O caso da educação
5 de junho de 2015 § 9 Comentários
A primeira condição para voltarmos a ter uma educação que puxe o país para cima (sim, ela ja foi assim no Brasil!) é nossas escolas voltarem a entregar educação em vez de empulhação.
Vai ser uma luta muito dura porque envolve a grande chave comutadora de tudo: a decisão sobre se este país quer ser uma meritocracia ou continuar para sempre nesse troca-troca entre liberdade para roubar e distribuição de pequenos privilégios para comprar a conformidade dos roubados.
O alvo essencial desses “professores” black-blockeados que, ha anos sem fim, servem a dose diária de ultimate fighting jurássico-ideológico que inferniza a vida do país é a meritocracia. Bani-la para sempre do dicionário geral da língua portuguesa é a única condição essencial à sobrevivência deles como espécie porque militância profissional e meritocracia são coisas tão irreconciliavelmente incompatíveis e mutuamente excludentes quanto o musgo e o sol.
Não confundí-los jamais com os professores de verdade, cada vez mais humilhados e ofendidos. Estes só terão remissão quando se impuserem aos que lhes usurparam a palavra e limparem o seu ambiente de trabalho do entulho político e corporativo que come a diferença entre o dinheiro que os brasileiros ja investimos em educação — igual ou maior que o que os melhores do mundo investem — e o resultado que colhemos depois de reparti-lo entre os professores de verdade e a multidão dos que se infiltraram no sistema com pistolões políticos e permanecem lá dentro por todos os motivos menos pelo do merecimento.
Negras verdades
7 de janeiro de 2015 § 5 Comentários
Carlos Moore é militante histórico do Movimento Negro.
Nascido em Cuba, converte-se ao comunismo aos 18 anos e é exilado pelo regime de Batista nos Estados Unidos. Volta a Cuba entusiasmado depois que Fidel Castro, vitorioso, adere ao comunismo, mas assiste abismado ao esmagamento do Movimento Negro cubano com a prisão e fuzilamento de seus líderes civis e religiosos.
Consegue fugir e exilar-se no Brasil onde vive ha 15 anos dando palestras sobre a sua linha de abordagem do Movimento Negro.
Convidado, em meados de novembro passado, a dar uma palestra na UFRJ, foi alvo de agressões e objeto de incitação ao linchamento por parte de “professores” pagos com dinheiro público ligados ao PSTU que compunham a mesa do seminário.
Até a marca de 6:50 min. Moore descreve a agressão sofrida na UFRJ. Daí por diante diz o que sabe sobre as relações entre o socialismo real, o Movimento Negro e as religiões
Não conheço o movimento que assina a entrevista, resumida nesta edição quase exclusivamente às declarações de Moore, em que ele expressa o seu alarme com relação à doença política que está contaminando o Brasil cujo foco propagador, como fica implícito nos acontecimentos relatados, são as escolas e universidades públicas, além, é claro, das redações da imprensa brasileira onde fatos como este, que fazem parte quase que do cotidiano das escolas de todo o país hoje, raramente chegam sequer a ser registrados, o que explica porque até os grandes vestibulares para as universidades públicas nacionais, como o da Fuvest, já não se vexem de adotar como tema de redação, valendo a maior nota para o ingresso nas escolas sustentadas pelos contribuintes, provas em que é aferida, não a capacidade de pensar e escrever em português, mas sim se o candidato professa ou não a ideologia “correta“.
O que pode acabar junto com a USP
22 de setembro de 2014 § 4 Comentários
Matéria da Folha de S. Paulo de hoje oferece um quadro suscinto da doença terminal que vai matar a USP, até ha pouco tempo a única universidade brasileira a fazer parte do ranking das 100 melhores do mundo do Times Higher Education, o mais respeitado do setor.
Partindo da tendência inversa revertida a partir de 2010, a instituição tinha vindo de 55 mil para 54 mil funcionários administrativos de 2009 para o ano seguinte e de 45 para 46 mil professores. O que se segue de 2010 até 2013, porém, é a multiplicação em metástese do numero e do valor dos salários dos funcionários de par com a devastação do numero e do valor dos salários dos professores.
Entre 2009 e 2013 a USP contratou 2400 novos funcionários administrativos e apenas 396 novos professores. Por cima disso, aumentou em 75% os salários dos funcionários e em apenas 43% o dos professores (contra uma inflação no período de 27%).
Com isto a USP passou a gastar, no ano de 2013, 5% a mais que a dotação que recebe por ano do governo apenas com a folha de pagamento, valor que este ano vai subir a 35% a mais do que recebe, que é uma parcela do ICMS paulista.
O bonus para todos os funcionários a cada vez que a universidade subisse nos rankings internacionais que tinha sido introduzido pelo governo Serra a título de componente meritocrático numa realidade em que o merecimento não entra de forma nenhuma nos critérios de remuneração, também foi desvirtuado em uma espécie de “direito adquirido”. Em 2013 todos os funcionários da USP receberam bonus de 2 mil reais a esse título apesar da universidade ter caído no ranking acima referido.
Sexo explícito, enfim.
Saindo de uma greve de quatro meses de duração contra o plano de demissões voluntárias proposto pelo governo paulista para tentar conter a multiplicação por 7xs do buraco de 2013 prevista para este ano, os funcionários da universidade abrem a nova etapa de “negociações” exigindo aumentos no vale-refeição e no auxílio alimentação, o que é só o prenuncio de novas greves que virão antes da implosão final.
A USP tem 87,8 mil alunos, 17,6 mil funcionários e 6 mil professores, o que representa proporções semelhantes de professores e funcionários por aluno às da PUC do Chile, por exemplo, tida pelo ranking do Times como a melhor universidade sul-americana. Só que no Chile 68% do total de salários pagos vai para os professores e 32% para os funcionários enquanto na USP 62% vai para os funcionários e 38% fica para os professores.
Na universidade chilena, só 42% dos gastos vão para salários. Na brasileira, 105% do orçamento total é para salários. Tudo o mais, da manutenção de prédios às pesquisas, fica sem um tostão.
Tudo isso deixando sem dizer que a destruição da qualidade da educação que ali se ministrava precedeu a destruição financeira da instituição, e que a perversão do espírito universitário sintetizado no dístico “Com a ciência vencerás” do escudo da USP, pautado pela liberdade de pesquisa e pela busca da verdade científica, na entronização gramsciana de uma “verdade única” imposta a todos — professores, funcionários e alunos — pela coerção moral e, muitas vezes, até pela força física precedeu a ambos.
É mais um retrato sintético do que está acontecendo com tudo o mais neste país que sustenta uma casta cheia de direitos especiais com o sacrifício do seu presente e do seu futuro, sem esquecer que o que acontecer com a USP – que já foi o melhor equipamento de produção de “infraestrutura humana” de qualidade do país – mais cedo do que tarde acontecerá com todo o Brasil.
A charada da educação
16 de julho de 2014 § 2 Comentários
A grande charada desta geração é a seguinte:
“A única saída para o problema brasileiro é a educação; mas enquanto a educação no Brasil continuar sendo o que o PT fez dela, quanto mais gente pusermos nas escolas maior ficará o problema“.
A própria Dilma, que jamais vai admití-lo nem sob tortura, é a primeira a saber disso. Tanto que sua única e maior iniciativa no campo educacional foi criar o maior programa de bolsas para brasileiros estudarem fora do Brasil que já houve na história deste país.
Dona Dilma, como filha de professores que é, alem de petista e revolucionária, sabe melhor que ninguém que aparelhar gramscianamente o sistema educacional de um país e perverte-lo numa máquina de conversão de verdades em mentiras, “sins” em “nãos” e vice-versa até o ponto em que esse circuito subversivo se implante tão solidamente na mente das vítimas que passe a se reproduzir sozinho, é o caminho mais barato e seguro para solapar o poder constituído e tomá-lo quando cair de podre no chão.
É o que previa o italiano Antonio Gramsci, idealizador dessa técnica de conquista da “hegemonia cultural” em uma sociedade que nunca chegou a se implantar tão profunda e amplamente quanto no Brasil, onde o PT, pouco menos de 70 anos depois de sua morte, provou que ele tinha toda a razão.
Não é preciso demonstração mais conclusiva da amplitude dessa contaminação, aliás, que o fenômeno a que nós estamos acostumados mas que assombra todo mundo que, vindo de fora, chega a falar português suficiente para entender o que se discute por aqui em matéria de política, especialmente nas nossas universidades: o discurso politico brasileiro está tão solidamente ancorado no jargão e nos conceitos que, no resto do mundo, começaram a morrer nos anos 50 do ultimo século do milênio passado, que nos transformou numa espécie de parque jurássico de ideias extintas, só identificáveis, fora de Cuba e da Coréia do Norte, por um punhado de eruditos bolivarianos posto que não deixaram traço nas sociedades politicamente vivas do Terceiro Milênio.
O fato de todos os 30 partidos políticos brasileiros se dizerem orgulhosamente “socialistas” e serem votados por isso num mundo pautado pelo Vale do Silício apesar desses partidos estarem recheados de conhecidos meliantes com extensas fichas na polícia e notórios analfabetos funcionais que repetem mecanicamente o que dizem diante das câmeras dos programas eleitorais com olhares envezgados para os teleprompters sem ter rigorosamente nenhuma noção do real significado do que estão dizendo e ninguém sequer estranhar que assim seja é a prova material de que chegamos de fato, nesta nossa ilha cercada de língua portuguesa por todos os lados, àquele estágio de reprodução automatica de uma lógica invertida que passa despercebida como tal a quem a professa com que sonhou o conspirador italiano morto em 1937, ainda que em plena época da comunicação total e do Google.
O problema dessas técnicas de solapamento do poder constituído pela destruição do conhecimento é que é só isso que elas são: sistemas “neutros” de demolição que, uma vez postos em pé, ganham vida própria e seguem destruindo conhecimento depois que o novo poder que a ele recorreu se estabelece e seu problema passa a ser o do anterior, qual seja, como continuar desenvolvendo o país num ambiente onde as escolas dos competidores continuam produzindo e as nossas continuam destruindo conhecimento.
Sendo a aquisição de conhecimento o instrumento por excelência de mobilidade social dentro das meritocracias, a primeira providência de quem quer aparelhar gramscianamente um sistema nacional de educação é esvaziá-lo de quem detenha conhecimento real ou queira pô-lo adiante da nova função estratégica da escola aparelhada que é destruir o conhecimento existente.
Assim, é das escolas e universidades que primeiro é banido o sistema de mérito na seleção de “quadros”, substituido pela fidelidade do candidato ao programa de aparelhamento ideológico. Os professores selecionados por esse critério passam, então, a não admitir que se meça o resultado do seu trabalho pela qualidade do conhecimento que detêm e são capazes de transmitir, do que decorre obrigatoriamente que não se permita mais medir também o desempenho dos alunos nesse campo.
Para instalar tão notória agressão ao espírito universitário, sinônimo de liberdade de pesquisa, justamente dentro dos templos erguidos para cultuá-lo, é necessário criar “erzats” de sovietes capazes de impo-la pela força. É o que por aqui se batiza de “autonomia universitária”, onde os destruidores de conhecimento elegem-se uns aos outros por um sistema de seleção negativa e os alunos passam de ano por “tempo de serviço” e ganham, também o poder de expulsar pelo voto de maioria qualquer sombra de qualidade que venha a ameaçar a hegemonia da negação do conhecimento no seu “território autônomo“.
E aí? Como é que se sai disso?
Não sei o que Dilma diz a esse respeito. Mas pelo que ela faz, ela acredita que não tem saída. Para o momento recorre às escolas do exterior porque das daqui sabe que não pode esperar nada.
Concordo com ela. O Brasil só se vai dar conta do que lhe ocorreu, quando um número maior de brasileiros que os que hoje não falam aprender a falar ingles suficiente para ver, pela janela da internet, a que distância isso nos pôs do mundo que ruge lá fora. Até lá será remar contra a corrente.

Feitios de oração
15 de julho de 2014 § 1 comentário
Proporcionou “a melhor Copa da História fora dos gramados” quem, cara-pálida: o governo ou o povo brasileiro?
Pelo bico da Dilma, que não destravou nem na hora de entregar a taça, ela sabe pelo menos que ela é que não foi.
O que é que a imprensa internacional está festejando, a “organização perfeita” que já começa a ser enfiada na História do Brasil ou a tradicional simpatia do povo brasileiro mais a ausência do desastre anunciado que se fazia prever?
E o povo brasileiro, o que é que ele deve comemorar, já que futebol é que não é: a metade das obras que lhe foi entregue ou o dobro do preço das obras inteiras que ele pagou e vai continuar pagando por décadas a fio com juros e correção monetária?
Que as festas brasileiras são as melhores do mundo não é novidade. Que a nossa permissividade ampla, geral e irrestrita é uma delícia para umas férias de 15 dias, idem. Mas agora que os 57 mil soldados do exército, um para cada brasileiro assassinado na rua no ano passado, vão voltar para os quartéis, nós é que vamos continuar tendo de criar nossos filhos no meio do tiroteio das feiras livres de drogas e da libertinagem geral. Os alemães vão voltar pra casa e criar os deles naquela chatice da paz, da abundância e das melhores educação e serviços públicos do mundo em que eles vivem.
No dia seguinte do Mineiratzen, diante da boa vontade geral com que o Brasil recebeu a “matemática criativa” do Felipão nos provando que aqueles 7 x 1 não foram nada, o time, na verdade, estava indo muito bem, fiquei sinceramente com medo que ele acabasse ganhando um ministério do PT. Veio a calhar, portanto, o 3 x 0 da Holanda para nos livrar de vez de pelo menos mais essa bizarrice acachapante neste país onde nada rende mais dividendos que um bom e velho “malfeito”.

A terrível ameaça de que a Dilma e o Aldo Rebelo façam pelo futebol brasileiro o mesmo que o PT e o PC do B têm feito pela nossa economia e pela credibilidade do futuro do Brasil com as suas sucessivas “intervenções” pode, entretanto, ter aumentado com mais essa pá de cal.
Como não ha mesmo como exorciza-la até pelo menos o resultado da próxima eleição, só resta mesmo rezar…
No que diz respeito ao desempenho da Seleção – e não só o dela – o que explica tudo, aliás, não é mais que duas diferentes maneiras de rezar.
Os alemães e os holandeses são daquela religião em que a reza é o trabalho. Eles acreditam que deus só ajuda quem se ajuda e que o Paraiso conquista-se pelo tanto que cada um consegue acrescentar à obra coletiva fazendo o mais denodadamente possível por si mesmo.
Já nós somos daquela religião que acredita que, sendo isto aqui um vale de lágrimas onde só rola o que deus manda independentemente do que façamos, cada um pode fazer o que quiser, inclusive e principalmente viver fora da regra de deus porque, sendo ele, no fim das contas, o culpado de tudo, nós já estamos previamente perdoados, faltando saber apenas quantas ave-marias teremos de rezar com todo o fervor na “hora H” para zerar a conta e aumentar a chance de que a intervenção divina impeça que colhamos aquilo que plantamos e os pães e os gols multipliquem-se por milagre.
Essa diferença faz pelo futebol a mesma coisa que faz pelo PIB nacional de cada um de nós, a menos que apareça um “salvador da pátria” que, em si mesmo, já seja um milagre ambulante, como já tivemos tantos, que produza esse efeito de desvincular a colheita da semeadura sem que seja preciso nem mesmo rezar.
Só que dessa vez não deu.












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