orelhas, daquele nariz e daquela boca “tão grandes”, começamos a entender melhor em que terreno estamos pisando.

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Por enquanto a única coisa que impede que todos esses chips fiquem “allways-on” todos juntos, ao mesmo tempo e o tempo todo é a charada tecnológica da duração das baterias que, por enquanto, não suportam esse desaforo todo.

Mas enquanto ela não se resolve os fornecedores dessas plataformas, pelas quais pagamos regiamente e que cuidamos de manter sempre ao alcance de tudo que eles querem saber, vão vendendo a peso de ouro as informações que elas nos arrancam enquanto brincamos com elas. De carona com eles vão também os analistas de “big data”, cada um com seu interesse específico, nadando de braçada nas nossas intimidades.

Em priscas eras, coisa de quatro ou cinco anos atrás nestes tempos de internet, temia-se o desenvolvimento do que se chamava então “uma internet das coisas” onde tudo – de sapatos a automóveis – estaria conectado, o que resultaria no permanente monitoramento de tudo que as pessoas fazem ou deixam de fazer.

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Era esse o cenário tenebroso à la “1984/Big Brother” dos pessimistas de então.

Agora, compreendendo melhor o real grau de inteligência dos portadores de celulares inteligentes, os fabricantes perceberam que em vez de colocar chips em tudo é mais fácil embutir todos eles nos celulares que eles carregam consigo de livre e espontânea vontade do confessionário ao banheiro, passando por tudo que está no meio, e registrar cada soluço que seus portadores dão – para vender ou manipular tais informações em função de projetos de poder ou simplesmente vigiar concorrentes, desafetos ou opositores para eventuais providências futuras – enquanto os alegres objetos desse monitoramento permanente, nus em pelo, distraem-se a vociferar contra “as óbvias intenções” de Obama e da CIA de despi-los, destruir democracias e atacar gratuitamente gente inocente.

Sai muito mais barato.

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Top top secret

9 de setembro de 2013 § 2 Comentários

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Você que ante a insistência da Globo, embora se perguntando ainda porque só o Brasil se mostrou tão mortalmente ferido com isso se Edward Snowden “revelou” que o mesmo ocorre com relação a todos os países do mundo, está começando a ficar propenso a se indignar com a espionagem dos Estados Unidos em cima do Brasil, da Dilma e agora finalmente também da Petrobrás, vá a este endereço e leia a matéria que está lá.

O termo Dilma nas redes sociais: o fim da bipolaridade política e o desejo de radicalizar mudanças” é apenas uma das “análises de big data”, que é a mesma coisa que o serviço secreto americano faz, executadas enquanto aconteciam as manifestações de junho em todo o Brasil (a data de postagem desta é 20 – 06 – 2013), publicadas pelo coordenador do Labic Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo, professor Fabio Milani. Ha inumeras outras no mesmo site que poderão ilustrá-lo com verdades científicas sobre a realidade da “espionagem” na internet.

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Esta começa assim:

A imprensa soltou uma nota afirmando que a Abin (órgão de inteligência do governo federal) passa a estar de olho nas conversações dos perfis das redes sociais. Pelo que vejo, através da análise de rede que faço aqui, a Abin deve estar trabalhando 24 horas sem parar, com todo o seu pessoal mais o triplo de “voluntários”. Isso porque a densidade da rede de tweets, com recorrência da palavra Dilma, publicados no Twitter, só aumenta. Coletei, nos dias 16 e 17 de junho, esses tweets. Eles somam 170 mil. Destes, 50 mil são de RTs (republicações). Peguei o arquivo e plotei-o no Gephi, buscando saber quem são os Hubs dessa Rede” (…)

Eu não diria que a Universidade Federal do Espírito Santo seja o centro mais sofisticado do mundo de “espionagem” ou de pesquisa e análise de “big data”. Provavelmente nem é dos maiores do Brasil. E, no entanto, note: o professor postou no dia 20 análise de 170 mil tweets emitidos nos dias 16 e 17 (três dias antes, fora o tempo que ele levou para escrever) com recursos que provavelmente estão no mercado, como o software Gephi, mencionado com grande intimidade.

O que vem na sequência é impressionante para o leigo.

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O professor consegue traçar, mensagem por mensagem, de quem ela veio, pessoa por pessoa, até a primeira que falou do assunto, em longas cadeias; consegue dizer com que frequência cada uma dessas pessoas, identificadas pelo nome, “retuitou” a mensagem recebida; quem foi o primeiro a emiti-la; quantas vezes ela foi e voltou pela rede e por quem passou de cada vez, tudo isso gerando estas “nuvens” de nomes escritos em tipos que vão aumentando de copo conforme a frequência com que incidem nas mensagens que você vê nesta postagem.

Repare bem nessas imagens. São nomes de pessoas reais que elas contêm.

Além disso, o professor Milani tece considerações, também, sobre o conteúdo dessas mensagens: o que cada um disse, sobre quem, e como isso o classifica do ponto de vista de seu posicionamento em relação ao governo e à pessoa da “presidenta”.

Finalmente ele desenha as diversas “redes” constituídas por essas conversações e as classifica, segundo o conteúdo ou, mais exatamente, segundo a posição assumida por quem participa delas: o “grupo de oposição à Dilma ha anos” (azul), o “tradicional grupo que blinda a Dilma na rede” (vermelho), a “velha mídia” que constitui “os nós de difusão” (preto), os “novos opositores” (verde), os muito e os pouco convictos do que dizem e assim por diante.

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Faz, também, comentários específicos sobre o papel de alguns jornalistas e celebridades em particular nessas cadeias de comunicação e, com riqueza de detalhes, explica como cada um desses grupos e agentes individuais age e reage ao que lê e ao que escreve, chegando a conclusões até sobre o porque de cada um escrever como escreve.

Enfim, se fosse a CIA ou a NSA, não sei o que elas poderiam “descobrir” nessas conversas que o professor Milani ainda não saiba.

De quebra ficamos sabendo por essa matéria que o “grupo que blinda Dilma na rede” é tão conhecido e atua ha tanto tempo que já é chamado de “tradicional” por esses analistas, não havendo ao que se saiba, fora do PT, quem mais faça isso na política brasileira.

E isso para deixarmos de lado a Abin…

Enfim, senhoras e senhores, a “espionagem americana” na rede não é apenas um segredo de polichinelo. A rede é algo tão escancarado e quem dela se serve deixa rastros tão indeléveis que não só todos os comerciantes usam softwares banais como os mencionados para registrar e analisar tudo que você faz nela como também vendem esses dados para outros comerciantes, aí incluído tudo o que você diz, escreve e vê e mais onde você fisicamente vai e quando (via GPS), e até mesmo, como você pode ver pelo TED publicado ontem sobre o Google e cia., quanto você mede e pesa, em que posição costuma se sentar e etc.

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Criptografia para governos, presidentes e outros VIP’s?

Assim como os computadores as criam os computadores as decifram. Tão fácil quanto isso.

Portanto, abra o olho!

Mas voltando ao que nos mostra o professor Milani, que lhe parece agora? Todo esse barulho traduz, mesmo, uma preocupação maior que a que todo sujeito minimamente informado deveria ter desde sempre com respeito a internet e privacidade, os jornalistas muito especialmente, ou antes o que as chefias de redações da Globo pensam sobre os Estados Unidos ou querem que você pense sobre os Estados Unidos, o único desses espiões todos que ainda perde tempo em pedir autorização para o Congresso e para o Judiciário para xeretar sua vida?

Você decide.

Finalmente, chama a atenção no lado brasileiro dessa história também a sequência dos acontecimentos.

Primeiro espionavam “o Brasil”. Não deu muito Ibope porque os brasileiros lá no fundo sabem que aqui não ha muito o que esconder. Nem os ladrões mais notórios perdem tempo em fazê-lo.

Depois, passaram a espionar “a Dilma”. Aí sim a “soberania nacional” se sentiu abalada e a bronca subiu de tom. Saudades da monarquia…

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Agora falamos da Petrobras, ou seja, daqueles capitalistas ianques gananciosos, Estado e capital jogando juntos, aqueles sujos, ao contrário do que acontece entre dona Dilma e seus barões do BNDES.

E o que querem os americanos saber para correr esse risco todo? Ora, dos segredos da extração de petróleo a grandes profundidades que só a Petrobras detém, aqueles mesmos que, por já serem mais que suficientemente conhecidos por todos os mercados financeiros do mundo, levaram as ações da “nossa” petroleira para um buraco mais fundo que o do pré-sal onde supostamente estaria a justificativa para a valorização dessas ações.

A esquerda internacional, aliás, está precisando urgentemente de outro coringa para explicar tudo que acontece na política internacional pois petróleo é coisa que está sobrando tanto nos Estados Unidos que, até que o outro gás de Bashar al Assad mudasse isso, eles tinham virado o foco da sua política externa do Oriente Médio para a Ásia porque tornaram-se, nos últimos dois anos, não apenas auto-suficientes como também exportadores de petróleo e gás (o único item de sua pauta de exportações que dobrou de valor desde a crise), graças às novas tecnologias de extração dos dois produtos do xisto, enquanto em matéria de manufaturados continuam apanhando da China e de outros detentores de contingentes infindáveis de trabalhadores sem direitos nem salários fabricados pelo socialismo real, como os médicos cubanos de que fala esse senhor aí embaixo e dona Dilma tem importado a preço de ocasião.

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Edward Snowden e o “admirável mundo novo”

9 de julho de 2013 § 7 Comentários

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De modo nenhum o que veio à tona foram informações novas ou revelações surpreendentes. Mas de certa forma os documentos vazados pelo ex-técnico da CIA, Edward Snowden, mostrando pormenores do sistema de monitoração de comunicações on e offline em escala global pelo governo americano oficializa uma realidade de todos e de cada um de nós bem mais que suspeitada.

Como fingir-se ultrajado por tais “revelações” num mundo onde organizações acobertadas por governos nacionais dedicam-se a atirar Boeings cheios de gente contra prédios de escritórios nos horários de pico de trabalho enquanto os proprietários das grandes encruzilhadas da internet como o Google, o Facebook e outros menos votados, todos incensados como grandes benfeitores da humanidade e paladinos da causa da “liberdade na rede”, fazem centenas de bilhões de dólares por ano gravando e vendendo a qualquer um que queira pagar por isso não apenas o mapeamento das conexões entre IPs suspeitos, como faz modestamente a CIA, mas tudo que todos nós falamos, escrevemos, mostramos, vendemos e compramos dentro da rede mundial, além do passo a passo das nossas deambulações pelo mundo físico sistematicamente plotadas, à nossa revelia, pelos GPS’s que eles embutem nos gadgets com que “nos servem”?

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A situação que tais “revelações” oficializa, portanto, é de que, diante do esboroamento do aparato de law enforcement apoiado em Estados Nacionais sem mandato para lidar com uma realidade onde tudo, a começar pelo crime, está globalizado, os Estados Unidos da América, como potência militar e tecnológica hegemônica, assumiram o papel de polícia do mundo num mundo em que nem Nova York está a salvo, o que cria uma situação paradoxal. Pois não ha uma pessoa honesta consigo mesmo que não se sinta, ao mesmo tempo, ameaçada e reconfortada com isso. Ou, no mínimo, morrendo de saudades de um mundo onde ainda era possível guardar segredos e esperar que a vida se nos revelasse aos poucos.

O chanceler Patriota e o ministro Amorin, afinados com o momento “cu na parede” do PT apressaram-se a dizer que o Brasil é muito vulnerável por carência de tecnologia ( o que nos permite antecipar que logo, logo as odebrechts da vida entrarão no ramo de satélites bancados pelo BNDES, se ainda houver BNDES), assim como dona Dilma, sem que ninguém tivesse feito muitas perguntas nesse sentido, garantiu que nunca houve autorização ou colaboração do governo brasileiro com esses expedientes de espionagem.

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Não sei se convenceram alguém…

Mas a verdade é que o problema não é de carência de tecnologia, é de mudança de paradigma tecnológico. Uma mudança que torna a rede mundial de comunicações – e não apenas ela – absolutamente indefensável.

Tudo está devassado. Nem as comunicações do Pentágono, como já se provou diversas vezes até a partir de prosaicas garagens espalhadas pela periferia do mundo, estão seguras. E esse não é, nem de longe, o maior problema que essa mudança de paradigma está provocando.

O “mundo novo” nunca se me mostrou tão “admirável” assim e esse aspecto da inexorabilidade da “aquisição” de todo e qualquer perseguido, ainda que em operações cada vez mais cirúrgicas, não faz com que ele pareça nada melhor aos meus olhos. Qualquer arma – é a história da humanidade quem o diz – pode ser (e será) usada indistintamente para o bem e para o mal…

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De minha parte, porém, os argumentos da CIA seguem parecendo mais aceitáveis, por enquanto, que os do Google, os do Facebook e cia. ltda. para meter o nariz na minha vida e, a custa disso, armarem-se com os bilhões que empregam, cada vez com menos pudor, no assassinato econômico de concorrentes.

Perturba muito mais a minha sensibilidade, igualmente, ver o comerciante de bisbilhotices ser saudado como herói da liberdade enquanto os caçadores de bin ladens são muito mais maltratados que isso. Ha qualquer coisa de doentio nesse tipo comportamento. Patologia social, digo. Coisa mais difícil de curar que doença de gente.

Na verdade, preocupam-me mais os sinais de progressiva contaminação do uso indesejável mas justificável da invasão de privacidade pelo governo americano pelas motivações indesejáveis e injustificáveis dos comerciantes de bisbilhotice que têm aparecido lateralmente nessa história do que o contrário.

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Vejo mais perigo para o futuro da humanidade no fato do governo americano usar esse aparato também para espionagem comercial e favorecimento de negócios e, portanto, também de negociantes, do que em qualquer lasca tirada de minha privacidade em nome da prevenção de atentados terroristas ou do retardamento da posse de armas químicas ou nucleares por conhecidos trogloditas internacionais.

Enquanto essas duas coisas estiverem separadas ha esperanças para o futuro da democracia. Quando se misturarem assumida e impunemente, ela estará condenada.

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