Roubalheira ou liberdade de imprensa: qual dos dois vai acabar primeiro?

3 de novembro de 2011 § 2 Comentários

Quando o resto da humanidade rouba é roubo. Quando a esquerda brasileira rouba é “erro”.

Essa regra nós já tínhamos aprendido com Lula desde os idos do Mensalão.

Mas até os dois, três primeiros ladrões exonerados por Dilma, a atitude da presidente justificou que se alimentasse a expectativa de que o “erro” que, Lula não deixava dúvidas, estava em se deixar flagrar no ato de roubar, passasse a designar o ato de roubar propriamente dito o que, nestes tempos de miséria moral em que vivemos, já representaria um auspicioso avanço na direção correta.

Mas a sistematização da regra de transformar as cerimônias de substituição do ladrão flagrado por outro membro da mesma organização que se beneficiava do roubo e em nome do qual ele era praticado numa sessão de “desagravo” e irrestrita solidariedade ao ladrão exonerado para a qual é invariavelmente convidada a claque dos mais translúcidos salafrários da crônica político-policial brasileira (uso a expressão no seu sentido rodrigueano) é suficientemente esclarecedora.

Não, nós não estamos superando a máxima que inspira aquela parcela precocemente envelhecida da juventude brasileira representada pela UNE e pelo PC do B que aspira, acima de tudo, ao emprego público.

Não, a presidente Dilma não está ensaiando uma requalificação mais “conservadora” do ato de surrupiar o que pertence aos outros como um recurso para ir, aos poucos, reeducando as novas gerações para o desconhecido mundo da ética na política e empurrando o país de volta ao menos ao temor dos 10 mandamentos de deus.

Dentro da perfeita definição de Theodore Roosevelt segundo a qual “o importante não é haver corrupção, mazela inerente à espécie humana; o importante é não permitir que o corrupto exiba o seu sucesso, o que é corrosivamente subversivo“, o governo Dilma continua entregue à subversão.

Age mais ou menos como a polícia carioca. “Mata” o traficante que ameaça o status quo abusando da própria exposição (ou, melhor dizendo, aposenta-o com todos os direitos e proventos paloccianamente multiplicados), mas não toca nas quadrilhas e nem, muito menos, na instituição do tráfico (no caso, de influência e dinheiros públicos) que é a galinha dos ovos de ouro que a todos eles alimenta.

E, no entanto, ou mudamos para um sistema que possa prescindir ao menos desse grau de roubalheira onde já não cabem as ambições da crescente miríade de sócios do governo requerendo feudos para roubar em paz – e o voto distrital, como pelo menos parte do PSDB já admite e prega, é a maneira mais racional e consagrada de se conseguir isso – ou haverá um confronto sério em algum ponto não muito distante dessa estrada.

A cleptocracia institucionalizada e outras formas de violência e abuso de poder não podem conviver com uma imprensa livre, daí ter ela a importância que lhe é atribuída nos regimes democráticos e merecer amplamente o ódio que lhe votam os ladravazes impunes e os candidatos a tirano.

Assim como o regime militar precisou calar a imprensa antes de passar a tratar a questão ideológica na base da violência (mesmo tendo essa violência começado a ser empregada como um revide à violência previamente aplicada pela parte contraria), a roubalheira impune não pode continuar indefinidamente a ser praticada à vista de todos num governo que afirma o seu compromisso com a democracia.

Para que ela continue sem que o governo se esboroe será preciso calar a imprensa, que é, explicitamente, o que vem tentando fazer o núcleo duro da ladroagem desde o primeiro dia do governo petista.

Mesmo porque manter as duas coisas convivendo e, ainda,  a cosmética democrática sem a qual não se é admitido nos círculos internacionais que os novos poderosos do governo petista gostam de frequentar no mínimo levará o governo a esgotar todos os seus quadros, a continuarem os flagrantes na quantidade e na velocidade em que vão.

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