Os heróis de Dilma estão morrendo de overdose

20 de fevereiro de 2014 § 1 Comment

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Overdose de pesporrência e autoritarismo. Olho para as venezuelas, para as argentinas e até para as cubas da vida e constato que, felizmente, a História anda bem mais rápido neste mundo sem fronteiras de hoje e não é mais necessário esperar 70 anos para um povo se livrar de um sistema opressivo, ainda que o preço dessas aventuras continue sendo sempre elevado demais.

Fiquei em dívida com os leitores do Vespeiro esta semana que passei em trânsito por lugares sem conexão de internet. Mas televisão tinha. Assisti, se não me engano na segunda-feira, a uma reprise do programa Painel comandado por Willian Waack, que discutia com Oscar Vilhena Vieira, professor de Direito da GV, Marco Antônio Villa, historiador, e José Álvaro Moisés, sociólogo, as raízes da epidemia de violência no Brasil a partir dos quase linchamentos de assaltantes ocorridos nos últimos dias e da morte do cinegrafista com a cabeça explodida por uma bomba dos black blocs, dois casos que se ligam pelo traço comum da crescente substituição das vias institucionais de processamento de desavenças pela ação direta da turba que “toma a justiça em suas próprias mãos” pelo Brasil afora.

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Chegou-se a esboçar o arquétipo de um povo bipolar “com uma bola no pé e uma pedra na mão”; especulou-se em torno das raízes históricas da “ausência de legitimidade” da Justiça que se aplica entre nós e, por essa senda chegou-se, caso raro nas análises que a mídia tem preferido veicular, à constatação da completa ausência dos fundamentos essenciais da democracia no Brasil, com a igualdade perante a lei abrindo a lista dos ausentes.

Mas o alarme do cronômetro que escraviza a televisão e a torna obrigatoriamente tão rasa disparou justamente quando se constatava o “crescente divórcio entre as instituições e as ruas” que é, ao mesmo tempo, uma esperança e uma ameaça.

Esperança porque é um sinal salutar de tomada de consciência por uma parcela da população com paciência cada vez menor para esta empulhação que é a nossa vida institucional e política, fenômeno que se expressou com exatidão literal nas manifestações “autênticas” de junho de 2013.

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Ameaça porque substituir instituições por ação direta, sobretudo quando todos sabem o que querem destruir mas não o que querem construir no lugar, é o caminho mais curto para o brejo das ditaduras populistas onde já chafurdam tantos de nossos vizinhos.

É para onde corremos o sério risco de sermos empurrados por essa associação clássica entre os babacas da “estética da violência” da esquerda playboy (antigamente dita “festiva”) e os trogloditas pagos, do tipo que rotineiramente se contrata para “decidir” eleições sindicais, manipulados pelos profissionais da demolição de instituições pela corrupção, agora alçada à nova categoria “ideológica” de arma “legítima” de conquista do poder que têm manipulado os primeiros.

Essa “promoção” da boa e velha roubalheira foi identificada pelos dois lados envolvidos no julgamento do Mensalão. Tanto o Ministério Público Federal quanto o Supremo viram na sistematização do suborno do Legislativo pelo PT um “atentado contra os fundamentos da Republica” visando anular qualquer controle desse poder sobre os atos do Executivo.

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A cena dos ladrões flagrados e condenados erguendo punhos “de resistência” no ar nas portas das penitenciárias, seguidos das (supostas) mobilizações da militância para colher, entre os roubados, contribuições para reduzir as penas dos ladrões também têm inequivocamente esse sentido.

O outro ingrediente da receita são as duas formas de violência que toma as ruas: a controlada das manifestações de griffe que se seguiram às de junho, e a espontânea dos quase linchamentos das ultimas semanas que surgem como uma resposta exasperada à explosão geral dos números da criminalidade frente à falta de disposição do estado de enfrentar esse problema.

Eugênio Bucci, com a competência costumeira, volta a discutir hoje no Estado o lado “estético” e “cultural” que indiscutivelmente, concordo, se mistura aos quebra-quebras de agosto até hoje. Mas vale lembrar que a presença desse tipo de inocente útil da elite que ajuda muito a retardar a articulação das defesas da sociedade contra a ameaça real que esses movimentos encerram até que seja tarde demais, é uma constante histórica nos episódios do gênero onde sempre, excluído da regra o mundo saxônico, acabam por triunfar os profissionais.

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O que ha de lastimavelmente diferente nesta reencenação tropical do fenômeno que chacoalhou as democracias do Norte nos anos 60, a que ele se refere no seu artigo, é a qualidade da “utopia” por traz de cada uma, transcorrido meio século de História assistida ao vivo como nunca tinha tido oportunidade de experimentar a geração que embarcou no que, naquela época dos primórdios da televisão, ainda podia ser visto como uma ilusão honesta.

Essa “ideologização” da corrupção posta ao lado da ideologização dos “justiçamentos” e até do assassinato a esmo com bombas detonadas em praças públicas daquela época – cujos agentes frequente e literalmente são as mesmas pessoas – corresponde perfeitamente ao abrandamento das sanguinárias ou até genocidas “ditaduras totalitárias do proletariado” do século 20 nas apenas brutais ditaduras populistas de hoje.

O século 21 não aceita mais a ideologização do sangue mas O Poder continua sendo O Poder e levando os que acreditam ter nascido para exercê-lo livres de qualquer limite aos extremos possíveis em cada momento histórico.

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Estes consideram cada dado da equação com a mais fria objetividade e tratam apenas de colher cada grão de poder conquistado, seja como for. Naquela época assim como hoje a perversão do sentido do ato criminoso posto a serviço dessa caçada ao poder político vem muito mais de fora – dos intelectuais e da militância que apoiam as correntes que o praticam – do que de dentro do grupo dos seus executores.

Onde, lá atrás, pululavam os psicopatas mais interessados na volúpia de onipotência encerrada no ato de matar que na sua interpretação política, hoje atua a legião dos muito mais interessados no produto “em espécie” da roubalheira que no ganho de poder político que dela resulta para um terceiro.

Mas pairando por cima de ambos está, como sempre, a figura mais amoral e despida de limites entre todas, usando os demais até onde puderem servir aos seus propósitos e descartando-os sem nenhuma hesitação ou poesia assim que deixam de ser úteis.

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Antigamente, depois de fuzilado o último “moderado” entre os “quadros” da revolução; hoje, depois de removido o último juiz ainda a serviço da lei, impõe-se a verdade sem máscara da concentração de todo o poder na pessoa do déspota, seguida da criminalização da oposição e da institucionalização do confisco do produto do trabalho alheio.

É o ponto em que se encontram os nossos vizinhos mais visitados e festejados pelo PT.

O que fica faltando na receita de hoje é a repressão brutal à criminalidade que explode como subproduto do aniquilamento da força da lei necessário à instalação do império do crime em que se apoia o novo esquema da “revolução pela corrupção” depois da tomada do poder. Antigamente ela vinha junto com O Terror aplicado livremente para consolidar a conquista do poder. Hoje esse recurso está banido pela rejeição universal à matança como recurso “político“, o que resulta em que a criminalidade insuflada durante o período de desmontagem das instituições pela arma da corrupção se torna crônica, vira uma herança maldita dos próprios regimes que a insuflaram e acaba se transformando num componente decisivo para apressar a morte por overdose dos traficantes dessa droga.

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Nós ainda estamos no meio do caminho para esse tipo de desastre, percepção que faz aumentar todos os dias a inquietação da sociedade brasileira. Ha uma insatisfação crescente de uma parte considerável da nacionalidade com o estado de coisas a que nos levou, por enquanto, essa ideologização da corrupção, que está saindo rapidamente do estado de latência, o que nos põe diante de riscos e oportunidades.

Por que esses insatisfeitos não são capazes de expressar o que sentem de forma propositiva e unir-se em torno de um objetivo definido é algo que está relacionado ao fato de – da escola à imprensa – o país estar preso a um gabarito de interpretação da realidade social e política dos meados do século 19 que não faz mais sentido nenhum no mundo de hoje, fenômeno que deita raízes na herança jesuíta de que nunca nos livramos.

Mas este é o assunto do artigo de amanhã.

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O crime dos jornalistas

2 de abril de 2013 § 8 Comments

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Cada um tem o direito de pensar o que quiser sobre o desarmamento.

Eu, por exemplo, penso que a tese de que os homicídios “são causados” pelas armas de fogo é um raciocínio tão recheado de sentido quanto dizer que quem estuprou a turista americana esta semana no Rio de Janeiro foram os pintos dos três estupradores e não eles próprios, e que é mais insano ainda afirmar que a forma justa e adequada de se conseguir segurança sexual para todos é amputar esse apêndice de todo homem nascido vivo.

Agora, fatos são fatos. E torce-los até que se adequem às teorias da sua preferência é mais apropriado aos políticos malacos que todos nós criticamos que a jornalistas.

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A campeã da “cruzada do desarmamento”, como se sabe, são as Organizações Globo onde o grau de tabu em torno da questão é de tal ordem que nem William Waack, cujo jornal costuma ser mais honesto e inteligente que os de seus colegas de emissora, tem liberdade para falar desse assunto recorrendo apenas ao cérebro.

Não é privilégio dele, diga-se de passagem, posto que mesmo os editorialistas do Estadão, reconhecidos pelo apego ao bom senso e pelo hábito de respeitar os fatos, enfiam o sorvete na testa à simples menção da palavra “armas”.

Enfim, seria de rir se não houvesse razões para chorar posto que desviar a atenção das autoridades e do público das soluções verdadeiras para o descalabro da segurança pública no Brasil custa rios de sangue, suor e lágrimas e nos põe mais longe a cada mentira do fim da guerra que mais mata no mundo (a do Brasil).

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Já mencionei aqui antes que Júlio de Mesquita Filho costumava dizer que manipular desonestamente o noticiário dos jornais é crime muito pior que o do tráfico de drogas porque, em função do alcance da imprensa, o dano produzido é muito maior.

Hoje, depois de repetir a mentira ontem em todos os jornais de todos os seus canais de TV aberta e fechada, O Globo gasta uma página inteira – aquela que costuma dedicar ao assunto mais importante do dia – para escrever um verdadeiro tratado do desrespeito aos fatos e às regras mais elementares da lógica e do bom jornalismo, para dar a uma pesquisa que em má hora alguém da empresa encomendou à Fipe, o sentido inverso daquilo que ela constatou indubitavelmente, a saber, que a uma redução de 35% nas vendas “legais e ilegais de armamentos” desde que o Estatuto do Desarmamento entrou em vigor em 2003, correspondeu um numero de mortes por arma de fogo 26% maior em todo o território nacional.

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Descontada a região Sudeste, de que falaremos mais adiante, a única em que a criminalidade caiu no período (- 41,43%) apesar da redução do numero de armas ter sido a menor do país, a média de aumento da criminalidade nas demais regiões foi de astronômicos 43%.

Como bonus punitivo aos mentirosos contumazes, aliás, essa pesquisa constatou também que a criminalidade aumentou muito mais no Nordeste (+ 42,78%), a região que mais enriqueceu no país nesse período e na qual a venda de armas mais caiu (- 56,5%) e especialmente no Norte (54,5% menos armas e 64,92% mais mortes! por arma de fogo), a segunda região que mais prosperou economicamente no período.

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Os números pulverizam ao mesmo tempo, portanto, as duas teses mais caras àquele jurássico tipo de acrobata ideológico que ainda sobrevive neste nosso exótico país: a de que o crime é função da pobreza e a de que os homicídios “são causados” pelas armas de fogo.

Como don Lula I andou desmontando a Fipe e aparelhando-a com adeptos da “matemática criativa”, imagino que não foi preciso submeter o “pesquisador” João Manoel de Mello, que se prestou ao papel de endossar as mentiras da Globo, à tortura para extrair dele a “conclusão” de que, mesmo com esse crescimento de 26%, os homicídios “entraram em queda” depois da promulgação do Estatuto do Desarmamento.

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Mas onde a desonestidade assumiu proporções nada menos que “lulianas” foi na “análise” dos número da região Sudeste, a única na qual a criminalidade caiu (- 41,43%) no período, o que aponta para as soluções reais e efetivas contra o império do crime no Brasil.

Rigorosamente nenhuma menção foi feita aos dois fatos que explicam essa redução, a saber, a ocupação militar e o início do policiamento dos morros cariocas antes entregues à sanha do crime organizado, e a “operação limpeza” feita na polícia paulista pelo governador Geraldo Alkmin que foi saudado na ONU por ter conseguido o feito inédito no mundo de reduzir a criminalidade em São Paulo nada menos que à oitava parte da que encontrou, embora toda a imprensa brasileira tenha trabalhado em uníssono para esconder esse fato.

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Alkmin conseguiu esse feito com a medida palmar de tirar das mãos dos próprios fiscalizados as corregedorias das polícias paulistas e transferi-las para as do seu ex-secretário de Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto, derrubado em novembro passado, a quem deu plenos poderes para “limpar” a polícia paulista.

Ferreira Pinto estabeleceu rito sumário para os julgamentos administrativos dos policiais corruptos e, em menos de um ano, renovou todos os comandos da polícia de São Paulo. O resto foi mera consequência…

Policiais corruptos e criminosos estavam igualmente interessados na queda dele, portanto.

Por uma feliz coincidência, aliás, o jornal comandado por William Waack, que abriu a “escalada” repetindo a leitura falsificada da pesquisa da Fipe, se deu na imediata sequência da exibição pela Globo do filme Tropa de Elite – 2 que gira em torno da podridão sanguinolenta que caracteriza as polícias do Rio de Janeiro em seu conluio ostensivo com as duas pontas do crime organizado que, diga-se de passagem, não vivem uma sem a outra: o tráfico de drogas e a baixa politicagem.

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Para “sorte” do PT e azar de São Paulo, o maior feito de Alkmin ficou obscurecido pela onda de assassinatos envolvendo policiais como vítimas e como autores que começou a rolar coincidentemente nas vésperas da eleição passada e ainda não se deteve.

A primeira vítima dessa onda de crimes foi o secretário que tanto incomodava os policiais corruptos e os criminosos deste Estado, fato que mais uma vez voltou-me à cabeça ao assistir de novo o final melancólico do filme protagonizado por Wagner Moura.

De modo que cada massacre que hoje temos o privilégio de assistir ao vivo diariamente na TV e cada família destruída pelo descalabro da segurança pública no Brasil, deve um pedaço da sua desgraça aos jornalistas que, mesmo diante de fatos contundentes como os exibidos acima, continuam trabalhando para confundir as bolas, trocar remédios modernos por atos de pajelança, atrapalhar a ação da polícia e transformar translúcidos empulhadores em heróis.

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E já que entrei pelas expressões rodrigueanas, lá vai:

Dirá um idiota da objetividade que os Estados Unidos, “a terra dos massacres“, são a prova de que as armas são o demônio. E eu respondo: os Estados Unidos, o país mais armado do mundo com 88,8 armas por cada 100 cidadãos, tem 2,97 mortes por arma de fogo por cada 100 mil habitantes. O Brasil, com dez vezes menos armas (8 por cada 100 habitantes) tem 21,3 assassinados por arma de fogo por 100 mil habitantes, quase 10 vezes mais.

A diferença é que lá tem polícia e quando alguém ataca outro cidadão de forma criminosa, vai para a cadeia e não sai nunca mais, quando não é executado. E quando é assim que se faz só sobram, a ameaçar a gente de paz, os malucos de verdade, estes que fazem a festa dos jornalistas desarmamentistas mas que, felizmente, são muito poucos. A legião dos covardes, esta que anda livremente pelas ruas do Brasil trucidando gente só porque isso não lhes acarreta consequência nenhuma, desaparece de cena.

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