Terão os “millenials”encontrado o seu limite?

28 de fevereiro de 2022 § 9 Comentários

É carnaval, o momento em que a alienação brasileira alcança a temperatura máxima, é verdade. Mas há sinais auspiciosos de que a trombada desse Ocidente urbano amoral e dissoluto das Américas, virgem de ocupações estrangeiras e cevado na frivolidade, com uma realidade do mundo até então desconhecida porque vinha-lhe sendo sistematicamente sonegada, não vai passar em brancas nuvens. 

A cobertura da guerra está amarrada principalmente à aferição passo a passo da reação do mundo à agressão de Putin. Ela é muito mais decisiva para o resultado da aventura em que se meteu o ditador russo que aquilo que se passa no teatro das operações.

O brasileiro que pensava que o mundo era o que lhe entrega a mídia cabocla foi arrancado de repente da nauseabunda “guerra da covid”, das picuinhas tramadas nos antros da privilegiatura de Brasilia e dos delírios de gênero, raça e o resto das importações atiradas por cima do mar-sem-fim do favelão nacional sem voz por essas pequenas ilhas do Brasil vocal doente que falam pela nossa imprensa. E isso teve o efeito de uma janela subitamente aberta num quarto escuro onde o ar andava irrespirável.

A blitzkrieg de Putin é parecida demais com a de Hitler para não despertar no mundo que de fato existe uma torrente de memórias terríveis. Emanuel Macron deve ter despertado alagado em suor algumas vezes nas semanas que a Rússia passou rosnando para a Ucrânia, vendo-se entrar para a história como o novo Pétain. A França, como ha muito não se via, age assombrada pelo fantasma de Vichy. A Inglaterra, pela lembrança de Chamberlain. A Itália pela do desastre do fascismo.

De Berlin para Leste há memória viva do que é estar sob a Stasi, a filial da KGB que o jovem Putin em pessoa montou e instruiu. E nos outros escapados da Cortina de Ferro, é disso para tanto pior que as pessoas se lembram quanto mais próximas estiverem da fronteira russa. As feridas estão abertas. Todo mundo lá sofreu perdas, passou fome e sentiu frio. Todo mundo lá foi humilhado e ofendido. Daí essa reação em uníssono, de solidariedade humana sem registro de um único tênue sinal de hesitação dos vizinhos a Oeste para com a Ucrânia. Daí a resposta dela própria de que o mundo teve a avant première na heróica revolução da Praça Maidan em 2014.

Até a China – a maior beneficiária da presente ordem mundial – absteve-se de alinhar-se a Putin no veto à condenação da invasão pelo Conselho de Segurança da ONU. A primeira oferta de negociação à Ucrânia, embora em termos que o país agredido não aceitou, deu-se depois de uma longa conversa em que Xi Jinping sugeriu a Putin a saída de oferecer à Ucrânia a condição de país neutro.

O saldo da Revolução de Maidan, sobre a qual a Netflix oferece o empolgante documentário Winter of Fire de especial interesse nestes dias, àparte a derrubada de Viktor Ianucovytch, o títere que Putin cooptara para governar a Ucrânia ao fim de 93 dias de uma resistência heróica, foi inscrever na constituição ucraniana a OBRIGAÇÃO de qualquer governo futuro de promover o ingresso do país na União Européia e na OTAN, como forma de garantir-se contra agressões como a que está acontecendo hoje, mais um dos fatos pouco sabidos neste Brasil tomado pela “censura estrutural”. Não foi a OTAN que avançou em direção à fronteira russa como insistem em afirmar com Putin os autoritários e os antidemocráticos de todas as colorações do Brasil, foram os fugidos do socialismo real que “invadiram” a OTAN em busca de proteção contra o que foram obrigados a tragar a ferro e fogo pela Russia soviética.

Ha, portanto, uma probabilidade real até de que essa guerra acabe por precipitar a decisão da própria Rússia de aderir, finalmente, à civilização europeia como boa parte dela sempre sonhou fazer mas nunca pôde. Ou um movimento interno contra Putin porá um fim a ela, ou Putin mergulhará definitivamente na barbárie, arriscando levar-nos todos juntos à breca, se não se chegar à solução intermediária com que a China sugere que ele salve a face.

Com tudo isso foi murchando no ar a louvação do “grande enxadrista da geopolítica” que ia ensinar àquelas democracias decadentes que não têm o poder de lançar uma guerra contra uma população indefesa só porque seus líderes, que para tudo têm de pedir licença ao povo, acordaram um dia de mau humor. Diante dos atos de gallantry dos ucranianos e da recepção que seus luminosos brios tiveram em toda parte, ela foi sendo substituída por solidariedade e colocando, de edição em edição, num progressivo mal estar aquelas “análises” do jornalismo contaminado apontando para uma rendição sem luta num mundo que se ia conformando com a abjeção e a covardia como a irrevogável definição da humanidade.

No Brasil o primeiro efeito imediato desse fenômeno foi o reposicionamento da falsa fronteira direita x esquerda para a verdadeira democráticos x autoritários (e antidemocráticos) de direita e de esquerda. Bolsonaro e os “antibolsonaristas” acordaram no colo uns dos outros falando exatamente a mesma língua. Os apenas autoritários passaram, então, a tartamudear desculpas até travestirem-se em “anti-Putins desde criancinha”. E os antidemocráticos de cada “lado” se foram escondendo num mutismo cúmplice. Todos têm em comum o seu horror à idéia do povo mandando na “zelites”.

Ainda que não haja caso de reversão desses processos de decadência históricos sem que suas consequências cheguem a arder na pele, cabe lembrar que considerada a humanidade como um todo elas ja arderam na pele de muito mais gente do que não. E mesmo nas sociedades mais decadentes porque menos atingidas das Américas e dessa Europa que vai no arrasto da maior delas, temos assistido a fenômenos endógenos de “invasões de bárbaros”. 

Seria possível, de repente, que esse tipo de “invasão” se tornasse suficiente nessa nova realidade em que as guerras totais – e com elas as invasões estrangeiras – implicam o fim do mundo? Se um pequeno choque de realidade bastou para rebaixar Vladimir Putin de novo ”líder genial dos povos” para o assassino covarde que ele realmente é, porque coisa semelhante não poderia fazer o mesmo pelo Brasil com os 3 patetas do TSE e seu criador?

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