O Brasil em excelente companhia

22 de julho de 2014 § 13 Comentários

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Os 298 homens, mulheres e crianças mortos por um míssil russo disparado contra o Boeing 777-200 de passageiros da Malaysian Airlines na Ucrânia estavam arrumando as malas para embarcar no fatídico vôo MH17 quando a presidente Dilma Rousseff assinou, ao lado de Vladimir Putin, a declaração conjunta da 16a Reunião de Cupula dos BRICS, em Brasilia, afirmando que “Somos reconhecidos por nossa atuação autônoma no plano internacional em favor de um mundo mais justo, mais próspero e pacífico”.

Menos de quatro meses antes desta honesta declaração Vladimir Putin, sem mais aquela, tinha mandado os seus “black blocs” – tropas do exército nacional russo devidamente mascaradas e sem identificação mas conduzindo tanques e portando armamento pesado – invadir e tomar a Criméia, parte do território da Ucrânia, outro dos ex-anexados à “Cortina de Ferro” soviética que, para prevenir recidivas do vizinho “entrão“, preparava-se para aderir à União Européia.

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Desde então, nas palavras do secretário de Estado norte-americano John Kerry, ele “vem apoiando, abastecendo, encorajando, armando e treinando” os supostos “guerrilheiros separatistas” ucranianos que querem tomar mais um pedaço daquele país para anexá-lo à Russia que, 24 horas após a saída de Putin de Brasilia, derrubaram o avião malaio e seus 298 passageiros com um ou mais disparos de mísseis Buk fornecidos por Moscou.

Enquanto os corpos despedaçados das vítimas dos aliados de Putin despencavam dos céus da Ucrânia, dona Dilma recebia, como hóspede especial da Granja do Torto, uma das residências oficiais da Presidência da República, ninguém menos que Raul Castro, da dinastia dos proprietários daquela ilha cheia dos “prisioneiros comuns” a quem Lula nega uma palavra de apoio humanitário que seja mesmo quando, minados pela tuberculose, estão morrendo em greves de fome.

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Castro chegou um dia depois da partida de Putin para participar da Reunião de Cupula Brasil-China e Líderes Latino-americanos e do Caribe do Itamaraty que pretende articular as relações econômicas dos próceres do “excesso de democracia” bolivarianos do continente com outro campeão mundial dos direitos humanos, o chinês Xi Jimping, interessado em “ampliar a presença comercial e política da China nas Américas Central e do Sul e no Caribe” que, no jargão desse pessoal, resume-se a Cuba.

Não cobro de Dilma que anteponha ideologia a interesses comerciais nem que confunda governantes com os povos que eles supostamente representam. Como representante de um país ela tem de se relacionar com todos, ou ao menos com todos os que estiverem dentro dos limites da decência humanitária.

Mas é precisamente isso que ela não faz. São estes que ela exclui por razões alheias, tanto às de Estado, quanto às de pragmatismo comercial.

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Não é por acaso que estiveram representados em Brasilia e privando da intimidade e das homenagens especiais da presidente do Brasil apenas e tão somente representantes das diversas etapas de desenvolvimento da “hiperdemocracia” que o PT declara todos os dias que pretende impor ao país.

O ex-chefe da polícia política soviética que, desde 1999 quando se tornou primeio-ministro pela primeira vez, vem governando a Russia diretamente ou por interpostos “postes” escalados para substituí-lo entre mandatos com métodos semelhantes aos da máfia, como de resto eram os adotados pela KGB, ostenta em seu currículo, multiplicado por milhões, todos os feitos de um delegado Fleury, o antigo chefe do Doi-Codi onde Dilma passou dias memoráveis.

Devidamente repaginado para os tempos do capitalismo de Estado selvagem e sem fronteiras, ele já se tem servido de diversos dos ingredientes que o PT inclui em seu programa oficial.

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Na sua Russia não existe imprensa nem muito menos televisão sem “controle”; blogueiros são obrigados a se registrar no Ministério das Comunicações com quer o tio Franklin; sites são fechados por publicar comentários como este que você está lendo; pessoas são presas por protestar contra o regime; as antigas ONGs estão restritas aos atuais “Gongos”, da sigla em inglês para “Government Organized Non Governmental Organization”, exatamente equivalentes aos “movimentos sociais” com os quais o PT quer dividir, com exclusividade, o governo do Brasil segundo reza o Decreto 8.243, ainda vigente; os “campeões nacionais” dos setores básicos e/ou estratégicos da economia são criados pelo governo e dependem dele para sobreviver, monopólios estes de cuja boa vontade, por sua vez, dependem todos os outros empreendedores e trabalhadores do país, seja para vender-lhes sua produção, seja para comprar-lhes insumos para os seus produtos, seja para dar-lhes o emprego sem os quais todos eles podem acabar condenados à morte econômica.

China's President Xi Jinping and Brazil's President Dilma Rousseff attend the official photo session for the meeting of China and CELAC at Itamaraty Palace in Brasilia

Quanto aos genocidas e psicopatas do mundo sentados em tronos, fardados ou não, de Bashar Al Assad, o envenenador, aos mais pitorescos trogloditas da África e da Ásia, ele, com as prerrogativas de um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, dá o mesmo tratamento que o PT reserva a essa mesma grei: tapinhas nas costas e posição fechada contra qualquer boicote, represália ou ação militar que lhes tolha a sede de sangue de modo a que matem até o último dos seus “oposicionistas” ou anexem o último dos seus cobiçados “satélites”, tudo sempre em nome da democracia e da paz.

Para os demais reservam as leis que não acatam…

O Brasil poderá alegar tudo menos que não sabia com quem estava lidando, portanto, se voltar a eleger o PT em outubro, fato que certamente resultaria em que ninguém mais pudesse ser eleito por muitos e muitos anos nestas terras, exatamente como acontece nas de todos os convidados preferenciais da Granja do Torto e cercanias nestas ultimas trágicas semanas.

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O que são os BRICS?

14 de julho de 2014 § 2 Comentários

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Mirian Leitão procurava, no Globo de domingo, definir o que são os BRICS, cujos presidentes estão aí, reunidos com dona Dilma.

A primeira definição que lembrou foi a do embaixador Marcos Azambuja que diz que os BRICS são “uma tribo que só tem caciques“. Fez, então, a mesma pergunta para o embaixador Jose Alfredo Graça Lima, nosso representante nos contatos com esse grupo, que não soube responder afirmativamente; preferiu dizer o que os BRICS não são e mencionou uma lista de coisas vagas.

A definição de Azambuja carrega mais significados do que parece à primeira vista. Na verdade é uma síntese perfeita da realidade.

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Na sua extensa lista de “nãos” Graça Lima não se lembrou do mais definidor entre eles, que é o que mais aproxima os BRICS uns dos outros: nenhum dos países membros do grupo é uma meritocracia. São todos Estados que se encontram a distâncias variadas da democracia, mas estão todos longe dela.

O que eles têm em comum — embora em dosagens diferenciadas — é recusar a abordagem da economia e do comércio exterior exclusivamente por critérios objetivos. Em todos eles o que realmente vale é a vontade dos caciques, que tratam com igual dose de casuismo voluntarista — ou por razões alegadamente ideológicas ou por outras piores — tanto os seus próprios produtores e empreendedores quanto os seus parceiros comerciais.

Uma palavra de Vladimir Putin, Xi Jiping, Jacob Zuma, Dilma Rousseff ou Narenda Modi (o novato do grupo e meio diferentão de seus pares) vale mais do que tudo o que está escrito, seja na Declaração Universal dos Direitos Humanos, seja nos contratos que assinam, seja nas leis e nas constituições vigentes nos seus próprios países.

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Isso naturalmente tem um custo pesado para suas economias, que se traduz nos handicaps sociais do costume. Os donos desses poderes ilimitados não admitem, entretanto, essa relação de causa e efeito. Por isso têm de procurar “culpados” pelas mazelas crônicas que os seus povos sofrem para pagar essa conta fora de suas fronteiras.

Eis porque, mais do que tratar de facilitar o comércio entre eles, as reuniões dos BRICS concentram-se em atacar os acordos comerciais e, especialmente, as instituições das democracias com que concorrem — onde, sim, a lei vale mais que a vontade do cacique da hora (porque não os ha perpétuos) — e os organismos economicos multilaterais atuam segundo regras pre definidas que estão acima da vontade ou das conveniências eleitorais de momento de seus líderes. São eles que têm de se adaptar aos fatos e não os fatos a eles.

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A segurança jurídica e regulatória é o único elemento essencial ao desenvolvimento econômico. Se isto estiver garantido, o empreendedor saberá se adaptar a tudo o mais, inclusive às diferenças entre diferentes sistemas estáveis.

Mas a insegurança jurídica e a instabilidade das regras do jogo são mortais.

No dia em que regras economicas estáveis passarem a prevalecer nos BRICS, porém, terá sido porque o regime de caciquia de que fala Azambuja, e os sistemas de privilégio alimentados por esse voluntarismo tão caro que sustenta esses caciques no poder, acrescento eu, terão sido removidos para a lata de lixo da História.

Desenvolvimento econômico sustentável e caciquia são coisas que não podem conviver uma com a outra. Quando parece o contrário é porque ha um forte elemento distorsivo — excesso de mão de obra barata ou de disponibilidade de alguma commodity essencial, como petróleo, minérios ou bens da agricultura em abundância — compensando com vantagens o handicap incontornável da prevalência da caciquia.

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