Jornalismo, ora direis…

19 de agosto de 2013 § Deixe um comentário

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As duas grandes conquistas de Geraldo Alckmin em SP, o último bastião ainda não violado pelo petismo, foram fazer o maior metrô do Brasil e derrubar a criminalidade em 80%, fato que foi saudado em seção especial da ONU mas nunca rendeu um único título de jornal ou especial de televisão de que eu me recorde.

Às vésperas da última eleição uma onda de assassinatos de policiais que cessou tão misteriosamente como começou logo que as eleições passaram dispensou o PT de discutir esse assunto na campanha, apesar da estatística resultante continuar representando um feito único no mundo.

O outro grande trunfo que restava ao partido acaba de ser destruído com o concurso decisivo das redações dos jornais e das televisões com cuja incompetência/cumplicidade o PT conta cegamente em um mês de incessante bombardeio contra “o cartel do PSDB”, num setor de mega engenharia no qual não existem em todo o mundo mais que meia dúzia de empresas “concorrentes“, três ou quatro das quais com poder de fogo bem maior que as outras, fato que nunca chegou a ser mencionado ao longo dessa campanha.

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Isso acontece porque 99% das matérias que chegam ao distinto público são enfiadas na imprensa por fontes oficiais. Dado o start por um deles, o resto acontece sozinho em função da corrida dos pauteiros uns atrás dos outros e da absoluta ausência de qualquer orientação firme nas redações.

Nas raras vezes em que ha investigação jornalística de fato acontece o que aconteceu no Estadão de 13 de agosto que mostrou tarde demais que a mesma denuncia que apontava cartel em SP aponta o mesmo desvio em todas as capitais onde o metro está nas mãos do Ministério das Cidades da Dilma. Foi por isso que o PT acionou até o seu ministro da Justiça para impedir o acesso dos acusados e, principalmente, do público aos autos do processo. Ou o que foi revelado no Globo deste domingo que, também tarde demais, apresentou uma longa reportagem mostrando o que acontece em matéria de transportes públicos em todas as capitais do país.

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Eis os principais highlights:

  • O transporte urbano não é licitado em mais da metade das capitais brasileiras.
  • No Rio a primeira licitação foi feita em 2010.
  • No RJ, SP e BH 49 empresas e 17 empresários individualmente, que estão na lista de licitantes, também estão da de devedores do governo e/ou do Fisco, o que é contra a lei. Eles nos devem 2,8 bi, o que equivale a 32 xs o valor desembolsado para todo o “Programa de Mobilidade Urbana” pelo Ministério das Cidades da Dilma.
  • A lei diz que inadimplentes com o governo, o Fisco ou o Trabalho ficam inelegíveis para licitações em 75 dias. Mas a Justiça expede liminares a esse pessoal para seguir nas licitações “enquanto não for julgado”. Ou então o interditado simplesmente cria um novo CNPJ e segue no jogo.

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  • Só no Centro Oeste todas as capitais tiveram licitação.
  • No Sul e no Nordeste só Curitiba e João Pessoa têm serviços licitados.
  • No Norte só ha três capitais com licitação.
  • No Sudeste todas as capitais tiveram licitações exceto Vitória.
  • No RJ o TCM abriu processo de cartel. Jacob Barata Filho aparecia entre os proprietários de sete empresas “concorrentes” e 12 outros empresários tiham participação em mais de uma. Mesmo assim o TCM arquivou o processo.
  • Na Prefeitura de SP (hoje do PT) a licitação que é de 2003 (então também do PT, com Martha desde 2000) venceria este ano mas foi prorrogada por mais 1 ano. Jilmar Tatto (PT-SP) é o secretário atual.
  • A única das 8 áreas de SP que não terá nova licitação é a que tem mais queixas. Pertence ao Grupo Ruas que detém mais três áreas.

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  • No DF as duas companhias “em disputa” pertencem à mesma família. Mas, segundo autoridade do Ministério das Cidades, “o fato de serem irmãos não configura cartel”. CNPJs diferentes é quanto basta para “iludir” as autoridades e a Justiça.
  • Essa mesma “empresa familiar”, a Piracicabana, contratou o escritório Guilherme Gonçalves & Sacha Reck, Advogados Associados, para orientá-la na licitação. Sacha é filho de Guilherme Reck, diretor da empresa contratado pelo DF para fazer o edital da licitação.
  • O negócio tem sido tão bom no Distrito Federal que operando ônibus acaba-se comprando Boeings como fez o Grupo Constantino que se tornou dono da Gol.
  • Em Salvador a ultima licitação foi ha 40 anos. Desde 2006 o MP exige nova licitação.

Ha não muitos anos atras, em tempos bem mais conflagrados ideologicamente do que estes, tais “furos” provocavam reuniões nas redações e todo mundo saia correndo atras do prejuízo, para lucro do leitor e da democracia brasileira.

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Hoje esses pontos fora da curva em que se transformaram os raros trabalhos reais de reportagem na imprensa não provocam reação nenhuma nas redações “furadas“. Em geral são abafados até mesmo pelas próprias redações que os publicaram, senão por titulares de postos de comando estrategicamente “aparelhados”, talvez porque, de tão tardios, criam um constrangimento ja que se constituem em verdadeiros atestados da leviandade com que foi tratado o assunto por elas desmentido até então.

Já os empresários no comando dos jornais e das televisões não se dão nem parecem querer se dar conta desses fatos. É que na direção das empresas jornalísticas, ultimamente, tem havido banqueiros, empresários, tecnocratas e até semi-jornalistas. Mas jornalistas não. Quando os há, estão escanteados e cientes de que sua linguagem não é entendida nem desejada nas reuniões onde as coisas realmente são decididas.

Jornalismo não é, para esses “líderes“, nem um objetivo prioritário, nem uma missão nem, muito menos, uma ferramenta precipitadora de reformas imprescindível para o funcionamento das democracias. É apenas o fator atrapalhador das contas que melhoram quanto mais se espreme e encurrala as redações.

De modo que não é só a internet o problema que ameaça a imprensa. O buraco é muito mais em cima.

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A imprensa e a segurança pública

18 de julho de 2012 § Deixe um comentário

Dos números propriamente ditos ao modo como a imprensa os apresentou, a conta do verdadeiro massacre de crianças e jovens que vem ocorrendo no Brasil é um retrato detalhado do nosso fracasso como sociedade.

Somos o 4º país do mundo (entre 91 pesquisados) onde mais se trucida crianças e adolescentes (de 0 a 19 anos). El Salvador (1º lugar com 18 por 100 mil), a Venezuela do guru do lulismo, coronel Hugo Chávez (2º com 15,5), e Trinidad Tobago (3º com 14,3) ainda batem o Brasil (4º com 13,8). Mas deixe estar. Nos estamos nos calcanhares deles e havemos de chegar lá!

Em 1980, quando a “Constituição Cidadã” mais palavrosa do mundo ainda estava em projeto e um resto de pudor limitava a livre manifestação da idiotia objetiva (apud Nelson Rodrigues) que hoje nos avassala, somente 3,1 brasileirinhos e brasileirinhas a cada 100 mil morriam nas mãos de assassinos.

Trinta anos de discursos e de legislação “os mais avançados do mundo” não só em garantir a impunidade de seja qual for a ignomínia praticada por menores de idade, mas também de justificá-las moralmente e valorizá-las socialmente, o que transformou os menores de idade nos agentes ideais para assumir os trabalhos mais sujos do crime organizado, o número saltou para 13,8 jovens e crianças a cada 100 mil trucidados nas ruas e becos deste país “sem miséria”.

346,4% a mais.

É pouco. Ainda vai subir muito mais.

E o que o garante, antes de mais nada, é o modo como os três principais jornais do Rio e de São Paulo publicaram esse material.

Embora cada um dos brasileiros que já tenha vivido o bastante para andar uma vez por nossas ruas saiba, de tanto apanhar na cara, que é a impunidade que está por trás deste e de outros dos nossos fenômenos de polichinelo, essa palavra não foi grafada nenhuma vez nas três páginas inteiras de matérias publicadas pelo Globo, pela Folha e pelo Estado de S. Paulo (na televisão então, nem se fala).

A Folha e o Estado, antecipando o risco dessa obviedade vir a ser mais uma vez denunciada em voz alta, já começaram preventivamente a enfileirar desculpas para negá-lo. A Folha foi buscar fora de seus quadros quem fosse capaz de sugerir que o salto responde “à melhora das estatísticas de coleta de criminalidade“. O Estado conseguiu achar em seus próprios quadros quem dissesse coisa ainda pior. Pisoteando todos os cânones do bom jornalismo, o próprio “repórter” que assina a matéria volta-nos, logo abaixo, com o chapéu de “analista” (!!!) para nos garantir que tudo isso vem da própria fisiologia do cérebro humano e que – contenham-se as mães dos massacrados nesse seu desespero tolo! – os números são os que são porque “este país não sabe lidar com a imaturidade da juventude“…

Como as chefias de redação estão hoje pavlovianamente condicionadas a salivar incontidamente ao som da palavra “infográfico” eles aparecem, parecidíssimos uns com os outros, nas matérias dos três jornais. Mas não para destacar qualquer conclusão ou cruzamento de informações que fosse fruto de raciocínios. Apenas para repetir, como sempre, o que as matérias escritas já diziam.

No Globo havia um, até, do qual um leitor com imaginação ainda podia extrair um paralelo interessante. Mostrava em duas linhas, uma agudamente ascendente – a dos crimes – e outra agudamente descendente – a das mortes por “outras causas externas” – que em matéria de segurança e saúde públicas nós nos desempenhamos mais ou menos como na economia sob o lulismo: tomamos carona no progresso alheio, cujos remédios importamos até sem pagar direitos quando a coisa aperta, mas naquilo que é de nossa própria responsabilidade e indústria tudo sempre perseverantemente piora.

Nas entrelinhas do “ranking dos estados mais violentos” que o jornal carioca publica estavam, aliás, as pistas que nossos jornalistas se mostram decididos a não ver. Reconheço-lhes a abnegação e o esforço nesse sentido mas é impossível escondê-las completamente ao se tratar desse assunto.

Uma mostrava que São Paulo passou do 4º lugar em 2000, com 22,3 mortos por 100 mil habitantes, para 26º com 5,4 em 2010. Outra, que o Rio de Janeiro passou de 1º lugar em violência, com 25,9 mortes por 100 mil em 2000, para 10º, com 17,2 em 2012. Mas como a redução à quarta parte em São Paulo, coisa digna do Guiness, responde à decisão política do governador Alkmin de atacar a corrupção impune de suas polícias e redobrar a repressão ao crime, políticas às quais ele deveria voltar com todo empenho agora que as coisas andam piorando, e a melhora no Rio ao início da ocupação dos territórios livres do crime organizado pela polícia, nossos solertes jornalistas houveram por bem “abafar o caso”.

Sempre há o dia de amanhã para conferirmos se relações de causa e efeito tão fulminantes quanto estas ainda virão a ser destacadas, discutidas e cobradas com o respeito e o empenho que merecem a memória das 176.044 crianças e jovens ceifados na flor da idade em nossas ruas de 1981 para cá; para ver se alguém terá, agora que afinal seus autores estão no poder, a coragem de trazer para o primeiro plano a pergunta sobre se o Estatuto do Menor realmente salva nossas crianças ou as atira aos lobos. Ou se, como de costume, ainda teremos de ouvir que a solução está em desarmar “gente perigosa” como esses amigos de esportes violentos como o tiro olímpico, que é o remédio oficial das Organizações Globo para a questão do crime violento no Brasil ou, pior, que não ha solução porque a culpa, numa sociedade injusta, não é de quem mata, é de quem é morto.

Eu sou cético. Não para sempre ou quanto à espécie humana em definitivo. Mas com relação à parcela dela que vive este momento deste país gravemente doente.

Nada emocional. É só uma constatação. Não existe exemplo histórico – mesmo nas democracias mais avançadas – de políticos tomando a iniciativa de fazer reformas. Nas poucas vezes em que elas aconteceram, aconteceram porque o impulso veio de baixo e foi decididamente carregado pela imprensa, a ferramenta que as democracias inventaram para empurrar goela abaixo dos políticos aquilo que eles não querem engolir.

Quando o discurso da imprensa e o dos políticos é igual, como é o caso, entre outros, no que diz respeito ao problema da segurança pública no Brasil, é porque o óvulo da reforma nem sequer foi fecundado ainda.

Estamos tão distantes desta da seguraça pública quanto um dia ainda há de se provar que estivemos.

Vai sem dizer que a imprensa está procurando no lugar errado a raiz da crise que vive. É porque ela se permite com tanta largueza afinar seu discurso com o dos políticos que o público aqui fora a trata cada vez mais com o mesmo respeito que vota a eles.

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