O que está tornando Washington idêntica a Brasília
3 de novembro de 2011 § Deixe um comentário
Com todas as explicações amenizadoras que estão sendo aventadas, o dado revelado pelo Census Bureau de que Washington se tornou a cidade mais rica do país pela média de ganhos por residência chocou os Estados Unidos e está jogando lenha na fogueira do Occupy Wall Street.
Os americanos nunca avaliaram tão mal o seu governo quanto agora e com certeza as razões que tornaram Washington tão rica são as mesmas que explicam porque o país passou a detestar tanto o que aquela cidade simboliza e abriga.
“Está ocorrendo uma metástese dos parasitas. Existe uma rede de empresas privadas e empregados do governo, uns trocando empregos e contratos com os outros, que explica esse fantástico enriquecimento. E ele está ligado, também, ao crescimento exponencial do valor dos contratos negociados num contexto onde se misturam os gastos astronômicos de um país permanentemente em guerra e obcecado pela segurança interna e as gigantescas operações de resgate dos grupos financeiros que ameaçam quebrar a Nação“, diz uma fonte ao Economist.
Até 2010, San Jose, na Califórnia, onde moram os zilionários das novas tecnologias, era a cidade mais rica dos Estados Unidos. A diferença entre os muito ricos e os remediados é muito maior lá do que em Washington, sendo as super fortunas que puxam a média tão alto.
Na capital federal a diferença é menor. Não ha tantos super ricos mas há uma quantidade impressionante de ricos e muito ricos.
“Não é só porque o governo paga bem. Nem o grande número de advogados que também ganham muito. É que os empregados do Estado e a burocracia do Congresso sempre acabam ‘assessorando’ as empresas privadas ou se empregando naquelas a quem ajudaram a ganhar subsídios estatais ou regulamentações favoráveis“.
Há, ainda, outra causa subsidiária desse enriquecimento. Embora fale se muito em austeridade, até agora não se viu nada nesse sentido. Todo o processo de retomada continua pendurado nas operações de resgate financeiro. E com isto a crise afeta os empregos privados enquanto os empregos públicos continuam preservados.
Nós conhecemos de cór esse filme…
As relações do Estado com a indústria bélica, de qualquer modo inevitáveis, sempre foram o foco crônico da corrupção nos Estados Unidos. Mas, fora disso, o governo pouco se metia diretamente com a economia.
Nas últimas décadas, porém, isso foi mudando progressivamente. A competição com o capitalismo de Estado chinês ensejou uma interferência cada vez maior do governo e do Congresso na economia até que a subsequente crise financeira jogou uma boa parte das maiores empresas americanas diretamente nos braços do Estado.
O resultado é que, pela primeira vez na história daquele país Washington se tornou para os Estados Unidos aquilo que Brasília sempre foi para o Brasil.
Conclusão: não existe meio termo; se não é o mérito, é o Estado quem decide quem ganha e quem perde no jogo econômico. E quanto mais o Estado se mete na economia mais ganha quem se especializa em puxar os sacos certos e mais perde quem investe e se esforça no trabalho.
Os americanos e suas “Genis”
3 de agosto de 2011 § Deixe um comentário
Um dos artigos de maior sucesso do NY Times de hoje no Facebook é “O Massare da Motosserra de Washington”, assinado por Maureen Dowd, em torno da batalha para aumentar o limite do endividamento do governo.
Confira neste link.
É mais um destampatório em cima do Tea Party, a ala radical do Partido Republicano que acha que tudo se resolve cortando gastos do governo, recheado de adjetivos hiperbólicos para comparar essa facção a todos os monstros dos filmes de terror de Hollywood, de Frankenstein a Allien, passando por vampiros e serial killers.
É de fato engenhoso e gostosinho de ler.
Mas sobre o real problema americano (que pelo tamanho que eles ainda têm, é um problema do mundo), a unica coisa que realmente se aproveita nele é uma frase que está logo no começo, e que diz o seguinte:
“Se a coisa mais assustadora do mundo é aquilo que você não consegue entender, então pode-se dizer que os americanos estão enlouquecendo com (sua incapacidade de entender) o que está acontecendo com os Estados Unidos”.

Daí para a frente Maureen passa a agir exatamente como os que critica.
O NY Times publica diáriamente uma meia duzia desses “maldita Geni” contra o Tea Party assim como, dizem, as TVs e os jornais do Murdoch fazem o contrario, o que não sei se é verdade porque não os leio.
Mas deve ser, dada a fidelidade com que essa polarização ideológica (isto é, em torno do que não é lógico) se reproduz na representação política do país no Congresso.
Seja como for, a intuição de Maureen esta certa. A questão em que ela esbarrou sem se aprofundar é onde esta o problema real.
Tanto o devaneio regressista do Tea Party quanto o radicalismo dos que os comparam a monstros – é tão facil ver para quem está de fora! – são só formas diferentes de manifestar o medo que os dois lados sentem da fera que os vem devorando aos poucos mas que nenhum deles consegue entender ou identificar.

Com risco de ser repetitivo, volto ao ponto do artigo de ontem. Enquanto os americanos não começarem a olhar para a fonte real do seu problema que é a internacionalização do trabalho e da produção, a globalização dos mercados e o fim da possibilidade de garantir a propriedade intelectual proporcionada pelas tecnolgias que eles mesmos criaram, vão continuar nessa gritaria uns com os outros que só agrava o problema.
Esse bate boca só é bom para vender o peixe dos demagogos que querem se eleger em cima da crise culpando os seus adversarios políticos por aquilo sobre que eles não têm nem controle nem culpa direta. Ou para rechear os brilharecos dos jornalistas que disputam as plateias “liberal” ou “conservadora” tentando devolver-lhes, como o Google, aquilo que, em seu pânico cego, eles já “acham” sobre o problema.
Os Estados Unidos e os outros países ricos que respeitam direitos humanos e conquistas dos trabalhadores não vão parar de cair enquanto houver “chineses”, de qualquer nacionalidade, aceitando fazer por uma miséria o que os trabalhadores livres só fazem por salarios dignos e, sobretudo, enquanto esses mesmos trabalhadores livres, na hora em que vestem o chapéu de consumidores, continuarem comprando o que esses “chineses” fabricam por causa do precinho camarada, ao mesmo tempo em que seus governantes abaixam a bunda para esses poderosos “parceiros comerciais” que insistem em tartar como iguais apesar da pirataria e do dumping que eles praticam em escala planetária.
Não tenho uma resposta pronta para qual a solução que se encontraria se, em vez de se dedicar a apedrejar monstros de ficção eles começassem a encarar o monstro de verdade. Só sei que, sem fazer isso, eles não vão sair dessa encalacrada nunca.

A crise das democracias
2 de agosto de 2011 § 3 Comentários

Hedonismo é uma teoria ou doutrina filosófico-moral que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. (…) designa uma atitude de vida voltada para a busca egoísta de prazeres materiais (Wikipedia).
Olho para a Europa conflagrada, entregando os anéis na undécima hora para não entregar os dedos; olho para os Estados Unidos batendo bôca na beira do abismo para decidir no ultimo minuto dar menos de meio passo atraz e hedonismo é a idéia que me vem à mente.
Estamos falando da geração dos que nunca foram contrariados.
“É proibido proibir? ” Já faz muito tempo que deixamos isso para traz. Hoje é proibido discordar; é proibido contrariar; é proibido não aderir.
A expressão síntese da cultura dessa geração é o Google, a fórmula matemática que garante que você terá cada vez mais de você mesmo. O moto-contínuo da autoreferência. A máquina de realimentação instantânea de qualquer vontade manifestada e até das que nem subiram ainda para o nível da consciência.

Pedir é coisa do passado. Trata-se, agora, de antecipar o que você virá a querer; de saciá-lo antes que você venha a sentir vontade de comer.
Para além das suas outras utilidades; para além do seu papel de facilitador do conhecimento – um conhecimento que, de qualquer maneira, requer esforço e que, como sempre, muito poucos realmente querem adquirir – é essa característica de espelho de Narciso; de aliado incondicional do ego que “entrega” sem nunca fazer perguntas o que quer que se lhe encomende que faz do Google o “bezerro de ouro” do Terceiro Milênio (leia este artigo sobre o livro de Eli Pariser, “The Filter Bubble: What the Internet is Hiding From You”).
Os governos das democracias; os governos do mundo rico vêm ha décadas imitando o Google. Realimentando qualquer capricho de vontade manifestada pela maioria que vota; esticando equações clamorosamente insustentáveis; adiando sacrifícios; fugindo das decisões.
Comprando o mandato de hoje com o caos de amanhã.

Estão cavando mais e mais o fosso entre a maioria idosa dos eleitores de hoje, agarrada com unhas e dentes aos “direitos” sem contrapartida de deveres em que foram cevados a vida inteira, e a juventude que ainda não vota, a quem caberá pagar essa conta amanhã.
Não é só a Previdência; o “estado de bem estar social”. A dívida que vão legar para a próxima geração acumula-se em todos os setores. A água de beber, os oceanos, a paisagem, o espaço físico; nem a ameaça à continuação da vida no planeta faz recuar um passo os que têm vivido nessa voragem do “querômeu aqui e agora” cuja representação política vem sendo treinada pavlovianamente, voto a voto, a antecipar suas vontades.
O que há de comum entre as crises americana e européia é que ambas são o resultado de duas ou tres décadas de meias medidas para evitar pequenas recessões à custa de injeções cada vez maiores de anestésicos financeiros. A cada volta nessa ciranda da negação da realidade o efeito desse tipo de estímulo – por mais que se aumente a dose – é menor e o custo de voltar atras fica maior.

Debelar crises implica necessariamente a idéia de “sacrifício”, heresia que se tornou inapelavelmente mortal na equação eleitoral de uma geração para quem a dor é só uma derrota momentânea da tecnologia e que nunca precisou olhar para adiante da proxima curva porque até mesmo a guerra é, na sua experiênca de vida, um fenomeno delimitado, com efeitos absolutamente controláveis e que atinge somente “os outros”.
Para estes cuja biografia sugere que o prazer é o unico sentido da vida, a mera “contrariedade” é uma violação inaceitável, o que transforma a idéia de “liderança” para enfrentar a adversidade, que requer dos políticos que digam aos eleitores não apenas o que eles gostariam mas sobretudo o que eles precisam ouvir, numa perversão da democracia.
Não é de surpreender que após anos a fio sob esse tipo de filtragem, só tenham sobrado em pé esses políticos de hoje, com horror a decisões.
O fenomeno da internacionalização da força de trabalho e da globalização da produção e dos mercados veio, entretanto, agravar com um componente concreto a crescente disfuncionalidade psicológica que as democracias ricas já manifestavam para lidar com crises.

Na Europa, governos nacionais têm de lidar com problemas continentais que não podem ser superados apenas com remendos monetários; requerem reformas praticamente culturais nos países da periferia do euro onde a corrupção e o atraso institucional (como no Brasil) estão na base dos colapsos financeiros.
Nos Estados Unidos a polarização ideologica responde à crescente exasperação dos eleitores com a incapacidade do governo de lidar com uma crise estrutural de cunho planetário, que não terá solução real enquanto houver, num mundo em que tudo se copia impunemente, “chineses” oprimidos por ditaduras ferozes, sejam de que nacionalidade forem, dispostos a produzir em troca de migalhas o mesmo que os trabalhadores nacionais só aceitam fazer por salários dignos.
Mas este é um “pormenor” que os políticos que debatem a crise no Congresso (e mesmo os jornalistas) nem sequer mencionam porque a luta pelo poder gira exclusivamente em torno da atribuição de “culpas”, no âmbito doméstico, pelas penas que os desempregados e os assalariados estão pagando.
Pode-se torcer para que, desta vez, a tecnologia faça ser diferente. Mas, historicamente, processos como estes não chegam ao ponto de reversão antes que a dor da destruição que eles provocam se torne insuportavel.
A democracia e o movimento de redistribuição planetária da renda
7 de julho de 2011 § Deixe um comentário

Desde o inicio da crise financeira internacional venho chamando a atenção, aqui no Vespeiro, para a ameaça que os seus desdobramentos colocam para a sobrevivência da democracia.
Essa crise reflete o aprofundamento do primeiro grande movimento planetário de redistribuição da renda ao mesmo tempo em que marca a definitiva perda de controle dos Estados Nacionais sobre as economias nacionais para bem dos países que, como China e Brasil, estavam abaixo da média internacional de salários e para mal dos países que, como os Estados Unidos e os europeus, estavam muito acima dela.
A exasperação que se cria com a concentração da renda e a queda continua da qualidade de vida dos assalariados nos países centrais em função de fatores que estão além do alcance dos governos e dos políticos nacionais está levando a uma perigosa polarização ideológica e ao rápido desgaste da associação que até ha poucos anos era vista como necessária entre democracia e progresso material. Inversamente, a ascensão das economias e dos salários nos países periféricos apesar dos desmandos de seus governantes e políticos infla a bola de tiranos e autocratas populistas.

Na semana passada o New York Times publicou uma pesquisa da Northeastern University – “The Jobless and Wageless Recovery From the Great Recession of 2007-2009,” – dando uma nova medida da nova realidade nos Estados Unidos.
“Desde que a recuperação econômica começou, em junho de 2009 depois de 18 meses de recessão, as grandes corporações se apropriaram de 88% do crescimento da renda nacional registrada no período enquanto a massa salarial cresceu um pouquinho mais de 1%”.
Os números concretos são mais eloquentes que as estatísticas.
“…entre o segundo trimestre de 2009, quando a retomada teve início, e o quarto trimestre de 2010, a renda nacional cresceu US$ 528 bilhões com US$ 464 bilhões inflando os lucros antes dos impostos das empresas enquanto apenas US$ 7 bilhões foram acrescentados à massa salarial, descontada a inflação…muito menos do que ocorreu nas ultimas quatro retomadas de recessões vividas pelo país nas ultimas três décadas (…) Na recuperação da recessão de 2000-2001, 15% do crescimento se transformou em salários e 53% em lucros das empresas. Na que começou em 1991, a história foi bem diferente: 50% do ganho foi transformado em salários enquanto os lucros das empresas caíram 1%”.
Ou seja, como sói acontecer nos momentos de perdas chora mais quem pode menos, do que resulta uma forte concentração da renda agravada pela consolidação, forçada pela competição chinesa, dos diversos setores da economia em monopólios (ou quase) que exportam seus empregos para as regiões mais pobres do mundo, aumentando seus lucros e suas vendas fora dos países sede onde o desemprego e a proletarização da força de trabalho tendem a se agravar.
O Economist desta semana traz um artigo de Steven Greenhouse, escrevendo dos Estados Unidos, que completa esse quadro e aponta para os mesmos inevitáveis desdobramentos políticos para os quais venho chamando a atenção dos leitores do Vespeiro.
Segue a tradução dos trechos mais interessantes:
“Gideon Rachman levantou um bom ponto em seu artigo do ultimo dia 5 no Financial Times quando disse que as presentes crises político-econômicas dos Estados Unidos e da Europa são basicamente os dois lados de uma mesma crise. Em Washington discute-se a ampliação do limite para o endividamento publico; em Bruxelas todos contemplam impotentes o abismo do excesso de endividamento público. Mas o problema básico é o mesmo. Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia estão com as finanças publicas fora de controle e têm sistemas políticos disfuncionais demais para resolver o problema”.
“…dos dois lados do Atlântico a crise econômica está polarizando a política, o que torna muito mais difícil encontrar soluções racionais. Os movimentos populistas estão em alta – seja o Tea Party nos EUA, o Partido de Libertação Holandesa ou o movimento dos Verdadeiros Finlandeses, na Europa…”
“…Europa e Estados Unidos sempre se apontaram mutuamente como polos opostos no tratamento das questões econômicas, o que fez com que demorasse para cair a ficha da similaridade das suas situações, que hoje são muito maiores que as diferenças: dividas crescentes, economias fracas, estados de bem estar social cada vez mais caros e irreformáveis, medo do futuro e impasse político são os pontos comuns aos dois”.
“…(pode-se por em duvida as generalizações envolvendo países europeus muito diferentes entre si) mas a questão dos humores políticos, da alta ansiedade predominante e da conexão disso tudo com a crescente radicalização do discurso é indiscutivelmente verdadeira”.

“…a China vai ser a maior economia do mundo em 10 ou 15 anos. E se alguém ainda não se deu conta disso, lembro que a China é um país comunista. A cada ano que a China continuar crescendo a tese de que é necessário ser democrático para crescer e se desenvolver vai enfraquecer mais um pouco”.
“Na verdade o que tem acontecido na Europa e nos Estados Unidos até o momento sugere a hipótese contrária: a de que ter governos democráticos pode se tornar, na moderna conjuntura, o principal empecilho para uma gestão econômica competente. Os sistemas de incentivos criados pela competição política democrática nas sociedades midiáticas em plena era da internet podem, na verdade, estar empurrando os países para a autodestruição fiscal”.
“Nós estamos mergulhando numa progressiva falência intelectual puxada pela polarização política e por um divisionismo vicioso que deságua num populismo delirantemente irresponsável que supera tudo com que poderia sonhar algum agente subversivo do Partido Comunista Chinês”.
(…)

“Na semana passada Clive Crook escreveu um artigo, também no Financial Times, sugerindo que os Estados Unidos criassem estabilizadores fiscais de disparo automático para tirar a questão dos estímulos com dinheiro publico em momentos de recessão das mãos do Congresso. Segundo ele, quanto menos decisões políticas ficassem nas mãos daquela “instituição falida”, melhor”.
“Eu até concordo com o argumento. Mas ele embute algo de muito preocupante quanto ao lugar que resta para uma vida democrática neste particular momento da História. Se chegamos ao ponto de concluir que é melhor tirar o mais possível as decisões políticas das mãos dos representantes eleitos, é melhor começarmos rápido a tratar dos problemas que estão tornando o sistema representativo inviável”.
“A democracia é um imperativo moral, antes que uma necessidade econômica, é verdade. Mas se as democracias não conseguirem entregar uma governança responsável, seja em matéria econômica ou em outras mais gerais, então a governança será cada vez menos democrática e a questão moral fará cada vez menos diferença”.
“E esta é uma questão em relação à qual a Europa e os Estados Unidos, onde a democracia tem suas raízes mais profundas, deveriam se colocar do mesmo lado”.

A democracia sobrevive à festa dos milionários? Façam suas apostas…
2 de junho de 2011 § Deixe um comentário

Materinha do Wall Street Journal de terça-feira dá um retrato bem preciso da tradução prática do fim da legislação antitruste a que os Estados Unidos (e não só eles) foram obrigados desde que os grandes monopólios operados pelo capitalismo de Estado chinês entraram em cena com a sua operação global de dumping, que está forçando o mundo inteiro a participar de uma insana corrida de consolidações em todos os setores mais importantes da economia, sob o pretexto de ganhar a economia de escala sem a qual é impossível competir com eles.
A matéria corria assim:
“O ano passado foi mais um grande ano para os milionários, embora o ritmo do crescimento do numero deles tenha diminuído um pouco.
De acordo com uma nova pesquisa do Boston Consulting Group publicada segunda-feira o numero de milionários no mundo aumentou 12,2% em 2010, alcançando um total de 12,5 milhões. (O BCG define como milionário quem tem US$ 1 milhão ou mais em dinheiro disponível para investimento, descontadas casas, bens de luxo ou participações em empresas próprias).
Os Estados Unidos continuam sendo os primeiros do mundo em numero de milionários, com 5,2 milhões deles, seguidos pelo Japão com 1,5 milhão, a China com 1,1 milhão e a Inglaterra com 570 mil. Singapura é o país que tem a maior “densidade” de milionários, com 15,5% de sua população dentro dessa categoria.

A tendência mais importante que esses números revelam diz respeito à distribuição global das riquezas. Os milionários representam 0,9% da população mundial mas controlam 39% das riquezas do mundo (eram só 37% um ano antes). Eles detêm, hoje, US$ 47,4 trilhões em dinheiro livre para investimento, numero que, em 2009, era US$ 41,8 trilhões.
Os que estão mais altos na pirâmide dos milionários foram os que mais ganharam. Os que têm US$ 5 milhões ou mais, que representam 0,1% da população do planeta, detêm 22% de toda a riqueza mundial, numero que subiu de 20% em 2009.
Nos Estados Unidos, os milionários controlam 29% da riqueza nacional. No Oriente Médio e na África, essa proporção gira em torno de 38%. E como nos Estados Unidos ha um numero muito maior de milionários do que nessas regiões, a riqueza, embora muito concentrada, está mais espalhada entre eles.
Mas por qualquer ângulo que se olhe para os números levantados pelo BCG, eles confirmam uma tendência que não se altera ha anos: a ascensão global da economia em que o vencedor leva tudo”.

A alegação, como ficou dito acima, é que sem economia de escala é impossível enfrentar a competição chinesa. E é uma afirmação verdadeira. A má notícia é que isso não é suficiente. Mesmo com a crescente monopolização de todas as economias nacionais e a opressão da massa dos consumidores que isso implica, continua sendo impossível competir com os monopólios chineses que, por cima da economia de escala, têm a imbatível vantagem de pagar salários esquálidos para trabalhadores que ainda não se revoltam contra isso porque até pouco antes, recebiam salários de fome ou simplesmente trabalhavam como escravos para o Estado.
Esta é a razão pela qual ao fim de décadas a fio de recordes sucessivos no numero de operações de fusão e aquisição de empresas que antes concorriam entre si (merges and aquisitions), fenomeno que desencadeou um processo de elefantíase no setor financeiro de todas as economias do mundo (são eles que operam essas fusões ganhando fortunas a cada passo em cima de produção zero de novos bens reais) os monopólios que daí resultam acabam requerendo, ainda, monstruosos aportes de dinheiro publico para não irem à rasca diante do dumping praticado por seus concorrentes chineses na disputa pelos mercados globais.
Consumidores e assalariados estão, portanto, num jogo de perde-perde, determinado por aquela insolúvel sinuca que o vulgo brasileiro descreve com perfeição no dito “se correr o bicho pega, se parar o bicho come”.
Onde antes havia centenas de empresas empregando trabalhadores, hoje ha uma, duas ou no máximo três gigantes que, por empregarem uma massa de dezenas de milhares de trabalhadores antes distribuídos entre dezenas de concorrentes, tornam-se “grandes demais para quebrar”, sob pena de, se isso acontecer, precipitarem crises sociais que nenhum governo que dependa de eleições tem condiçōes de assimilar.

Ou seja: sob o chapéu de “trabalhador”, você fica na mão de um único empregador, com força suficiente para arrochar o seu salario o quanto achar necessário ou conveniente, porque você não terá outra alternativa de emprego; sob o chapéu de “consumidor”, você fica na mão de um único fabricante ou distribuidor daquele bem, que pode subir seu preço quanto achar necessário ou conveniente porque não terá competidores para limitar sua ganância; e sob o “chapéu” de pequeno produtor de bens intermediários ou matérias primas para esses gigantes, você ficará nas mãos de um único comprador ou distribuidor, que poderá jogar sua oferta lá para perto do chão porque você não tem para quem mais oferecer o seu produto.
Com a crescente insatisfação e desespero que isso causa, as sociedades nacionais se dividem e conflagram na busca de “culpados”, procurando-os sempre em quem está perto, o que faz a festa dos demagogos que, graças a isso, encontram mais e mais espaço na política. E enquanto todos se chutam uns aos outros acusando-se mutuamente de exploradores ou de cumplices dos exploradores, a China, em quem ninguém ousa tocar porque, mesmo sendo o foco original de todo esse desarranjo, é um cliente grande demais para que possa ser retaliado, segue nadando de braçadas.
Olhando-se para o futuro, ha duas hipóteses: ou esse quadro melhora porque os chineses conseguirão se organizar e ter força para fazer suas reivindicações valerem contra o partido único que os mantem sob férreo controle, até receberem salários competitivos com os dos trabalhadores do lado do mundo onde ha quase dois séculos se vêm acumulando conquistas trabalhistas, ou o rebaixamento geral dos salários para aproximá-los dos padrões chineses, a concentração extrema da riqueza, a corrupção que disso decorre e a crescente simbiose entre governos e super empresários acaba transformando o mundo inteiro em algo parecido com o que a China é hoje, do ponto de vista político.
Façam suas apostas.



Você precisa fazer login para comentar.