Covardes! Covardes! Covardes!

9 de julho de 2019 § 22 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 9/7/2019
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O que mais choca ao ver as tais “instituições funcionando” é constatar o completo abandono em que vai o brasileiro plebeu.
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O desarmamento mecânico foi só uma das consequências do outro. O pior é o absoluto desarmamento institucional a que estamos reduzidos. Vem vindo de longe e num crescendo há tanto tempo que anestesiou o povo e fez do brasileiro uma massa inerte. Já não se defende nem das mordidas que leva de frente. Reduzido à sobrevivência até a próxima refeição, foi devolvido à lei da selva. Está muito aquém do nível em que gestos de dignidade humana podem ser cobrados.
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O grau de alienação da outra ponta é inversamente proporcional. Os predadores-alfa, com suas lagostas, seus vinhos tetracampeões e seus decretos de 16,32% no Ano da Grande Fome, rebaixaram Maria Antonieta a um símbolo de austeridade e promoveram o xerife de Nottingham a um quase mecenas. Para o Brasil de Brasília o luxo não é só constitutivo, é antes “constitucional”. Exigível por ordem judicial, transforma em função do Estado impô-lo à favela pela força.
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Quando a seção de tortura termina a volta à cela torna-se motivo de comemoração. Mas esse trilhão, se sobrar tanto, não é desmame. É só um sopro no pulmão do morto. Está mais para a bruxa engordando o dedinho de Joãozinho e Maria. Quando a reforma da Previdência foi entregue ao congresso em fevereiro já os militares, “no poder” após 33 anos de ostracismo, tinham sido (indiretamente) desembarcados dela. Morto o critério de igualdade o arbítrio, de que nascem as privilegiaturas, ganhou salvo conduto para o futuro do Brasil com o endosso presidencial à exclusão do sistema de capitalização logo nos primeiros dias dos dois meses até a CCJ mais 68 dias de Comissão Especial fazerem das palavras dele lei. No último minuto a agro-teta, o alterego do agronegócio que salva a pátria, mordeu os seus 89 bi só pra ninguém esquecer que o privilégio não tem preconceito de classe. E então lançaram-se ao leilão os estados e os municípios onde se fará o ajuste fino do que sobrar após os dois turnos, no mínimo, em cada casa do congresso, que estão na agenda do “pra já “ das nossas depressões futuras.
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Não há “rachas” na privilegiatura. Só o que continua em disputa é a quem serão atirados os ossos a cada troca de turno no poder. Aos “movimentos sociais” de laboratório, a proto milícia da fase terminal das quase-democracias, ou às polícias que já engatilham aquelas “greves” que consistem em sinalizar para o crime quando estará liberado o próximo comedio em que poderá “tocar o terror” impunemente. Será, portanto, disputada com o argumento de sempre a questão filosófica sobre se são ou não são privilégios as vantagens que as polícias têm: “E então, governador, a quantos plebeus trucidados vosselência resiste”?
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Mortas sem choro nem vela de tantos observadores da imprensa e seus “especialistas” das universidades públicas as pretensões revolucionárias da reforma, nada mais restava “fora da ordem”. Seguiu-se a tradicional disputa dos lobbies alguns, como é de lei, patrocinados pelo presidente da República em pessoa pois, da “direita” ou da “esquerda”, é de bom tom que eles não esqueçam “dos seus” nesta nossa democracia cordial.
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A plebe do favelão nacional foi, como sempre, a única “parte” em prol da qual ninguém pediu “vantagens”, com exceção do “politicamente inábil” ministro da economia que as privilegiaturas “de direita” e “de esquerda” que se substituem no poder, igualmente virgens de qualquer experiência com as maçantes obrigações da economia não parasitária, acabam constrangidas a importar do Brasil Real.
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Já é outra vez possível até atacar de frente o combate à corrupção e propor de peito aberto o restabelecimento da impunidade. Com a promoção dos hackers de aluguel e do jornalismo de banqueiro “campeão nacional” a interlocutores legítimos do processo político brasileiro, os “ganchos” para o bombardeio de saturação estão garantidos. As redações herdadas, com “autonomia” (para decidir o que não cobrir) garantida pela sólida alienação dos seus patrocinadores, podem recuar do primeiro plano e concentrar-se por um tempo apenas em “repercutir” os ataques de que mesmo “fatiados” ninguém desconfia enquanto mantêm a censura para as alternativas que funcionam no mundo que funciona. Quem, na privilegiatura “de direita” ou “de esquerda”, “ganhou” ou “perdeu” cada round?
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O resumo é que foi mais uma vez anunciado aos quatro ventos que quem tem lobby monta nas costas de quem não tem, e a polícia, os paladinos dos direitos humanos e os santos de pau oco montam juntos.
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Covardes! Covardes! Covardes!
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É a hora mais escura do Brasil. Ilusão de noiva acreditar que qualquer coisa vai mudar antes que o poder mude de mãos. Enquanto não impusermos ao País Oficial o deslocamento do seu eixo de referências e do ponto de ancoragem dos empregos públicos as lealdades continuarão sendo as de hoje, as iniciativas para “melhorar” isto ou aquilo não passarão de paliativos e qualquer debate em torno delas apenas dados de uma autópsia que contribuirão mais para alienar que para esclarecer o país.
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O mundo está aí para quem quiser conferir. Manda na própria vida e livra-se da miséria quem tem o poder de contratar E DE DEMITIR políticos (os funcionários tornam-se demissíveis por consequência) e de dar a última palavra na escolha das leis sob as quais concorda viver. Só não é escravo quem tem a garantia de que é seu o resultado do seu trabalho e que só ele tem o poder de dispor sobre o que será feito dele. Eleições distritais puras com direito a retomada de mandatos, iniciativa de propor leis combinada com direito de referendo do que vier dos legislativos e eleições periódicas de retenção de juízes põem você como referência obrigatória dos políticos, a sua satisfação como única garantia do emprego deles e, ao mesmo tempo, blinda o país contra golpes e manipulações.
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A deus o que é de deus, portanto. O Brasil não precisa mais que de políticos tementes ao patrão.
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E viva o 9 de julho, que já era disso que se tratava desde muito antes de 1932!

A volta à “normalidade”

9 de julho de 2014 § 4 Comentários

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Artigo escrito uma semana antes da derrota

do Brasil pela Alemanha, mas que o jornal O Estado de S. Paulo

só publicou na edição de 9/7/2014

Gradual e seguramente, como sempre, o país vai voltando à normalidade.

O inesperado relacionamento com a igualdade perante a lei reforçado pela especialíssima carga simbólica de ter sido proporcionado pela ação isolada de um neto de escravos foi, afinal, somente um namoro fortuito; um amor proibido que não deu em casamento.

Joaquim Barbosa voltou para casa e a onda de indignação com tudo que pagamos e não levamos que vinha crescendo parece que rolava mesmo mais em função do medo do que inglês pudesse ver do que daquilo que brasileiro está acostumado a tragar cotidianamente sem dar um único pigarro. Já se vai quebrando mansamente na praia do “sucesso da Copa”, ameaçando transformar-se em puro refluxo se a Seleção levar “o caneco”.

 

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Do “Sabe com quem cê tá falando?” de sempre demos uma voltinha pelo “Quem você pensa que você é?” de todo Estado de Direito, e cá estamos de volta, com a Papuda esvaziada, mesmo à custa da paciente desmontagem do Supremo Tribunal Federal, último bastião do Poder Judiciário independente.

E “paciente” teve de ser, reforce-se, porque o velho esquema corporativista lusitano matizado pelas tintas de Antonio Gramsci e reciclado na nova palavra de ordem do Foro de São Paulo de hoje, segue “repudiando”, como sempre, o estupro comprovavel, que pode suscitar reação, e concentrando-se em trabalhar a “complacência do hímen” e a dessensibilização moral da Nação para as penetrações cotidianas que corrompem aos poucos as nossas liberdades democráticas.

Quê 1/6 da pena que nada! Não pra vosselências!

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Aeroportos, transporte público e estádios pela metade mas pelo dobro do preço da obra inteira?

O que é que tem, afinal!

Joseph Blatter, aquele a quem é dado desfazer nossas leis a troco de uma cervejinha, já não tem mais nada contra, muito pelo contrário.

O charme e a “cordialidade” do povo brasileiro como sempre curam tudo. Está aí a última pesquisa eleitoral pra não nos deixar mentir.

O que se vai restabelecendo, enfim, é a “normalidade” fundacional e multisecular do privilégio no país-continente de apenas 15 proprietários onde ascensão social é, até hoje, quase sempre decorrência de um “toque de Midas”, só que — alto lá! — dado “em nome da revolução”…

Contraditório? Normal!

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O que é, afinal, essa exumação cerimonial dos cadáveres existentes e dos cadáveres inexistentes de ha meio século que nem a Constituição consegue anistiar senão a confirmação de que dar aos filhos da “classe média alta”, culpados ou não, o mesmo tratamento que segue sendo dispensado cotidianamente aos meros filhos do Brasil, inocentes ou não, sem que ninguém reaja é, entre nós, crime imperdoável e imprescritível?

O Brasil assistiu dia desses pela TV à entrega cerimonial das “revelações” de diplomatas americanos dos anos 70 à “Comissão da Verdade”: prisões sem mandato, “aperto” nos prisioneiros dentro de instalações militares, pau-de-arara, eventualmente morte sob tortura registrada como consequência de resistência à prisão…

Vimos todos o ar compungido com que as recebeu e comentou aquele imaculado advogado “de classe média alta” que se apresenta como o paladino deste acerto de contas histórico.

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Enquanto ouvia essas “revelações” fiquei pensando com que incrédulo escândalo não as estariam recebendo os telespectadores do Capão Redondo, do Morro do Alemão, das favelas e periferias de Maceió, de Fortaleza, de João Pessoa; os parentes dos 96% dos 57 mil brasileiros assassinados só no ano passado que nunca terão satisfação da Justiça nem indenizações. Com que indignação não se estaria dando conta dessas graves violações dos direitos humanos aquela metade dos 715.655 presos do Brasil que já cumpriu sua pena ou nunca teve culpa formada mas continua dentro da jaula das feras sob o olhar impassível da mesma OAB daquele advogado luzidio que se quer heroína dos injustiçados do Brasil mas que pôs e continua mantendo fora da lei a advocacia “pro bono”, aquela universalmente consagrada “para o bem” de quem não pode pagar, e exigindo que o Estado molhe antes a mão de quem vai descascar esse abacaxi do que se apresse a mitigar a sede de justiça do pobre.

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Experimente, no entanto, “dar um google” em “…de classe média alta é preso…”. O meu computador devolveu 1 milhão 340 mil resultados, quase todos títulos de noticiários variados.

“De classe média alta” é uma especificação que não pode faltar nas notícias dos jornais brasileiros, mas só quando se refere a atacantes. Vítima “de classe média alta” ou rica é normal. Não requer registro. Mas para atacante, no país que foi treinado a acreditar que crime é, exclusivamente, função da miséria, é imprescindível. Vai para o título porque o título está reservado para o extraordinário e aqui é indubitavelmente extraordinário, seja ser “de classe média alta” e “mesmo assim” cometer um crime, seja por, mesmo o sendo, ter sido preso por isso ainda que só para voltar logo a ser solto … de uma “cela especial”, é claro.

Se a imprensa, fiscal da democracia, incorpora esse critério sem tugir nem mugir, quem é que não ha de?

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Pois taí: no caso das vítimas da repressão de meio século atrás, é da última vez que filho da “classe média alta” levou porrada que estamos falando, o que é inadmissível e imprescritível no país que constrói suítes especiais nos presídios quando algum deles faz por merecer ser preso e, apesar de tudo, vai, bem ao lado das celas abarrotadas e fétidas onde se amontoam os filhos do Brasil, inocentes e culpados mas sem advogados.

Não é tanto vê-los instalarem-se no seu privilégio dando “murros revolucionários” no ar; é a mansidão quase inconsciente com que o Brasil traga e — as pesquisas mostram, — tranquilamente digere tudo isso que nos diz que o privilégio continua sendo a instituição mais sólida deste país.

Na pátria do “direito adiquirido” onde todo mundo tem um, ha quem se queixe por não te-los bastantes e ha quem arreganhe os dentes e sibile que “agora chegou a minha vez”. Só não ha quem realmente os condene apenas pelo que são para o resto do mundo democrático.

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