A reforma que contem todas as outras

27 de junho de 2018 § 16 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 27/6/2018

Em matéria de reforma de instituições a ordem dos fatores determina o resultado. O erro fundamental dos criticos do desastre brasileiro está em não discernir o que é causa do que é consequência do desvio essencial que produz e reproduz as instituições tortas que temos. Primeiro que esse “tortas” depende de quem olha. Para a “1a classe” elas estão funcionando exatamente como foram desenhadas para funcionar, menos pelo exagero do seu “acerto”. Mas da “2a classe” para baixo, perdem-se todos em desenhar, cada um segundo a sua área de especialização ou a ordem de prioridades com que elas afetam a sua atividade, listas de reformas tão extensas que no final, todos, mesmo os mais convictos da necessidade de cada uma delas individualmente, recuam de forçar o desencadeamento da mudança porque o país é um avião em voo, a vida é uma só e o risco de fazê-lo parar no ar é sempre maior que o de continuar voando mal.

É isso, mais que tudo, que tem garantido a continuação do que está aí.

Instituições servem a quem as desenha e detem o poder de instituí-las. E é isso, essencialmente, que está errado e precisa mudar no caso brasileiro. Se é o povo que queremos servido, é ao povo que devemos entregar a tarefa de desenhar e redesenhar; instituir e desinstituir as nossas instituições. O que nos faz falta é conquistar os meios de errar e aprender com nossos próprios erros em vez de seguirmos tangidos pelos erros alheios para encalacradas “petrificadas” no tempo e no espaço ou, definindo mais precisamente o que ocorre aqui, sendo obrigados a tragar eternamente os acertos dos bandidos para viver às nossas custas enquanto mantêm-nos impotentes para fazermos nossas próprias escolhas.

A unica instituição definitiva, deve ser a que estabelece o modo de promover e legitimar mudanças. Tudo mais deve ser desenhado para facilita-las mesmo porque toda “solução” é só o início do próximo problema e é de fundamental importância ter essa transitoriedade em mente pois o que determina a sobrevivência na arena da competição planetária, hoje como sempre, é a velocidade de adaptação à mudança.

Nunca foi fácil promover mudanças coordenadas e pacíficas. Na era da comunicação total, ironicamente, ficou ainda mais difícil. Estamos na idade do ouro do rancor. O ódio é o novo ópio do povo. O Google transforma os mais insignificantes deslizes do comportamento humano em manadas de dinosauros galopando desenfreadamente pela rede para todo o sempre, direcionados com a persistência dos algorítmos e a precisão do “microtargeting” para pisotear o nervo mais sensivel de todos que, no passado, no presente ou no futuro, manifestarem o menor sinal de sensibilidade a eles. Este viver sem o esquecimento cria tribos que as “polícias do pensamento” atiçam umas contra as outras, o que desperdiça toda a energia da cidadania em aprisionar em modelos institucionalizados comportamentos que, por definição, só podem ser realmente livres no espaço infra-institucional. E isso desvia o foco da coletividade da única condição que nos une a todos que é a de súditos semi-escravos da “1a classe”.

Nunca houve acordo com relação a um destino final de chegada para toda a humanidade e, desde sempre, “autoritário” é quem tenta impor o seu e “totalitário” quem criminaliza o destino escolhido pelo outro, seja um governo, uma ferramenta privada ou os dois juntos o instrumento dessa imposição. É perfeitamente possivel, no entanto, alcançar um denominador comum em torno de um “manual de navegação” das águas agitadas da diferença. A democracia moderna nasce exatamente da aceitação madura e tranquila da ausência de certezas. E a genialidade do sistema está em criar um arranjo de instituições absolutamente estaveis e seguras para dar a cada um a condição de processar do seu jeito a instabilidade e a insegurança inerentes ao estar vivo sendo parte de numa sociedade.

No sistema verdadeiramente democrático a única instituição “imexível” é a que define quem, exatamente, representa quem no panorama institucional, e os mecanismos de processamento das mudanças que podem e devem ocorrer em todas as demais ao sabor da necessidade. Como toda forma de governo, a “democracia representativa” também é uma hierarquia. E que os representados mandam nos representantes é uma noção inerente ao conceito de “representação”. A fórmula que permite operar essa hierarquia para a mudança com agilidade, segurança e legitimidade é a inventada pelos suiços ha mais de 700 anos que metade do mundo copiou nos ultimos 100: eleições distritais puras (federalismo) com retomada de mandatos (recall) e referendo de leis dos legislativos por iniciativa dos representados a qualquer momento.

É essa a reforma na qual o país tem de concentrar suas forças. Todo o resto com isso se constrói.

O cidadão deve ser o imperador absoluto da sua área de residência. A menor instância eleita de representação deve ser o conselho de direção da escola pública do bairro, constituido por pais de alunos moradores dele encarregados de gerir o dinheiro dos impostos que pagam para a educação de seus filhos. Ele deve contratar o diretor e cobrar-lhe desempenho. Um certo conjunto de bairros formará um distrito municipal que elegerá o seu representante para fazer as leis da sua cidade. Uma constelação de distritos municipais constituirá um distrito estadual e destes se farão os distritos federais. Todos os eleitos devem ser demissíveis a qualquer momento e suas leis revogáveis por votações de retomada de mandatos ou referendos convocados nos seus distritos.

Com todo mundo sabendo exatamente quem é quem, então sim, cada um segundo a sua necessidade, consultados os demais eleitores do distrito, ordenará ao seu representante que escreva e reescreva leis para ter ou não “escolas com partido”, funcionários estáveis ou não e mais ou menos bem pagos, impostos mais leves ou não, e para quê, juizes com mais ou menos poder de arbitrio, o crime tratado assim ou assado, constituições mais ou menos “petrificadas”, pessoas com mais, com menos ou com nenhuns “direitos adquiridos”.

Acaba o papo furado e a verdade passa a imperar.

Atenção companhias aéreas!

25 de abril de 2014 § 2 Comentários

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Peter Smart é um designer inglês que se propõe solucionar problemas do dia a dia com o concurso da sua especialidade.

Ele mantém um site onde apresenta suas propostas (aqui), dá conferências nos mais prestigiados eventos envolvendo temas como inovação e informática e consultorias a diversas empresas internacionais de ponta.

Esta proposta de como transformar o (horrível) problema que são os cartões de embarque em todos os aeroportos e companhias aéreas do mundo numa solução boa para todos os interessados é um bom exemplo do tipo de trabalho que ele desenvolve.

Sigo praticamente traduzindo a matéria que ele apresenta neste link.

“É hora de

 repensar os cartões de embarque”

 

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Dê uma olhada no seu cartão de embarque.

O que ele precisa te informar é onde você tem de chegar, a que horas e como fazer para chegar lá.

O problema é que ele não ajuda nada a encontrar essas informações. Em geral os cartões de embarque resumem-se a um monte de números e abreviaturas espalhados meio a esmo por um pedaço de papel que exigem um considerável esforço para serem decifrados, especialmente num ambiente estressante como são os aeroportos onde todo mundo sempre está cansado e com pressa.

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O primeiro defeito evidente é o formato.

Você tenta manter o cartão dentro do seu passaporte mas fica sobrando papel dos dois lados. Assim quando você procura checar mais uma vez qual é o seu portão de embarque e o seu vôo, o papel fica enroscado na sua roupa ou acaba caindo do bolso externo da sua maleta de cabine.

O resumo é que ainda que seja imprescindível que o cartão de embarque seja guardado com segurança o formato atual torna isso praticamente impossível.

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Para começara resolver o problema é preciso lembrar que o cartão de embarque é feito para ser usado por três tipos de usuário:

  1. o passageiro;
  2. o pessoal da companhia aérea;
  3. as máquinas de leitura e processamento

Logo a boa solução não pode estar focada na satisfação das necessidades apenas dos passageiros. O novo desenho deve respeitar três limitações básicas:

  1. todas as informações constantes dos cartões atuais têm de estar no novo;
  2. as dimensões têm de ser as mesmas dos cartões que as máquinas lêem hoje;
  3. tudo tem de ser impresso apenas com tinta preta para evitar gastos e complicações adicionais com renovação dos equipamentos existentes.

A resposta é esta aqui:

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Vamos aos detalhes:

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Tem de haver uma hierarquia clara na tipologia para que você encontre imediatamente as informações mais importantes.

O usuário tem de tomar decisões rápidas e com confiança mas, para isso, as informações essenciais têm de estar bem distribuídas e dispostas de forma muito clara.

Os textos têm de ser simples e bem estruturados.

Quanto ao formato, a idéia é posicionar a linha tracejada a ser destacada no momento do embarque…

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…numa altura que facilite guardar o cartão dentro do passaporte mas, ainda assim, mantendo o acesso às informações essenciais.

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Só mudou, portanto, a orientação do cartão; não suas medidas.

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Mas dentro das mesmas medidas nós conseguimos…

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…não apenas uma hierarquia lógica mas também cronológica das informações…

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…informar o passageiro se ele vai ou não ter necessidade de ter o seu agasalho à mão e quantas horas terá de adiantar ou atrasar no seu relógio…

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…e ainda manter nas mãos dele todas as informações necessárias quando ele já estiver na sua cadeira só com o “canhoto””.

De modo que pras companhias aéreas brasileiras fica a dica: estou com Peter Smart e não abro!

 

Vá ao Marrocos

3 de setembro de 2013 § 2 Comentários

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