Ou o Brasil acaba com o “custo Brasília”, ou…

fevereiro 24th, 2012 § 4 Comentários

O brasileiro fica duas vezes mais rico assim que cruza qualquer fronteira para fora do país.

O Jornal da Globo mostrou ontem que a febre das compras no exterior dos nossos turistas chegou a tal ponto que os aviões com rotas dos Estados Unidos para o Brasil tiveram até de alterar seus cálculos de autonomia e passar a carregar mais gasolina do que costumavam fazer antes para transportar o peso extra das bagagens que não para de crescer.

E eu aqui falando dessa fronteirazinha tênue entre o Brasil estatal e o Brasil privado que se sente no próprio esqueleto ao passar das estradas para as ruas de São Paulo!

Essa volúpia de compras do brasileiro no exterior é fenômeno do mesmo departamento. É a “nova classe media”, que tem o bolso muito mais raso que o dos brasileiros que costumavam viajar antes, experimentando pela primeira vez a fascinante experiência de viver sem ser roubada.

Chega lá fora e simplesmente não acredita nos preços sem o custo Brasília que encontra para os mesmos produtos que consome aqui.

Não é que se esbalda de comprar pra torrar o que não tem. Faz isso pra economizar.

Compra as passagens da família toda, paga o hotel, passeia sossegado pelas ruas à noite, monta o guarda roupa de todos para o ano inteiro e, tudo somado, ainda sai mais barato do que fazer só as compras aqui.

Por que?

Pela mesma razão que um container vem do interior da China até o Porto de Santos por US$ 2 mil, e custa os mesmos US$ 2 mil para levá-lo do Porto de Santos até São Paulo, 80 quilômetros serra acima: porque lá não tem o custo Brasília.

A gente se acostumou a olhar pra este país coberto de carrapatos e não sentir arrepios. E como aqui até o mais miserável mendigo tem o seu privilegiosinho oficial concedido por algum desses patriotas que aparecem todos os dias no “horário eleitoral gratuito”, convém a todos acreditar quando o nosso presidente nos diz que “todo mundo é assim”.

Não é não.

A prova está na nossa cara mas aqui de dentro a gente não vê. Quando põe um pé lá fora é que a coisa bate.

E o resumo é o seguinte: não dá pra sustentar Brasília e, ao mesmo tempo, uma infraestrutura minimamente competitiva. As duas coisas juntas simplesmente não cabem naquele terço que Brasília toma a cada ano da sexta maior economia do mundo.

O imposto mais alto do mundo somado à pior infraestrutura do mundo – o custo Brasília – implica o massacre da industria nacional a que vimos assistindo. Mas como o custo Brasília é imexível porque sem ele não ha mamabilidade o jeito é aumentar o “custo Mundo” na marra tacando imposto nas importações e botando a Polícia Federal pra rebolar nos aeroportos confiscando a comprinha barata do aprendiz de classe média brasileiro.

Se você tem mais de 50 anos, já viu esse filme antes. Se não tem tome tento: ou o Brasil acaba com o custo Brasília, ou o custo Brasília acaba com o Brasil.

Feche os olhos e sinta…

fevereiro 23rd, 2012 § 1 Comentário

Na volta do carnaval, feche os olhos e sinta a diferença: enquanto o carro estiver deslizando macio, você está no Brasil da iniciativa privada; quando começarem os saltos e os solavancos, você acabou de entrar no Brasil estatal.

Nem São Paulo é exceção.

É aqui, aliás, onde as melhores estradas do país acabam de ser reformadas, que se sente mais esse contraste ao sair das pistas nas mãos das concessionárias privadas e cair nas ruas cada vez mais esburacadas e craquelentas da cidade que os políticos disputam.

Paulo Barros é gênio da raça

fevereiro 23rd, 2012 § Deixe um comentário

Se arte é capacidade de síntese com emoção e grandiosidade, Paulo Barros, o carnavalesco da Unidos da Tijuca com suas alegorias vivas, é um gênio da raça.

Se o contratarem para encenar a abertura e o encerramento da Copa do Mundo é possível que ele nos salve do vexame anunciado.

Não, não é “tudo a mesma merda”

fevereiro 22nd, 2012 § 3 Comentários

Deixo aí a última reportagem de Marie Colvin, americana, trabalhando para o Sunday Times, morta hoje em Homs, na Síria, junto com o fotógrafo francês Remi Ochlik (28), para a reflexão daqueles que, para anestesiar a própria consciência, costumam recorrer ao “é tudo a mesma merda” e não reconhecer no jornalismo a base fundamentalmente altruística que inspira a profissão.

Homs vem sendo alvo ha três semanas de uma barragem indiscriminada das bombas russas, chinesas, iranianas e norte-coreanas com que o ditador Bashar al Assad, o protegido do Itamaraty, vem sendo abastecido para seguir com a carnificina de seu próprio povo iniciada ha 11 meses, quando os reflexos da Primavera Árabe chegaram à Síria.

Antes de Homs calculava-se em 7 mil o número de mortos pelas balas da polícia e dos franco atiradores de Assad. Agora…

Em 1982, Hafez, pai de Bashar, bombardeou Hama até matar 40 mil pessoas por acreditar – como o filho pensa agora sobre Homs – que tal “providência” poderia desencorajar a rebelião contra o regime que, já então, tomava as ruas.

Como se poderá constatar na reportagem transmitida horas antes dela ser morta, não há alvos militares em Homs. A cidade está cercada e desarmada e quem tenta escapar da fome e das bombas cai na mira dos franco-atiradores do ditador que cercam as saídas.

Trata-se de uma operação de terrorismo de Estado feita com o propósito deliberado de matar indiscriminadamente o maior número possível de homens, mulheres e crianças que têm, como única esperança de resgate, a eventual mobilização da opinião pública internacional para forçar governos que, como o nosso, não se vexam de abraçar assassinos do quilate de Assad em função de maquinações de poder, a retirar-lhe o apoio e ameaça-lo com sanções.

A discussão entre Marie e seus editores sobre a decisão de mostrar ou não a cena da morte de um bebê atingido no bombardeio define bem o sentido que ela dava ao tipo de missão ao qual dedicou sua vida.

Marie Colvin e Remi Ochlik eram daquele tipo de ser humano que não se permite assistir passivamente um ato de covardia, considera seus os problemas de seus semelhantes e arrisca a própria vida para não permitir que outras sejam desperdiçadas em vão.

Não senhores. Não é “tudo a mesma merda“, apesar dos ingentes esforços da maioria acomodada para que venha a ser. E enquanto houver gente assim haverá esperança.

Um debate sobre democracia e dinheiro

fevereiro 18th, 2012 § 9 Comentários

Retirei os dois textos abaixo do gueto que o WordPress reserva aos comentários de leitores neste modelo de blog porque acho que eles esclarecem muito do que vem sendo discutido no Vespeiro ultimamente e para incentivar outros leitores a entrar nessa discussão.

Eles se referem à matéria “Longe, muito longe, longe mesmo” publicada nesta página.

De Augusto para Fernão Lara Mesquita:

Você deveria se informar melhor. Olha, se tem uma coisa que o Brasil precisa é de jornalista. Desculpe, mas todos os jornalistas — sem exceção — manipulam e distorcem como bem entendem, sempre segundo o seu perfil ideológico.

Que você odeie os juízes, tudo bem. Mas diga isso claramente. Não há problema nenhum. Também não gosto deles. Agora, dizer que a pena máxima a ser aplicada é a aposentadoria é mentira. Você deveria dizer que a aposentadoria é a pena máxima a ser aplicada no campo administrativo. Não quer dizer que ficará por isso mesmo. Ele vai responder civil e criminalmente pelos fatos de que é acusado. E perderá a aposentadoria. Talvez você diga: bom, mas a Justiça é lenta. Então talvez fosse o caso de combater esse problema, a lentidão da Justiça. E se é lenta para ele, é lenta para todos.

Logo, não vejo nada de errado no fato de o tal juiz ter sido apenado, neste momento, apenas com a aposentadoria. Acho que isso está certo, sim. Um juiz precisa ter um mínimo de garantia para o exercício da jurisdição. É preciso reconhecer que não se trata de uma profissão comum. Aliás, juiz não é nem profissão para começo de conversa. Esse negócio de querer pôr todo mundo no mesmo balaio é uma grande besteira. É evidente que existem atividades mais importantes que outras. Importantes não no sentido da vaidade, obviamente. Não existe nenhuma sociedade sem que tenha uma ordem jurídica estabelecida. E cabe aos juízes assegurar a integridade e a autoridade dessa ordem. A garantia de só perder o cargo por sentença judicial é, antes de mais nada, uma garantia da própria sociedade, não das pessoas que ocupam os cargos. Ela não serve para proteger o juiz que comete crime. Serve para proteger o juiz que tem conduta ilibada. Não fosse isso, estaríamos falando de uma Bolívia, de um Equador ou de uma Venezuela da vida, onde vários juízes foram destituídos pelos déspotas que governam esses países.

Gente que não presta tem em todo lugar. E, olha, no Estado — por incrível que parece — tem bem menos que no setor privado. Aí alguém logo pode dizer: bom mas no Estado o cara tem de prestar contas, mexe com o dinheiro público, etc., etc.. Ora, essa coisa de apenas os servidores públicos terem o dever de ser éticos e honestos é impensável no mundo atual. Vejam o exemplo da crise financeira. Foi gerada no setor privado, justamente devido às fraudes que se instalaram no mercado financeiro. Ou seja, tanto a corrupção (Estado), quanto a fraude (inciativa privada) geram consequências danosas ao conjunto da sociedade. Aliás, o setor privado hoje, devido ao seu gigantismo contemporâneo, é muito mais importante que o próprio Estado. As práticas empresariais lesivas geram mais danos que as do Estado. Isso é fato.

Repito, gente que não presta tem em todo lugar. Aliás, quanto maior o nível de instrução, quanto melhor o nível social, maior é a corrupção e maior é a tolerância às ações desonestas. Não sou eu quem digo. Há muito estudioso que prova isso. Nas camadas mais abastadas da sociedade é que estão as pessoas mais desonestas e mais criminosas, pois para o pobre a honestidade é um valor importante em si mesmo, diferentemente do rico, que, como não depende dela para suas relações sociais, lhe confere pouco ou nenhuma importância. O rico não precisa ser honesto para se relacionar com outras pessoas, não precisa ser honesto para conseguir um emprego, não precisa ser honesto para conseguir um empréstimo, etc., etc. Mas não é por que existem juízes corruptos, que se vai destruir todo o alicerce que garante aos juízes honestos a liberdade de poder proferir decisões justas e fundadas na lei.

Mas não sei por que eu perco o meu tempo aqui.

Resposta de Fernão Lara Mesquita

Prezado Augusto,

Vamos por partes como diria o esquartejador de Londres:

1 – …todos os jornalistas – sem exceção – manipulam e distorcem como bem entendem…

Esta eu vou responder com uma frase sua:

Esse negócio de querer pôr todo mundo no mesmo balaio é uma grande besteira”.

O problema com os jornalistas é que eles pensam em voz alta e deixam escrito o que pensaram. E se o ato de manifestar publicamente um pensamento sempre pressupõe uma escolha, também inclui um convite para o debate.

Afinal, pode-se sempre descrer da humanidade o bastante para ficar calado explorando a falha detectada na regra, como fazem os cínicos que em geral enriquecem com isso, em lugar de denunciá-la pedindo conserto como fazem os jornalistas movidos por critérios menos pragmáticos.

2 – Argumentar é considerar as outras hipóteses para demonstrar a superioridade da sua. E isto é o maximo que se pode oferecer como prova de honestidade intelectual.

O resto vai por conta de quem lê.

Com esta respondo também à sua última frase, que prefiro tomar como um elogio: você “perde seu tempo aqui” porque, no fundo no fundo, algo lhe diz que você não perde seu tempo aqui…

3 – Meu artigo não é uma crítica à necessidade de haver um julgamento administrativo antes do julgamento pela Justiça comum para membros do Judiciário. É uma crítica ao estado de rebelião em que o Judiciário se colocou nesses meses todos para garantir que esse “amortecedor” continuassse sendo a muralha inexpugnável em que as corregedorias dos tribunais o transformaram, de dentro da qual os “bandidos de toga” saqueiam diretamente a Nação ou vendem impunidade a quem o faz.

A comparação sugerida com o uso que aqueles legisladores e partidos políticos cujas práticas confundem-se com as da mafia fazem da imunidade parlamentar procura reforçar esse ponto.

A imunidade contra a ingerência política é uma necessidade. O abuso dessa imunidade é duplamente criminoso, tanto para políticos quanto para juízes. É prova de dolo em crime com alcance sistêmico. Por isso deveria ser triplamente penalizado.

4 – Deixemos de lado a existência de foros especiais – que os há para muitos mas nenhum tão especial quanto os que há para membros do Judiciário.

Mas um olhar, ainda que seja só de esguelha, para o que o CNJ ou o Coaf já levantaram e o numero de juízes (e políticos) nas nossas prisões indica que não sou um caluniador quando digo que os juízes não se esquecem de que eles poderão ser os próximos quando julgam judicialmente um ex-colega pego prevaricando.

Criminosos dessas origens estão totalmente ausentes de nossas prisões, alias, em função da exploração contumaz do garrote dos prazos, outra arma que, como você sugere, só serve para o mal e, no entanto, continua existindo única e exclusivamente porque o Judiciário quer dispor dela e a cultiva com o máximo de zelo.

Faz isso não só pelo que ela pode fazer pelos coelgas e políticos que são pegos em flagrante e podem ir a julgamento mas, especialmente, pelo que ela pode fazer pelo bolso dos que têm o poder de usá-la a favor de qualquer um que possa pagar por essa via de fuga.

5 – O Vespeiro orgulha-se de ser o espaço onde ha mais tempo e com maior insistência se vem denunciando e discutindo o alcance crescente da corrupção privada e a ameaça para a democracia representada pelo novo conluio entre Capital e Estado impulsionado pela competição com o Capitalismo de Estado chinês.

Ninguém valoriza mais o papel do Estado como força controladora – e não como o sócio preferencial ou a força coadjuvante do Capital em que se transformou globalmente – do que este arauto das legislações antitruste, ponto máximo das conquistas democráticas, que vos fala.

Folheie e verá.

Agora, dizer que há menos gente que não presta no Estado que no setor privado…

Até ha poucos anos eu acreditava que a próxima rodada da luta pelos direitos civis deveria se dar na legislação de sociedades anônimas para que os minoritários pudessem exercer maior controle sobre quem opera as corporações às quais eles, via Bolsas de Valores, confiavam suas aposentadorias nos países mais avançados.

Com o Capital associado ao Estado não acredito mais que isso possa funcionar. Exatamente porque é de quantidade de dinheiro e não de qualidade de gente que estamos falando.

A História me diz que, como regra geral, é uma coisa (a quantidade de dinheiro) que faz a outra (a qualidade da gente). Ha exceções, é claro. Mas dê uma olhadinha no PT de ontem e no de hoje se estiver demorando a entender este ponto.

Gente com fome não pode se dar o luxo de pensar em direitos. Gente empanturrada de dinheiro idem, pela razão contrária. Para quem precisa de direitos, a diferença é nenhuma. O acovardamento das democracias diante da crise econômica, consequência da disputa entre o trabalho escravo do Capitalismo de Estado e o trabalho remunerado e protegido por direitos do Capitalismo Democrático é prova disso.

Por isso prefiro garantir que ninguém, senão um ente institucional apenas (impessoal), possa manipular dinheiros grandes o suficiente para ameaçar os outros, que é o que as legislações antitruste se propunham fazer e fizeram com razoavel eficácia nos países em que de fato vigoraram ainda que por um curto espaço de tempo no século passado.

Levamos milhões de anos para conseguir “cercar”, mal e mal, o Estado. É provavel que levemos centenas de milhões para cercar centenas de novos pequenos Estados (corporações gigantes com budgets de centenas de bilhões) espalhados pelo mundo mas associados na perseguição desse tipo de “eficiência” que se mede pelo corte de custos (leia-se pela supressão de direitos).

É mais fácil, eficiente e seguro para todo mundo retomar a trilha perdida das legislações antitruste e voltar a separar o Estado do Capital encarregando um de fiscalizar o outro.

Mesmo porque não existe outra força na Natureza capaz de enfrentar o poder do dinheiro (ou, mais modestamente, de impor um controle social ao poder do dinheiro) com um mínimo de eficiência.

Com o Estado e o Capital correndo juntos atras de dinheiro sobra zero de espaço para a liberdade.

Por tudo isso, meu caro Augusto, constato que estamos mais próximos que distantes senão quanto às conclusões a que já chegamos, ao menos no que diz respeito às razões que nos movem, que é o que importa, e que, por isso, também eu não perco meu tempo ao lhe responder.

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