“Programa de índio”

31 de agosto de 2012 § 5 Comentários

Você é você e a sua circunstância. A sua história, o cenário onde ela se deu, a sua cultura.

Você é esse todo e se lhe arrancarem qualquer parte dele é você que estará sendo mutilado. Tanto quanto se lhe arrancassem um pedaço do corpo.

E ser humano nenhum se deixa despedaçar em silêncio e sem luta.

A natureza conservada é, por excelência, o locus da ausência do bem e do mal. Nela as coisa se dão ou deixam de se dar porque assim é. E essa é a lição mais importante que ela tem para nos ensinar.

Já no Brasil a coisa é bem mais “sofisticada”. Aqui, o que sobra de natureza conservada é, para a maioria de nós, uma coleção de imagens de televisão sublinhada pelas judiciosas considerações de algum “especialista” sobre as suas preferências pessoais em torno das ideias do bem e do mal.

Ninguém viveu lá. Ninguém nunca foi lá. Nenhum pedaço da sua vida, da sua história, da história de alguém que você conheça se deu lá.

Aquilo não faz parte das suas memórias nem das memórias das suas memórias.

Não faz parte da sua cultura. Não é seu.

Conforme o peixe que lhe tenha sido vendido na escola, na TV, nas fontes costumeiras de pensamentos “politicamente aceitáveis”, você – no vai da valsa ou até com paixão pela ideia – repete que é preciso “preservar o verde”, os bichinhos que você nunca viu, os matos que você nunca cheirou.

O seu “Avatar” particular, enfim, tão irreal e impalpável quanto o de James Cameron. Uma mera coleção de vagas palavras, ideias e imagens.

Quem, no Brasil, jamais pôs os pés na Flona (de “Floresta Nacional”) do Jamanxin? Ou pisou as Florestas Nacionais de Itaituba 1 e 2?

Quem, desta nossa massa de urbanóides, jamais ouviu falar que elas existem?

Algum amigo seu que, na adolescência, tenha ido acampar por lá com a primeira namorada? Que tenha passado uns dias de comer e beber o que elas têm para oferecer? Que, quase criança ainda, tenha feito ali a primeira caçada da vida na companhia do avô? Que tenha fisgado num dos rios que as cortam o seu primeiro peixe e nunca mais deixado de voltar a esse santuário das suas memórias? Que, tendo-o amado tanto e, mais tarde, ficado rico, tivesse doado sua fortuna para estender a outros o privilégio de também poder plantar as suas em cenários assim?

Nada!

Nos nossos “parques nacionais” é proibida a entrada. Ninguém conhece. Ninguém nunca foi. São ficções que só existem em discursos autoritários e em imagens da televisão.

A função do governo, aqui, é esvaziá-los de brasileiros e vedar-lhes a entrada neles.

Agora pergunte se existe algum americano de mais de cinco anos de idade que nunca tenha posto os pés no Parque Nacional de Yellowstone ou nas Florestas Nacionais de Sequóias da Califórnia onde cada árvore tem um nome de gente como nas confrarias de velhos conhecidos. Que nunca tenha acampado num deles, ainda que fosse só com os colegas de escola porque frequentar fisicamente a natureza, palpá-la com as mãos e o nariz, aprender a viver nela e dela é matéria tão obrigatória quanto inglês e matemática.

Pergunte a um europeu de qualquer quadrante se ele não conhece, não comeu e não dormiu todas as suas montanhas, todas as suas árvores, todos os seus frutos, todos os seus animais selvagens.

A função do governo, em cada um desses países, é levar todo cidadão para dentro dos parques; garantir os meios para que cada um deles possa usa-los.

“Educação ambiental” é isso: frequentar a natureza.

Nós falamos de natureza para pontilhar discursos sobre o bem e o mal.

Eles tratam de vivê-la.

Por isso eles reagem às eventuais ameaças contra esses pedaços do que são como quem defende um membro ou um órgão vital do próprio corpo.

Por isso nós abrimos mão dos nossos com a mesma emoção passageira de quem vê um filme de final infeliz e os deixamos ir com a mesma facilidade de quem muda de canal.

Esta semana li no Estadão mais um daqueles relatórios sobre o curso inexorável da devastação do Brasil.

Dezessete áreas protegidas estão dentro da zona de influência de projetos hidrelétricos e outros de natureza “estratégica” do PAC, filho da Dilma. Aproveitando o cheirinho de sangue no ar, os tribunais fervem de novas ações tentando arrancar mais um pedaço de alguma área indígena ou floresta nacional reservadas. Só por conta disso, mais 33 mil km2 do Brasil de sempre estão sob ameaças diretas…

E, veja bem, os nossos Yellowstones, as nossas florestas de sequóias ha muito já se foram. No país sem daniel boones; no país onde o escravo – índio ou negro – é que caçava para o branco ou empurrava o mato “ameaçador” sempre um pouco mais para longe, as araucárias, os ipês, os jequitibás de mil anos não são mais que lenha.

Programa de índio“.

É nesta terra de ninguém que afundam-se para sempre as Sete Quedas da vida sem que se ouça um único suspiro mais prolongado.

O que sobra em pé por aqui é aquilo que ninguém quis. O que até então ainda não se podia derrubar e por isso foi dado aos índios. Mas agora, com as novas estradas, a mineração, a tecnologia agrícola, as mega-hidrelétricas (dinossauros a quem a corrupção prolonga a vida), tudo pode seguir, como sempre, virando dinheiro fácil.

Venho de umas férias na amazônia boliviana.

Na Bolívia, como se sabe, é índio que sabe o que é bom pra índio. E, sendo assim, eles resolveram abrir a sua maior reserva preservada – aquela onde moram e de que vivem desde que o mundo é mundo – à exploração de pesca esportiva vendida e controlada por eles próprios, dentro dos padrões praticados em países que vêm sustentando assim as suas reservas naturais e o cenário dos idílios dos seus habitantes por séculos a fio.

Além do que de semelhante se oferece nesse programa ao que há de parecido com ele ao redor do mundo, está a oportunidade tão valiosa quanto é rara de observar o jeito como o indígena lida com esses ambientes com todas as valiosas lições que isso encerra a respeito do que somos, de onde viemos e para onde vamos, e a chance de se viver a experiência de darem-se culturas a conhecer dando saltos no tempo, incorporando uma da outra o que cada uma tem de mais aproveitável.

É tão bom que tem anos de fila na porta, apesar do caro que é!

No Brasil, onde quem sabe o que é bom pra índio é “especialista”, dir-se-á que tudo isso é politicamente incorreto; que tais praticas “contaminarão a pureza da cultura indígena”; que os ianques estão é de olho no que é nosso; que como “os outros” não sabem usar a natureza o jeito é proibir que o façam e blá, blá, blá…

Frequentar e usar a natureza no Brasil é contra a lei. Torna-se, assim, um privilégio só de quem vive de pisoteá-la (à lei). Aqui, em meio à aguda escassez planetária de florestas em pé, a natureza só tem valor econômico deitada.

Está condenada à morte.

Nós temos muito que aprender. Até com a Bolívia…

Porque sou um “maldito caçador”

29 de fevereiro de 2012 § 17 Comentários

28/2 (na página “Quem somos“)

Fernão, bom dia!

Gostaria que fizesse uma matéria sobre os caçadores malditos (acredito que deva ser contra a caça, claro). Hj recebi um e mail com esse artigo que achei muito interessante: “Caçador bom é caçador morto.

Imaginei que poderia desenvolver sua opinião sobre o assunto e que poderia dar um ótimo post…

Abraços! Jeanne

27/2 (na página “Quem somos“)

Estou adorando seu blog (…) Vc realmente segue a proposta que acredito em relação ao jornalismo: deve ser instrumento de reformas (…) um jornalismo decente.

Abraços e parabéns pelas postagens! Jeanne

27/2 (no post “E o Oscar dos Direitos Humanos vai para…“)

Parabéns pela abordagem excelente!

Mais triste ainda constatar que a maioria das pessoas (costumo chamá-las de “normais”) age como esses famosos…dinheiro, a bosta (perdão, mas é preciso) que move o mundo para o abismo…

***

Olá, Jeanne.

Que ótima oportunidade você me dá!

Nada poderia ser mais eloquente para provar meu ponto – o de que, na vida real, não existe branco nem preto puros, só tons de cinza – do que os agrados que você me fez nos últimos dois dias postos ao lado desses tiros disparados contra os caçadores dos quais, desde já, reivindico o quinhão que me cabe.

Não, Jeanne, eu não sou contra a caça. Na verdade eu sou um dos seus “malditos caçadores”.

E agora, como é que fica?

Dou-lhe um tempo para respirar…

Se passou adiante do parágrafo anterior você já faz parte da minoria em extinção dos que insistem em preservar a autonomia da razão nestes tempos de “mais do mesmo, AGORA!, JÁ! e em quantidades googleianas” em que vivemos.

A ausência de contraditório nessa infinidade de guetos onde só convivem “iguais”, uns reforçando as certezas dos outros, em que a internet se vai transformando ameaça banir do dicionário a palavra TOLERÂNCIA em cima da qual foi construído o edifício da democracia.

Está cada vez mais difícil pensar com autonomia, sobretudo a respeito dos temas que os patrulheiros cercam daquele velho cheirinho de fogueira de queimar herege para desencorajar dissidentes, como este que o título “Caçador bom é caçador morto” resume tão bem.

Não me entenda mal, Jeanne. Eu compreendo o seu ponto.

Sobre o tipo de comércio de que fala a matéria que você indicou, estamos de pleno acordo, menos por um detalhe: aquilo não é caça, é só mais uma maneira covarde e criminosa de correr atrás da “bosta que move o mundo para o abismo“.

Àparte isso, você, eu e todos os demais seres vivos somos caçadores e somos caça.

Na realidade urbana de hoje é fácil perder isso de vista.

Você compra a sua carne no supermercado, empacotadinha e sem sangue; o couro do seu sapato e a pele que estofa o banco do seu carro já chega a você bem acabada e cheirosa; você não estava lá quando o fogo e os “correntões” arrasaram de uma vez para sempre os milhões de hectares de cerrado, de Mata Atlântica, de Hileia Amazônica com suas perdizes, lobos guarás, araras, onças pintadas e macucos, para abrir espaço para o algodão indiano de que são feitas as camisetas das campanhas pelos direitos dos animais ou a soja asiática dos menus vegetarianos; ninguém te lembrou a tempo de que, do segundo filho em diante, você se tornaria um agente direto da usurpação de habitats dos demais seres vivos do planeta…

Mas a cada um desses atos, e mesmo apenas ao ser, ao estar, ao procriar, ao consumir e ao descartar; ao disputar espaço neste mundo, enfim, você esta caçando e sendo caçada como sempre foi e como sempre será.

Não sei de que maneira você procura deus, Jeanne, mas a minha é esta: despir-me da minha circunstância para, revivendo ritualmente a experiência comum a todos os homens desde o nosso primeiro ancestral, submeter-me integralmente À Lei para procurar o que existe de permanente em todos nós; entregar-me docilmente à minha essência e caçar até ser caçado (torço pelos grandes predadores de preferência aos microscópicos no que diz respeito à disposição da minha própria carcaça); viver na e da natureza até ser capaz de entender a morte como o que é, reciclagem e não trágica derrota da nossa pretensão à onipotência.

Coisas que só se aprende caçando…

Compreendo perfeitamente o estranhamento que essas idéias possam causar a todos quantos terceirizaram a sua necessidade de caçar para permanecer vivos e até o horror com que esses fatos de todas as vidas em todos os tempos chegam a quem tem vivido como real a vida editada por terceiros que se vive hoje.

Mas rechaço os julgamentos morais em torno da necessidade de comer e do modo com que a natureza aparelhou todos os seres vivos para satisfazê-la; essa prática que nos trouxe a todos até aqui e cujo domínio obrigou o bicho homem a desenvolver as habilidades que hoje chamamos de inteligência.

A ausência de uma cultura de caça entre as elites brasileiras é geralmente tida como “progressista”. Mas é justamente o contrário. Trata-se de um aleijão sociológico. E dos mais feios.

A figura de Daniel Boone, que vivia de e para a natureza, em perfeita simbiose com ela, está totalmente ausente da galeria clássica de “tipos brasileiros” porque desde que o primeiro português pôs os pés nestas terras até o finalzinho do século 19 (fomos o último país do Ocidente a acabar com ela) é o escravo, índio ou negro, quem caça para o branco comer e quem desmata sob as ordens dele para empurrar para mais longe do canavial esse “limite da civilização”; esse esconderijo hostil dos “bugres”, das “feras”, dos “miasmas” e das “febres”.

O brasileiro da praia, o amigo do rei que olhava sempre para Leste, nunca caçou.

Continua assim. Caçar segue sendo “programa de índio”…

Essa estranha suposição de que viemos de algum tipo de fábrica ascéptica isenta das leis que regem a vida neste planeta que nós teríamos o poder de revogar por decreto tem sido um desastre para os nossos biomas.

Sendo as sociedades humanas economicamente dirigidas e perdiz o único produto da natureza que vale mais que boi ou soja, a proibição da caça resulta em que ambientes conservados e seus produtos naturais não tenham valor econômico no Brasil, o que explica porque eles estão desaparecendo na velocidade vertiginosa em que estão para abrir espaço para os únicos produtos da natureza que nossos ambientalistas permitem que se explore em detrimento da perdiz: soja e boi.

Não vai sobrar nenhuma nem para exemplo.

É simples assim, Jeanne…

E não se iluda. A questão do uso da terra não se resolve com polícia como temos provado todos os dias nos últimos 500 anos. Um único cochilo basta para que se destrua o que a natureza leva milênios para construir. Já a da caça predatória, sim, especialmente se houver um interesse econômico na conservação.  O resto do mundo está aí de prova.

Mas temo que esta nossa ilha cercada de língua portuguesa por todos os lados acorde mais tarde para essa realidade do que seria bom para a saúde do nosso planetazinho azul.

O espesso analfabetismo ambiental brasileiro tem raízes profundas. É mais uma das terríveis cicatrizes da escravatura que carregamos.

E não ha solução fácil. Educação ambiental é uma cultura. É fruto de uma vivência que não se pode adquirir à distância nem por revelação iluminada de terceiros. Só frequentando a natureza.

Impedido de conviver com ela o Brasil tem a floresta, ainda hoje, como a humanidade tinha a natureza antes do advento da ciência: como um pastiche confuso de verdades reveladas; como o mero suporte de uma religião.

Já passou da hora de permitir que a ciência ocupe nesse campo o lugar do preconceito. E em matéria de educação ambiental, Jeanne, a caça, escoimada de suas perversões, é o curso de doutorado.

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