Utopias cibernéticas e outras ilusões de noiva

6 de agosto de 2012 § Deixe um comentário

Em plena era do “mundo em rede“, enquanto os arautos da utopia global saúdam o Terceiro Milênio como o portal de um novo tempo de liberdade e transparência, o futuro visível da humanidade começa a ser decidido numa reunião secreta de 9 pessoas de uma entidade que não se pauta por nenhuma regra conhecida ou publicada dentro de um quarteirão murado de um longínquo balneário no litoral chinês.

É lá que será decidida a sucessão dentro do órgão máximo de decisão da China e, em função dela, a velocidade em que passará a andar a claudicante economia mundial.

Se ha uma ilustração poderosa das contradições e ilusões que o rompimento de novas fronteiras tecnológicas põe em campo, esta é das mais eloquentes.

As minorias ilustradas e “conectadas” que, em diferentes países da região, protagonizaram a Primavera Árabe estão sentindo na carne o amargo despertar da ilusão vivida ha um ano e meio de que a graça alcançada de “poder falar” que lhes coube como efeito colateral do milagre das novas tecnologias, bastaria para transformar minorias em maiorias ou para igualar às suas, tomadas de culturas exóticas, as expectativas e horizontes sedimentados por milênios de isolamento e servidão das massas miseráveis dos seus compatriotas que agora ameaçam empurrar os países “libertados” de ditaduras laicas para ditaduras religiosas.

Assim com o resto do mundo.

As novas tecnologias tornaram-no menor. Ficou mais difícil manter o isolamento.

Mas o que não estava suficientemente percebido é que era à numericamente insignificante minoria politicamente civilizada – ou quase – que esse isolamento favorecia, e não o contrário.

Tudo ficou mais perto, sim, mas como sempre primeiro para os tubarões.

E aí está o mundo do trabalho com direitos, com proteção social, com tribunais; aí está o mundo que respeita minorias, põe a lei acima da força e tem a liberdade como um valor indiscutível, desarvorado, em pânico com a dissolução das suas conquistas no grande oceano dos sem nada, dos que trabalham por migalhas debaixo de pau e agradecem aos céus por isso, predando seus mercados, transformando seus direitos em luxos insustentáveis, arrastando para baixo os que sonhavam que bastaria abrir as comportas para que todos viessem para cima.

Beidaihe, o balneário preferido da nomenklatura chinesa, posto em verdadeiro estado de sítio para que nunca se chegue a saber como nem porque foram tomadas as decisões que vierem a ser anunciadas ao fim desse misterioso evento, tem sido o retiro de verão de gerações sucessivas dos poderosos da nova dinastia que tomou a China a partir de 1949.

A cidade em torno do quarteirão murado de três quilômetros a beira-mar, feito versão moderna da Cidade Proibida dos imperadores em Pequim, está paralisada desde sexta-feira quando chegaram em seus carros pretos de janelas escuras, os membros quase desconhecidos do Comitê Central do Politburo do Partido Comunista Chinês para começar a discutir a sucessão dos nove membros do órgão que tem poder de vida e morte sobre 1/5 da população da Terra e de regular a velocidade daquela que, com a unificação global dos mercados, se tornou o motor de uma economia mundial por isso mesmo em crise.

À distância – e com tanta precisão quanto a que se podia esperar dos oráculos do passado ancestral – os jornalistas mais bem equipados do mundo, sem wi-fi, tentam captar os sinais cifrados que os ajudem a antecipar o que poderá sair de trás daqueles muros.

Teoricamente todos os membros da liderança do Partido Comunista Chinês são eleitos pelos membros do Comitê Central“, lembram estudiosos do labirinto chinês citados pela imprensa inglesa, “mas na verdade o sistema funciona muito mais de cima para baixo do que o contrário, mesmo nesse círculo restrito. O secretário geral do partido ainda tem força para impor a maior parte das suas decisões“.

E, sendo assim, a tendência darwiniana é, salvo acidentes de percurso, que ele garanta a perpetuação da sua própria genética política.

A expectativa é, portanto, a de que prevaleçam as escolhas do premier Hu Jintao, tido como um “liberal” pelos padrões chineses, expectativa esta que se sustenta em um único acontecimento, ou num acontecimento e meio, de acordo com os mais otimistas.

Foram eles o expurgo, em maio passado, de um membro do comitê central, Bo Xilai, tido como um “linha dura” acusado de ensaiar namoros com as massas em vez de conchavos com seus pares para subir na hierarquia do partido e, mais recentemente, a nomeação de outro conhecido “liberal” para o mais alto cargo da hierarquia militar, onde se abriga a ala mais forte da resistência à continuação da “ocidentalização” da economia chinesa, “ocidentalização” esta que, como o mundo sabe melhor hoje, é mais de fachada que de fato.

Se tudo der certo pouco mudará, é pelo que se torce mais do que o que se sabe aqui fora.

Mas os sinais que vêm de dentro da China são de que é preciso haver mudanças, mas ninguém sabe bem quais, nem como promovê-las sem que o circo pegue fogo.

De certo mesmo, nesta nova era da “economia do conhecimento“, restam-nos os sinais de que o que antes levava cem anos para acontecer, agora leva menos de 10. Fica por decidir se tal multiplicação de velocidade se dará no sentido ascendente ou descendente. Ou, se quisermos ser otimistas, quanto ainda teremos de descer antes que a orientação geral do todo vire para cima de novo.

Como a China é governada

23 de março de 2012 § Deixe um comentário

A harmonia no Comitê Central durou até começar a corrida pela sucessão

Tradução do original The threat to the post-Mao consensus, de David Pilling, escrito para o Financial Times

O último imperador da China foi Mao Tsetung. Uma das maiores conquistas de Deng Xiaoping depois da morte de Mao foi conseguir livrar o sistema da figura de um chefe todo poderoso, da figura carismática em torno da qual tudo girava. O Mandato Divino morreu em 1976 e esta é uma das principais razões pelas quais os sistemas políticos pré e pós maoísta não tem quase nada em comum a não ser o fato de ambos se dizerem comunistas.

Deng, o arquiteto das reformas e da abertura chinesas, era poderoso, sem duvida, mas de um modo menos quixotesco que Mao. E ele era tão cioso dos perigos do culto à personalidade que nunca admitiu que fossem exibidos retratos ou bustos com a sua efígie.

Jiang Zemin, que emergiu como sucessor de Deng no início dos anos 90, tinha menos poder que ele. E o atual líder, o robótico Hu Jintao, é mais fraco que os dois. O expurgo do carisma como elemento constitutivo do poder na China estava consumado.

Até que Bo Xilai aparecesse em cena…

A China pós-Mao é governada por um coletivo para o qual ingressa-se pelo mérito, e que decide tudo por consenso. Esse consenso é negociado entre os titulares do Comitê de nove membros que é a mais alta instância de poder e paira acima do Politburo de 25 membros do qual Bo Xilai ainda faz parte. Por baixo dessa estrutura estão o Partido, o Exército de Libertação Popular e vários outros braços da burocracia comunista.

Até a opinião pública tem o seu lugar nessa estrutura de poder. A  cúpula do Partido Comunista é muito sensível às críticas que, hoje em dia, são veiculadas principalmente no ciberespaço, sejam elas relativas à corrupção, à poluição, à incompetência ou à desigualdade. Às vezes o partido esmaga as dissidências, especialmente quando tendem a desafiar a sua própria legitimidade. Mas outras vezes – como na revolta contra a instalação de uma indústria petroquímica em Dalian ou no episódio do desastre de trem em Wenzhou – ele pode ser surpreendentemente reativo à indignação popular.

A estrutura do moderno Estado chinês é bem parecida com a burocracia do antigo sistema imperial que era regulada por um sistema meritocrático de exames periódicos. Na versão atual, os quadros do partido lutam anos, quando não décadas, para chegar às posições mais altas, tendo de passar pelas mais desafiadoras funções administrativas e políticas.

Wang Yang (rival de Bo Xilai na disputa por um lugar no Comitê Central), que começou sua carreira numa fábrica de processamento de alimentos, conseguiu entrar para a Juventude Comunista, passou depois para o bureau de esportes da província de Anhui e foi subindo na estrutura local do partido. Hoje, depois de várias posições e experiências diferentes, tornou-se secretário da seção de Guangdong do PCC e está apto a concorrer por uma cadeira do Comitê Central.

Um sistema desse rigor é capaz de produzir líderes de grande competência, do tipo destes que, apesar de todos os seus erros, conseguiram levar a economia chinesa a um crescimento espetacular ao longo de 30 anos. Mas esse sistema tecnocrático de consenso está agora sob pressão. E as ameaças partem tanto de fora quanto de dentro do partido.

Bo Xilai, que até a semana passada era secretário do partido em Chongqing, é o melhor exemplo das ameaças que vêm de dentro do partido. E foi por isso que ele teve de sair. Bo também veio das camadas mais baixas da hierarquia comunista, apesar do fato dele ser um dos “príncipes”, filho de um dos oito “imortais” da geração revolucionária de Mao. Ele foi conquistando posições sucessivas em Dalian, Liaoning e Chongqing, de onde planejava saltar para o Comitê Central.

Seu maior crime, postas de lado as acusações de brutalidade e corrupção, é que boa parte do seu poder deriva da sua própria popularidade e não da força do partido. Com seus hinos ao comunismo e slogans populistas ele começou a ficar parecido demais com o estilo carismático de Mao.

Esse estilo veio cheio dos ecos da “tragédia histórica da Revolução Cultural“, segundo as palavras do discurso do premier Wen Jiaobao que selou a sorte de Bo. Foi o caso de Bo que obrigou o partido a levantar aquilo que Joe Huntsman, ex-embaixador dos EUA em Pequim, chama de “Cortina de Veludo” por trás da qual se trava a luta que o partido quer esconder sob a fachada das suas “decisões por unanimidade”.

Existem outros desafios ao consenso dentro do aparato do partido que é grande e complexo demais para falar com uma só voz.  Em 2010, por exemplo, alguns elementos poderosos dentro do sistema, incluindo ex-generais, resolveram jogar com mão pesada no Mar da China. E, com isso, anos de uma “diplomacia de sorrisos” desenhada para convencer os vizinhos asiáticos de que o crescimento da China não era uma ameaça foram perdidos. O partido trabalhou o ano passado inteiro tentando reparar os danos.

E ha ainda as pressões externas. Conforme a classe média urbana vai se estabelecendo e se acostumando com o conforto começam a se multiplicar as suas críticas e exigências que vão desde o fechamento de usinas nucleares até as campanhas contra funcionários específicos. Até mesmo nas cidades pequenas, especialmente nas províncias de Wukan e Guangdong, o povo tem desafiado a corrupção do partido.

São apenas alguns dos desafios que o partido tem pela frente no momento em que trata de negociar uma sucessão que só acontece de 10 em 10 anos e empreender uma mudança de rumo nunca antes tentada de uma economia baseada nos investimentos estatais para uma economia baseada no consumo interno. O crime de Bo Xilai foi expor o caráter ilusório da união perfeita que o partido sempre tenta mostrar, exatamente nesse momento tão delicado.

Um artigo recente de Xi Jinping, o candidato com mais chance de substituir Hu Jintao como presidente, reafirma a necessidade de que o partido reine absoluto sobre o sistema. Sem mencionar Bo Xilai, Xi exorta os membros da cúpula do partido a “não jogar para a plateia” nem “procurar fama e fortuna“. Em vez disso, frisava, “as políticas devem ser decididas em consonância com a sabedoria coletiva e seguindo todos os rituais apropriados“.

Fora daí, é o caos“.

China: moderados vencem 1º round da sucessão

15 de março de 2012 § 1 comentário

A ala moderada do Partido Comunista Chinês (PCC) ganhou a primeira batalha da sucessão de sete dos nove membros do Politburo marcada para acontecer este ano.

Bo Xilai (foto), secretário do PCC da província de Chongqing, que despontava como o mais radical dos pretendentes ao mais alto cargo de poder na China foi defenestrado ontem assim que a seção anual de 10 dias do Parlamento chinês foi encerrada.

O expurgo decidido pelo Comitê Central do PCC foi anunciado em uma nota de uma única linha pela agência de notícias do governo, Xinhua, que não deixou claro se ele está preso ou não.

Poucas horas antes o primeiro ministro Wen Jiaobao que, junto com o presidente Hu Jintao e outros cinco membros do Politburo,  deve deixar esta que é a mais alta instância de poder na China no final deste ano, tinha feito criticas diretas a Bo Xilai em uma inusitada conferência de imprensa televisionada com a presença de jornalistas chineses e estrangeiros.

O caso é emblemático da barra pesada que é a política nesta China que todo o Ocidente trata de igual ($$) para igual ($$) e o governo Lula considera “uma plena economia de mercado”.

Bo Xilai é filho de Bo Yibo, ex-vice-primeiro-ministro e veterano da Longa Marcha de Mao Tsetung, que iniciou a revolução comunista chinesa e, desde 2009, vinha acenando com o “Modelo de Chongking“, uma versão nostálgica e brutalmente violenta da Revolução Cultural maoísta temperada com novos molhos populistas de grande sucesso entre as massas mais pobres daquela província.

Acusando-os de “atividade mafiosa”, ele prendia os empreendedores privados de Chongqing, submetia-os a tortura e cobrava pesadas “multas” para libertar os mais ricos entre eles, usando o dinheiro para financiar políticas assistencialistas. Parentes e amigos que se dispusessem a testemunhar a favor dos prisioneiros também eram presos e torturados.

Chongqing reeditou, de 2009 até ontem, os tempos do terror maoísta com milhares de pessoas enfiadas em “prisões secretas”, seções de tortura, sentenças de morte, execração pública dos “chefes das máfias” e o mais do costume.

Mas o principal alvo dessa “cruzada contra os ricos” era Wang Yang, o antecessor de Bo no comando da seção de Chongqing do PCC e seu principal rival na disputa por um assento no Politburo. Todos os “empresários” atingidos tinham feito sua fortuna no governo do rival, cujo chefe de polícia Bo mandou executar em julho de 2010.

Seu grande erro foi voltar-se contra o seu próprio chefe de polícia, Wang Lijun, conhecido como “Robocop” ou “Crazy Wang”, um homem sanguinário que tinha mania com armas pesadas e carros esportivos e que, “nas horas vagas, dedicava-se a fazer autópsias” e gabava-se de “ter inventado um método super eficiente de retirar órgãos de prisioneiros executados para transplantes”.

Não se sabe exatamente por que – “tsu si gou peng” (“quando o cachorro não serve mais para caçar coelhos é ele que vai para a panela“), dizem os chineses – Bo e “Crazy Wang” se desentenderam e o chefe achou por bem queimar aquele arquivo vivo das barbaridades que tinha perpetrado em Chongqing.

Wang porem fugiu a tempo para o consulado americano da cidade vizinha e pediu asilo no mês passado. 24 horas depois saiu do consulado e foi preso por autoridades ligadas ao governo central “para investigação”.

A China está numa encruzilhada“, dizia ha poucas semanas Jiang Weiping, veterano jornalista chinês exilado em Toronto. “Ou bem ela parte para uma reforma política e se moderniza, ou cai numa nova revolução cultural como quer Bo Xilai. Se ele vencer será um desastre para o país e para o mundo“.

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