E quem vai prender a polícia?
11 de novembro de 2011 § 1 comentário
Prenderam o Nem.
E ele confirma que metade do dinheiro do tráfico de drogas fica com a polícia.
O secretário de Segurança Publica do Rio franziu o cenho e fez que “Huumm! Isso vai ajudar muito a investigar“…
Já eu que sou mais bobo acho que a polícia inteira do Rio de Janeiro, e mais cada grão de areia das praias que ela frequenta, sabe quem sãos os corruptos que se sentam diariamente ao seu lado.
O problema do Rio nunca foi prender os bandidos da rua. O problema do Rio é saber quem vai prender os bandidos da polícia, coisa que só será possível depois que prenderem os bandidos da política.
E não esquecer: o Rio é o trailler do Brasil. O nome do filme é “Eu sou você amanhã“.
O xerife chegou! Quem não é bandido?
16 de fevereiro de 2011 § 3 Comentários
José Mariano Beltrame
Dá quase pra pegar com as mãos a tensão que ronda a polícia carioca. E a adrenalina corre solta não só entre seus funcionários como também entre seus patrões.
Alguém decidiu – até que enfim – começar a limpeza sem a qual os avanços na segurança publica de que o povo do Rio de Janeiro já sinalizou que de jeito nenhum abrirá mão começaria a descer pelo ralo desde já, como provam as filmagens e gravações que mostram policiais que participaram de operações para a implantação de UPPs saqueando não só as propriedades dos traficantes em fuga mas também as quinquilharias dos barracos de cidadãos comuns que estavam no caminho das tropas.
Esse grau de desfaçatez, diga-se de passagem, mostra o ponto a que chegou a septicemia que contamina as polícias cariocas que não se pejam de exibir a sua rapacidade mesmo em operações praticamente transmitidas ao vivo para todo o país, das quais participavam outros agentes civis e militares estranhos àquele ambiente podre.
Enfim, não é de hoje que se sabe que, se o crime organizado, em qualquer lugar do mundo, só pode ser explicado pela corrupção das forças de segurança do Estado que SEMPRE têm condições materiais e força de sobra para eliminá-lo completamente se houver vontade politica para tanto, o do Rio de Janeiro só pôde ocupar fisicamente pedaços inteiros da cidade porque contava não só com a corrupção mas também com a aliança explícita das forças de segurança.
Agora, com décadas de atraso, ensaia-se uma limpeza.
Carlos Antônio de Oliveira
Bravo! É assim que se faz! Nenhum avanço na segurança publica do Rio se sustentará sem ela. Alkmin baixou os índices de criminalidade de São Paulo à metade dos do resto do Brasil instituindo o rito sumário para o julgamento de policiais corruptos e limpando o grosso da sujeira da sua polícia. A imprensa inteira e mais os “especialistas” das universidades que gostam de condicionar a criminalidade a “causações” de ordem econômica e social o negam, mas esta é que é a verdade histórica.
Esperemos que o Rio lhe siga o caminho e o resto do Brasil venha atrás.
Mas desde o primeiro momento o problema com que se deparam as autoridades cariocas é como limitar as “quedas” num sistema que está podre de alto a baixo antes que elas incendeiem toda a hierarquia dos três poderes estaduais, contaminados de alto a baixo pela rede de cumplicidades e omissões que explicam a tragédia carioca.
Se tivesse se detido diante de Allan Turnowski a “Operação Guilhotina” teria se revelado menos que uma velha gilete enferrujada já que é impossível supor que um velho profissional da desconfiança, como deve ser um Chefe da Policia Civil de um Estado como o Rio de Janeiro, não tivesse notado qualquer sinal do envolvimento de seu “braço direito” – o delegado Carlos Antônio de Oliveira preso sexta-feira junto com mais 37 policiais corruptos – com o crime organizado e as milícias que disputam com os traficantes pedaços do território do Rio de Janeiro.
Ainda assim, demorou quatro dias para que o chefe do policial criminoso fosse arrastado para fora da posição a partir da qual dava cobertura ao seu subordinado, além de entregar, ele próprio, as operações em preparo pela polícia à bandidagem, conforme gravações de que a Policia Federal e o governador do Rio têm conhecimento há vários meses.
Allan Turnowski
Por que?
Porque sua imediata reação à prisão de seu protegido foi determinar, em represália, a invasão e a devassa da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas – Draco – chefiada pelo delegado Claudio Ferraz, promovido dias antes pelo secretario Jose Mariano Beltrame que é quem comanda a operação de limpeza da policia carioca. E como dificilmente alguém na polícia do Rio deixa de ter ao menos a sua meia dúzia de telhas de vidro, teve de haver uma negociação para esta rendição sem maiores tiroteios.
O próprio governador Sérgio Cabral, chefe de todos esses policiais – os presos e os ainda soltos – teve o cuidado de se ausentar do Rio de Janeiro enquanto a Policia Federal agia no seu terreiro. Emudeceu pelos mesmos quatro dias em que Turnowski ficou esperneando e, depois de sua queda, falou afinal. Primeiro pondo todas as responsabilidades passadas, presentes e futuras sobre os ombros largos do secretario Beltrame e, depois, dando o recado de que, de agora em diante, polícia será só caso de polícia no Rio de Janeiro, sem o envolvimento de mais ninguém.
Por que teve de dizer isso? Porque até hoje não foi assim. A cadeia de cumplicidade subia pela Câmara de Vereadores e pela Assembleia Legislativa, onde se homiziam notórios representantes do crime organizado com nomes e endereços devidamente identificados e extensos dossies de provas de suas atividades como donos de milícias ou como agentes do tráfico de drogas.
E não parava aí: a rede subia até o palácio do governo, nos tempos do casal Garotinho, e estendia seus tentáculos até o Congresso Nacional. Até que ponto isso mudou é algo ainda por ser conferido. Mas desde sempre está claro que para as coisas terem chegado a esse ponto muito pouca gente – se é que alguém está imaculado nesse esquema – escapa de algum grau de culpa no cartório, seja nas policias, seja no Legislativo, seja no Judiciário, seja no Executivo cariocas.
O Rio de Janeiro vive, aos quase 500 anos de idade e na condição de grande metrópole, aquele momento clássico dos filmes de caubói em que um xerife finalmente chega ao vilarejozinho da fronteira dominado pelos bandidos. E, como naqueles filmes, a população, cansada de apanhar, já mostrou que está disposta até a pegar em armas para lutar ao lado do xerife.
Difícil vai ser conte-los antes que cheguem tão alto quanto foi a cadeia de cumplicidade e omissão que jogou a cidade no fundo do buraco do qual está começando a sair.

Porque as UPPs me revoltam
8 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário

Em menos de duas horas e sem disparar um único tiro a polícia ocupou mais nove das favelas cariocas que Leonel Brizola entregou ao crime organizado ao proibir toda e qualquer incursão policial nos morros nas duas vezes em que foi governador do Rio de Janeiro, de 1983 a 87 e de 1991 a 94.
Foi só a autoridade constituída mostrar que a disposição de exercê-la desta vez é pra valer que desapareceu a “valentia” dos chefões. Agora as até ontem “inexpugnáveis” cidadelas do tráfico nas favelas cariocas mostram cada uma mais pressa que a outra em se auto desmantelar.
Faz todo sentido porque para controlar o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, como em qualquer outra cidade do mundo, não é nem nunca foi necessário controlar os territórios que o Estado manteve livres para quem quisesse se candidatar a ocupá-los nos últimos 20 anos ou mais. Armar e manter os exércitos particulares necessários para fazê-lo era um luxo que os traficantes cariocas se davam porque podiam arcar com ele apenas para desfrutar a sensação de onipotência que lhes proporcionava o poder de vida e morte e o exercício impune do terror permanente sobre os quase dois milhões de favelados do Rio de Janeiro, graças à corrupção do Estado brasileiro.

O que explica a bestialidade das guerras que fizeram a triste fama da antiga cidade maravilhosa, portanto, são vaidades primitivas em busca de poder deixadas livres para se lambuzar no sangue do povo por políticos corruptos. Os componentes sinistramente carnavalescos da iconografia pejada de ouro que nos permite entrever o universo mental desses brutais “imperadores” dos morros cariocas não deixa duvidas quanto à “psicologia” que inspira o fogo cruzado no meio do qual o Rio se acostumou a se esgueirar nas últimas duas décadas.
Como todas as grandes manchas negras da nossa História, esta é mais uma das que só começou a ser apagada pelos “heróis” domésticos quando o mundo lhes impôs uma atitude. Assim como a escravidão só começou a cair, entre nós, depois que a Inglaterra impôs um bloqueio naval ao país, nossos políticos só se dignaram a gastar um minuto de seu tempo com a tragédia dos descendentes desses escravos e outros desvalidos do Rio de Janeiro e com as rebarbas que dela sobravam para o resto dos cariocas (sim, porque o descaso deles para conosco é democraticamente amplo, geral e irrestrito) quando o governo Lula foi avisado pelo Comitê Olímpico Internacional e pela Fifa de que ela poderia vir a constituir um bloqueio para a Olimpíada e a Copa do Mundo por ele contratadas.
“Mulheres de malandro” exibem no Orkut presentes dos chefões
Eis porque essa tão comemorada “virada” e toda a exploração política que agora se faz em cima dela, em vez de aplacar, aguça ao nível do insuportável a minha indignação e a minha revolta.
O rio de sangue que correu; o caudal de tragédias e felicidades destroçadas nestes mais de 20 anos; os traumas a serem lentamente purgados pelas próximas gerações dos milhares de familiares e amigos das vítimas dessa guerra inútil – é o que comprova esta sucessão de debandadas dos “imperadores” dos morros – é tudo um imperdoável desperdício que poderia ter sido evitado desde o primeiro momento por um simples ato de vontade dos grandes patronos do crime e artífices das recorrentes tragédias brasileiras que são essas figuras trêfegas que, no momento como a cada quatro anos desde o restabelecimento da Republica, nos oferecem o deprimente espetáculo da falta de pudor e da sofreguidão com que disputam os pedaços do que é nosso.
Continua sendo dado aos conhecidos predadores de sempre a condição objetiva de ignorar olimpicamente tudo que nos aflige e de engatilhar nossas desgraças futuras, graças à inexpugnável blindagem que vem junto com o diploma de investimento do titular em qualquer cargo publico no Brasil, seja por eleição, seja por nomeação.
É tão completa a impotência do cidadão brasileiro diante dos seus “representantes” e “servidores” que nosso sistema político é mais suscetível às pressões internacionais que às dos seus próprios eleitores, e só ela tem nos redimido do pior quando as consequências do nosso aleijão político chegam ao paroxismo.


A velha cortina de fumaça atrás da qual eles se escondem com a cumplicidade de uma imprensa relapsa que cede fácil demais à manipulação pelas fontes e ajuda o publico a esquecer que é disso que se trata, está muito bem resumida na arte que acompanha a matéria da Veja desta semana sobre “A Cara do Congresso”:
- dos 513 congressistas recém diplomados, só 36 se elegeram com votos próprios; os outros 477 ganharam o mandato e a garantia de impunidade que vem com ele tomando carona no mecanismo fraudulento que aqui se conhece como “coeficiente eleitoral”;
- 80 dos novos deputados são filhos, netos, sobrinhos ou cônjuges de outros políticos e 288 foram reeleitos, duas indicações seguras de que, uma vez alcançada a condição de assaltar a coisa publica de dentro fica mais fácil conseguir os milhões necessários para comprar eleições num sistema tão distorcido como o nosso e seguir para a segunda etapa que é tornar vitalício e hereditário o desfrute desses privilégios;
- 71 dos novos deputados já se elegeram na condição de réus por crimes de improbidade na Justiça brasileira, aquela onde os julgamentos de quem pode pagar por esse “serviço” nunca chegam ao fim mas que, ao mesmo tempo, afirma o preceito de que só há culpa para os réus julgados até esse nunca alcançável ultimo recurso;
- no quadro das distorções regionais de que se valem os fugitivos da memória do publico para lhes impor sua volta recorrente ao poder, um voto em Roraima vale 12,5 vezes o que vale o voto de um paulista.
A libertação da condição de escravos dessa canalha começa pelo mecanismo destacado na segunda arte da mesma matéria da Veja, que explica o funcionamento do voto distrital, a ferramenta inventada ha 126 anos pelos ingleses (1885) para deixar mais claro quem representa quem numa democracia “representativa”, de modo que uns possam controlar o comportamento dos outros.
Sem esse primeiro passo elementar, que é mais que tempo de exigir, não da para começar a sonhar com um Brasil melhor.

Sobre territórios ocupados pelo crime
9 de dezembro de 2010 § Deixe um comentário

Democracia é como gravidez. Não existe pela metade. Ou a Lei vale para todos ou não vale para ninguém.
Fora do Brasil, acompanhei pela internet a “Guerra do Rio” e, principalmente, o modo como ela foi coberta pela imprensa.
Tenho repetido aqui que vejo a imprensa como uma espécie de termômetro da sensibilidade da classe media (que é quem escreve e lê jornal) que, ao devolver, inevitavelmente, o que as nossas escolas enfiam na cabeça dos brasileiros pelo pais afora – pobres cabeças! – nos permite vislumbrar a que distancia estamos de começar a mudar aquilo que exigimos dos governos, primeiro passo para que os governos comecem a pensar em mudar aquilo que nos entregam.

Cheguei a me animar com o gradual abandono do entusiasmo ufanista em que ela ameaçou embarcar no inicio do processo, diante da comovente reação do povo carioca a esse primeiro mísero sinal de atenção recebido em muitos anos (desde que Leonel Brizola – que a Dilma chama de “guru” – entregou um pedaço da cidade ao crime organizado).
O Rio virou, mesmo, uma pobre criança abandonada, carente até o limite onde se pode ser carente…
Senti-me aliviado quando foram ouvidas as vozes das lideranças da imprensa – que ainda as ha, mesmo que poucas – chamando a atenção do publico para a realidade da corrupção policial, da “ausência de polaridade” entre a policia e o crime no Rio de Janeiro (e não apenas lá), que permanece intocada. Meu orgulho cívico sentiu-se remendado quando o tom começou a mudar do agradecimento para a cobrança de uma verdadeira “pacificação” dos morros, em vez desta “para inglês ver”, determinada mais pela eleição e pela perspectiva da Olimpíada e da Copa que vêm aí do que pela vontade de restituir ao povo pobre do Rio o direito elementar de sair do inferno dos enclaves ocupados pelo crime.

Quanto tempo vai levar para os policiais das UPPs se corromperem e tomarem o lugar dos traficantes como exploradores da miséria dos morros? E os militares, quanto tempo resistirão ao “faça você também porque não vai acontecer nada mesmo”?
Decepcionei-me, mais uma vez, enfim, pela discussão não ter ido alem do binômio crime x corrupção policial.
Os morros cariocas não são o único nem o mais importante pedaço do Brasil onde a Lei não entra. A Lei não ocupará os morros cariocas enquanto não ocupar, primeiro, o território livre do Estado; os governos e sua extensão administrativa que é o funcionalismo publico.
O presidente da Republica não acata a Lei. O Poder Executivo não acata a Lei. Os membros do Poder Legislativo não acatam a Lei. E as poucas que acatam são leis especiais, feitas só para eles. As leis que negam o principio fundamental da democracia e do Estado de Direito que prescreve, antes de mais nada, a igualdade de todos perante a lei.

A policia carioca e todas as policias do Brasil, assim como os variados fiscais de todos os órgãos publicos e o resto da horda que vive de nos achacar, vão continuar vivendo impunemente na regra dos “arregos” com o crime organizado enquanto aqueles que os nomeiam para essas funções puderem continuar vivendo na regra dos “arregos” impostos aos contribuintes, dos achaques aos fornecedores do Estado, da posse e uso irretorquível e ilimitado das “suas” estatais, das ações em causa própria, dos privilégios e dos assaltos impunes ao Tesouro Nacional.
É tudo um sistema de vasos comunicantes. A impunidade é um imperativo para o nomeado pelo impune. É a cumplicidade que os une. Um não pode continuar impune se o outro não se tornar impune. A corrupção empurra a corrupção. O achacado numa ponta terá de achacar na outra e a corda estourará sempre do lado mais fraco. Do lado de quem paga dobrado para ter menos da metade. Do lado de quem paga com a vida porque é tudo que lhe resta.

O mais dolorido em todo esse sofrimento é que é tudo um desperdício. Um falso labirinto cuja saída está mapeada pela História. Uma mera armadilha da ignorância.
Somente quando a imprensa se impuser o dever de expor essa cadeia da impunidade a cada vez que qualquer dos efeitos dela se manifestar, seja onde for, apontando a raiz por mais distante que esteja o galho, poderemos começar a alimentar a esperança de que o povo venha a dirigir a força que tem de sobra, mas não sabe onde aplicar, para esmagar o mal no nascedouro.
Até lá, estaremos apenas enxugando gelo. Ou pior, apenas enxugando sangue.



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