Aonde é que a coisa pega

14 de fevereiro de 2014 § Leave a comment

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A Comcast, maior empresa de TV paga e provimento de internet dos EUA, mandou oferta de US$ 45,2 bilhões para comprar a Time-Warner Cable, a segunda maior empresa do ramo naquele país que no início do século 20 levou a democracia para outro patamar e o desenvolvimento humano para alturas nunca antes sonhadas ao decidir que “nenhum dinheiro e nenhum poder que não seja fruto do merecimento”, a síntese da Revolução Americana, já não era o suficiente e que até quando fruto do mérito e alcançada inteiramente dentro das regras do jogo, era preciso haver um limite para o crescimento das empresas privadas ou não haveria jeito do cidadão e do consumidor não serem esmagados e da democracia sobreviver ao poder de corrupção desses monstros.

Para exigir o cumprimento desses limites sem misturar outros interesses com essa obrigação, o Estado foi afastado de toda e qualquer atividade econômica, reservando todas as suas forças para fiscalizar e manter a economia privada jogando dentro de regras iguais para todos e obrigando-a a dividir as propriedades que passassem do limite de ocupação de mercado sadio para a preservação da concorrência em benefício do consumidor

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A legislação antitruste e as ferramentas de democracia direta como a do voto distrital com recall, as leis de inciativa popular e os referendos instituídos pelo movimento pelas reformas da “Progressive Era” encerradas em 1914 que tornaram tudo isso possível foram uma revolução dentro da revolução.

Hoje, encurralado pela competição dos monopólios do capitalismo de Estado chinês e com empregos e salários emagrecendo assustadoramente, o povo que enfrentou e venceu J. P. Morgan, os Carnegie, os Rockefeller e os Vanderbilt juntos está apavorado, aplaude as reedições modernas dos “robber barons”, pedincha-lhes humildemente um emprego, e empurra o Estado de volta para os braços do Capital pra enfrentarem juntos a concorrência chinesa, enquanto todos se acusam uns aos outros pelo que não é culpa de nenhum deles.

É por isso que as duas companhias mais odiadas do setor mais odiado pelos consumidores dos Estados Unidos da América podem anunciar festivamente a sua intenção de somar as razões que as fazem tão odiadas, e pode ser que a coisa passe, apesar dos restos da legislação antitruste ainda andarem “em vigor” por lá, como mortos vivos que qualquer sentença judicial provisória derruba.

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Neste vasto mundo vaso-comunicante criado pela internet, abarrotado com bilhões de miseráveis filhos do socialismo real dispostos a trabalhar por qualquer migalha e sem nenhum direito, é assim: se tem um monopólio num setor competitivo na China, tem de ter um nos EUA também. E se passar a ter nos EUA tem de ser replicado no resto do mundo, só que aí com o dinheiro dos BNDES da vida diretamente na veia porque capital privado forte pra coisas desse calibre só mesmo onde o Estado tinha sido domado um dia.

Eis aí o caldo de cultura onde chafurdam as criaturas da classe do PT e as bactérias e protozoários que lhe compõem a ecologia e que engordam em poder e em truculência pelo mundo afora, rindo dos debates dos otários de cujo pânico eles se alimentam.

Já o consumidor, o cidadão, essas criaturas da democracia, estes cada vez mais, coitados, ó…

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“Shale gas” e pré-sal: o mundo é pequeno para os dois

21 de março de 2013 § 48 Comments

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Duas tecnologias novas desenvolvidas recentemente nos Estados Unidos estão revertendo todos os prognósticos de rápida alteração no equilíbrio de forças econômico do planeta e podem afetar seriamente o sonho brasileiro de achar um corte de caminho para o clube dos grandes do mundo.

A primeira envolve injetar uma mistura de água, areia e produtos químicos em estruturas rochosas que contêm microporos cheios de gás e petróleo de modo a liberar os hidrocarbonetos aprisionados nelas. A segunda torna muito mais fácil chegar às mais finas camadas dessas rochas enterradas a baixas profundidades, além de permitir a perfuração de diversos poços a partir de um único ponto de partida.

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Essas duas novas técnicas de extração do que por lá se chama de “shale gas” estão provocando uma verdadeira explosão nos números de produção de gás e petróleo dos Estados Unidos e barateando de tal forma os custos de diversas industrias intensivas em energia que todos os prognósticos sobre a “crise sistêmica” da economia americana, que estaria irremediavelmente condenada a ser engolida por economias emergentes, estão sendo refeitos.

Os entornos de Pittsburgh que, nos últimos anos, pareciam um cemitério de velhas siderúrgicas desativadas, assistem hoje a uma corrida frenética de capitais americanos, russos, franceses e até chineses para voltar a fabricar aço com a energia mais barata do mundo.

O Maciço Marcellus, uma formação geológica de rochas arenosas impregnadas de gás e óleo se estende por quase 1.000 quilômetros ao longo das montanhas Apalaches do estado de Nova York até o de West Virgínia. Somente no ano passado o governo da Pennsylvania emitiu 2.484 permissões para a perfuração desse novo tipo de poço de petróleo. Os poços da porção do Maciço Marcellus nesse estado produziram 895 bilhões de pés cúbicos de gás em 2012, partindo de 435 bilhões no ano anterior. Em 2008 essa produção era igual a zero.

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Isso representou uma injeção de US$ 14 bilhões na economia da Pennsylvania no ano passado (dados da Economist).

Arkansas, Louisiana, Oklahoma e Texas viveram explosões semelhantes. A produção de gás e petróleo extraído dessas rochas quadruplicou nos Estados Unidos entre 2007 e 2010 e acrescentou 20% à produção nacional de petróleo nos últimos cinco anos. Técnicos da British Petroleum afirmam que a produção deve continuar crescendo à base de 5,3% ao ano até 2030 e que, já no fim deste ano os Estados Unidos ultrapassarão a Rússia e a Arábia Saudita e se tornarão o maior produtor de petróleo e gás do mundo.

O preço do gás nessa região caiu de US$ 13 o BTU em 2008 para US$ 1 a 2 no ano passado, o segundo preço mais baixo do mundo depois do Canadá. As fabricas americanas consumidoras de gás estão pagando 1/3 do que pagam as alemãs e ¼ do que pagam as coreanas.

Gás barato também se traduz em eletricidade barata. Em 2011 as fábricas americanas nessas regiões já estavam pagando metade do que custa a energia para suas concorrentes no Chile ou no México e ¼ do que se paga na Itália.

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Não é só a indústria de metalurgia que se beneficia com isso. Além de todas as demais, as de uso intensivo de energia, como as de plásticos, fertilizantes e outras também se tornam imbatíveis. E, além disso, os Estados Unidos têm a maior rede do mundo de oleodutos e gasodutos, o que permite espalhar facilmente essa riqueza a preço baixo por todo o país.

A Costa do Golfo, onde existe outro maciço dessas rochas, também vive um forte renascimento industrial. Fabricas instaladas no Chile estão sendo desmontadas e transportadas inteiras para a Louisiana. A Bridgestone, a Continental e a Michelin, revertendo um longo processo de declínio, estão reativando e aumentando suas fábricas de pneus na Carolina do Sul. Tudo gira em torno do início da exploração de novas jazidas de rochas porosas como as da Bacia Permian, na Louisiana, a de Eagle Ford Shale, no Texas, a da Formação Baken em Dakota do Norte e a Mississipi Lime, que atravessa o subsolo de Oklahoma até o Kansas.

O efeito da redução das importações de petróleo no déficit comercial americano foi de US$ 72 bilhões no ano passado, ou 10% do déficit total. Esse “petróleo não convencional” gerou US$ 238 bilhões em atividades econômicas diretas, 1,7 milhão empregos e US$ 62 bilhões em impostos só no ano passado, sem contar os efeitos indiretos decorrentes da redução nos preços da eletricidade, do gás e dos produtos químicos.

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Analistas do Citigroup e do UBS calculam que só essa indústria vai gerar um crescimento de 0,5% do PIB norte-americano por ano nos próximos anos além de ensejar um renascimento das industrias de manufaturas nos Estados Unidos. As decisões recém anunciadas da GE de trazer de volta da China e do México para o Kentucky a produção de sua linha branca, e da Lenovo, o gigante chinês de hardware que comprou a linha de computadores pessoais da IBM, de produzi-los na Carolina do Norte são apontados como os primeiros passos desse processo de reversão.

O efeito dessa inovação nos preços internacionais do petróleo ainda são pequenos. Mas os Estados Unidos, que foram os maiores importadores do mundo e rapidamente se tornarão autosuficientes, não são o único lugar do planeta onde existe esse tipo de formação rochosa que, lá, praticamente aflora do chão.

De modo que o Brasil, que já está gastando por conta de reservas de petróleo enterradas a seis ou sete quilômetros debaixo do fundo do oceano, cuja extração começa a se tornar economicamente palatável com o barril acima de US$ 100 no mercado internacional, deveria por as barbas de molho e pensar melhor antes de jogar dinheiro fora.

Pois, por tudo que já se sabe por enquanto, o mundo ainda é pequeno demais para o “shale gas” e o pré-sal ao mesmo tempo.

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Os riquixás de Nova York

21 de junho de 2012 § Leave a comment

Tenho uma amiga que vive dizendo que, no Brasil, a rua da praia tem altíssima rotatividade.

O pessoal dos apartamentos de frente para o mar vive sendo substituído. Bobeou, sai de lá e acaba caindo, rapidinho, lá na rua de trás, colada no morro“.

É uma regra universal. Mais cedo ou mais tarde acontece com pessoas, países, impérios, culturas e até deuses.

É a vontade de olhar longe e pegar aquele ventinho da praia, aliás, que faz a maioria das pessoas se disporem a sofrer tudo que é preciso sofrer para trabalhar e “ir pra frente”.

Em 1982, quando a China finalmente se abriu, fiz uma longa viagem por lá como repórter d’O Estado de S. Paulo. E nos primeiros dias, antes que eu me rebelasse e conseguisse mudar ordens vindas de Pequim, enfiaram-me doses maciças de “museus da revolução”, enaltecendo como obras quase divinas os delírios megalomaníacos através dos quais o ego superalimentado de Mao Tsetung afundou aquele terço da humanidade no terror, na miséria e na fome.

Um dos símbolos onipresentes da era de iniquidades que ele lavou naquele sangue todo eram os riquixás. As fotos daquelas charretezinhas puxadas a gente, com um chinezinho esquálido no lugar do cavalo e um “vosselência” refestelado atrás estavam penduradas em lugar de destaque em todos esses “museus da revolução”, como a anunciar o que viria e a justificar a violência com que veio.

Nos Estados Unidos não existe esse negócio latino de “trabalho mixo”. Trabalho é trabalho e qualquer um, por mais humilde que seja, costuma ser desempenhado com competência até pelos filhos dos bilhonários em férias. Mas carregar os outros nas costas é diferente. Não se admitia isso por aqui, nem para quem se dispusesse a carregar nem, muito menos, para quem podia pagar pra ser carregado…

Passado o terremoto de 2008, porém, uma charge tornou-se o símbolo dos novos tempos que o mundo estava enfrentando. Nela via-se um Tio Sam depauperado e magrelo puxando um riquixá onde se refestelava um gordo capitalista chinês.

Foi o primeiro sinal. Mas charge é charge. Vive de exagerar a realidade.

Ontem, no meio da maior onda de calor deste verão novaiorquino, saio de um teatro da Broadway em plena tarde – varando um ar quase irrespirável que se podia cortar com uma faca – e vejo-me cercado por…implorantes puxadores de riquixás que, com a competência marketeira do centro mundial do capitalismo, fechavam, com suas charretes puxadas a bicicleta, os espaços entre os carros estacionados, de tal forma que foi preciso andar um bom trecho rua abaixo até conseguir uma brecha para conseguir atravessa-la.

Tá cheio de americano puxando riquixá em Nova York, enquanto os bonus dos resgatados de Wall Street continuam bombando na casa dos bilhões!

Quanto tempo isso aguenta antes que apareça um Mao Tsetung ianque?

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