“Dinheiro compra até o amor verdadeiro”
7 de março de 2013 § 3 Comentários
Júlio de Mesquita Filho dizia que usar irresponsavelmente a imprensa é crime pior que o tráfico de drogas porque o alcance do dano produzido é muito maior. E se alcance é o ponto em discussão, então praticá-lo na televisão deveria levar a um adicional de pelo menos 12/3 da pena (isso mesmo, 12 terços).
Desde a morte de Chavez tenho assistido ao costumeiro desfile de “especialistas” nacionais e estrangeiros (estes em geral pior que aqueles) desfiando “análises” e tecendo conjecturas sobre o significado e o futuro do “chavismo”.
E, para meu espanto, constatei que ainda ha uma boa parte deles que não usa a expressão apenas como uma abreviatura para um episódio que tem as especificidades cronológica e geográfica que este tem mas, com o maior ar de seriedade, trata a coisa como se realmente houvesse algo além de dinheiro a dar linimento teórico a esse “ismo”, passível de ser encarado como a mais nova esperança de uma “terceira via”.
O “chavismo”, assim como o “lulismo”, tem tanta sofisticação, consistência teórica e perspectiva de sustentabilidade quanto a “solução para a pobreza” inventada por Emiliano Zapata, precursor de todos eles no expediente de imprimir dinheiro a rodo e distribuí-lo diretamente para os pobres no México dos idos de 1910.
O que há de novo no “chavismo” é que o seu protagonista estava sentado em cima de uma mina inesgotável da qual jorram 1,5 milhão de barris de petróleo por dia, petróleo este que, nos 14 anos em que ele esteve no poder, teve seu preço internacional majorado em 554%, indo de US$ 14 para US$ 95 o barril.
É dinheiro que não acaba mais. E dinheiro, já dizia o nosso profeta Nelson Rodrigues, “compra até o amor verdadeiro”.
É o que os náufragos da esquerda internacional vêm descobrindo num frenesi do mais puro êxtase.
Os primeiros dessa grei a assumir a força do dinheiro como arma de conquista geopolítica foram os chineses, na sua multimilenar sabedoria.
Desde Deng Xiaoping Pequim trocou o arsenal de mísseis balísticos intercontinentais carregados de ogivas atômicas com que Moscou garantia a “união” das antigas Repúblicas Socialistas Soviéticas e sua influência no mundo pelo dinheiro como arma de cooptação de aliados e construção de hegemonias políticas.
Daí para a frente foi só efeito dominó.
Chavez trocou os kalashnikovs de Fidel por petrodólares como ferramenta de implantação doméstica e exportação de “la revolución”; Zé Dirceu trocou Granmsci pela distribuição regularizada de suborno a partidos políticos e parlamentares; Lula e o PT o provimento de educação, saúde, saneamento e infraestrutura capazes de diminuir a desigualdade de oportunidades pela distribuição de cargos e salários para os amigos e de notas vivas de real de mão em mão para milhões de mães de família miseráveis.
O que diferencia o “chavismo” é a longevidade da esbórnia.
Desde sempre quem se aventura por esse caminho precipita desastres econômicos que acabam por tragá-los, e aos seus aparatos de poder, antes que tenham tempo de se tornar santos. Sobretudo quando, como no “lulismo”, esgotadas as reservas, o esquema passa a ser sustentado com empréstimos bancários.
Agora, quando calha de surgir um desses “zapatistas” sentado em cima de um mar de petróleo, a esmola pode prolongar-se por tempo suficiente para proporcionar a ilusão de que será eterna.
Então todos os inimigos jurados do esforço e do mérito têm a chance de sair do seu habitual jejum de resultados e andar por aí pondo o dedo na cara de toda a gente séria…
Se ele morre antes de colher o que plantou, então, aí não ha mais limites. Vira um “procer de nuestra América”, “la reencarnación de Bolivar”, um “hijo de Cuba”, um queridinho de Sean Penn e Oliver Stone ou até “a reencarnação de Cristo e do 12º Imã do Islã” em um só corpo, o que, convenhamos, deixa no chinelo a santíssima trindade que, humildemente, limita-se a congregar velhos amigos na mesma entidade.
Mas nem petróleo aguenta tanto desaforo.
O completo esgotamento de todos os setores da economia venezuelana com exceção do de serviços, naturalmente protegido da competição dos idiotas do mundo que insistem em acreditar na responsabilidade individual e no mérito, acompanhado da mais alta inflação do Ocidente, na casa dos 30%, e do desembesto dos números da criminalidade, compõem o quadro de um estágio muito mais avançado da mesma doença cujos sintomas já se manifestam no Brasil: a doença da obsessão pelo poder acompanhada do absoluto descaso para com tudo o mais, inclusive a imputabilidade dos criminosos usuários de todos os tipos de colarinho.
Chavez, que só fez por si, leva consigo tudo que fez, o que prenuncia dias muito difíceis para os seus herdeiros.
Quanto à “unidade latino-americana” que Lula saudou no NY Times de hoje como o seu maior feito, é cimentada exclusivamente com o mesmo tipo de cola que mantém unida a coalizão multipartidária e multideológica que sustenta o PT no poder: dinheiro.
Basta comparar, quem precisar de provas, a lista dos países aderentes à Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) com a dos países a quem a Venezuela entrega petróleo subsidiado nas américas central e do sul e no Caribe, através da iniciativa batizada de Petrocaribe.
O socialismo bolivariano do coronel Chavez visto sem lentes cor-de-rosa, portanto, parece-se muito mais com uma versão internacionalista do Mensalão que com os sonhos e ideais de igualdade que, no milênio passado, encantaram tanta gente boa.
Hugo Chavez e o Brasil
6 de março de 2013 § 3 Comentários
O “La revolución soy yo” do absolutismo assistencialista das culturas pré-institucionais latino-americanas de sempre e sua versão mais recente, batizada de “socialismo bolivariano” é o sucedâneo, em linha direta de descendência, do “L’état c’ést moi” do absolutismo monárquico da Europa setecentista.
Como tudo gira em torno da pessoa do soberano, a morte dele é, em si mesmo, uma crise que deixa sempre a massa dos súditos de frente para o abismo.
Será o herdeiro do trono um rei benigno ou um rei maligno? Qual será “la revolución” que mora na cabeça dele? Que grupos, entre os súditos, ele escolherá como amigos? E como inimigos?
Os profissionais da corte, gente altamente especializada, terão alguma margem de manobra para tentar escolher o lado certo na hora certa.
Mas desse círculo para frente nunca se sabe. Daí as cenas de desespero que esses eventos desencadeiam.
Tendo o “eu” como única referência, todos os atos desse tipo de déspota são voltados para a autopreservação, a supressão do dissenso e a acumulação de poder.
O que mudou essencialmente da Europa setecentista para cá é a extensão do dano que esse tipo de foco unidirecional pode produzir. Antes não havia limite. Hoje a tolerância é menor e o uso da força física menos livre. É com dinheiro que se compra o que antes se obtinha pelo emprego da força mas, ainda assim, o dano produzido pode ser enorme.
A adesão emocionada da legião dos esquecidos a estes personagens que lhes dirigem o discurso e atiram migalhas nos fala da dificuldade central envolvida na superação desse destino: a urgência de quem precisa agora, já, de algum remédio que lhe suprima uma dor insuportável mas pode viciar versus a complexidade da “fisioterapia” requerida de mais de uma geração de “doentes” de ignorância e pobreza para que se extinga definitivamente a causa dela.
É nessa brecha que se infiltram os traficantes de remédios supressores da dor.
Assim como Lula com o das matérias primas e das commodities agrícolas, Hugo Chavez usou integralmente a gigantesca quantidade de recursos novos gerados pelo “boom” do petróleo, que poderia ter mudado para sempre o patamar de civilização dos venezuelanos, para comprar mais poder.
Nenhum dos dois, ao fim de 10 anos o primeiro e de 14 o que se foi deste mundo ontem, aparelhou seus países neste extraordinário período de vacas gordas com qualquer coisa de duradouro como infraestrutura e educação.
A Venezuela, dona de uma das maiores reservas de petróleo conhecidas no mundo, importa literalmente tudo que consome, aí incluída a gasolina, enquanto o petróleo bruto responde por 95% de suas exportações. Nem uma indústria de refino de petróleo ele se preocupou em construir.
Sentindo que tinha boas chances de se apropriar daquilo que, por 60 anos, funcionou como uma garantia intocável de permanência no poder, o esperto coronel venezuelano, cheio de apetites maiores que os que cabiam em suas fronteiras nacionais, aproximou-se dos dois velhinhos de Cuba como o proverbial sobrinho mau caráter se aproxima da tia rica, na esperança de se tornar o seu único herdeiro.
O plano parecia perfeito.
O dinheiro disponível era ilimitado. E o último bastião do socialismo real no Ocidente, depois do desaparecimento da União Soviética, estava se afundando na mais negra miséria.
Em outubro de 2000, o coronel Chavez assina com os irmãos Castro o “Convênio Integral de Cooperação” pelo qual a Venezuela entrega a Cuba, hoje, a fundo perdido, mais de 100 mil barris de petróleo por dia, que os Castro “pagam” emprestando os seus médicos de quarteirão à Venezuela (diz-se que 40 mil do padrão dos que trataram a doença de Chavez para baixo), os guarda-costas pessoais de toda a nomenklatura bolivariana e, last but not least, assessorando as forças armadas do regime “especialmente na área de inteligência” onde desenvolveram uma expertise sem concorrente no mundo contemporâneo para fazer abortar antes que comece a engatinhar qualquer embrião de oposição.
Ainda seguindo a cartilha cubana de exportação de “la revolución” nos modernos padrões em que o dinheiro faz o papel antes reservado aos fuzis kalashnikov, Chavez foi adquirindo com sua ilimitada munição de petrodólares, uma constelação de satélites para o seu “socialismo bolivariano” entre os regimes sul e centro americanos mais depauperados pelos desmandos e peripécias de caudilhos locais, categoria para a qual decaiu até a outrora tão rica e “civilizada” Argentina.
Tudo com que Hugo Chavez jamais poderia contar é que o destino o carregasse deste mundo antes das quase nonagenárias “tias velhas” do Caribe das quais ele já se comportava como herdeiro presuntivo assumindo com mais realismo que o rei – e proverbialmente como farsa – o velho discurso do milênio passado contra o “grande satã” do Norte.
A herança, agora, está novamente à espera de quem lance mão dela o que, convenhamos, não soa exatamente como um bom presságio para o Brasil.
A inconsistência institucional e a permanente exposição à tentação populista/assistencialista é o eixo comum da sina política das américas espanhola e portuguesa.
Mas o Brasil, com mais miscigenação e menos arrogância aristocrática de “elites” que são alçadas e apeadas do poder junto com os governos que as “fazem” e “desfazem” à sua imagem e semelhança, não gerou, nesse nosso quadro de fronteiras raciais e sociais pouco nítidas, nem o mesmo grau de ódio que aprofundasse tanto o fosso, nem a mesma facilidade de identificação entre grupos segregados sedentos de revanche que se pode encontrar em nossos vizinhos hispânicos.
O corte gerador de rancores, no Brasil, é muito mais de grau de educação que de raça ou de renda. E Lula, com sua incontida raiva de quem tenha estudado o que quer que seja, expressa essa nossa especificidade à perfeição.
Sorte nossa, posto que, ao menos teoricamente, é mais fácil encurtar o fosso educacional que superar outras barreiras muito menos plasmáveis.
Seja como for, é essa diferença que explica o viés mais pronunciado dos nossos vizinhos hispânicos para variações em torno do modelo caudilhista face ao eterno movimento pendular do Brasil entre as vizinhanças da civilização e a periferia da barbárie em matéria de modelo político.
Até na presente viagem do pêndulo para a esquerda, Dilma expressa essa nossa característica hamletiana quando faz críticas a Chavez … mas adere a ele mesmo assim.
É essa a dúvida que já o mundo inteiro sente que nós sentimos.
Por isso desapareceu de cena o dinheiro para os investimentos em infraestrutura necessários para corrermos atrás do prejuízo dos 10 anos que o PT passou gastando exclusivamente na compra de mais poder.
O que as contas do dr. Mantega têm a ver com o linchamento de Yoani Sanchez
22 de fevereiro de 2013 § Deixe um comentário
Parecem coisas distantes entre si, mas não são. A diferença é de grau e não de gênero.
Existe um nexo perfeito entre a “matemática criativa” do dr. Mantega, a nova política de controle de preços agrícolas que o governo começa a esboçar porque a inflação nos alimentos insiste em ficar acima de 10% desde 2008 e a fúria dos “camisas pardas” do PT encarregados por agentes do governo brasileiro sob ordens diretas do governo de Havana de perseguir, passo a passo, e calar na porrada a boca da blogueira Yoani Sanchez em suas andanças pelo Brasil.
O ponto exato de “ruptura revolucionária” com a lógica que desloca o pensamento de esquerda para o campo ideo-lógico é a negação do princípio do mérito.
Quer tirar um estatólatra do sério? Por um funcionário público em pânico? Provocar urticária no governante autoritário que gostaria de não ser apeado nunca do poder em função do julgamento de eleitores que não sabem sequer o que é bom para eles próprios?
Proponha-lhes um sistema de mérito em que o esforço empenhado na ação seja medido pelo seu resultado e a remuneração do agente seja estipulada em função da medida colhida como esse que vigora para o resto do mundo e para todos os reles mortais aqui do Brasil real.
Negar o conceito de mérito é, em última instância, negar a relação de causa e efeito e, por inferência direta, também as ideias de responsabilidade individual e de livre arbítrio.
Daí decorre que para fazer regredir a inflação, nada dessa besteira de alterar os fundamentos políticos e as práticas concretas no trato do dinheiro público que levam as contas nacionais para um resultado indesejado, basta alterar as contas para que o resultado indesejado não apareça.
Analogamente, para evitar que Yoani Sanchez se queixe da repressão em Cuba ou que a “imprensa golpista” cobre ética na política, nada dessa besteira de promover mais liberdade e democracia na ilha daqueles dois velhinhos fardados ou de deter a roubalheira e a institucionalização do lenocínio parlamentar no governo do PT, basta estabelecer na porrada o “controle da mídia” – um blog que seja – para que cessem as queixas contra a falta delas.
O critério ideo-lógico, como diz a palavra, põe a ideia à frente da lógica e insiste em submeter esta àquela. O problema é sempre que, como a lógica traduz o que dizem os fatos e os fatos insistem em se rebelar contra o que querem deles as ideias, estas só podem se sobrepor a eles mediante o emprego da força bruta. De modo que esse conflito insanável acaba sempre em violência.
Violência contra a rebelião da matemática ou violência contra a rebelião das pessoas são, portanto, apenas estágios diferentes do mesmo desvio fundamental. No fim, tudo chega ao mesmo lugar.
Ou volta-se a entronizar o mérito, ou institucionaliza-se a violência. Não ha exemplo histórico de meio termo. As variações possíveis são só de grau, e este oscila exclusivamente em função da resistência oferecida pelo violentado.
Porque o Google pode e Murdoch não?
19 de fevereiro de 2013 § 1 comentário
Correspondentes do NY Times em Londres informavam, na semana passada, que mais seis jornalistas que trabalham para The Sun ou trabalhavam para The News of the World, dois dos tablóides sensacionalistas de Rupert Murdoch, foram presos e tiveram suas casas devassadas, ainda com relação às investigações de escutas telefônicas, hackeamento de computadores, interceptação de mensagens e suborno de policiais nos anos de 2005 e 2006 para conseguir informações sobre celebridades ou crimes e publicá-las em primeira mão.
Mais de 100 repórteres, editores, policiais e funcionários públicos já foram presos nessa investigação. Rupert Murdoch sentiu-se obrigado a fechar o The News of the World, o mais lucrativo dos seus tabloides em junho de 2011 para tentar aplacar a indignação do público que ameaçava contaminar todos seus títulos em papel, na TV ou em bits, 169 vítimas desses atos de invasão de privacidade entraram com processos e 144 já foram indenizadas em valores em torno de US$ 1 milhão cada.
Perfeito! É o mínimo que tem de acontecer com picaretas desse naipe num país civilizado.
Agora, o que possivelmente ficará para os historiadores explicarem a nossos filhos é porque invasões de privacidade, bisbilhotagem, arapongagem e roubo de informações para proporcionar lucro fácil a quem se entrega a essas práticas é punida de forma proporcional à ofensa e ao prejuízo produzido quando praticados pela “old mídia” e até pelas companhias telefônicas mas não apenas é permitido como, até, é saudado como um paradigma de autêntica ação democrática em favor do bem comum quando praticada pelos donos dos meios modernos de comunicação online como o Google, o Facebook e todas as famigeradas “third parties” a quem todo mundo que possui algum “hub” ou ponto de trafego de alguma significância na internet encarrega de espionar seus clientes e usuários para vender legalmente as informações assim obtidas a qualquer um que queira pagar por elas.
Qual a diferença entre subornar um policial que prega o seu grampo no telefone de uma ou outra celebridade para obter as informações e pagar pelas que a legião de programadores ultra-especializados dos senhores Page ou Zuckergberg arranca de todos nós, celebridades ou não, abrangendo todas as nossas movimentações físicas e financeiras, nossas perambulações pela rede, nossas conversas, nossas intimidades e até as fotografias que trocamos com os amigos, senão a solerte afirmação deles próprios de que não fazem isso pelas dezenas de bilhões de dolares que isto lhes rende por mês, coisa de somenos, mas sim pelo bem da humanidade?
Por que razão deixar ir adiante esse tipo de espionagem interessa a governos é uma pergunta cuja resposta não exige muito tirocínio. Por que isso interessa a partidos totalitários e a inimigos da democracia como os apedrejadores das yoanis sanchez da vida, menos ainda.
É multimilenar a luta dessa gente pelo controle e o esmagamento do indivíduo. É proverbial a sua ânsia de espionar.
Mas, mais que tudo, o que lhes espicaça o apetite neste momento particular é a ameaça mortal que decorre do roubo sistematico de informações para o jornalismo independente, seu inimigo figadal desde sempre. Sobretudo em países de instituições periclitantes como o Brasil onde a imprensa professional e livre é o ultimo obstáculo entre eles e o poder absoluto.
Agora por que uma massa enorme de intelectuais, cientistas e pessoas geralmente bem intencionadas sanciona e aplaude os “big brothers” que invadem nossas vidas por todos os lados hoje em dia é algo mais difícil de responder, embora também não seja novidade.
Não existe caso na História de ditadura ou de opressão totalitária que tenha conseguido se instalar no poder sem o concurso decisivo desse tipo especial de imbecil cujo cérebro entra em curto-circuito à menção de certas palavras mágicas, que é quem de fato arma a mão dos genocídas e só acorda para a realidade quando já é tarde demais.
Isso quando não é posto para dormir para sempre pelos próprios “heróis” pelos quais costumava babar…
Que tal filmar o governo?
14 de fevereiro de 2013 § 2 Comentários
Você não dá um passo sem que o governo saiba onde você está e, se quiser, veja o que você está fazendo.
Não vamos nem falar dos satélites e dos drones, capazes de ver as pintas do seu rosto lá de cima. O seu cartão de crédito, o seu telefone celular que embute um GPS, todas as ruas, estabelecimentos comerciais ou locais que concentram gente em cada cidade e cada vila de cada canto do mundo com suas câmeras filmando tudo, os softwares de identificação de rostos, hoje equipamento padrão de qualquer máquina da Apple, tudo isso está monitorando cada um dos seus passos.
E, pairando acima de todos, lá estão o Google e o Facebook, sempre dóceis aos pedidos dos governos e dos juízes, montando, com o seu beneplácito, dossiês sobre cada um de nós, do nascimento até a morte, capazes de lembrar, sobre cada indivíduo que passou por este vale de lágrimas, para todo o sempre, coisas que ate sua mãe ou você mesmo já esqueceram.
Não deveria ser o contrário?
A democracia não se define exatamente pela negação do direito à privacidade aos governantes versus a afirmação do direito inviolável a ela pelos governados? Não somos nós que deveríamos fiscalizar-lhes cada passo e não eles aos nossos?
Recentemente o governo de São Paulo plantou um dos mais espantosos marcos dessa inversão de privilégios quando anunciou que seus policiais não poderão mais prestar ajuda a cidadãos feridos “para evitar a destruição de provas e os assassinatos de suspeitos perseguidos ou feridos em perseguições”.
E porque não instalar câmeras e microfones não só no interior das viaturas policiais mas também câmeras com visão de 360º fora delas, em estruturas levantadas acima das suas sirenes e luzes de advertência, registrando tudo que acontece ao seu redor? E nos próprios capacetes e quépis dos policiais, transmitindo suas imagens e sons para “caixas-pretas” invioláveis, como as dos aviões, a serem abertas sempre que houvesse mortes ou suspeitas de violações de direitos envolvidos?
A polícia de Alagoas, com um aparato muito menos abrangente que esse, conseguiu reduzir as “mortes em conflito” à terça ou à quarta parte.
E porque não instalar vigilância eletrônica semelhante nas delegacias e nos presídios?
Nos hospitais públicos e seus consultórios e ambulatórios? Nos balcões de atendimento das repartições e nos plenários e gabinetes dos legisladores municipais, estaduais e federais, registrando todas as reuniões agendadas?
É a mesma história dos radares nas ruas e estradas e dos celulares em presídios. Salvador instalou um bloqueador nas suas prisões durante alguns meses e, desde a primeira semana da experiência, a criminalidade caiu para uma fração das médias costumeiras. Instala-se um radar acoplado a uma máquina fotográfica em qualquer rua ou rodovia e imediatamente as infrações e mortes no trânsito naquele local despencam.
Mas nós nos submetemos a tudo isso como carneiros sem ao menos exigirmos a contrapartida óbvia sobre os nossos “representantes” e “servidores”.
Eles usam e abusam da tecnologia para nos vigiar e cercear mas nós deixamos que permaneçam no escuro para nos negar atendimento, nos escorchar, nos trair e nos violentar.
Os jornais choram e reproduzem quilômetros de colunas de “especialistas” com infindáveis discussões sobre o sexo dos anjos em torno da criminalidade e do descalabro no atendimento ao público pelo Estado, mas nenhum trata de abraçar uma campanha tão elementar como esta.
Por que?




























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