Ser ou não ser (uma meritocracia)
25 de novembro de 2013 § 3 Comentários
Rose Neubauer, que é professora aposentada e foi Secretária de Educação de Mário Covas, escreveu um artigo neste domingo para a Folha.
“Culpar a vítima é escapismo”, clamava ela contra a decisão do governo de voltar a reprovar os alunos da escola pública que não passam de ano (aqui) como querem, antes de todos os outros lúcidos, os próprios pais desses alunos.
Em poucas palavras, o que Rose Neubauer advoga é que a solução para a qualidade miserável do ensino público brasileiro não é passar a reprovar os professores que não se mostrarem à altura da sua tarefa de modo a dar-lhes um incentivo real para se empenhar em melhorar, mas sim estender aos alunos as mesmas “estabilidade no curso” e “progressão na carreira por tempo de serviço” de que eles desfrutam no seu emprego público.
É exatamente a mesma lógica que leva às “cotas” nas universidades para alunos de escolas públicas e outras “minorias”, em vez de melhorar a qualidade do ensino que os coloca em desvantagem; ou à política de esvaziar nossas prisões “desumanas” devolvendo bandidos às ruas em vez de elevá-las a uma condição humana, privilégio que fica reservado só para os criminosos “especiais”.
Como professora aposentada e portanto sujeita ao “quiéquiéisso companheira”! de uma das categorias mais organizadas e aguerridas no seu modo de reivindicar, Rose faz uma verdadeira ginástica mental em seu artigo para evitar tocar na questão essencial que explica não apenas a tragédia do ensino público como também a de todo o serviço público que o trabalhador brasileiro carrega nas costas.
Como a indemissibilidade do professor é intocável, a culpa pelo que disso resulta tem sempre de ser “dos outros”: do governo do outro, da sociedade, da “zelite” ou do imperialismo, conforme a circunstância ou o grau do “esquerdismo” – mais primário ou mais ilustrado – do proponente.
Acontece que só uma coisa diferencia, nos dias que correm, os países de ponta dos países da periferia, passando por todos os que estão no meio: o grau de adesão à meritocracia do seu sistema político.
Ser “de esquerda” depois da Queda do Muro, da ascensão da gangstocracia na Rússia, do Capitalismo de Estado chinês e do abraço de Lula em Collor e Maluf, aliás, resume-se a isso: os dispensados da meritocracia negarem a meritocracia para poderem continuar sendo dispensados da meritocracia.
Como os gangstocratas russos, os capitalistas de estado chineses e os integrantes dos nossos 32 partidos “de esquerda” têm em comum o fato de estarem dispensados da meritocracia e viverem todos dos impostos que cobram dos que estão submetidos a ela aqui fora, as variações na repetição desse mesmo cantochão, fora a língua em que é expresso, são só de grau e de estilo.
Não são diferenças irrelevantes posto que podem configurar quadros que vão desde a exploração branda até à escravização aberta e ao crime. Mas os que estão aquém da meritocracia jamais vão pisar o mesmo chão das conquistas de quem está além da meritocracia.
É ela o divisor de águas.
No Brasil, tanto os partidos que têm origem nas universidades públicas quanto os que têm origem nos sindicatos pagos pelo Estado estão geneticamente comprometidos com a estabilidade no emprego do funcionalismo ou, na melhor hipótese, com uma meritocracia “sem dentes” que é aquela que até premia mas não pune.
No meio estão só os comedores de restos.
Por isso tudo que lhes resta nas disputas eleitorais é atirar dossiês uns contra os outros para mostrar quem abusa mais da sua condição de parasita do alheio.
Não é atoa que a última pesquisa eleitoral publicada continha um dado aparentemente enigmático: embora 62% da população aqui de fora (a dos submetidos à meritocracia) declare que quer que “tudo mude”, Dilma continua “ganhando a eleição” (se fosse hoje) tanto de Serra quanto de Marina Silva, que mais ou menos se equivalem quanto à força eleitoral. Com Aécio ficaria mais fácil.
É o eleitor brasileiro, na sua fina sensibilidade, ainda que inarticulada como não poderia deixar de ser num país com a qualidade da educação que o nosso tem, dizendo a mesma coisa que se ouviu nas ruas de todo o país nas manifestações de junho: que não gosta disso que está aí, adoraria ouvir algo diferente, mas não identifica diferenças concretas nas propostas dos atuais candidatos.
E não as identifica porque elas não existem.
A lógica do sistema
16 de janeiro de 2013 § 13 Comentários
O Globo de hoje noticia que de 114.763 “bacharéis” diplomados pelas escolas de Direito de todo o país que prestaram o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (sem o qual não podem advogar), apenas 19.134 passaram para a segunda fase que ocorre em 24 de fevereiro próximo.
83,4% foram reprovados.
“Alguns mal sabem escrever”, comentou o presidente da OAB, Ophir Cavalcante. Não entendem português suficiente para discutir a sua própria condição, em outras palavras.
A definição de que “escola de qualidade” é prédio com piscina, professor bom é professor (indemissível) com tempo de serviço e aluno que passa é aluno que se declara “negro” vai, portanto, cumprindo a sua função: Babel está batendo na porta!
No campo do Direito ainda ha a barreira adicional do exame da Ordem. Mas em todas as áreas de especialização acontece a mesma coisa.
Solução?
Alunos reprovados em edições anteriores tentam derrubar na Justiça a prerrogativa da OAB de fazer o exame, enquanto projetos diversos tramitam pelo Congresso para acabar com o exame.
É como imprensa livre e tribunal que condena em país sem cadeia: não dá pra aguentar todo dia a prova da roubalheira exposta ao lado da foto do ladrão condenado no resort dos milionários. Uma das duas coisas tem de acabar: ou a imprensa livre e os tribunais que condenam ou a roubalheira e a impunidade.
E, a propósito, pra que advogado num país sem lei?




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