Por um fio!

3 de maio de 2017 § 9 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 3/5/2017

A era das manifestações sem povo e contra o povo vai chegando melancolicamente ao fim.

Só em Brasilia, onde o marajalato ameaçado de desmame não tem contra quem impor-se à força foram dispensadas as barricadas que, no resto do país, ilustraram com perfeição a nossa “luta de classes” pré-Queda do Muro: contribuídos x contribuintes; aposentados integrais x aposentados pela metade; barrantes x barrados; sindicalistas x trabalhadores. Foi uma desolação a tal “greve geral”. O dinheiro do imposto sindical ainda compra sindicalistas mas, definitivamente, não compra mais a massa dos compulsoriamente sindicalizados.

É uma situação única na História essa nossa. A “jabuticaba” das “jabuticabas”. Um lado ainda tenta mas já não cola. O outro lado só não cola porque não tenta.

Até o Congresso Nacional, que abriga os mais sensiveis narizes da raça às mais leves oscilações do vento, registrou oficialmente a virada nas votações da noite de 27/4. Falta ainda a confirmação por tres votações do Senado e da Camara neste país em que nem o passado é estável, é verdade, mas a virada moral, a rendição argumentativa, já foi votada e assinada. É um golpe de morte na essência da “privilegiatura” a queda do foro especial para 35 mil dos “pares da corte” pouco mais de um ano depois de ter sido o nosso “rei” oficialmente declarado submetido “a deus”, significando a prevalência dos fatos sobre as suas olímpicas “narrativas”, e “à lei” pela Operação Lava Jato e pelo STF.  Isso e mais uma reforma trabalhista que avançou muito além do cosmético de sempre e, ainda, o “desdentamento” da Lei de Abuso de Autoridade literalmente imposto pela opinião pública à cafajestocracia que começa a ingressar no território do passado, definitivamente não é pouca coisa para um país indigente de comemorações como este andava.

A alegoria reacionária encenada no plenário pelos beneficiários diretos do peleguismo e do trabalhismo achacador afastados das tetas quase centenárias não deixou dúvida quanto à certeza deles próprios de estarem sendo empurrados para fora da História do Brasil. Foi a primeira brecha no dique do amestramento pelo estado das instâncias básicas de representação da sociedade que, começando com o imposto sindical de Getulio Vargas, petrificou-se com o Fundo Partidário da Constituição de 88 e chegou ao paroxismo com o financiamento público de Organizações Não Governamentais Organizadas pelo Governo do “lulismo” que fechou o país à democracia representativa, fez explodir a corrupção e pos o trabalho em vias de extinção em todo o território nacional.

Não existe força no mundo que possa constranger uma Câmara de Deputados, um Senado da Republica e um Supremo Tribunal Federal com o retrospecto e o pedigree dos nossos a fazerem o que o povo realmente não quisesse que eles fizessem só porque assim lhes tivesse determinado um governo provisório desprovido de qualquer sombra de charme e sem a chancela das urnas, como querem nos fazer crer alguns dos mais notórios falsários do “horário gratuito”. Por mais que soneguem à massa as informações que realmente importam, o repudio ao marajalato esta posto. Só falta quem, no governo ou fora dele, nos tres ou no 4º Poder, se disponha a puxar a fila indicando ao Brasil um caminho prático que lhe permita dar o chacoalhão que o país está louco para dar na árvore da qual pende essa fruta podre. O inimigo já reconhece na pessoa de Temer, aliás, a mão que quer arranca-lo da teta. É a unica glória do presidente interino e ele ja esta pagando o preço de te-la. Mas o outro lado das barricadas não o enxerga como o instrumento da virada, muito mais que pelo seu passado, por este presente no qual ele hesita em se lhe oferecer como tal.

A falha de comunicação do governo esta em dirigir-se à “2a classe” que não recusa, ainda que não aplauda, as reformas que sabe necessárias, para repetir-lhe o que ela ja está doloridíssima de saber: que se elas não forem feitas o futuro é o presente; viramos todos um imenso Rio de Janeiro. Como também não é absolutamente o caso de explicar à “privilegiatura” como ela está matando o Brasil porque ela sabe exatamente o peso que tem neste desastre – conforme fica diariamente demonstrado pelo fato de seus próceres não perderem tempo argumentando suas razões, tratam somente de criar miragens para desviar a atenção dos fatos – o que o governo tem de fazer é expor à minúcia o que eles tentam esconder, qual seja, a relação direta de causa e efeito entre esses privilégios e a miséria que custa sustentá-los.

Se exibir exaustivamente o gráfico e os personagens arquetípicos da “distribuição da renda” no universo da previdência comparando a 1a com a 2a classe e, dentro da 1a classe, os “barnabés” com os “marajás”, o “sistema” já cai de podre. Mas se, junto com isso, mostrar com os respectivos custos os jatinhos e os carros de luxo ao lado dos trens de subúrbio; as mordomias ao lado dos barracos; as escolas na Inglaterra pagas aos filhos dos “marajás” pelos pais das escolas das balas perdidas, os “auxílios” mil isentos com o imposto sem correção sobre os salários quase mínimos, os planos de saude eternos ao lado dos hospitais do horror; se expuser tudo isso ao lado das falcatruas em série tipo Bolsa Pesca em Brasilia, os milhões de Benefícios de Progressão Continuada pagos a gente na flor da idade dispensada de exame médico; os 9 milhões de aposentadorias do setor rural quando só ha 6 milhões de pessoas em idade de se aposentar no campo segundo o Censo; se o “dream team” mostrar, enfim, na ponta do lápis, que diferença tudo isso faria descontado do sacrifício extra que está pedindo aos aposentados de R$ 1,6 reais, aí sim a “pelegada” toda ia ficar sabendo o que é uma MANIFESTAÇÃO DE MASSA e não demorava nem cinco minutos para que uma verdadeira reforma do Brasil, com a da Previdência dentro, fosse aprovada por unanimidade no Congresso Nacional.

O que fazer depois do grito

30 de março de 2016 § 18 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 30/3/2016

Grito da Independência“; “Proclamação da Republica“; “Abaixo a ditadura”!; “Fora Collor”; “Fora Corruptos“! Até aí nós sempre conseguimos chegar. O problema tem sido o que fazer em seguida.

Criar uma consciência política“; parir com discursos “uma consciência cidadã“; esperar que desça do céu mais “honestidade na politica“; tudo isso não passa de reza. Não existe a hipotese de fazer “a” reforma politica ou mesmo “uma” reforma politica (ou tributária, ou judicial, ou eleitoral, ou…). É ilusão acreditar que coisas como essas possam ser “resolvidas” de uma vez para sempre e por “alguém” além de nós mesmos.

A politica – a arte de organizar a vida em sociedade – é jogo para ser jogado por todos e conforme vier a bola. “Falta de cultura de participação” não é causa, é efeito da doença política latina e brasileira. Participação política só vira “cultura” mediante o incentivo do efeito; só se estabelece onde participar realmente muda o resultado do jogo. Fora daí cai-se no conformismo e nas explosões esporádicas de ódio revolucionário.

No fim das contas não ha nada de tão sofisticado assim neste nosso embate. Não é de modelos econômicos que se trata. Nunca foi. Não ha projetos antogônicos em disputa nem no país, nem no mundo. Joaquim Levy ou não Joaquim Levy foi um dilema exclusivo do PT. Ninguém de fora interferiu. Por cima da corrupção e da incompetência que se vê o que está em jogo é o mesmo de todo o sempre: dinheiro ganho no mole; a força viciante do privilégio e o poder quase divino que rende distribuí-los.

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Isenção de impostos, lucro sem risco, o pódio via BNDES. Mais de 12 “bolsas familia” foram distribuídas aos “empresários” do “capitalismo de compadrio” que se instalou. Emprego garantido pela eternidade, aumentos de salário sem entrega de resultado, aposentadoria de rei e “hereditária”. Só os 980 mil aposentados e pensionistas do governo federal (ponha 25 estados e 5.570 municipios de molho) geram um déficit na Previdência de quase R$ 93 bilhões por ano, mais do que custam todos os 32,7 milhões de aposentados e pensionistas do resto do Brasil inteiro. Como deter a corrupção se o estado continuar tendo a prerrogativa de distribuir (ou vender) “bens” desse valor a quem bem entender?

Um país em pane de instrumentos, sem noção do tamanho do buraco em que se meteu, segue recusando-se a encarar as fontes das suas contas apocalípticas. E, no entanto, era de alertar ou não o país para a realidade e agir antes da eleição que se tratava. Era de abrir ou não o precedente de cortar tais privilégios que Joaquim Levy tratou com Dilma. Continua sendo essa a grande questão. Mas só o que há são expedientes para salvar privilégios e comprar cumplicidades e votos que garantam a eterna delícia de viver de e para a distribuição de dinheiro descolado de trabalho.

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Agrava tudo o isolamento de Brasília, essa nossa “Versalhes” que mantem toda a corte, jornalistas inclusive, irresistivelmente atraída pelos “brioches” da luta pelo poder e alheia à luta da multidão pelo “pão” de cada dia. Mas não é propriamente uma novidade. A civilização é a presença da policia. O homem será o lobo do homem sempre que puder se-lo impunemente, seja onde for, seja sob que carga cultural for. A Alemanha foi de Bach ao Holocausto essencialmente porque o Holocausto foi liberado pela polícia. Steve Jobs, o Leonardo da Vinci cibernético, foi da reinvenção da vida como ela era à exploração da miséria na China apenas porque a globalização lhe permitiu produzir para os Estados Unidos fora do alcance da polícia dos Estados Unidos. O Brasil mergulhou de cabeça na corrupção e na mentira porque o governo liberou geral a corrupção e a mentira.

Com ou sem PT, o remendo que se conseguir dar ao desastre que aí está será não mais que um remendo. A emergência é inimiga da perfeição. É preciso mudar tudo, sim. Mas terá de ser por partes. Não existe a “bala de prata” que mate o bicho de uma vez para sempre porque democracia não é um destino ao qual se possa finalmente chegar; democracia é um manual de normas de navegação para uma viagem que não termina nunca e que cada um tem o direito de fazer na direção e na velocidade que achar melhor desde que não pise nos calos dos outros. Mas existe, sim, a possibilidade de transformar reforma permanente, por ensaio e erro e ajustes sucessivos como elas têm de ser num mundo em constante mudança, na essência do sistema como é próprio das democracias, tambem ditas “sociedades abertas“.

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A promoção da meritocracia, que impõe a busca da igualdade de oportunidade e para a qual o privilégio e a corrupção são as únicas alternativas, só entra no setor público se entrar antes na política. A impunidade só acaba se acabar para o primeiro da fila. Nos sistemas representativos em regime de maioria sob o império da lei, manda quem tem a última palavra na formulação das leis e na construção das instituições. Voto distrital com recall é a tecnologia que tira dos políticos e transfere para o povo a última palavra em tudo que afeta a vida em sociedade; que faz a participação de cada um na política fazer toda a diferença; que põe a permanência no emprego de qualquer político na dependência de fazer a reforma que seu eleitor quiser na hora que ele quiser; que os submete ao mesmo regime de incentivos e penalidades a que estamos submetidos todos nós aqui fora; que põe Brasília dançando para a mesma música que o Brasil … e que faz tudo isso sem deixar poder excessivo na mão de ninguém.

Desde 2013 o Brasil vem ensaiando nas ruas a conquista da sua maioridade. Mas não tem conseguido definir um horizonte que lhe permita estabilizar esses ensaios num vôo de longo curso e com rumo definido. Para sonhar com um Brasil institucionalizado onde caiba a vitória do bem, conquistar o direito à última palavra sobre o nosso próprio destino é a única coisa adulta a fazer.

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NO POST ABAIXO DESTE, TUDO SOBRE VOTO DISTRITAL COM RECALL

A crise dentro da crise

16 de julho de 2015 § 26 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 16 de julho de 2015

O Homo brasiliensis tem vivido dias de intensa salivação em torno da expectativa de vacância do poder, o que levou a uma sucessão de ajustes dentro do “ajuste” que logo degeneraram em um arremêdo de campanha eleitoral em circuito fechado que, neste país indigente de repertório político e propostas concretas de reforma institucional, traduz-se no mesmo torneio de golpes baixos que levou à instalação desta crise.

A ofensiva de Dilma para “defender o mandato” apoia-se cada vez mais em expedientes idênticos aos utilizados na ofensiva para conquistar o mandato que, por sua vez, reproduzem-se com sinal invertido nos atos de sabotagem dos 30 e tantos “partidos”, até ha pouco todos “de esquerda”, agora todos “de oposição”, inclusive o da própria presidente da República. De um lado acena-se com cargos e isenções aos sacrifícios do “ajuste” para setores com força bastante para fazer diferença na hora da onça beber água. Do outro a brincadeira é aprovar medidas temerárias capazes de destruir o que resta da confiança no país para forçar Dilma e o PT a vetos que exponham a demagogia a que sempre recorreram.

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Dá até para entender a tentação de devolver ao PT o veneno que ele fez os outros tragarem a vida toda. Mas quem se permite essa indulgência passa a fazer jus à mesma adjetivação com que brindava o PT quando era ele a fazer gato e sapato do futuro da Nação para extrair de cada crise o máximo de virulência: isso não é mais que usar o povo como bucha de canhão num jogo de chantagem de quem só pensa no poder e não no interesse nacional.

A resposta de Dilma é repetir mecanicamente que a crise “é do mundo” e não sua ou do PT que, por sua vez, “não vê” crise nenhuma, só “um problema de comunicação” entre a Presidência e o Congresso sanável com mais injeções de “graxa”. Por via das dúvidas, os dois cuidam, cada um segundo a figura penal incorrida, de “amaciar” o poder titulado para julgar o “núcleo político” da Lava-Jato que, lá do Olimpo, brada, para começar, que “exige” aumento de 78% desse Brasil que cambaleia à beira do abismo, numa espécie de disputa para ver quem arrebenta mais o que resta da credibilidade e da certeza jurídicas, pressupostos do desenvolvimento.

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A cobertura que faz a imprensa dessas derrotas acachapantes do Brasil — aceitando os termos dos que disputam a carniça ao tratar cada golpe como “derrota do governo” ou “vitória da oposição” – incentiva políticos em busca de 15 minutos de fama a persistir nesse comportamento deletério enquanto aqui fora o desempego come solto, multiplicando a potência da bomba social que vai explodir logo adiante.

Vem de longe esse descarrilamento geral. “Ajuste para quê”? O PT nunca o disse e nem lhe foi perguntado, quer pela oposição, quer pela imprensa. O problema não é portanto, de “falha de comunicação”, é de ausência de objetivo estratégico. Nenhum dos lados em disputa vai além dos expedientes táticos, uns para não perder o poder, outros para tomá-lo. Ninguém tem nada a propor sobre o que fazer com o poder conquistado; tudo se esgota na conquista mesmo. A causa fundamental da crise brasileira continua intocada. Ninguém em Brasília fala nela; ninguém fora de Brasília exige que Brasília fale nela.

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Já foi o tempo em que os estados nacionais podiam fechar-se ao mundo e manter uma estabilidade relativa, ainda que entricheirados no passado. Hoje o mundo atropela impiedosamente quem retarda o passo. Nesta arena de “chinas” o Brasil não voltará à porta de entrada do mercado global antes de reduzir à metade ou à terça parte o peso do estado, da corrupção e do custo do trabalho e construir um aparato institucional que legalize a honestidade e seja leve e flexível o bastante para não travar o país a cada soluço de um mundo em constante mudança.

A obra é ciclópica e requer, apenas para ser iniciada, anos de um disciplinado exercício de sintonia do senso crítico da Nação em torno de um projeto estratégico apoiado nos fatos cuja mera existência a maioria jurássica da nossa “intelligentsia” século 20 nem sequer reconhece, e de persistente cobrança da sua execução.

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De que tamanho é o estado brasileiro hoje? Quantos são, entre nós, os que vivem de contribuições e os que são instados a enfrentar o mundo carregando esses outros nas costas? Como a riqueza nacional está distribuida entre eles? Como se comparam os salários e aposentadorias x a carga de trabalho deles, nossos e da comunidade meritocrática planetária? Com quanto contribuiu para o “ajuste” este governo que acaba de confiscar a quem ganha até dois salários mínimos a metade do abono anual? Como bate a crise em Brasília?

Os grandes numeros da equação brasileira são eloquentes. A carga tributária oficial está em 35% do PIB. O déficit é de outros 6%. O Brasil que não produz e, alegando falta de verba, não investe nem em infraestrutura, nem em educação, nem em segurança, nem em saude – e que não contribuiu com um tostão de “seu” para o “ajuste” – consome por ano, considerado apenas o “por dentro”, portanto, 41% do PIB que equivalem a R$ 2.400.000.000.000,00 (dois trilhões e quatrocentos bilhões de reais) apenas com salários, mordomias, aposentadorias e pensões desfrutados pela casta dos sócios do poder.

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Mas apesar da clamorosa enormidade desses numeros, você nunca viu uma reportagem mostrando ao Brasil do desemprego, dos doentes no chão e dos 56 mil assassinados por ano como vive esse “outro lado” que tanto tem sem ter feito por merecer; qual a minúcia dos numeros do seu mundo comparado ao nosso; se, quando e como eles pagam as suas contas; como vivem as suas famílias comparadas às nossas.

Enquanto esse não for o tema obsessivo e diário de todos os jornais, rádios e televisões do país; enquanto não se tornar impossível mencionar qualquer número nesta terra sem referí-lo a essa realidade; enquanto ela não for conhecida de cabo a rabo por todos e cada um dos brasileiros, o Brasil não tem a menor chance de voltar para dentro do mundo.

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51% escravos

23 de dezembro de 2013 § 10 Comentários

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As pessoas fingem que não sabem disso, mas é só fingimento. Trata-se de uma lei da natureza. Diz o seguinte: todo dinheiro sob a guarda do Estado será objeto de roubalheira. A roubalheira será tanto maior quanto maior for a conta estatal.

A Previdência é a maior conta sob controle do Estado. Logo é na Previdência que se dá a maior roubalheira do Brasil.

Pode parecer curioso que o maior número de pessoas que finge duvidar dessa lei esteja entre as mais ilustradas. Nas hostes do povão não ha rigorosamente ninguém que alimente ilusões sobre mais esse “fato da vida“. Mas isso é perfeitamente natural. É que a esmagadora maioria dos ladrões do dinheiro que o Estado confisca está entre as pessoas ilustradas enquanto o povão, especialmente o lá de baixo, é que é sempre o mais roubado. Uns têm, portanto, “razões objetivas” para negar o óbvio enquanto os outros as têm de sobra para fazer o contrário.

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A Academia, originalmente sustentada pelo Estado, é quem cuida de elaborar e difundir aquela complicada argumentação que “justifica” esse tipo de esbulho. É um arranjo multicentenário, tratado desde os tempos em que se estabeleceu o consenso geral de que pelo menos o esbulho que se admitia como tal e era feito pela força bruta, a ponta de espada e em troca da vida, tinha de cessar. Passou a ser necessária uma justificativa mais elaborada para essa forma de parasitismo.

Durante algum tempo até a gente de boa fé acreditou nas novas justificativas elaboradas pela Academia. Mas os fatos se encarregaram de revelar a verdade em toda a sua nudez.

Assim, os poucos que se organizaram para tanto tomaram as providências possíveis. O resto segue enredado em armadilhas “legais” embora saiba que é disso que se trata. Construiu-se, até, um aparato multibilionário para vender, no mundo todo, a fuga dessas armadilhas. Mas só uns poucos podem pagar para usá-lo.

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O resto divide-se em duas categorias: há os que engolem a sua indignação em seco, na zona intermediária, e ha os que não reagem ao esbulho porque as migalhas do butim mantêm o seu nariz um dedo acima da linha do afogamento na miséria e, portanto, não se podem dar o luxo de fazer marolas.

Mas ninguém está seguro. Não haverá nunca remédio que cure definitivamente a doença. O homem tende para a exploração do homem com a mesma insidiosa persistência com que a água penetra nas frestas para vazar do que quer que tente contê-la.

Havendo uma teta ela será mamada”. É a inexorável lei da natureza. Só se controla essa praga, portanto, restringindo-lhe o habitat, ou seja, suprimindo-se as tetas.  É por isso que as democracias dignas dessa qualificação são aquelas que limitam ao máximo a quantidade de dinheiro sob a guarda do Estado e atribuem a quem suou para ganhá-lo a tarefa de cuidar de investir o seu próprio para o futuro e que as sociedades vivendo nessas democracias são as únicas que conquistaram a superação da miséria.

O resto são variações do mesmo tema…

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Esta semana O Globo levantou a pontinha do tapete debaixo do qual esconde-se a mãe de todas as roubalheiras do Brasil. Falou-se em R$ 78 bilhões de prejuízo apenas nas contas relativas às aposentadorias do funcionalismo estadual e municipal, mas a realidade é, certamente, muito maior que isso.

Os caminhos são os de costume neste país do sexo explícito onde Sherlock Holmes ficaria desempregado já que tudo é feito à vista de todos e não ha nada por descobrir; o que ha é só insuficiência de jornalistas para relatar as falcatruas todas.

O segmento examinado pelo repórter do Globo constitui-se de umas duas mil “entidades” que “administram” a poupança para a aposentadoria de cerca de 10 milhões de funcionários estaduais e municipais. E é o escracho de sempre: uns poucos bilhões são desviados para tapar os rombos nas contas desses governos e prefeituras (possivelmente abertos por outras formas de roubalheira), mas o grosso é diretamente embolsado pelos encarregados da guarda desse dinheiro mediante a “aplicação” do balúrdio em “fundos” e “bancos” fajutos, alguns enquanto sob intervenção do Banco Central, conhecidos dos políticos, do Ministério Público, da polícia e até do Supremo Tribunal Federal.

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No caso em questão apurou-se que os criminosos – “empresas” e indivíduos – são os mesmos que intermediaram o Mensalão.

A mesma quadrilha cujo “chefinho”, excepcionalmente preso na Papuda, teve o contrato social da sua empresa – a JD (de José Dirceu) Assessoria, que vende “acesso” aos cofres federais sob a guarda do “chefão” – alterado cinco vezes ultimamente, aí incluídos os registros que ela fez na mesma lavanderia internacional de dinheiro do crime organizado de Ciudad del Panamá em que estava registrado o hotel que tentou “contratá-lo” por R$ 20 mil por mês para que ele fizesse jus ao regime semi aberto de prisão e que, a partir dessas revelações, suspeita-se que possa pertencer a ele próprio, conforme revelou a edição de ontem do Estadão.

Mas – descontados esses chutes no estômago da Suprema Corte diante da Nação inerte que anunciam que o pior ainda está por vir, e logo! – as últimas revelações desses dois jornais ainda não passam de migalhas.

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Uma das provas mais contundentes da lassidão dos esfíncteres do brasileiro médio, acostumado ao estupro sistemático desde que nasce a ponto de não mais se aperceber das violências sofridas, é essa estatização não só da Previdência do funcionalismo mas de toda a poupança nacional, sem exceções.

No mundo inteiro o dinheiro que financia o desenvolvimento é o dinheiro que as pessoas poupam para se sustentar na velhice. Essa poupança de longo prazo busca naturalmente a segurança de rendimento que se espera dos grandes equipamentos infra estruturais de toda economia, base de sustentação de toda riqueza produzida.

Aqui, todo esse dinheiro é automática e diretamente confiscado pelo Estado. Aqueles que o produzem nunca chegam a por as mãos nele em momento algum de suas vidas. E, como estamos testemunhando neste preciso momento, nem um tostão dele se transforma em infraestrutura. Quando é necessário reformá-la para que não morra a galinha dos ovos de ouro, é mediante a contratação de dívidas que temos de faze-lo.

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Você já leu um milhão de matérias escritas para provar que o brasileiro é um perdulário que gasta tudo que produz e “não poupa nada” e que esta é a principal explicação para a nossa pobreza crônica. Mas isso é muito mais que meia mentira.

A verdade inteira é que este é o único país do mundo onde mais da metade do salário de cada trabalhador é diretamente apropriado pelo Estado, sem nunca passar pelas mãos de quem suou para ganhá-lo, com exceção da Cuba dos Castro e quejandos onde o regime é o que dona Dilma endossou recentemente quando “contratou” os “médicos” da Ilha pagando aos legítimos donos desses súditos mais de 80% do salário que lhes foi nominalmente atribuído.

Cada salário pago no Brasil custa outros 102% (na média) a quem o paga. Quem trabalhou por ele recebe apenas 49% da riqueza que produziu, portanto. O Estado brasileiro é, consequentemente, o sócio majoritário da mais valia de todo trabalhador deste país.

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Ainda que se desconte desse todo o que é desviado para tornar as aposentadorias públicas 36 vezes, em média, maiores que as privadas, o que volta dessas contribuições de toda uma vida ao seu legítimo proprietário é de monta a acarretar ao “administrador” de tal bolada mil anos de prisão até mesmo sob a esgarçada legislação brasileira, se fosse exigida dele a performance mínima que a lei exige de qualquer seguradora privada.

Trata-se de cotidiano assalto a mão armada que ocorre por cima dos outros assaltos a mão armada que se sofre nas ruas quase todos os dias. O maior de todos.

E, no entanto, ninguém já sequer o menciona neste “país sem pobreza”.

Os historiadores do futuro se lembrarão desse confisco como o prolongamento da escravidão de que fomos o último país do Ocidente a nos livrar. Ou melhor, a pensar que nos livramos pois continuamos 51% nas mãos dos mesmos feitores de sempre.

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Aposentadoquê?

29 de outubro de 2013 § 2 Comentários

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Fora o cubano, só o governo brasileiro fica com mais da metade do salário de quem ele permite que trabalhe em seu território para, ao fim de 50 anos, devolver-lhe uma aposentadoria de fome que não corresponde nem à milésima parte do que foi confiscado do pagamento que lhe cabia pelo suor dispendido.

Parte disso vai para as aposentadorias dos marajás do setor público, em média 36 vezes maiores que as dos manés aqui de fora, parte vai para as cinco décadas de mordidas que esse bolo vai sofrer antes das migalhas do banquete retornarem aos seus legítimos (e famintos) donos quando estiverem velhinhos.

No resto do mundo civilizado quem trabalha é que recebe o salário inteiro e aplica como quer o que for capaz de poupar para a sua aposentadoria.

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Essa é mais uma daquelas aberrações-gigantes que explicam porque um país tão rico quanto o Brasil ficou tão pobre, mas de que já ninguém se lembra. Faz parte da nossa “normalidade”; do nosso cotidiano de violentados dessensibilizados de que ninguém mais perde tempo em tratar.

Pelo mundo afora é esse tipo de dinheiro que financia o desenvolvimento, a infraestrutura e a pesquisa de longo prazo. Aqui, tudo acaba por constituir fundos sem fundos nas mãos de políticos e criminosos a respeito de cujas ações, enquanto detentores dessa bolada, quase nada se sabe.

Em setembro, por exemplo, a Operação Miquéias, da Polícia Federal, foi dar uma cheiradinha num segmento dessa pocilga – os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) de estados e municípios – e “descobriu” o de sempre: eles têm sido impiedosamente rapinados por “quadrilhas”, em geral eleitas pelos próprio lesados.

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Esses fundos recolhem a fatia previdenciária dos salários que pagamos a pouco mais ou menos que 7 milhões de funcionários públicos estaduais e municipais. Embora como membros da casta privilegiada eles recolham bem menos que a metade que é cobrada de nós mortais, ainda é de muito dinheiro que estamos falando. São mais de dois mil fundos que deveriam ter em caixa 180 bilhões de reais.

Que nada!

Pelo menos 10% deles operam hoje por força de liminares. É que aqueles que não conseguem apresentar contas que façam sentido ao final de cada período põem os governos estaduais ou municipais a que estão ligados numa lista negra que os torna impedidos de receber transferências da União, fechar contratos com entidades públicas ou obter crédito com instituições financeiras. E como as boladas são grandes, sobra espaço também para os emissores de liminares. 196 estados e municípios que dissiparam as aposentadorias de seus funcionários têm vivido delas no ano em curso.

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O caso é sempre o mesmo quando se trata de instituições de governo: na hora de receber e gastar, são eles que recebem e gastam; na hora de pagar o devido ou de repor o surrupiado, é o povo quem paga porque governo não fabrica dinheiro, só troca o dinheiro alheio de bolsos, em geral à revelia de seus donos.

Como se a conta não fecha a punição recai sobre o próprio povo, já que é a ele que prefeituras e governos de Estado bloqueados por inadimplência deixarão de prestar serviços, repete-se aquela velha canção.

Injustiça! Crise social! Não podemos negar-lhes escola e hospital! Deixem-se, portanto, os ladrões impunes e sigamos com o jogo porque não tem outro jeito…

Um dia o Brasil ainda ha de aprender que assim é. Então compreenderá porque é que a economia tem de ir para um lado e os governos para o outro, sem nunca misturar as bolas, do contrário a fiscalização ou se torna impossível ou vira-se contra os próprios lesados, safando-se os ladrões regulamentares pelo meio.

Tão óbvio que até cansa.

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Conversas de surdos

3 de outubro de 2013 § 2 Comentários

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Na cobertura dos jornais e TVs brasileiros o interessantíssimo e educativo episódio da “paralização do governo norte-americano” pelo impasse criado no Congresso em torno da aprovação do orçamento fica reduzido – como de resto tudo o mais fica reduzido nas coberturas dos jornais e das TVs brasileiras – à dimensão da briga entre esquerda e direita norte-americanas que a coisa tem para os jornalistas norte-americanos.

Tem os democratas a favor de programas de saúde subsidiados pelo governo (isto é, pelos contribuintes) e tem os republicanos, contra a abertura desse precedente que, agora, recusam-se a aprovar o orçamento que não mostra de onde sairão os recursos para bancar essa operação.

Entretanto, independentemente de para que lado você torce nesse jogo de empurra – se é que você torce para algum – não seria mais jornalístico para um repórter brasileiro curioso, arregalar o olho para essa diferença que diz tudo a respeito do nosso lugar relativo no campeonato das democracias, especialmente no momento em que este é o fulcro do debate nacional que levou multidões às ruas em junho passado?

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Porque a coisa realmente notável é a seguinte: lá é o governo que fica parado à espera da autorização do povo para que comece a andar numa direção por ele determinada e na velocidade por ele determinada (velocidade = $$), seja qual for a implicação que isso tenha para os funcionários e os serviços públicos, enquanto aqui é o povo e a produção que ficam parados no congestionamento, na fila do porto, na fila do aeroporto, na estrada esburacada para que o governo possa passar com seus 40 ministérios, os empregos para os milhões de amigos , os super-salários auto-outorgados, a roubalheira desenfreada e os professores que se fodam.

Não dá pauta mais interessante do que ir ouvir o que a esquerda de lá tem a dizer sobre a direita de lá e tecer comentários sobre qual dos dois é mais bonzinho, ir procurar saber com que diabo de dispositivos conta o povo americano para ter esse privilégio de conseguir impor à sua corja de “governantes” esse nível de disciplina? Como conseguiram a força que se requer para tornar tão sagrada e inviolável a porta de entrada do seu bolso que o presidente da nação mais poderosa do mundo, mais o Congresso Nacional e o resto do Estado inteiro não conseguem ciscar nele sem autorização expressa nem sob o pretexto de não deixar o país parar?

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Uma investigação jornalística, uma boa série de reportagens buscando responder a essas perguntas não ajudaria a dar ao país aquilo que as manifestações de junho mostraram que está faltando tão agudamente: um caminho para a democracia? Ou esse é um pormenor irrelevante que realmente não interessa a ninguém?

Outra notícia de hoje que me fez pensar na mesma direção foi essa que a Globonews deu de manhã mostrando vigias e outros funcionários nacionais das embaixadas estrangeiras de Brasília acampados nas portas delas – as do Japão e da Arábia Saudita foram citadas nominalmente – para exigir que elas cumpram a legislação trabalhista brasileira e paguem aquilo tudo que os empregadores brasileiros têm de pagar ao Estado a pretexto de sustentar a futura aposentadoria desse pessoal.

Nem discuto que “em Roma como os romanos”…

Mas é que um dos lesados pelos estrangeiros se perguntava indignado diante das câmeras da Globo: “Será que no 1º Mundo eles fariam essa palhaçada ou é só aqui no Brasil mesmo”?

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Aí me ocorreu que fora de Cuba, onde até médico trabalhando no estrangeiro tem o salário pago à família Castro que só devolve a quem fez jus a ele com o suor do próprio rosto uma pequena parcela do que recebeu, só o Brasil cobra mais da metade do que o trabalhador recebe pelo serviço prestado (os encargos sobre os salários são de 102%) e devolve a ele, ao fim de 60 anos, essa aposentadoria de fome que se paga por aqui, sendo o resto desviado para a aposentadoria dos donos do Estado que, esta sim, é de nababo.

No resto do mundo – a começar, é claro, pelo 1º – quem trabalhou é que recebe 100% do que foi pago pelo serviço feito e investe como quer aquela outra metade e mais um pouco que aqui o governo embolsa do jeito que achar melhor para garantir a sua velhice.

Brasileiro não sabe. Nem mesmo os jornalistas. Acham que é normal enfiarem-lhes tudo que lhes é enfiado pela retaguarda. Reivindicam como um direito sagrado serem espoliados desse tanto.

É de dar pena!

Por isso é que eles são 1º Mundo e nós…

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