Um artigo que todo mundo deveria ler

14 de janeiro de 2011 § 12 Comentários

Em meio ao debate sobre a intolerância e a violência política em torno do atentado contra a deputada federal Gabrielle Gifford, seguido de outras seis mortes, por um atirador quase adolescente, David Books, do New York Times, escreveu um artigo que o mundo todo está precisando ler.

O presidente Obama fez um ótimo discurso quarta-feira à noite em Tucson. Ele não tentou explicar o que aconteceu lá. Em vez disso, usou a tragédia para puxar a Nação para fora da torrente dos acontecimentos e refletir um pouco. E fez isso com grande elevação de espirito. Conseguiu dirigir o sentimento nacional de perda para uma celebração da vida das vitimas e para a fé na possibilidade de renovação.

É claro que nem mesmo um grande discurso pode levar, por si só, ao restabelecimento da civilidade. Discursos sobre civilidade acabam sendo entendidos principalmente pelas pessoas que não necessitam deles. As que são naturalmente inclinadas para o vandalismo intelectual e para o partidarismo podem desarmar temporariamente o animo mas recuperam sua natureza belicosa assim que têm o orgulho ferido de novo.

A civilidade é uma arvore de raízes profundas e se não se cuidar dessas raízes ela não sobrevive. E que raízes são essas? A nossa falibilidade, a nossa propensão ao pecado, as nossas fraquezas, a nossa ignorância.

Qualquer pessoa com um minimo de sensibilidade envolvida com a politica e a vida publica sabe que o seu trabalho é sempre vulnerável ao fracasso. Cada texto, cada discurso, cada projeto de lei e cada decisão executiva traz, dentro de si, o potencial de falhas e fracassos humilhantes. Ha sempre uma argumentação que você poderia ter feito melhor, implicações que você poderia ter antecipado, outros pontos de vista que você poderia ter incorporado.

Ainda que você esteja no auge da sua forma, as suas ações estarão sempre sujeitas a falhas. A verdade é fragmentada e é impossível captura-la inteira. Sempre havera conflito impossíveis de eliminar totalmente. O mundo é muito mais complicado do que qualquer inteligência humana pode compreender.

Mas todas as pessoas na vida publica com um mínimo de sensibilidade sabem, também, que os outros estão aí para resgata-las. Você pode escrever um artigo medíocre ou fazer um discurso medíocre ou propor uma lei defeituosa mas, se estiver disposto a discuti-los, aceitar sugestões e correções, elementos em que você nunca pensou poderão ser introduzidos para melhora-las. É claro que cada um desses acrescentamentos, isoladamente, também pode conter falhas, mas todos juntos, se o sistema estiver funcionando bem, acabarão empurrando as coisas pouco a pouco para a frente.

Cada passo, individualmente, pode ter lá os seus desequilíbrios mas, um depois do outro, eles acabarão melhorando o organismo social.

Disso resulta que toda pessoa com um mínimo de sensibilidade acaba tendo um sentimento de gratidão em relação a esse processo. Todos nós vivemos vidas melhores que a que merecemos porque nossos fracassos individuais, somados, acabam sendo transformados em melhoramentos comunitários. É isso que dá sentido ao papel que desempenhamos na sociedade.

É dai que vem o senso de civilidade – da humildade com que encaramos o nosso papel individual confrontado com tudo que auferimos como comunidade graças ao processo político. A civilidade é a condição natural das pessoas que sabem quanto o seu poder individual é limitado; das pessoas que sabem o quanto precisam do debate e da negociação. Das pessoas que sabem que são impotentes sem isso.

O problema é que nos últimos 40 anos, pouco mais ou menos, nós passamos de uma cultura que lembrava constantemente as pessoas das suas limitaçōes individuais para uma cultura que as encoraja a se acharem o máximo. Os fundadores desta Nação tinham uma ideia muito realista das suas próprias limitações e das dos eleitores. Criaram todo tipo de instituições e freios sociais para proteger os americanos de si mesmos. A admiração que tinham por George Washington devia-se exatamente ao fato dele ser capaz de se manter permanentemente em cheque.

Mas nas ultimas décadas as pessoas perderam a noção da própria falibilidade. As crianças de hoje crescem sob um coro de aplausos. Os políticos deixaram de lado os freios institucionais e, agora, concentram-se em dar aos eleitores, o mais rápido possível, tudo que eles pedem. Joe DiMaggio não passava a vida namorando a beleza das suas próprias jogadas. Hoje a primeira preocupação de todo atleta é se auto elogiar para construir a sua própria “marca”.

E assim, o que temos é um bando de narcisistas que acreditam piamente que têm acesso privilegiado à verdade. Gente que prefere o monólogo ao diálogo. Gente que detesta a politica porque ela sempre frustra o seu desejo de ter exatamente 100% de tudo que quer. Gente que só ouve quem pensa igual a ela e odeia seus adversários políticos. Gente que nunca sente a necessidade de um contraponto ou de correções de rumo.

Entre todas as coisas que contribuíram para a polarização e para o desaparecimento da civilidade neste pais, a mais importante é esta: as raízes da humildade foram roídas.

O discurso do presidente Obama em Tucson foi um passo na direção certa. Mas terá de haver um projeto suprapartidário para uma ampla reforma tributaria para fazer as pessoas olharem, de novo, para objetivos comuns. E para isso, antes de tudo terá de haver uma revalorização da humildade.

Num texto famoso, Reinhold Niebhur definiu com perfeição: “Nada do que vale a pena conquistar pode ser conquistado no tempo de uma vida; por isso o que nos salva é a esperança… Nenhuma de nossas obras, por mais virtuosos que sejamos, nós podemos completar sozinhos; por isso o que nos resgata é o amor. Nenhum dos nossos grandes atos, por maiores que nos pareçam, parecerão tão grandes assim vistos pelos outros ou pelos nossos inimigos. Por isso só a forma mais elevada de amor, que é o perdão, pode nos salvar”.

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