A vez da herança “marvada”

16 de novembro de 2010 § Deixe um comentário

Desgraçadamente para o Brasil, a maldita está se esgotando. Agora começa a aparecer a herança “marvada”, que é a que o Lula estava escondendo.

De repente, não mais que de repente, o cenário cor de rosa que brilhou como nunca antes na historia deste pais até precisamente o depósito do ultimo voto na urna a 31 de outubro próximo passado tornou-se cinza chumbo.

Um documento reservado do Ministério do Desenvolvimento, Industria e Comercio Exterior obtido pelo Valor e dados divulgados pelo IBGE na ultima sexta-feira que o Diário do Comércio apresenta hoje apontam na mesma direção: vai longe, muito longe o “processo de desindustrialização” e a “reprimarização da pauta de exportações” do Brasil que antecipam o desemprego futuro.

O pais volta a depender cada vez mais dos capitais financeiros especulativos para fechar as suas contas.

Ao fim de oito anos de Lula e no limiar de possíveis outros 12 nos só ganhamos do resto do mundo na venda dos produtos primários que Deus nos concedeu e negou aos demais países, como minérios e grãos (estes enquanto o MST assim o permitir).

Em todo o resto, nós perdemos mercados.

Pago o preço cobrado no mercado local, que tem os trabalhadores mais bem remunerados da Europa, e com todos os impostos de importação recolhidos, o aço feito na Alemanha, por exemplo, custa para o consumidor brasileiro, depois de atravessar o Atlântico e subir a Serra do Mar, 40% menos que o aço feito aqui mesmo, no Brasil.

O feito na China então, depois de dar uma volta ao mundo completa, pois que a matéria prima é importada do Brasil e volta depois de processada, chega aqui custando a metade do que custa o aço brasileiro.

No setor de eletrodomésticos, mostra o IBGE, a produção da industria nacional caiu 9,9% enquanto o consumo subiu 14,4%. O varejo em geral teve um crescimento de vendas de 11,8% enquanto a produção industrial como um todo aumentou apenas 6,3%. A diferença são os importados.

O consumo de energia, principal insumo da industria, vem caindo a pino: 8,3% em maio, 8,6% em junho, 7,2% em julho, 6,8% em agosto, 6,2% em setembro…

Os dados do IBGE são o registro inequívoco dos traços da droga que anabolizou esta eleição. Mostram como o consumo foi inflado artificialmente, com crédito subsidiado, sem que crescesse de forma correspondente a fonte ultima geradora de mais e melhores salários que é a produção.

Os números que o ministério de Lula ainda tenta esconder mostram problema ainda mais cabeludo. Com a crise dos países ricos os preços do aço caíram e a demanda só se manteve nos remediados em crescimento como nós. Antes a demanda mundial sustentava os desaforos praticados no Brasil contra os custos de produção (impostos, educação, transporte, segurança, etc.). Desde o final de 2007 a situação se inverteu. E o efeito vem se agravando em multiplicação geométrica com a queda da cotação do dólar.

De janeiro a setembro deste ano as importações de aço subiram a R$ 3,95 bilhões, quase o dobro dos R$ 2,06 embarcados em igual período de 2009.

A industria de transformação – têxtil, calçados, confecções, moveis, etc. – que chegou a um superávit recorde de US$ 31,9 bilhões em 2005, entrou no negativo a partir de 2008 e registrou um déficit de US$ 13 bilhões no primeiro semestre de 2010.

Automóveis e outros veículos passaram de um superávit médio de US$ 9,1 bilhões entre 2004 e 2007 para um déficit de US$ 3,1 bilhões em 2009.

Mas o dólar cai para todo o mundo. E conforme nota outro que já foi “o cara” no passado, o ex-ministro Delfim Netto, “a produtividade do trabalhador brasileiro e do chinês é praticamente a mesma; nós perdemos da porta da fábrica para fora porque o Estado chinês é mais ousado e eficiente do que o nosso”.

De fato. Como na China a imprensa já foi calada e a oposição já foi “extinta”, como gostaria que acontecesse aqui também “o cara” atual, quem vota, lá, são só umas poucas dúzias de membros do Escritório Político do partido único no poder. Já aqui, ha 136 milhões de eleitores que precisam ser “conquistados” a cada eleição. Para amaciá-los é preciso haver uma vasta coletânea de “bolsas” para gostos variados e uma militância com tempo e disposição para trabalhar essa massa de eleitores corpo a corpo. E isso se fabrica empregando a companheirada do PT e dos seus 10 aliados aos milhões e dando-lhes garantias ilimitadas para que “reivindiquem” à vontade e sejam sempre atendidos sem correr grandes riscos, de modo cevá-los em tais e tantos luxos que a perspectiva de perdê-los faça qualquer sacrifício “mobilizativo” parecer irrelevante.

Isso cria essa militância disposta a tudo que nos conhecemos.

Alguém lembrará que a China tem mais empregados públicos que o Brasil o que é verdade. Mas como lá eles já desfrutam de todos os “direitos” com que o Plano Nacional de Direitos Humanos do PT ainda quer nos contemplar, as relações entre o capital e o trabalho na China vivem, literalmente, a paz dos cemitérios.

Diz “o cara” de outros tempos que, diante da conjuntura mundial, não ha meias medidas capazes de mudar esse quadro. O próprio ministério de Lula pede “medidas estruturantes” como redução de tributos sobre exportadores, simplificação de procedimentos burocráticos e políticas de incentivo à desvalorização do real (que, para serem de fato “estruturantes”, teriam de ser conseqüência de reduções dos gastos públicos que permitissem uma real queda dos juros). Condena explicitamente medidas que considera paliativos como as barreiras contra importações pleiteadas pelo Ministério da Fazenda.

Delfim, que pode ser mais incisivo, culpa diretamente os “compromissos de despesas permanentes que assumimos sem ter receitas garantidas” e pede “uma regra que produza uma taxa de crescimento das despesas do governo (excluídos os investimentos) menor que a do crescimento do PIB”.

Ilusões de noiva.

Para isso seria preciso pisar em calos amigos, coisa terminantemente proibida no código de etiqueta da Ilha da Fantasia. O ultimo que falou nisso pagou com o impeachment.

A verdade está com Lula, o pragmático, que não fala em outra coisa senão na volta da CPMF, o imposto que multiplica todos os impostos. E Brasília inteira, em plena temporada de caça, saliva pavlovianamente, como em toda a véspera de formação de governo, em cima de aumentos de salários acima de 50% que, uma vez conquistados são extensíveis a todos, oposição inclusive, e se engalfinha pelos novos cargos e ministérios em gestação.

Diante de tantos e tão espinhudos abacaxis, arrisco o meu palpite: sim, Lula, o nosso herói sem nenhum caráter, vai permitir que Dilma governe sozinha…

Condenados ao Supercapitalismo

8 de julho de 2010 § 1 comentário

Ha 100 anos os americanos sabem que democracia e empresas gigantes são incompatíveis e não podem conviver pacificamente.  Mas é impossível enfrentar o capitalismo de Estado sem elas. No mundo todo, a competição com a China e o medo do desemprego estão trazendo os monopólios de volta. Do  açougueiro ao banco, os brasileiros já se deparam com eles em cada ato do seu cotidiano. E o governo é sócio de todos…

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Desde que a China apresentou ao mundo a força do capitalismo de Estado os sinais de que o capitalismo democrático não poderá conviver nem sobreviver a ele vêm se multiplicando.

O modelo desenvolvido nos Estados Unidos ao longo do século 20 baseava-se naquilo que o ex-secretário do Trabalho do governo Clinton, Robert Reich, descreve como “o contrato social tripartite entre empresas fortes, sindicatos fortes e um governo forte”, em que cada parte tratava de garantir que ela, assim como as outras duas, recebessem uma parcela justa dos ganhos do sistema.

A distinção entre medidas pró-mercado (de reforço da concorrência e proteção do consumidor) e regulamentos pró-business (contemplando interesses específicos das corporações) era nítida. O Estado, com a legislação anti-truste, limitava por cima a competição o que garantia um nível saudável de disputa pelos consumidores e proporcionava um mecanismo eficiente de estabilização dos preços livre de manipulações políticas. E os sindicatos limitavam por baixo a possibilidade das empresas crescerem às custas do esmagamento dos salários.

Nesse ambiente, a inovação se impunha como o único caminho para a conquista de grandes diferenciais competitivos, o que vale dizer que a qualidade da educação era, para empregados e para empregadores, o fator decisivo de sucesso.

Com isso os indivíduos eram incentivados a se organizar para reivindicar junto aos empregadores e para se fazerem ouvir pelo legislador/regulador assim como este, para se eleger, tinha de se mostrar sensível às pressões do eleitor assalariado e do consumidor. Um arranjo que reforçava a dimensão de cidadão dos indivíduos e tendia a promover o continuo aperfeiçoamento do sistema representativo. E que acenava, para quem estava mais para traz no caminho da democracia, com a promessa de um futuro melhor.

Ao contrario do que afirmava a propaganda esquerdista, esse sistema estava no extremo oposto do laissez-faire, onde chora mais quem pode menos, que agora volta triunfalmente à arena global ressuscitado pelo capitalismo de Estado. O capitalismo democrático resulta de uma minuciosa teia de regulamentos que definem os deveres, os direitos e os limites para a atuação do Estado, do capital e do trabalho nas relações econômicas. Acontece que esse complexo pacote de convenções e ficções legais só pode ser negociado, aperfeiçoado e cobrado num ambiente de sólida  estabilidade do estado de direito, um privilégio de pouquíssimos quando o que se considera é a arena global.

Essa invenção genuinamente americana – a competição econômica livre apenas até o ponto considerado bom pelo conjunto da sociedade e legalmente cerceada a partir daí – começou a tomar forma no final do século 19, quando a primeira onda de fusões e incorporações de empresas tornou algumas das grandes corporações ianques maiores e mais poderosas do que era compatível com o sistema democrático. E evoluiu para o estado da arte entre 1945 e os meados da década de 70 quando aquele pais registrou o menor “gap” entre ricos e pobres de sua história.

Se não era, como não foi, um sistema perfeito, ele conseguiu subordinar o poder econômico aos interesses da comunidade e produzir a melhor equação de distribuição de renda e liberdade individual jamais alcançada por qualquer sociedade humana moderna. A economia norte-americana era, no século 20, e ainda continua sendo hoje, para resumir, a mais regulamentada do mundo, qualidade que, na nova realidade de competição aberta com o capitalismo de Estado, que opera sem respeitar nenhuma regra ou limite pré-estabelecido, se transformou no mais pesado handicap que ela paga para o novo adversário.

A entrada em cena do capitalismo de Estado trouxe de volta as empresas gigantes que, ha cem anos, os americanos já sabem que são incompatíveis com a democracia.

E, ironicamente, foi pela porta aberta pelas novas tecnologias de informação, comunicações e transportes, que nunca poderiam ter sido desenvolvidas sem ele, que o capitalismo democrático ficou exposto ao inimigo que poderá matá-lo.

O primeiro golpe veio com a padronização dos processos de gestão empresarial e a possibilidade da migração das industrias e dos empregos para territórios onde não vigora o estado de direito, onde a produção é monopólio do Estado e onde o regime de trabalho é quase escravo. O segundo foi consequência do advento da cópia idêntica ao original, ao toque de um botão, de produtos, de desenhos, de softwares e de ferramentas de produção, inerente à transformação de tudo em “bits”, que anulou os efeitos do gap educacional para todas as etapas da produção que sucedem os processos de pesquisa e desenvolvimento. E o terceiro veio com as tecnologias de redes virtuais globais que proporcionam aos comerciantes e consumidores de todo o mundo a condição da ubiqüidade.

Essas mudanças inverteram o sentido das forças positivas que atuavam sobre o sistema. E embora todo mundo esteja plenamente consciente de onde tudo isso vai acabar, é para esse buraco que as coisas caminham, inexoravelmente, tangidas pelo medo do desemprego em massa iminente. O mundo parece ter entrado num funil. O processo tem uma lógica própria e não ha maneira discernível de detê-lo.

No campo do trabalho, por exemplo, o que a competição entre a China e o mundo parece indicar é que um aparato de repressão capaz de  garantir disciplina e conformismo com condições sub humanas de trabalho faz uma diferença muito maior que o investimento em educação e em recompensas crescentes na equação custo x qualidade nos esquemas de produção em escala num ambiente onde tudo é “pirateavel” impunemente e as cópias são idênticas ao original.

O medo de perder o mercado chinês, envolvendo mais de 1/5 da humanidade, por outro lado, blinda o regime contra pressões externas em favor da distensão no campo dos direitos humanos. E isso inverte o sentido do ajuste que seria lícito esperar: fica mais fácil fazer os salários do Ocidente se aproximarem dos níveis chineses que fazer os salários chineses subirem ao nível dos ocidentais.

Não é algo que possa acontecer de uma hora para outra. Mas a persistência desse tipo de pressão acaba produzindo efeito. A presente crise financeira, é bom lembrar, posto de lado o fator do crescimento exponencial da corrupção corporativa que também tem seu peso, resulta basicamente dos ganhos minguantes das classes assalariadas dos países ricos cruzada com a inapetência dos políticos por medidas impopulares como a redução dos benefícios do welfare state e a contenção do consumo pelo encarecimento dos financiamentos. O consumo e a expansão dos benefícios sociais, ao contrario, vêm sendo mantidos à custa do endividamento crescente do Estado (na Europa) e dos consumidores (nos Estados Unidos) num processo cujo caráter nitidamente insustentável foi e continua sendo escamoteado pelos caçadores de votos.

Simplesmente é falsa a momentosa questão “to keynes or not to keynes” a que jornalistas e economistas badalados, famintos de popularidade fácil, querem reduzir o problema. Pois, como o próprio Keynes ensinava, só pode gastar keynesianamente em medidas anticíclicas na crise (Lula) quem poupou ortodoxamente na bonança (FHC).

Tudo indica, portanto, que haverá, sim, mergulhos sucessivos na recessão enquanto os limites da aritmética continuarem sendo desrespeitados em favor da satisfação de hábitos difíceis de abandonar e de projetos individuais de poder.

O problema da escala de produção, outro fator que afeta decisivamente os custos, também lança pressões negativas sobre o sistema. No campo do capitalismo de Estado a produção se dá em regime de monopólio. E só outro monopólio pode chegar à escala de produção de um monopólio. Desse fato incontornável decorre, para o resto do mundo, a desmontagem acelerada do aparato anti-truste, sem duvida a mais preciosa construção da democracia, e a desabalada corrida para o “crescer ou morrer” com fusões e aquisições que jogou as autoridades reguladoras no colo das grandes corporações.

“Salvar empregos” hoje é alterar leis de proteção à concorrência e eliminar direitos individuais para favorecer a consolidação de monopólios deste lado do mundo capazes de fazer frente aos do lado de lá em matéria de ganhos de escala. Mas a associação explicita entre o poder político e o poder econômico que essa mudança exige, alem de minar a confiança do publico na democracia, favorece o desenvolvimento de relações promiscuas altamente indesejáveis entre eles.

A constituição dessas empresas-gigantes requer quantidades de capital que nenhum individuo sozinho pode fornecer. É preciso ir buscá-lo nas bolsas de valores. Os gestores e executivos dos monopólios do Supercapitalismo manipulam valores muitas vezes maiores que os PIB’s nacionais da maioria dos países. Mas não enfrentam nada de parecido com o complexo sistema de prestação de contas a poderes  independentes aperfeiçoado a duras penas ao longo de 2.500 anos para garantir o bom uso do dinheiro alheio pelos governantes nas democracias. A tecnologia institucional de proteção ao acionista anônimo desses conglomerados ainda é apenas incipiente. Daí a corrupção desenfreada que grassa entre os controladores desses estados dentro do Estado, que se outorgam prêmios milionários enquanto esfarinham impunemente o patrimônio de seus acionistas e põem em risco o equilíbrio da economia mundial.

Por força da onda de consolidações, aliás, o setor de intermediação financeira inchou como nunca antes pelo mundo afora (nos EUA, saiu de pouco mais de 8% ha cerca de duas décadas, para mais de 40% da renda nacional) o que proporcionou à camada de cima das populações afetadas, com maior capacidade de poupança, embarcar na especulação financeira e apropriar-se das sobras do banquete dos grades predadores que se aproveitam desses momentos de crise.

Esse fenômeno produz três tipos de efeitos deletérios. O primeiro é a desmoralização da ética do trabalho. O segundo é dividir ainda mais a opinião publica, criando em parte dela a falsa impressão de estar ganhando com o que está acontecendo. E a terceira é tornar toda a economia dependente das entidades financeiras que conseguirem ficar “grandes demais para quebrar”, o que resulta, como já vimos, em dar aos seus gestores garantia de impunidade para toda forma inovadora de roubar o próximo que vierem a inventar.

E, no final, a consolidação forçada e o inchaço do setor de intermediação aprofundam o fosso social. Hoje, 1% da população americana detém 23% da renda nacional. A ultima vez em que a riqueza esteve tão concentrada nos EUA foi em 1928, não por acaso às véspera da Grande Depressão.

Mas tudo isso são apenas as mudanças que já ficaram para trás. O que se esboça pela frente pinta um quadro ainda mais preocupante.

Se a incapacidade de produzir riqueza era o maior inimigo da longevidade das tiranias, com o advento do capitalismo de Estado isso deixou de ser um obstáculo.  A violência não é mais a única arma dos ditadores que, agora, estão aparelhados para explorar vertentes bem menos resistentes da natureza humana. Essa novidade deu uma decisiva injeção de animo às forças antidemocráticas ao redor do globo. E como o Estado democrático cuja razão de ser é, por definição, moderar a força corruptora do poder econômico, foi impelido a se aliar a ele para enfrentar a ameaça do capitalismo de Estado, desapareceram todos os obstáculos para a completa “dinheirização” de todos os aspectos da vida.

Organicamente incorporado ao Estado, o poder econômico se transforma, também, na melhor das ferramentas de projeção internacional (ou multinacional) de poder político. E, para este fim, o foco se concentra nos setores de infra estrutura com maior valor estratégico, tendo como alvo principal as empresas de telecomunicações que, com poderes condicionalmente concedidos pelos políticos, controlam as grandes estradas por onde transitam os dados que hoje põem a economia e o mundo em movimento. É com elas atuando nos campos da produção e distribuição de conteúdos informativos e de entretenimento que os governos planejam conseguir o desde sempre sonhado controle da circulação da informação.

Nos trópicos, onde sempre se mostrou mais o corpo que alhures, esse jogo de cooptação mutua entre os candidatos a controladores de monopólios setoriais e candidatos a controladores de monopólios políticos é mais explícito. O governo, o Tesouro Nacional, os bancos públicos e até os fundos de pensão da casta que se apropriou do Estado – para não mencionar os imprescindíveis atores coadjuvantes dessa construção no Legislativo e no Judiciário, – estão abertamente empenhados nele. Com isso, em poucos anos, a economia saiu de algo que parecia familiar e dizia respeito a cada um de nós para este fechado arquipélago de grandes sesmarias econômicas ao largo do qual o cada vez mais insignificante cidadão comum tenta se manter à tona. Do açougueiro ao banco, o pobre trabalhador brasileiro confronta-se com monopólios hoje em praticamente todos os atos do seu cotidiano. E o governo é sócio de todos eles.

Se as eleições nunca estiveram à salvo da influencia do poder econômico, antes a contaminação era, pelo menos, restrita a grupos de interesse bem identificados. Agora as campanhas se transformaram em gigantescas operações abertas de suborno eleitoral. Duas classes são cooptadas: a base da pirâmide social, que aqui ainda pesa mais em termos de votos que todas as outras somadas, e a militância do partido no poder que hoje coincide exatamente com o aparato de administração do Estado e com os quadros do funcionalismo publico. Somente as migalhas do balúrdio extorquido de quem trabalha e produz retornam à sociedade em obras de infra estrutura. Mesmo assim, a falsa sensação de enriquecimento que a disseminação do dinheiro do suborno eleitoral proporciona economia abaixo é de tal modo inebriante para uma geração que nunca tinha visto crescimento econômico que mesmo quem, na política, tem plena consciência do crime que esta sendo cometido não tem coragem de denunciá-lo. Ao contrario, adere ao discurso corruptor.

O cidadão, cada vez mais minúsculo nesse mundo movido a bilhões, ainda vota. Mas é o caso de perguntar se quando essa obra tiver sido completada e eles forem donos do emprego e do salário de todos nós não vão dispensar essa formalidade.

Quem viver verá…

Ambições cortesãs e ambições republicanas

6 de junho de 2010 § 2 Comentários

Ambições

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cortesãs e ambições

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republicanas

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Ambição é o que move o bicho homem.  Foi ela que nos empurrou para fora do mundo animal.  E, hoje mais do que nunca, no limite do “apertamento”, sabemos que essa é a nossa benção e a nossa tragédia.

Entre o céu e o inferno; da negação à obsessão; da criminalização ao endeusamento, já se tentou de tudo para lidar com ela.

A esta altura, sabemos que é uma força da natureza tão irremovivel quanto o sexo e a fome e que tudo que é possível fazer é restringir as maneiras admitidas de servi-la.

Parece pouco, mas faz uma grande diferença. É o que foi possível conseguir nos 2500 anos de luta de Atenas até aqui.

Tomemos o caso extremo. As maiores ambições à solta no mundo. Volto ao Grande Jogo do Poder do qual descrevi um lance em detalhe na ultima série de artigos publicados aqui. Existe diferença, ao redor do globo, entre os que disputam o “Velocino de Ouro” do momento, que é o sonhado controle dos grandes vetores das “mídias convergidas”?

Não exatamente. Nem entre eles, nem na natureza da força que os move.

Mas não ha duvida: dos incentivos e constrangimentos de que se cerca essa volúpia nos distintos ambientes políticos e institucionais resultam benefícios significativos ou prejuízos devastadores para a massa dos que assistem de fora a luta dos que só entendem a vida correndo atras de se tornarem gigantes.

Reza o ditado que pau que nasce torto não tem jeito, morre torto.

E, de fato, nesta boca de Terceiro Milênio, assim como para tudo o mais, ha ambições cortesãs e ha ambições republicanas.

Na velha Europa e em seus rebentos latino americanos , a democracia é epidérmica. Não “entrou”. Joga-se, como sempre, o jogo da corte. Seja nas ricas, seja nas pobres, nada se faz sem a anuência do rei. Disso resulta, para as presas e para os predadores desse eco-sistema econômico, uma determinada lista de fatores críticos de sucesso e, como conseqüência, a seleção de um determinado tipo de “animal” como espécie dominante.

No sistema de cortes, ela não será nem a dos inovadores, nem a dos empreendedores, nem a dos mais dispostos ao trabalho. Será a dos que cultivaram com menos escrúpulo as melhores relações políticas.

Na série que precede este artigo examinei de perto o quadro da disputa pelas telecomunicações em Portugal e ex-colônias. Nenhum dos personagens envolvidos foge a esse figurino.

Não é só lá. Os oligarcas russos; Silvio Berlusconi, na Itália; Carlos Slim, no México; ou os nossos Sérgio Andrade e Carlos Jereissati, para ficarmos apenas nas criaturas deste governo, fizeram suas fortunas em negócios que são fruto de concessões do governo, nos quais as conexões políticas  são o fator decisivo de sucesso.

Em tudo se assemelham os lances que determinam a criação e o controle do gigante das telecomunicações brasileiro e do gigante das telecomunicações português. Em tudo se parecem os artífices dessa obra de cada lado do Atlântico e de cada lado do balcão governamental. Não houve criação, não houve inovação, não houve qualquer dose de risco envolvida no processo. No que foi necessário ousar foi na disposição de violar ou de manipular a lei. No que foi necessário superar a concorrência, foi na falta de escrúpulo. Aqui como lá, tendo os respectivos governos como sócios, “capitalistas de relacionamentos” notórios apenas se apropriaram de licenças para a facilitação, em regime de monopólio, do uso de  tecnologias desenvolvidas nos Estados Unidos no século passado em vastas extensões dos seus respectivos territórios nacionais. Aqui como lá, eles não disputam clientes; zelam por territórios exclusivos de caça e por sua possível ampliação. Aqui como lá, alimenta-se a expectativa de estender esse poder alem das fronteiras nacionais, aplicando a governos estrangeiros o único expediente “negocial” que funciona para satisfazer as ambições cortesãs.

No universo cortesão, ha um monopólio em cada setor da infra estrutura. E cada monopólio, se não é do governo, é cria de um governo. Com poucas exceções, é fácil traçar a linha direta de filiação entre cada nome da lista dos nossos bilionários e quase bilionários e os ditadores e presidentes que os “fizeram”.

Já no universo republicano, a linha “genealógica” dos bilionários leva diretamente às universidades. É de Stanford? É de Harvard? Sem nenhuma exceção, todos os bilionários da industria de tecnologia da informação, a arena onde se digladiam os maiores egos dos Estados Unidos, podem ser descritos como protótipos dos self made men: Bill Gates (Microsoft), Steve Jobs (Apple), Larry Page e Sergey Brin (Google), Mark Zukerberg (Facebook) têm em comum destacados currículos universitários e horas sem fim de esforço criativo, muitas vezes iniciado em precárias bancadas de obscuras garagens do subúrbio.

Não é só nessa industria. Uma pesquisa recente mostra que um em cada quatro bilionários do pais que se divorciou da Europa feudal sob a máxima “nenhum poder e nenhum dinheiro que não tenha sido fruto do mérito”, partiu do zero, seja qual for o campo de atividade envolvido. Na Alemanha, que tem a melhor marca entre os europeus, um em cada 10 bilionários cabem nessa descrição. No resto do mundo eles são exceções raríssimas…

Se ha algo de fascinante que “a rede do tamanho do mundo” (www), a mais revolucionária das resultantes da meritocracia americana, nos permite acompanhar, é o modo pelo qual os seus candidatos a gigante, tangidos por suas instituições, tratam de alimentar a mesma ganância que os europeus perseguem com a sua mumunha ancestral.

Ha quem pense hoje, depois do iPad na sequência do iPhone, que o jogo de Steve Jobs, longe de ser apenas o de se tornar um dos maiores desenhistas e fabricantes mundiais de gadgets eletrônicos altamente sofisticados e inovadores (coisa que ele também é), é se transformar numa rede de comunicações e de distribuição e venda de notícias, entretenimento e bens culturais de proporções no mínimo googlelianas.

A maior parte do que ele ganha hoje ainda vem das vendas de computadores, iPods, iPhones e iPads. Mas ha sinais claros de que o novo duto de faturamento logo superará o antigo. A ficha caiu com a fulminante caracterização do iPhone como a mais fantástica plataforma de vendas de aplicativos (software) que jamais existiu. Quatro bilhões de downloads já foram feitos e a caixa registradora continua girando em ritmo alucinante. Depois da musica, com o iTunes e o iPod, seria coincidência demais para não ser deliberado. O iPad chegou para confirmar tudo, cobrando uma taxazinha por cada livro, por cada revista, por cada jornal…

O iPad, dizem alguns críticos especializados, é a primeira máquina desenhada com a convergência de mídias em mente. Os computadores, feitos para a gente se debruçar em direção a eles, são muito pouco cômodos como plataformas de entretenimento. E a televisão é péssima para se surfar na web e para se passar e-mails. O iPad, com sua genial e simplérrima capa/bancada, serve para tudo isso e ainda é perfeito para você se afundar numa poltrona ou deitar na cama e ver um filme. E tudo sem que a Apple tenha gasto um tostão enterrando cabos  ou esticando fios. Ela conseguiu, enfim, o que os grandes portais tentaram e não conseguiram e o que as “teles” cortesãs ainda sonham obter.

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Qual foi o erro deles? Eles não fabricavam iPhones e iPads. A Apple produz combinações matadoras de hardware e software. E o resto vem por conseqüência. De qualquer maneira ela é, desde já, a única plataforma online que se provou capaz de cobrar com sucesso por conteúdos digitalizados.

Mas ha quem discorde. E as discussões são apaixonadas.

O Google trabalha focado no princípio das plataformas abertas e dos “conteúdos contribuídos” (feitos por contribuições espontâneas dos próprios usuários, cedidas ou roubadas) . Ao contrario de Jobs, que produz softs apenas para as suas máquinas, o Google aposta em programas abertos que podem ser usados em qualquer máquina. O seu sistema para telefones inteligentes, o Android (28% do mercado nos EUA), por exemplo, já ultrapassou as vendas do sistema OS do iPhone ( com 21% de share contra 36% do sistema usado no BlackBerry, ainda o campeão).Mas a Google vende apenas um soft que “motoriza” qualquer aparelho de qualquer fabricante enquanto o iPhone, com seu programa fechado é, por enquanto, uma plataforma imbatível de venda de aplicativos.

Sim, mas o soft do Google é aberto e vai ter desenvolvimentos num ritmo e numa extensão que só os mutirões são capazes de produzir enquanto as máquinas, como o iPhone ou o iPad, vão virar commodities reproduzidas ao redor do mundo, como aconteceu com os PCs no passado.

Mas, que ninguém se engane, o olho grande do Google foca o mesmo objetivo de controle monopolísticos de mercados atribuído a Jobs, mas pelo caminho da reprodução virtual das cidades, das ruas e das lojas que vai sendo acoplado ao seu sistema de mapas interativos, dando a cada comerciante e a cada consumidor ao redor do mundo a condição da ubiqüidade.

E o Windows? O Windows, ainda o rei dos escritórios, parece ter perdido definitivamente  a corrida dos telefones inteligentes. Mas esse jogo ainda não acabou…

Por aí vai a discussão.

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Se e quando resultar dessa disputa prejuízo alto demais para a platéia, pode-se sempre recorrer à força de um Estado que não participa diretamente do jogo, no qual a dependência do representante em relação ao representado é real, para aplainar as arestas. O fenômeno de concentração excessiva de um insumo de uso obrigatório como as telecomunicações numa economia moderna, como este que estamos assistindo hoje por aqui, aconteceu nos Estados Unidos ha perto de 40 anos atras. Em 1974 o Departamento de Justiça abriu um processo contra a AT&T por “práticas anti concorrenciais”. Julgada em 1982, a empresa foi forçada a abdicar de seus 22 monopólios regionais, finalmente consolidados em 7 Baby Bells regionais independentes, concorrendo entre si.

A diferença mais notável entre esses dois mundos é que o Estado fica fora da disputa das ambições republicanas – idênticas às cortesãs na sua natureza e, provavelmente, também nas suas inconfessáveis intenções ultimas – e intervém para moderá-las quando isso se faz necessário. Até esse momento, porém, o jogo é jogado dentro de regras claras e estáveis o bastante para o publico admiti-las como tal. E é isso que explica porque, lá, o jogo é acompanhado com um nível de vibração da platéia que aqui só se vê nos estádios. Há torcidas para PC e para Mac como aqui há torcidas para Corinthians e para São Paulo.

Já no mundo das ambições cortesãs, quando os contendores mostram a cara, sempre suja, é nas páginas policiais dos jornais. E é isso que alimenta o descrédito e o nojo da opinião publica contra uma disputa que, entre nós, é invariavelmente viciada.

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Fecha-se assim o círculo vicioso. O tanto que, lá, a vitória consagra, aqui a vitória compromete. É, quase sempre, um atestado de desonestidade. E é isso que arma a mão do Estado para “melar” a partida sempre que lhe convier. O publico, que é sempre o grande lesado no jogo das ambições cortesãs, estará sempre pronto a aplaudir quem se apresentar como  “xerife da ética” e vier “para acabar com a bandalheira” …  por excelência o discurso dos que vêm lá de baixo loucos para entrar nela.

Para as torcidas de lá, sempre sobram os iPhones, os iPads e as redes do tamanho do mundo com tudo que elas puxam a reboque como subproduto da perseguição de ambições individuais pelo caminho do mérito. É preciso inovar e inventar para ganhar esse jogo.

Entre nós, a inovação atrapalha. Ameaça as fronteiras de territórios privativos de caça ha muito estabelecidas. Os tempos mudaram e já não estamos mais queimando os inovadores em fogueiras monumentais em praças publicas. Hoje as cortes se contentam com o linchamento moral e a sabotagem  econômica dos críticos e dos inovadores.

E disso tudo resulta que enquanto “eles”, cheios de duvidas, perscrutam os confins do universo, recriam a vida com o DNA artificial e padecem as dores de serem humanos pairando acima da miséria material, nós perambulamos por este vale de lágrimas cheios de certezas, mergulhados na pobreza e  tomando “broncas” de chefes de quadrilhas que se aprazem em cagar regras para o mundo, a quem pagamos as tarifas e os impostos mais altos do planeta.

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(Depois desta, saio para uma semana de Amazônia, que ninguém é de ferro. Até…)

O novo canto da velha sereia

5 de janeiro de 2010 § 2 Comentários

Está aí, passados 36 anos, o lance que Alain Peyrefitte previu em 1973: a China acordou … e o mundo tremeu.*

O lado bom dessa história é mais visível do Brasil que de qualquer outro lugar do mundo. Um quarto da humanidade mantida à força fora do século XX e levada à miséria extrema solta-se de repente e, sem lei e sem ordem,  salta para o século XXI faminta de commodities, em busca do tempo perdido…

Benza deus!

Abram os bolsos e fechem os olhos (para a pirataria institucionalizada e para a brutalidade do regime) porque esta é uma oportunidade única e, da China para dentro, o problema é dos chineses…

Será mesmo?

Não é o que Lula está enxergando. E se existe alguém que tem faro para os grandes eventos da meteorologia política, é ele.

O vôo da economia chinesa se dá, como alguém lembrou na imprensa esta semana, “num contexto de desastrosa perda de autoridade” da receita pregada pela grande democracia ocidental. A crise financeira, que promete mantê-los amarrados a crescimentos medíocres por não poucos anos, abalou fortemente a reputação de competência dos Estados Unidos. E os desastres  do Iraque e do Afeganistão, alem de não contribuírem em nada para reconstituí-la, apontam para o valor relativo da hegemonia militar no novo contexto que se anuncia.

O mundo já enfrentou o poder do capital, em conluio ou não com o poder do estado, e tambem o poder do estado totalitário incapaz de performance econômica. Mas a nova besta que a China soltou em campo mistura tirania com prosperidade. O capitalismo de estado, este híbrido que junta o pior de dois mundos, tira de cena os corolários ate aqui obrigatórios das tiranias – o atraso econômico e a pobreza – que, mais que todos os exércitos e todos os sonhos idealistas, as condenavam a uma duração limitada no tempo.

É uma perda terrível, essa do monopólio da afluência!

“…existe no coração humano um gosto depravado pela igualdade – dizia Tocqueville –  que leva os fracos a querer atrair os fortes ao seu nível e que reduz os homens a preferir a igualdade na servidão à desigualdade na liberdade”.

Sempre foi essa a força sedutora da tirania. Explorado por todos os tiranos para se instalar no poder, ironicamente foi tambem esse “gosto depravado”, com o sentido invertido, que acabou com as grandes ditaduras do século XX, quando elas ainda eram incapazes de produzir prosperidade. Mais que qualquer outra coisa era a vontade de possuir e de desfrutar, como os do outro lado, que atraia os olhares dos tiranizados para alem do Muro…

Agora, tudo empurra numa só direção. Quantos, como o Brasil, se deixarão seduzir pelo autoritarismo que põe dinheiro no seu bolso? E o capitalismo democrático, poderá sobreviver nesse ambiente?

Aquele “mercado”, força de sustentação e regulação do capitalismo democrático, é uma frágil construção jurídica. Um pacto entre pessoas. Baseia-se na subordinação de todos aos mesmos custos, às mesmas oportunidades e às mesmas regras do jogo. É um subproduto do estado de direito e do império da lei. Ultimo grau de refinamento do estado nacional, foi criado para funcionar em águas interiores.

Soçobrou na primeira onda do grande oceano sem lei da economia global.

Quando a revolução tecnológica derrubou as fronteiras nacionais e o capitalismo com limites, dos mercados com regras, passou a enfrentar o capitalismo sem limites das empresas-estados em mercados sem regras; quando a mão de obra do primeiro mundo passou a competir com a mão de obra quase escrava dos últimos  mundos, a primeira vitima foi a legislação antitruste que impunha a moderação dos apetites no capitalismo democrático.

Crescer ou morrer, o grito de alarme do primeiro momento de pânico, deu início à corrida de volta à lei da selva.

E o jogo mudou de natureza.  Sob a lei do mais forte, a escalada foi vertiginosa. Os cacifes, agora, já são de proporções nacionais. Ninguém pode banca-los sem o concurso do estado.

O que se vai desenhando é um mundo de poucos senhores e muitos servos, onde os reis de cada bloco, espontaneamente ou arrastados, anabolizam empresas com os BNDES e os TARPs da vida, criam um feudo em cada setor da economia grande o bastante para tragar todos os concorrentes à sua volta, e os distribui à sua corte de “empresários de relacionamentos”. E o resto dos mortais se torna, para tudo (do emprego ao consumo), dependente deles…

Não ha recuo suave dessa nova realidade da competição global sem limites. A volta às fronteiras nacionais instalaria uma guerra comercial de proporções catastróficas. Impossível mantê-la fria. Se for para seguir para frente, o mundo terá de caminhar junto daqui por diante.

Não parece ser o fim. Soa mais como um recomeço da História.

Seria o primeiro capítulo de uma nova História da Comunidade Humana que teria de partir da sopa ralíssima da presente média mundial de desenvolvimento político resultante da diluição, num caldeirão único, de todas as experiências nacionais vividas até aqui.

Por quanto tempo teríamos de fervê-lo até que esse caldo geral apurasse o suficiente para voltar a ter a consistência alcançada pelos povos que estão na vanguarda do desenvolvimento político nesta reta final da infância da humanidade? Eles consentirão num recuo? Terão condições de evitá-lo ?

Quem viver, verá…

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O fim da Revolução Americana?

14 de setembro de 2009 § 1 comentário

Ao elevar à condição de ideologia, ou quase religião, o que deveria ser tratado com a objetividade e a clarividência que os reformistas da “Progressive Era” tiveram criando as leis anti-truste para manejar o ambiente econômico de modo a garantir a concorrência, Greenspan e todos os que o acompanharam nesse engano fatal alteraram a ecologia do sistema provocando a progressiva extinção do elemento que garantia a sustentabilidade da economia de mercado.

A competição sem limites leva aos monopólios e a ausencia de concorrência condiciona o sucesso à corrupção. Isso atinge mortalmente o fundamento essencial da Revolução Americana que é a justificação moral da diferença como consequência do mérito. E passa a justificar o que ela sempre combateu, que é a imposição da igualdade pela força.

monopolio

O americano foi o primeiro povo do mundo que conseguiu resolver satisfatoriamente o problema do controle do Estado. Mas isto os fez esquecer de como começou a história dessa conquista e hoje eles estão às voltas com centenas de Estados dentro do Estado, que é no que estão se transformando as grandes corporações desde que foi eliminado qualquer limite para a competição.

O efeito é inevitável: não havendo limites, por definição só ha um vencedor numa competição, o que, no campo econômico, leva forçosamente aos monopólios. E num mundo dominado por eles a força bruta substitui o esforço e o mérito como fator decisivo de sucesso. Isto faz dos monopólios um caldo de cultura tão propício à corrupção quanto as economias estatais, com o agravante de que contra esse tipo de contaminação o organismo institucional ainda não desenvolveu nenhum anti-corpo.

Foi irônica a trajetória que os trouxe ao presente impasse. Os americanos se tonaram o povo mais rico da Terra, longe do segundo colocado, porque têm nas mãos um equipamento institucional que lhes permite obrigar seus representantes a jogar mais a favor do que contra seus interesses e limitar a corrupção política e da administração publica num grau jamais alcançado por outro povo.

Conseguiram isso porque nunca perderam tempo, como os latinos, discutindo essa questão em termos morais. Trataram-na sempre com a mais crua objetividade. Não pretendem mudar a natureza humana. Apenas tentam maneja-la para direciona-la para um resultado socialmente positivo. Por isso cuidaram, no nivel institucional, de premiar as ações que se aproximam e sancionar as que se afastam desse objetivo, o que proporcionou a melhor combinação de liberdade e alfuência material jamais alcançada por uma sociedade humana.

roosevelt2

Theodore Roosevelt, que foi presidente no início do seculo XX, resumia o problema em termos precisos.“O importante não é haver corrupção. Corrupção é inerente à espécie humana”, admitia.“O que não se pode, é permitir que o corrupto exiba o seu sucesso. Isso é subversivo”.

Quem tem vivido o governo Lula não precisa de mais explicações sobre o valor dessa máxima…

Roosevelt, que foi o primeiro político norte-americano a empunhar a bandeira das reformas que já vinha ha algum tempo sendo agitada nas ruas, começou sua obra pondo limites à ação dos empresários que, nas ultimas décadas do século XIX, já tinham descoberto as vantagens da consolidação dos principais setores da economia, criando empresas gigantes, com enorme poder de corrupção que, com o concurso dos políticos que punham a seu serviço, esmagavam a concorrência e estrangulavam fornecedores e consumidores sem alternativa.

PRO 1A luta pelas reformas daquela que ficou conhecida como a Progressive Era nos Estados Unidos (o período entre o fim da Guerra de Sesseção, em 1865 e o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914) é uma das mais belas páginas da história da democracia moderna. Legislação anti-truste, controle do poder economico, cerceamento do poder de nomear, eleição de funcionários públicos, despartidarização das eleições municipais, eleições primárias, “recall”, “iniciative”, “referendum”, eleição de juízes, “recall” de sentenças judiciais…

Num proximo artigo, mostrarei com mais detalhe como eles conseguiram domesticar os seus políticos a ponto de obriga-los a jogar a favor de seus eleitores, coisa até hoje raríssima no cenário institucional mundial, e quais os elementos dessa construção que podem ser reproduzidos por quem quer que queira colher os mesmos benefícios que eles colheram. Hoje, limito-me a tratar do que me parece mais urgente, que é mostrar porque acho que eles correm o risco iminente de perder o que conquistaram.

É facil acostumar-se com a riqueza e a segurança. É facil esquecer o passado. Basta deixar que as gerações se sucedam tomando como garantido o que sempre foi precário e perdendo de vista a fonte de onde minavam os problemas que foram momentaneamente superados em função da luta de gerações anteriores.

Baixar a guarda é a maneira mais certa de tê-los de volta, quase sempre multiplicados.

Foi o que aconteceu nos Estados Unidos. Os americanos esqueceram de onde essa historia toda começou. Perderam a perspectiva da ameaça que se encerra na ausência de limites legais para aquilo que o dinheiro pode comprar. Abriram mão da concorrência como elemento central das economias de mercado, cuja preservação e fortalecimento era um dever do Estado e um direito do cidadão. Deixaram-se enredar no processo de derrubada da legislação anti-truste pelo qual a maior parte dos orgãos de imprensa,  que deveriam denunciá-lo, foi cooptada, nos lances descritos no artigo “A ameaça da imprensa corporate” , arquivado neste Vespeiro.

Hoje ha uma consciência crescente de que a queda dessa legislação, uma das pedras fundamentais em cima da qual se ergueu o edificio da democracia americana, põe em risco a construção como um todo. Mas a nova realidade continua sendo aceita como uma fatalidade, tão intrincado é o problema para fazer as coisas voltarem ao que eram antes ou se adaptarem a um modelo controlável.

O que foi que falhou

Quando, em março deste ano, um perplexo Allan Greenspan procurava entender o que tinha levado à grande crise financeira que ainda está por aí e não sairá de cena tão cedo, ele escrevia na imprensa internacional:

Allan Greenspan II“Toda a sofisticada matemática e os modelos computacionais que compunham o sistema de monitoramento de riscos do mercado financeiro se apoiavam, essencialmente, numa premissa central:  a de que ninguem poderia tomar medidas mais cuidadosas e eficientes contra o excesso de riscos nas aplicações do que os proprietários e os gestores das instituições  financeiras, os maiores interessados em evitar a inadimplencia. Durante gerações, essa premissa pareceu incontestável. Mas no verão de 2007, ela falhou”.

A perplexidade do ex-presidente do FED, o banco central americano, que não vira a crise chegar, representava a de toda uma parcela da humanidade.

Por que, afinal, teria falhado a premissa que, mais do que ponto de partida de modelos matemáticos e computacionais, era a pedra angular de toda uma ideologia, de uma determinada definição da essencia humana, de uma teoria política e de uma forma de governo de comprovada eficiência e indiscutíveis virtudes sociais?

Atrapalhado pelo golpe sofrido em suas crenças, o velho Greenspan rolou artigo abaixo , de perplexidade em perplexidade, sem atinar com uma resposta; sem atinar com o essencial (ver “We need a better cushion against risk” sessão De Outros Autores).

E o essencial, a meu ver, é que essa premissa era verdadeira — e continua sendo — desde que se esteja falando de empresas com donos disputando mercados em ambientes competitivos, o que não é mais o caso na esmagadora maioria das grandes corporações, americanas ou não, tanto as financeiras quanto todas as outras.

Sim, nada controla melhor a ganância do que a própria ganância.

BRAO_D~1Só alguem que apostou todas as suas fichas na busca da eficiencia e do lucro pode reagir com as necessárias rapidez, eficiência e criatividade para fazer frente às sucessivas manobras e invenções de alguem que apostou todas as suas fichas na busca da eficiência e do lucro para superar seus concorrentes. As instituições e os homens que as encarnam, distantes do universo da competição economica e limitados em suas iniciativas pelo formalismo que tem de prevalecer nos processos institucionais, jamais conseguirão reagir a eles com o mesmo conhecimento de causa, a mesma rapidez e a mesma eficiência. Normas legais, que são necessáriamente rigidas e levam tempo para ser construidas, podem, sempre, ser “by-passadas” por meio de simples artifícios formais ou pelo exercício da corrupção. Anular concorrentes com interesses iguais aos seus, perseguindo seus objetivos com armas identicas às suas, é coisa muito mais dificil…

Essas verdades tão exaustivamente comprovadas pela História, não mudaram.

Mas todo o resto, sim.

Ironicamente, foi o capitalismo que realizou o sonho da socialização da propriedade dos meios de produção. E o mecanismo para isso foram os mercados financeiros. As grandes corporações que vão monopolizando setores inteiros da economia mundial são empresas sem donos identificaveis. Hoje, os verdadeiros interessados em não correr riscos excessivos de que falava Greenspan, ou seja, os acionistas dessas corporações, têm, quando muito, representantes em seus conselhos de administração, com poderes  indiretos e muito limitados na fiscalização da gestão dos seus próprios bens. Ficam inteiramente à mercê dos mandos e desmandos de gestores profissionais cujos interesses, tipicamente de curto prazo, não coincidem com os interesses dos donos do dinheiro que eles movimentam.

O fenômeno é mundial.

E se nos Estados Unidos, onde 90% da população está no mercado de ações e onde ha muitos anos já se trata a discussão dos direitos dos acionistas minoritários como a versão atualizada da luta pelos direitos civis, os acionistas não têm nenhum controle sobre as empresas em que investem, como ficou provado nesta crise, imagine-se no resto do mundo onde os proprietários de qualquer coisa ou parcela de coiasa são uma pequena minoria e a legislação de proteção aos minoritários é ainda menos que incipiente.

O fim das diferenças

Ao elevar à condição de ideologia, ou quase religião, o que deveria ser tratado com a objetividade e a clarividência que os reformistas da “Progressive Era” tiveram, criando a legislação anti-truste com o objetivo de manejar o ambiente econômico para coibir  a concentração excessiva da propriedade, Greenspan e todos os que o acompanharam nesse engano fatal alteraram a ecologia do sistema provocando a progressiva extinção da concorrência, o elemento que garantia a sustentabilidade da economia de mercado.

Num ambiente dominado por monopólios tende a desaparecer a pressão por desempenho e inovação que resultava na vantagem competitiva que as empresas privadas tinham sobre as empresas estatais, acomodadas na ausência de competição e no controle do jogo regulatório. Hoje, cada vez mais, todos os monopólios, estatais ou privados, tendem a apelar para o mesmo tipo de recurso, por cima ou por baixo do pano. Vence o jogo não o mais ágil, o mais inovador, como antes, mas sim o mais bruto, o menos escrupuloso, o que estiver com os pés mais solidamente plantados dentro dos círculos que controlam os regulamentos.

Se o critério de seleção dos gestores ainda as diferencia, em tudo que se segue a esse momento estatais e privadas se assemelham cada vez mais. Nada se parece menos com práticas democráticas do que o radical “centralismo” em que se apoia a gestão empresarial, mesmo nas empresas que se orgulham de adotar o que hoje se denomina “melhores práticas de governança corporativa”.  Eis porque os países comunistas se desempenham tão brilhantemente no seu dinheiro 3novo papel de capitalistas-de-Estado.  Eis porque o staff das grandes corporações se parece cada vez mais, no seu comportamento onipotente, nos privilégios que se auto-atribui e em seu distanciamento do comum dos mortais, com os burocratas que manipulam os controles do Estado para colocá-lo a seu serviço.

Nem o presidente dos Estados Unidos da América, batendo o pé junto com o Congresso Nacional inteiro, conseguem fazer com que os gestores dos bancos e financeiras que estão recebendo socorro de emergencia com dinheiro publico deixem de se auto-atribuir, em plena crise, salários bilionários.

Lembra alguma coisa do que você sabe a respeito de Brasília e seus habitantes?

É este o corolário nefasto do processo em curso: ele atinge mortalmente o fundamento essencial da revolução americana que é a justificação moral da diferença como função do mérito.

Se o corrupto passa a poder exibir o seu sucesso (e, no caso, é pior que isso: eles estão conseguindoimpor o seu sucesso); se a diferença não se justifica mais pelo mérito mas se apoia no privilégio, quanto tempo demorará para que tambem lá, como no resto do mundo, comece a crescer o apelo da idéia de impor a igualdade pela força, que termina nos regimes totalitários ou na sua versão escrachada que é o Populismo Assistencialista que conhecemos tão bem?

Como deter esse processo?

dav x gol 2

É um problema sem resposta. A voragem monopolística é um processo que se auto-alimenta. Uma vez admitida a competição total, o resto vem sozinho.  É só questão de tempo. As empresas que, de crise em crise, vão dominando cada setor da economia no panorama global por meio do expediente de engolir suas antigas concorrentes, lidam, já hoje, com orçamentos muito maiores que os dos Estados Nacionais.

Um cruzamento da lista Forbes Global 2000 – Largest Public Companies com a listagem dos países por ordem de grandeza do Produto Nacional Bruto do Banco Mundial resulta no seguinte panorama:

valor dos

ativos ou PIB

envolvidos

corporações

com esta quantidade

de ativos

países

com PIB igual

ou superior

no mundo

nos EUA

PIB

> US$ 3 tri

1

0

4*

> US$ 2 tri

5

1

2**

> US$ 1 tri

19

6

5***

> US$ 500 bi

21

6

6

US$ 100 a 500 bi

146

37

30

US$ 50 a 100 bi

156

31

53

US$ 10 a 50 bi

876

269

42

US$ 1 a 10 bi

122

< US$ 1 bi

48

Fontes: Forbes Global 2000 – Largest Public Companies e Banco Mundial
*     UE (10,8); EUA (10,4); Ch (5,7); Jp (3,5)
**   Ind (2,6); Alem (2,1)
*** Fr (1,54); Ing (1,52); It (1,44); Rus (1,35); Br (1,34)

Quando o Estado e o poder econômico ainda atuavam em campos opostos, um moderando o outro, numeros dessa grandeza só se aplicavam a riquezas coletivas. E a manipulação de valores que pudessem vagamente se aproximar destes estava, em geral, restrita às autoridades nacionais.

A humanidade lutou durante milênios para só permitir o acesso a tanto poder e tanto dinheiro a pessoas eleitas pelo conjunto da sociedade e controladas por seus representantes, por sua vez fiscalizados por poderes independentes. Hoje, ao fim de toda essa epopeia, voltamos à estaca zero. Milhares de corporações espalhadas pelo mundo manipulam valores maiores que os produtos nacionais brutos da esmagadora maioria dos países e, com certeza, valores maiores que os orçamentos dos governos eleitos, que são apenas parcelas desses produtos nacionais brutos. E tudo sem nenhum tipo de fiscalização que de longe se assemelhe à que cerca os gestores do dinheiro publico nos Estados democráticos.

E, no entanto, os chamados “gestores profissionais” têm um poder de arbítrio tão grande quanto o de ditadores e praticamente não existem ferramentas capazes de colocá-los sob controle efetivo dos acionistas em nome de cujos interesses eles teoricamente atuam. São virtualmente onipotentes: fazem as leis e são encarregados de zelar pelo seu cumprimento; atuam e “fiscalizam” a propria atuação; contratam e demitem como querem; estabelecem os próprios salários e as condições para multiplicá-los.

Já o risco de sofrer consequencias por atos temerários vai se reduzindo à medida que os gigantes crescem. “Grandes demais para quebrar”, brandindo o risco, sem duvida real, de provocarem efeitos sistêmicos em toda a economia planetária, acabam recebendo ajuda de emergência de suas próprias vitimas, apavoradas com a possibilidade de que a falência de uma leve à falência de todas arrastando consigo seus meios de subsistência presentes e futuros, sempre que bate à porta a ressaca das orgias praticadas.

O mundo, portanto, é cada vez mais refem de um reduzido grupo de gestores goldmande empresas com poder de corrupção nada menos que devastador, que infiltrou o sistema produtivo com mecanismos financeiros que nem eles próprios são capazes de explicar mas que só eles podem vir a desmontar sem que o todo venha abaixo. Ou seja, amarraram-se uns aos outros, e todos ao sistema, de forma a se tornarem imprescindiveis ao seu funcionamento, deixando o caos como alternativa.

Que melhor ambiente do que este para se derramar os discursos bolivarianos ou para justificar a grande marcha atraz, rumo ao estatismo, que se inicia no Brasil? Com que argumentos defender a alternativa da qual os próprios inventores abriram mão? Como explicar à massa dos que não têm uma visão da evolução do processo, quais as alternativas àquilo que, de um lado e do outro, todos gostariam de descartar?

Os monopólios e a corrupção corporate são a UTI onde se reasgatou o estatismo da morte.

Não ha saídas fáceis

Escrevendo sobre a crise em janeiro de 2009 (ver “EUA não sairão da crise sozinhos” em De Outros Autores), o experiente Henry Kissinger foi dos poucos, senão o unico, que esboçou o quadro que se apresenta para o médio prazo. Mas, mesmo ele, não ousou colocar no papel, preto sobre branco, todas as provaveis consequências do dilema que desenhou:

kissinger“Há uma relação estreita entre uma crise que é financeira e outra que é política justamente porque, durante o período de exuberância econômica, abriu-se uma lacuna entre as organizações econômicas e políticas do mundo. (…) O colapso financeiro expôs a miragem (…) deixou evidente a ausência de instituições globais para amortecer o choque e inverter a tendência. (…) No fim das contas, os sistemas político e econômico só podem ser harmonizados de uma entre duas maneiras: criando um sistema regulatório político internacional com o mesmo alcance do mundo econômico; ou encolhendo as unidades econômicas para um tamanho manejável pelas estruturas políticas existentes (grifo meu), o que provavelmente conduzirá a um novo mercantilismo, talvez, de unidades regionais.  Um novo acordo global tipo Bretton Woods é, de longe, o resultado preferível”.

Ou seja, só é possivel  limitar o tamanho das corporações em nivel nacional. Só que estamos num mundo de economias comunicantes, que funcionam por canais fora do controle dos Estados nacionais.  Não ha, portanto, volta atras, a não ser em uma menos que improvável “ordem unida” planetária.

Assim, a que Kissiger chamou, eufemisticamente, de solução “preferivel” é a unica que resta. Mas acordos planetários num mundo em que não se consegue concordância nem entre irmãos, historicamente só têm sido conseguidos na sequência de grandes catástrofes. E mesmo estes são bastante precários.

Cabe registrar, ainda, que a dificuldade para a obtenção da afinação transnacional, transcultural e transreligiosa necessárias para a obtenção de um consenso como esse fica infinitamente multiplicada num mundo que passa por uma quebra radical do seu padrão de comunicação, fato que aumentou como nunca a dispersão e a generalizada desafinação dos conceitos.

Por fim, não se pode esquecer que ainda que fosse obtido o acordo com que sonha Kissinger, colocá-lo em prática exigiria a superação do problema nada desprezível de se disciplinar um processo onde o que impera é a corrupção de players com poder de fogo maior que a maioria dos tesouros nacionais com regras cujo cumprimento deverá ser fiscalizado pelos agentes do Estado, ainda mais cevados nela do que os atuais CEO’s et caterva.

A grande diferença entre a democracia americana e os regimes autoritários disfarçados de democracia que pululam pelo mundo, que se distinguem uns dos outros pelo grau do autoritarismo praticado mas não na essência, era que nos EUA a interferência do Estado, que historicamente nunca foi rejeitada por lá, muito ao contrário, era a mais limitada e indireta possível, o que não quer dizer que fosse menos incisiva. Tentar mudar de um sistema onde se limitava por cima o tamanho da propriedade, de modo a favorecer a concorrência, para uma tentativa de monitorar monopólios pela ação direta do legislador, equivale a sair de um sistema de manejo florestal para favorecer a colheita de determinados frutos naturalmete produzidos pela floresta para a tentativa de controlar diretamente as ações e interações de cada planta e cada animal da floresta. Ou seja, é a receita autoritária, sem tirar nem por…

Donde se conclui que abrir as portas do Inferno é a coisa mais fácil do mundo. E a mais difícil é cercar os demonios soltos, empurrá-los todos de volta para casa e trancar a porta de novo.

diabo-3

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