O Brasil que o inglês viu
novembro 17th, 2009 § 1 Comentário
O resumo do “dossiê Brasil” publicado pela Economist, que o Vespeiro oferece abaixo, mostra que, conquanto genial do ponto de vista gráfico, o otimismo expresso na capa da revista foi muito alem daquilo que o reporter, crítico como convém aos melhores da profissão, viu e relatou sobre o Brasil de hoje.

Para quem passou 35 anos dentro de uma redação não é dificil entender a frequencia com que os títulos e ilustrações de certas matérias vão além do que elas realmente contêm. A imagem do Cristo decolando como um foguete do topo do Corcovado na capa da ultima Economist é um caso típico. Como invenção gráfica ela é nada menos que genial. Seu impacto é formidavel. Posso até ver a discussão, na montagem da primeira página, sobre a desproporção entre o que ela sugere e o que a matéria descreve, e entendo facilmente porque o editor não resistiu a ela.
Mas como era de se esperar de uma das melhores publicações do mundo da melhor imprensa do mundo que é a inglesa, a matéria do Economist sobre a “decolagem” do Brasil é muito mais crítica do que a capa da revista parece sugerir. Tão crítica, na verdade, que, ao final do sexto dos oito capitulos em que está dividida, o autor, que, até ali, vinha descrevendo os problemas do passado e do presente que o país insiste em não resolver e nem sequer encaminhar, pergunta-se: “Porque, então, empresas e economistas do mundo todo vêm o Brasil como um lugar tão promissor agora, no presente? A resposta, diz ele, “tem alguma coisa a ver com consumo e muito a ver com uma grande maré de alpinismo social” o que, convenhamos, não podem ser considerados como fatores estruturais capazes de contrabalançar os defeitos que ele apontou nos seis capítulos anteriores.
Dali, o autor sai para o sétimo e penultimo capítulo que trata do consumo desproporcional de artigos de super luxo vendidos a prazo num país sem renda média que justifique tanto, e para o oitavo e ultimo em que, comparando as Américas do Sul e do Norte, vê mais semelhanças que diferenças e confessa algumas de suas perplexidades diante do enigma Brasil.
Mas vamos por ordem porque a intensão deste artigo é dar aos leitores do Vespeiro, em português, um resumo detalhado do que o Economist escreveu, já que um olhar estrangeiro é sempre interessante porque despido das distorções e do viez dos olhares nativos.
Vamos ao Economist, colecionando frases capítulo por capítulo:

Arrumando a casa, finalmente (Getting together at last)
Abundância de terras férteis, de recursos naturais, reservas ilimitadas de água doce (…) “Investidores estrangeiros apostaram fortunas na ideia de que o Brasil é de fato o país do futuro. E perderam essas fortunas…” (…) as ruinas de Fordlância, na Amazonia são, talvez, o mais marcante monumento “do repetido triunfo da experiência sobre a esperança”. ”Os estrangeiros têm memória curta mas os brasileiros aprenderam a temperar o seu otimismo com cautela…” (…)
“O Brasil já foi democrático antes, já teve períodos de crescimento economico antes, já teve inflação controlada antes. Mas nunca conseguiu ter essas tres coisas ao mesmo tempo de forma sustentada. Se a atual tendência se mantiver (e isto é uma grande interrogação), o Brasil com uma população de 192 milhões e crescendo rápido, pode se tornar uma das cinco maiores economias nos meados deste século, junto com China, EUA, India e Japão”.
…autosuficiente em petróelo fez grandes descobertas novas em 2007 … no ano passado o investimento estrangeiro direto foi 30% maior que no ano anterior enquanto no resto do mundo ele caiu 14%…
“Muito do atual sucesso se deve ao bom senso de seus ultimos governos, particularmente o de Fernando Henrique Cardoso, de 1995 a 2003, que criou um ambiente macroeconomico previsível e estável, no qual os negócios puderam prosperar” (…) “Para entender o atual otimismo, é preciso saber quão fundo o país mergulhou no início dos anos 90. As frustrações do passado explicam tres coisas sobre o Brasil que as pessoas de fora acham difícil compreender: a desconfiança na economia de mercado; a crença no benefício da intervenção do governo nos negócios e nas finanças; as altas taxas de juros”
… a renda per capita ficou estagnada ao longo do século 19, talvez por causa da ausência de um sistema educacional competente e da economia baseada no braço escravo produzindo commodities para exportação … nos meados do século 20 o país parecia ter encontrado uma fórmula de desenvolvimento promovido pelo Estado. Mas esse crescimento tambem trouxe a inflação que aleijou o Brasil até meados dos anos 90 e ainda é responsavel por desvios como as altas taxas de juros e a falta de disposição para poupar…
… entre 1990 e 1995 a inflação foi, em média, de 764% ao ano … “Então, um verdadeiro milagre aconteceu. Em 1994, um grupo de economists liderados por Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, criou uma nova moeda que vingou onde outras tentativas tinham falhado. Em um ano, a inflação estava controlada …
“Mais importante que isso, as reformas impuseram disciplina às finanças do governo. Tanto o governo federal quanto os estaduais agora têm de viver dentro de suas possibilidades. Existe uma obrigatoriedade de produzir um superavit fiscal … mas ha uma boa chance que ele não seja obtido este ano … Mesmo assim, o crescimento não veio imediatamente. Foi preciso que a economia mundial decolasse e o preço das commodities explodisse para produzí-lo.
O atual presidente, “Lucky” Lula da Silva conseguiu colher a maior parte do crédito pelo crescimento atual que, na verdade, pertence ao seu antecessor. A grande contribuição de Lula foi manter as reformas às quais ele acrescentou muito pouco, o que não é uma contribuição pequena dado que, nos ultimos sete aos seu partido tentou arrastá-lo para a esquerda …
… ele conseguiu reduzir as taxas de juros e injetar dinheiro na economia enquanto o mundo estava em crise … a economia encolheu durante apenas meio ano e agora está crescendo de novo … embora a taxa de juros esteja em 8,75%, uma das mais altas do mundo …
… o governo investe muito pouco e tem enormes lacunas a preencher nas áreas de segurança e educação. O sistema legal é disfuncional e ha outros problemas. Mesmo assim, outros países têm problemas similares e o Brasil fez progressos reais. Num país onde a taxa de juros era de 30%, uma taxa abaixo de 9% é sentida como um alívio. “É o mesmo alívio de correr uma maratona com 20 kilos nas costas, em vez de 50″, diz uma fonte do Credit Suisse. “O passado do Brasil é tão horrivel e seus progressos em educação e expansão do crédito tão recentes que pode-se esperar que o país continue progredindo mesmo que as reformas não vão muito alem disso … e a taxa de juros não vai cair para níveis considerados normais em outros países tão cedo…

Quebrando o hábito (Uma breve história dos naufrágios do Brasil)
Este capítulo abre com esta frase: “Nas ultimas décadas, o Brasil sempre foi um dos primeiros países a entrar em parafuso quando as coisas ficavam pretas em outros lugares”. E lista, resumidamente, os efeitos de várias crises. O Choque do petróleo de 1973-79; a Moratória do México de 1982 seguida pela do Brasil em 1983; o Plano Cruzado de 1986; o Plano Collor de 1990; o Efeito Tequila de 1994 com nova crise da dívida mexicana que levou os juros no Brasil a 50%; a Crise Asiática de 1997 que derrubou nossas exportações de commodities e provocou os ataques especulativos contra o real; a Crise Russa e do LTCM de 1998-99 que forçou o governo a deixar o dólar flutuar; a Bolha da Informática de 2001-02 que se somou à crise de desconfiança com a eleição de Lula e a atual Crise Financeira, iniciada em 2007 e sem final à vista.
A sobrevivência dos mais rápidos (As crises frequentes criaram bancos fortes e financistas espertos)
… você precisa ser bom ou, no mínimo, criativo, para sobreviver e fazer dinheiro onde você não sabe se a inflação do próximo ano vai ser de 50% ou de 500% … Empresas acostumadas a operar em circunstâncias como essas floresceram quando a vida passou a ser mais previsível …
Ha alguma verdade nessa afirmação que os brasileiros gostam de repetir, embora eles omitam o fato de que até os anos 90 as empresas brasileiras não tiveram de se preocupar com a concorrência estrangeira … Nenhuma grande companhia, nenhum grande banco balançou seriamente na atual crise … uma das razões é que uma onda de falências de bancos, em 1994, já tinha posto os piores fora de combate. Até então, os bancos conseguiam seus lucros tomando dinheiro dos depositantes, emprestando-o para o governo overnight e embolsando a diferença … quando a inflação caiu, ficou claro que um bom numero deles estava quebrado … estes fecharam ou foram absorvidos pelos bancos maiores … os bancos brasileiros tiveram outro grande impulso com as reformas de Armínio Fraga … tanto ele quanto seu sucessor no Banco Central, Henrique Meirelles, melhoraram muito o controle sobre os bancos e suas movimentações … essa transparência se estendeu aos mercados financeiros. Todos os gestores de fundos têm de manter aberta a contabilidade de suas operações e qualquer um pode ter acesso a essas informações na internet.
As grandes companhias brasileiras tambem eram notórias por tratar mal seus acionistas minoritários. Hoje é ilegal emitir ações com preços diferentes no momento de vendas ou fusões … com as novas regras, o dinheiro estrangeiro começou a fluir … em 2007, 80% do dinheiro levantado em IPOs era estrangeiro … o mercado de ações de São Paulo se tornou o quinto maior do mundo em volume negociado … o crédito aumentou continuamente …
Mas mesmo com todos esses progressos, dois problemas importantes permanecem. Primeiro: o credito é muito caro. Segundo: só o governo empresta a longo prazo, e não para todo mundo.
O Brasil tem um sistema bancário híbrido com bancos privados e estatais competindo pelos mesmos mercados. E é altamente concentrado … os creditos concedidos pelos bancos estatais é 37,6% do total e continua crescendo … o Banco do Brasil fala entusiasticamente em expansão internacional … mas não abre mão de seu papel como um instrumento de políticas publicas … os bancos estatais não são tão bem geridos quanto os privados e, assim, a tão esperada competição não acontece … as taxas de juros são, em média, 35% mais altas que a taxa de captação, contra menos de 10% nos outros BRICS … entre os fatores que explicam esse spread estão um estranho imposto sobre empréstimos bancários e exigências de reservas altíssimas … ha muitos empréstimos duvidosos sem provisionamento … e uma grande parte do crédito é subsidiado, o que encarece o custo do que não é …
Para suprir a ausência de um mercado de crédito de longo prazo, o Brasil criou um banco de desenvolvimento gigante, o BNDES, que é financiado por impostos sobre o trabalho … o BNDES foi util para o Brasil durante esta crise mas sua escala como o financiador favorito para clientes de menor risco está, provavelmente, inibindo o desenvolvimento de um mercado para financiamentos de longo prazo. Além disso, o modo como ele é capitalizado é fundamentalmente injusto.
Ainda assim, comparado com as falências, as fraudes, as manipulações do mercado, a volatilidade, o descumprimento de contratos e a virtual ausência de credito do passado, o setor financeiro brasileiro evoluiu muito. Os investidores estrangeiros notaram isso e começaram a por dinheiro no país.

Chegadas e partidas (Os estrangeiros estão investindo no Brasil, os brasileiros estão comprando no exterior)
“Fazer negócios com o Brasil nem sempre foi fácil”. Assim começa o capitulo que lembra o histórico fechamento do Brasil aos estrangeiros desde o Descobrimento e as histórias de fracassos em tentativas de estrangeiros de investir no país.
Daniel Ludwig e sua aventura amazônica, Henry Ford e a borracha amazônica, os bancos japoneses que tentaram entrar no mercado e quebraram a cara, a US Steel “descobrindo Carajás” e depois sendo desapropriada …
“Os investimentos fracassados no Brasil têm alguma coisa em comum. Companhias estrangeiras chegam ao país cheias de otimismo, pagam muito caro por uma empresa local e então deixam as coisas azedar, frequentemente vendendo a empresa para os mesmos donos anteriores por uma pequena fração do que pagaram”.
“Agora que o país se tornou mais previsível, menos investidores estrangeiros cairão nessa armadilha. Mas existem outras. Por causa do sistema jurídico pouco satisfatório, a melhor coisa a fazer é evitar as disputas judiciais. E isso faz com que as relações pessoais sejam especialmente importantes … É preciso aprender a lidar com o jeitinho, uma maneira de contornar obstáculos que faria qualquer departamento técnico ou jurídico de firmas americanas e europeias torcer o nariz…
Mas enquanto os estrangeiros estão entrando no país, uma quantidade de empresas brasileiras está se estabelecendo no mercado internacional. Pela primeira vez o Brasil tem uma boa quantidade de empresas que podem ser chamadas de multinacionais … a maior parte delas se voltou, primeiro, para mercados vizinhos. A principal razão para essa tendência parece ter sido a vontade de se proteger contra os altos e baixos da economia local. Mas a ultima onda de migrações teve razões diferentes: empresas mais auto confiantes, conscientes de que tinham capacidade para sobreviver em ambientes hostis, passaram a acreditar que podiam se dar bem em qualquer lugar.
Várias das histórias de sucesso envolvem empresas privatizadas. Um dos enigmas do Brasil é entender porque os polítios se sentem desconfortáveis de falar sobre privatizações apesar do sucesso todo que elas tiveram … a Embraer é um bom exemplo do que a privatização pode fazer. Como muitos dos gigantes industriais brasileiros, ela foi criada pelo governo. Numa joint venture com a italiana Aermacchi, teve acesso à tecnologia de jato. Mas por muito tempo seguiu produzindo aviões que ninguem queria comprar … Desde sua privatização em dezembro de 1994, a Embraer se transformou na maior fabricante de jatos de médio alcance do mundo … hoje, 96% do seu faturamento vem de exportações.
A CSN, uma grande metalurgica, foi fundada pelo governo brasileiro em 1941 e privatizada nos anos 90. Desde então, floresce. A Petrobrás tambem se deu bem desde que parte de suas ações foram para o mercado. Mas o melhor exemplo é a Vale … privatizada em 1997 (ainda que o governo brasileiro mantenha uma golden share que impede que ela seja vendida no mercado internacional). No início desta década a Vale era uma mineradora de médio porte … agora é uma das quatro maiores do mundo … Sob Roger Agneli, que antes trabalhou com bancos de investimentos, a Vale vendeu seus negócios periféricos e se concentrou nos metais e em aquisições pelo mundo afora. Hoje trabalha com todos os componentes da fabricação de aço e é capaz de ditar os preços mundiais…
Curiosamente, se o governo brasileiro se mostra hostil à ideia de que a privatização tende a melhorar as empresas, ele gosta muito da ideia de ter campeões nacionais fazendo sucesso lá fora … o BNDES emprestou US$ 8 bilhões para companhias com esse perfil para ajudá-las a se expandir como multinacionais … até 1996, essa expansão era impossivel porque havia leis proibindo a remessa de lucros de subsidiárias de companhias brasileiras no exterior.
Condenado à prosperidade (O Brasil aprendeu a amar o seu setor de commodities)
O Brasil foi batizado com o nome de uma commodity … e passou por diversos booms de commodities em sua história … mas nenhum beneficiou o país tanto quanto o atual.
Grandes descobertas de petróleo em 2007 tornaram facil esquecer que o Brasil já é o maior exportador do mundo de café, açucar, frango, carne e suco de laranja. Tambem exporta enormes quantidades de soja e minério de ferro, alem de outros metais … uma longa história de ganhos e perdas com commodities está escrita na paisagem nacional. E, no entanto, o país nunca capitalizou bem essas riquezas … Mas duas coisas mudaram: primeiro, o aperfeiçoamento do sistema financeiro nacional e a estabilidade permitiram que os empresários investissem sem medo de que tudo pudesse virar pó de repente, e boa parte desses investimentos foram para o setor de commodities; segundo, o grande boom das commodities nesta década tornou esses investimentos mais rentáveis.
Alem disso, a fome de proteínas do mundo não tende a desaparecer. As pessoas começam a comer muita carne a partir dos US$ 10 mil de renda per capita. E 80% da população mundial ainda não atingiu esse estágio … o Brasil está cheio de terras agriculturáveis … graças a esforços governamentais como o investimento em pesquisa na Embrapa fazem sua agricultura muito rentável … e o país tem a sorte de ter mais água do que precisa.
Mas ainda ha alguns problemas. O primeiro é saber quem tem direito à terra. E o direito de propriedade fica mais precário à medida que nos aproximamos do Equador (Amazônia) … em outras partes do país, ha o problema das invasões de propriedades pelo MST que tem muitos simpatizantes, entre eles o próprio presidente da Republica … O outro problema é a infraestrutura sucateada. O Banco Mundial calcula que, para continuar crescendo, os países em desenvolvimento deveriam investir cerca de 25% do seu PIB, dos quais pelo menos 7% em infraestrutura. O investimento brasileiro mal chega aos 20% nos ultimos anos, e em 2007, o governo investiu apenas 0,1% do PIB na melhoria do sistema de transportes … a frota nacional de caminhões tem em média 14 anos … o país tem a terceira maior rede de rodovias do mundo, mas somente 12% asfaltadas … o numero de mortes por veículo chegou a 35 mil em 2006, seis vezes mais que no Japão.
Os portos são geridos como braços do serviço publico e não como companhias privadas … para se conseguir apressar um carregamento, é preciso pagar por fora … por isso os portos brasileiros são mais lucrativos e menos eficientes que os do resto do mundo.
No início de 2007 o governo anunciou um Programa de Aceleração do Crescimento concentrado na infraestrutura, um pequeno passo na direção certa … os governos estaduais sub-contratam a manutenção de suas estradas a empresas privadas que podem cobrar pedágio … Infraero, a estatal que controla os aeroportos tambem tropeça nos investimentos … e frequementemente, mesmo quando os governos federal e estaduais se juntam para fazer um investimento e o dinheiro é alocado, nada acontece …
… agora, com as novas descobertas de petróleo, novos problemas se apresentam … o óleo está a quase 10 km de profundidade, debaixo de camadas de sal … as plataformas estão a 185 milhas mar adentro, fora do alcance de helicópteros … além das complicações técnicas para a extração, uma combinação de barcos, plataformas e helicópteros terá de estar em ação permanente para levar e trazer os trabalhadores … a Petrobrás promete, para isso, investimentos de 174 bilhões nos próximos anos … os sócios que ajudaram a descobrir esse petroleo terão sua vida complicada pela decisão do governo de se livrar da regulamentação que funcionou nos ultimos 10 anos … e isso torna menos atraente para investidores estrangeiros entrar nessa briga exatamente no momento em que o país mais precisa de investimentos.
(Alem disso) ha o temor de que o fortalecimento do real por causa do boom das commodities continue se acentuando, o que tornaria impossível a prosperidade da industria manufatureira.
Assim, as empresas brasileiras vivem espremidas entre duas paredes. De um lado, um setor publico que taxa muito pesadamente e gasta muito mal. Do outro, uma economia informal concorrendo deslealmente com elas.

Um Estado que se auto-mutila
O Estado brasileiro faz algumas coisas muito bem (prevenção da AIDS, pesquisa, produção de energia) … mas seu principal problema é que ele é fraco onde deveria ser forte e forte onde deveria ser fraco … ele pode negar licenças ambientais para a construção de novas hidrelétricas e portos mas não consegue impedir o lançamento de esgotos no rio que atravessa a maior cidade do país ou impedir madeireiros ilegais de depredar suas florestas. Ele pode tornar extremamente difícil a contratação ou demissão de empregados pelas maiores companhias do país, mas não consegue impedir que 45 mil pessoas sejam assassinadas por ano.
Os impostos subiram a 36% do PIB, comparados com 28% nos Estados Unidos. E, no entanto, as instituições publicas parecem laboratórios de alquimistas loucos que transformam ouro em chumbo. O Brasil gasta tres vezes mais que a China em saude por pessoa, mas seus indicadores são piores que os dela. O gasto com educação corresponde a 5% do PIB mas os estudantes brasileiros estão nos ultimos lugares comparados ao resto do mundo.
O Brasil começou tarde nos beneficios publicos. Ate 1930 só uma em cada cinco crianças estava na escola … pessoal qualificado é sua maior carencia … a Constituição de 1988 mais parece um orçamento do que um ordenamento institucional, tantas são as determinações sobre como usar as verbas publicas … ela é tambem um monumento à indexação … 90% do investimento federal é endereçado na Constituição. As aposentadorias do setor publico consomem a metade do gasto social e beneficiam desproporcionalmente os mais ricos.
O governo cobra impostos altissimos das empresas e torna muito dificil pagá-los. Na lista do Banco Mundial que aborda 183 países, é o 150º com sistema tributário mais complicado. Na média, as empresas brasileiras gastam 2600 horas de trabalho para pagar impostos. Qualquer grande empresa tem no mínimo 30 pessoas dedicadas exclusivamente a processar o pagamento de impostos. E as taxas são esmagadoras. Segundo cálculos do Banco Mundial, consomem em média 69% do lucro das empresas. Contratar e demitir é muito complicado e todo caso levado aos tribunais dá ganho de causa aos empregados …
… o Brasil tem falhado repetidamente em modernizar sua legislação. As empresas têm de pagar altos impostos e contribuições compulsórias para cada empregado admitido que, nos cálculos do Banco Mundial, chegam a 47% dos seus lucros …
… se um contrato é quebrado, é melhor desistir dele do que ir aos tribunais … as leis brasileiras permitem infindaveis recursos … um bom advogado pode atrasar um julgamento indefinidamente … a causa mais antiga em julgamento no Tribunal de Justiça do Rio de janeiro, tido como o mais eficiente do país, data de 1911 …
E como a vida das empresas enfrenta todas essas dificuldades, não é surpresa que uma ampla economia informal tenha se desenvolvido … as empresas vivem espremidas entre uma infinidade de regras que encarecem sua produção e uma economia informal que simplesmente ignora essas regras … um estudo da McKinsey informa que as empresas informais são duas vezes menos eficientes que as legais porque não têm acesso ao mercado financeiro e contratam os empregados menos qualificados … mas, mesmo assim, são mais lucrativas … só que não ha incentivo para que elas cresçam porque isso chamaria a atenção dos cobradores de impostos … e, do outro lado, elas limitam o crescimento das empresas legais … tudo isso reduz a arrecadação do governo e cria duas classes de trabalhadores, uma cheia de benefícios conseguidos por sindicatos muito articulados e outra que não tem nada …
… a melhor maneira de transformar as empresas informais e seus trabalhadores em contribuintes seria tornar as regras mais simples e os impostos menos pesados … no entanto, a reforma tributária que nunca foi feita é o item prioritário de tantos governos quantos os brasileiros conseguem se lembrar.
Porque, então, empresas e economistas de todo o mundo vêm o Brasil como um país tão promissor? A resposta tem um pouco a ver com compras e muito a ver com alpinismo social (social climbing).

Um presente melhor (A classe média brasileira em expansão quer a boa vida já)
O consumo está fervendo no interior do país … e o fenomeno está chamando a atenção das empresas, dos políticos e dos sociólogos … o IBGE calcula que o numero de pessoas na classe C foi de 42% em 2004 para 52% em 2008. Classe C define as familias com renda entre R$ 1064 e R$ 4591 (US$ 603 a 2603). A maioria é de empregados na economia formal, o que lhes proporciona acesso ao crédito, e tem um carro ou uma moto. O numero não caiu na crise atual … esse crescimento da classe média combinado com um aumento de 100% no salário minimo e com o Bolsa Família que beneficia 12 milhões de famílias, fez a desigualdade diminuir … o Nordeste cresceu um pouco mais que as outras regiões (3,3% ao ano contra 3,1% na média geral). As principais razões para isso foram uma grande expansão nos empregos publicos, nas aposentadorias e na redistribuição de renda
Os brasileiros adoram gastar. A Tiffany vende mais em São Paulo que em qualquer outro lugar do mundo. Louis Vuitton idem. Mas é a escala do consumo de massa que está chamando a atenção com 1 milhão de pontos de venda de cerveja, 165 milhões de telefones celulares. “Se o mundo está procurando poupadores o Brasil não tem muito a oferecer”, diz Illan Goldfajn, do Itau. “Mas se estiver precisando de consumidores nos podemos ajudar”.
Os desejos da classe média são pautados pelas novelas, que retratam sempre uma sociedade mais rica que a verdadeira … o luxo é muito popular, mesmo nos lugares onde não ha dinheiro sobrando … o maior consumo de whisky por cabeça é em Pernambuco … os varejistas sabem a importância de paparicar os clientes … o Walmart, construido em cima do princípio do faça você mesmo, tem funcionários para por as compras dos clientes nas sacolas. As Casas Bahia, de comércio popular, faz o cliente sentar e tomar cafezinhos enquanto lhes vende eletrodomésticos a prestações a perder de vista …
… o crédito ao consumidor aumentou 28% por ano nos ultimos tres anos e mesmo assim não chega a 2% do PIB (9% no Mécxico e 85% nos EUA) … mas as taxas de juros terão de cair muito antes que o mercado de crédito pessoal deslanche …

Duas Américas (O Brasil e os Estados Unidos têm mais em comum do que parece)
… o Brasil tem uma cultura própria e busca inspiração muito mais nos Estados Unidos do que em seus vizinhos hispânicos …
… o país é mais esquerdista na teoria que na prática … a maior parte do dinheiro que o governo gasta vai para pessoas comparativamente ricas. A maior causa individual da diferença na distribuição de renda entre o Brasil e os EUA está nos gastos do governo, muito mais regressivos. “Nós vivemos numa situação paradoxal de um governo que gasta muito mas beneficia poucos”, diz Antonio Palocci que foi ministro da economia em 2003.
Desde então, um pouco mais de dinheiro publico passou a ser gasto com os mais pobres mas, proporcionalmente, ainda é uma quantidade pequena. Na verdade, o Brasil tem um monte de políticas que seriam consideradas injustas e regressivas nos EUA. Crianças cujos pais podem pagar boas escolas privadas ocupam a maior parte dos bancos das universidades publicas … o BNDES transfere dinheiro de trabalhadores mal pagos para as maiores empresas do país … uma forma bizarra de apropriação de recursos públicos que provocaria escândalo em outros países.
Os brasileiros tambem têm uma visão do capitalismo muito mais próxima da dos americanos do que poderia parcer à primeira vista. Muitas das historias de sucesso dos últimos 15 anos, da livre flutuação do real ao banco central independente, assim como as privatizações, são produtos de uma forma semelhante de avaliar o que funciona e o que não funciona em matéria de economia. O presidente Lula tem o mérito de não ter revertido essas mudanças, como tantos temiam que fizesse …
O sucesso economico do país está circunscrito ao setor de commodities. Não tem uma industria automobilística ou de computadores própria. A Embraer é um exemplo isolado de grande exportador de tecnologia. O mesmo pode ser dito do setor de serviços, o que é uma pena para um país tão cheio de criatividade …
… o governo brasileiro parece confinar seus negócios em setores onde vantagens naturais o fazem virtualmente imbatível …
Comparado ao seu passado, o Brasil está indo impressionantemente bem; comparado ao seu potencial, seu desempenho ainda é muito pobre …
… o setor publico faz 55% do investimento em inovação tecnológica. Mas a Coreia do Sul, com um quarto da população do Brasil, registra 30 vezes mais patentes …
… o Brasil parece conter pelo menos dois paises diferentes. Um deles tem dez fronteiras terrestres e nenhuma guerra, um povo que fala uma só lingua e vive dentro de um mesmo fuso horário, não ha conflitos religiosos e tres quartos da população vota em eleições que são apuradas em 24 horas. Esse país tem uma economia e mercados financeiros sofisticados assim como uma coleção crescente de empresas de padrão global. Ele come sushi e normalmente anda bronzeado.
O outro Brasil tem taxas de assassinatos chocantes e uma polícia violenta. Muitos de seus políticos não vêm nada de errado em roubar dinheiro publico e nomear parentes para cargos publicos em seus pequenos reinos privados e se recusam a renunciar quando são flagrados. É um lugar de miséria onde 17% das casas não tem agua corrente e gente demais vive em casebres. É um lugar onde um monte de gente condenada por crimes graves segue impune e onde os que estão nas prisões tem uma existência brutalizada. Um lugar onde o governo não consegue deter a devastação ambiental …
O que torna o país tão interessante no momento é que, graças à estabilidade conquistada, o lado melhor do Brasil tem uma chance maior de prevalecer.

Cada um por si e o Brasil que se dane
novembro 13th, 2009 § 1 Comentário
Somos uma sociedade corrompida
onde o que é de todos não é de ninguem e onde
cada indivíduo sonha pular,
um dia, do barco dos explorados para
o barco dos exploradores.
O Valor de segunda-feira passada trazia extensa matéria sobre estudo do professor Nelson Marconi, da FGV, mostrando, com base em dados da ultima PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicícilos, feita em 2008), que o salário dos servidores federais estatutários do Poder Executivo, ou seja, aqueles com direito a estabilidade no emprego e aposentadoria integral, superaram, na média, em 101,3% os salários dos seus equivalentes na iniciativa privada.
Em 1993 a diferença era de 51,4% e em 2002, no fim do governo FHC, já estava em 78,9%. De 2003 a 2008, Lula elevou em mais de 40%, em termos reais, os gastos com pessoal da União. Até 2010 os aumentos dados por ele em plena crise, no momento em que a arrecadação despencava, vão custar um gasto adicional de mais de R$ 40 bilhões. Em 2007, a União gastou R$ 126,8 bilhões com funcionários ativos e inativos dos tres poderes. Para 2010 o gasto está orçado em 167,9 bilhões.
Para se ter ideia do que esses valores representam, basta lembrar, para pegarmos o exemplo do momento que, de janeiro a agosto, a Eletrobras investiu R$ 2,773 bilhões em todo o sistema de geração e transmissão de energia do país (o que representa só 38% dos R$ 7,243 bilhões que estavam orçados). Ou seja, o governo federal gastou em 2007 com seus funcionários 14,5 vezes mais do que precisou investir para gerar e distribuir a eletricidade que sustenta o funcionamento de toda a máquina produtiva deste país continental.
E note-se que estamos considerando apenas e tão somente o universo dos servidores federais que é de 1 milhão de funcionários. Some os estaduais e os municipais (o que leva a cifra para algo entre 10 e 15 milhões) e você entenderá, num átimo, porque o Brasil é um país tão pobre.
Mas essa é uma realidade que o Brasil prefere não encarar. Somos uma sociedade corrompida onde o que é de todos não é de ninguem e onde cada indivíduo sonha pular, um dia, do barco dos explorados para o barco dos exploradores. Dos patrocinadores da festa do funcionalismo em plena crise, seguiremos ouvindo discursos sobre a iniquidade da desigualdade de renda e sobre a necessidade de cobrar mais impostos para reduzí-la. E 80% dos brasileiros ou mais repetirão o mantra com eles.
Um dos interessados nos aumentos do funcionalismo, ouvido pelo Valor, diz que escandalizar-se com isso (essa diferença média de mais de 100% entre os salários do país oficial e os do país real) “é um preconceito de quem ganha bem na iniciativa privada e não utiliza o serviço publico”. E, na sequencia, repetia o eterno argumento de Lula; “Como melhorar a segurança ou a saúde sem remunerar bem os profissionais?”
Criando um sistema de mérito, como o que existe na iniciativa privada, por exemplo, seria um bom começo. Não que isso elimine a necessidade de que o salário seja tanto maior quanto for possível. Mas o Brasil de Lula está aí, de prova, de que só aumentar salários sem exigir nada em troca não funciona. Logo, lisura e um pouco de empenho é o mínimo que se deve exigir do funcionário que pede aumento, pela mesma razão pela qual ele próprio exige o mesmo dos seus empregados domésticos, aos quais certamente não dá garantia incondicional de emprego se trabalharem ou não, se assaltarem os armários e gavetas de sua casa ou não.
Pela enésima vez – e a matéria tambem tratava disso – o governo promete “para o início de 2010″, instituir um sistema de avaliação individual do desempenho dos servidores. Só que como eles têm garantia de permanência no emprego pelo resto da vida, com aposentadoria integral, com a única condição de que tenham conseguido colocar um pé dentro do setor publico uma vez, um sistema de mérito pra valer está, por definição, descartado. Pois a grande força de persuasão nesses sistemas é a ameaça de perda do emprego ou de estagnação nos níveis mais mediocres da carreira e da escala salarial. Sendo, entretanto, inconstitucional a sanção ao ócio do funcionário publico e automática a progressão na carreira e na escala salarial, resta fazer o desempenho individual valer só para cima. Assim, o sistema com que acena o governo (se vier um dia a ser posto em prática), funcionará assim: as gratificações serão função de uma medição valendo 100 pontos. Oitenta corresponderão ao “desempenho institucional” e 20 ao desempenho individual. Ou seja: 80 % do aumento, até o funcionário pior que vagabundo leva de qualquer jeito só pelo fato de ser funcionário. Quem se mexer um pouquinho mais que o vagabundo, leva mais 20%.
Como lá no mundo maravilhoso dos que “nos servem” vigora também o sistema de isonomia que diz que o aumento porventura conseguido por um poderá ser reivindicado na Justiça por todos, já se vê onde isso vai parar.
Não é atoa que, como tambem notava a matéria, os concursos para ingresso nesse Xangrilá são cada vez mais disputados. Num dos mais recentes, para vagas de analista da Anatel (Agencia Nacional de Telecomunicações), havia 400 candidatos por vaga.
“Crise à vista? Proteja-se na estabilidade da carreira publica: sem experiencia anterior, sem limite de idade, ambos os sexos”. É o que alardeia o cartaz de um dos cursinhos preparatórios para concursos publicos que proliferam pelo país, encontrado pelo Valor…
O jornal entrevista alguns candidatos. “Carla Seppi, 23 anos, quer, desde sempre, seguir o exemplo dos pais e de parentes de se tornar funcionária publica. Mais especificamente, trabalhar na Receita Federal”.
O que a atrai? Qual o testemunho que Carla pode dar a partir do que vê dentro da própria casa? “O que atrai é a estabilidade, o salário e também a qualidade de vida“, diz esse padrão de brasileirinha pronta para o 3º Milênio da competição global.
O que teria ela querido dizer com isso? A qualidade de vida que os pais compram com o salário que pode começar em R$ 7 mil e terminar perto de R$ 20 mil? O tempo que eles têm para a familia e o lazer, apesar da faina no serviço publico? O muito que os fiscais da receita sempre acabam adquirindo com tão pouco? Ou tudo isso junto?
Seja o que for, Carla, esse arquétipo da nossa enérgica juventude idealista, tem tempo. “Sou nova e se não entrar nesse, haverá outros concursos. Eu só me vejo trabalhando no setor publico”…
Pela ordem, registra o pesquisador da FGV, o sonho brasileiro é, primeira opção, trabalhar no setor publico, segunda, trabalhar para uma multinacional. Trabalhar para uma empresa nacional só para quem fracassar nas duas primeiras opções. Por que? Porque para que Carla, sua família e seus colegas possam ter uma vida tranquila, estável, abrigada das crises, com aposentadoria integral ainda na flor da idade e cheia de “qualidade” , os milhões de empregados das empresas nacionais, que pagam todos os impostos e todos os encargos que esses privilégios custam, têm de ter uma vida de permanente turbulência, uma aposentadoria miserável e um salário de fome. Já as multinacionais, com unidades de produção espalhadas pelo mundo, só tem de pagar os impostos e os encargos escorchantes necessários para sustentar a qualidade de vida de Carla e dos seus aos empregados de suas unidades brasileiras. No resto do mundo, a carga é bem mais leve. Assim, diluidas as coisas, o empregado de uma multinacional, ainda que levando uma vida sujeita às intempéries da economia internacional (das quais só Carla e os seus estão a salvo), pode ter um salário um pouco melhor que o do trabalhador da empresa estritamente nacional que arca com a carga inteira.
A relação de causa e efeito é direta: quanto mais aumentar a segurança de Carla, mais aumentará a insegurança dos milhões de Zés do Brasil.
Agora mesmo, na crise que, bendita hora, chegou próxima da eleição, Lula foi obrigado a recorrer à redução de impostos para manter o país à tona e preservar sua popularidade num ano pré-eleitoral. Com isto, acabou provando na prática a verdade daquilo que vive denunciando como mentira no discurso: que a redução de impostos provoca um efeito fulminantemente positivo na produção, na criação de empregos, na redução da miséria e no enriquecimento geral da Nação. Inteligente como é, não terá deixado de tirar as conclusões obrigatórias do resultado medido de sua própria experiência. Mas assim mesmo seguiu recheando, com a outra mão, o Estado de funcionários de que não necessitamos (mas o PT sim) e que pesarão nas contas publicas até morrer, pressionando a equação fiscal, demandando cada vez mais “carvão” apenas para manter a fornalha acesa.
Pondo cada vez mais longe, em outras palavras, a possibilidade futura de promover reduções sustentaveis de impostos que poderiam manter o Brasil em vantagem na competição internacinal, impulsionar o crescimento de forma estrutural e tirar milhões de brasileiros para sempre da miséria.
Nossa Justiça já aceita “provas psicografadas”!!
novembro 12th, 2009 § Deixe um comentário
Acaba de dar no Jornal da Band com entrevistas de juristas e tudo, que os tribunais brasileiros estão aceitando “cartas psicografadas como prova”!!
Só com a matéria já andando me dei conta do que se tratava e, meio hipnotizado, fixei a atenção. Assim, me desculpem se este relato contiver alguma imprecisão. Mas o resumo é esse mesmo.
Desta vez foi em Porto Alegre. Mas já teriam ocorrido outros dois casos no Mato Grosso.
Duas entrevistas sustentavam a matéria: acusação e defesa. A defesa afirma que a carta que – acredite se quiser! – é atribuída à própria vitima do crime (se não me engano), que escreveu lá do outro mundo para dizer que o acusado não era culpado por sua morte.
A outra era do promotor. Ele não discutia o critério do tribunal ou a natureza da prova. Apenas procurava demonstrar que a carta é “uma falsificação” mas – atenção! – não em função do modo como foi obtida, mas sim pelos indícios que sugeriam que seu autor não era o morto ao qual ela era atribuída. O morto, segundo a acusação, “era um sujeito muito culto e ilustrado e a carta é cheia de erros primários de redação”. Tão falsa que nem mesmo a assinatura estava correta pois que o nome da vitima era uma dessas coisas esquisitas de hoje em dia, Ericy ou coisa parecida, nome que o psicografador (ou seja, o medium) escreveu com “i”, enquanto o psicografado era notório por exigir, sempre, a grafia com “y”.
A defesa argumenta, entretanto, que isso não quer dizer nada porque na científica questão da comunicação entre vivos e mortos, o medium é só um intermediário que “ouve” o outro mundo es escreve o que ouviu do seu jeito.
O advogado de defesa, aliás, afirmou taxativamente que tudo isso encontra sustentação na Constituição já que se trata de uma manifestação religiosa como outra qualquer!
Confesso que não chega a me surpreender que a nossa “Constituição Cidadã”, que abriga todos os absurdos que desgraçam este país, contenha também uma dúzia de capítulos relativos à pratica do espiritismo. Afinal espírita também vota, e todo mundo que vota tem o seu cantinho nesse clássico da democracia que é a nossa Carta Magna. E, pelo jeito, até quem não vota mais. A não ser que tambem já estejamos aceitando votos psicografados…
Me provoca uma certa vertigem ver nossos juristas lidando com isso como se fosse a coisa mais lógica e natural do mundo. Afinal, a cegueira da nossa Justiça, que cada vez mais vem tomando ares de uma fantasmagoria, agora se torna física…
Mas o que me faz entrar mesmo em pânico é ver jornalistas sérios, como sei que são os do Jornal da Band, fazerem a mesma coisa. É só “ouvir os dois lados”, e pronto. Missão cumprida…
Riobaldo, meu velho, o Brasil, realmente, “nas juntas se desgovernou”!
Cala-te boca!
novembro 12th, 2009 § Deixe um comentário
O Estadão de hoje faz um bom levantamento:
Somente depois que estava na Presidência Lula fez 55 discursos citando o apagão do governo Fernando Henrique. Seis só este ano. Na campanha de 2006, o apagão foi tema de 15 pronunciamentos.
O primeiro discurso sobre o assunto como presidente foi em Parintins (AM). O ultimo, dia 30 de outubro passado, num encontro de empresários no Rio.
Agora se queixa de “exploração política” do seu apagão…
Ja dona Dilma, a grande credencial da sua propalada competência como gestora é a solução do problema do fornecimento de energia “como nunca antes na história deste país”.
Raios!
Nas entrelinhas do apagão
novembro 11th, 2009 § 2 Comentários
No meio da escuridão de ontem à noite, eu acompanhei os esforços da imprensa para cobrir o apagão pelo celular, que foi das poucas coisas que continuaram funcionando.
Por meio dele acessei a internet e os sites de informação. Por meio dele criei meu próprio link mambembe com a televisão. Liguei para uma amiga em cujo prédio ha gerador. Ela estava assistindo ao Jornal da Noite da Globo e eu pude ouvir o que eles estavam dizendo. A meu pedido, ela pos o celular no viva voz ao lado da saída de som da TV e, assim, eu fui acompanhando a TV num celular e os sites da internet no outro.
A improvisação, neste mundo cada vez mais previsivel, tem sempre um gostinho de vitória…
Mas o interessante, nessa história, foi o que eu ouvi. Nessas coberturas quentes, de grandes imprevistos, o espectador não iniciado tem a oportunidade rara de assisitir à “meta matéria” ou, em expressão mais conhecida, o “making off” de um trabalho jornalístico. Quase não ha edição e a gente pode assistir à luta dos reporteres à procura das fontes, sob a pressão do tempo, em vez daquela materinha empacotada a que estamos acostumados. O Jornal da Noite foi esticado para mais de uma hora de duração, enquanto os reporteres da Globo tentavam encontrar alguma pista para explicar o que estava acontecendo. Como era de esperar, foram aos mais graduados escalões da Eletrobras.
E o que foi que encontraram?
Com o meu próprio celular tambem no viva voz, em cima da nossa cama, chamei a atenção de minha mulher quando a Globo entrava pela terceira ou quarta entrevista, chamando diferentes reporteres. E todos os entrevistados ligados ao “setor elétrico” estatal repetiam o mesmo tom, quase com as mesmas palavras. Os reporteres faziam perguntas para entender a razão técnica do que estava acontecendo, mas só recebiam respostas “políticas”, com os figurões da Eletrobras já se desculpando antecipadamente:
“Nosso sistema é um dos mais modernos e seguros do mundo”.
“Fomos elogiados” sei lá aonde.
“Temos investido muito na modernização do sistema”…
Enfim, foram horas de generalidades “desculpativas” que só coincidiam numa coisa: na absoluta ausência de qualquer conhecimento técnico por parte dos entrevistados; a absoluta falta de segurança para ser transparente e explicar que não é possivel saber a causa exata nos primeiros minutos de um apagão de extensão continental. Nem a memória de apagões passados e suas causas eles tinham. Muitos mostraram desconhecer a realidade do nivel de interligação do sistema atual. Apenas um mencionou a hipótese de um “efeito dominó” a que essa interligação conduz.
A Globo só começou a encontrar respostas com um pouco mais de base técnica quando a madrugada já ia longe e a luz estava quase voltando. Foi o tempo que ela levou para chegar ao quarto ou quinto escalão do setor elétrico estatal.
Por que?
Porque a Eletrobras não é propriamente uma empresa, mas sim um dos feudos que o governo distribui para os seus “apoiadores”. No momento, a Eletrobras é a parte que cabe a José Sarney no latifundio do PT. Logo, lá pra cima cima, só tem apadrinhado mamando em têta. Você só começa a encontrar gente que entende minimamente de elitricidade, na Eletrobras, lá embaixo, na turma que realmente tem de trabalhar…
A outra informação que se pode “entreler” desses acontecimentos é a má consciência do PT que não fez outra coisa em toda a sua história senão transformar qualquer acontecimento numa crise política. Se o incidente tivesse ocorrido com alguma parte privatizada do sistema, esse seria um pretexto para justificar sua reestatização. Não sendo o caso, ficamos com os raios. E se os raios que desligavam a eletricidade no passado eram mentiras para encobrir a intenção deliberada do governante de então de deixar o país às escuras e justificar até campanhas pelo impeachment, os raios que desligam a luz do PT são cochilos do companheiro altíssimo, que junto com Judas, tambem é do PT, porque nunca antes neste país, etc, etc, etc.
O PT,enfim, espera do resto do Brasil os mesmos golpes baixos que passou a vida aplicando nos outros.
O mau julgador por si é que julga…








