É aí que mora o perigo

16 de novembro de 2012 § 1 comentário

O Capitalismo de Estado chinês é o marco ao pé do qual foi enterrada para sempre a ilusão que embalou os sonhos de certos estudiosos das ciências sociais de que o capitalismo é capaz de engendrar a democracia, e vice-versa.

Desde que, no final dos anos 70, Deng Xiaoping proclamou, com alguns séculos de atraso em relação aos protestantes, que “Enriquecer é glorioso”, esses rousseaunianos às avessas vêm esperando em vão que o “socialismo de mercado”, ao estimular a demanda reprimida por mais liberdade, acabe por empurrar a China para mais abertura política.

O 18º Congresso do Partido Comunista Chinês que delibera a sucessão no comando da ditadura que governa a China desde 1949, acaba de reafirmar textualmente que não há no horizonte qualquer sinal de relaxamento.

O que há, ao contrário, é um muito concreto movimento universal de refluxo do capitalismo democrático, aquele caracterizado pela oposição do poder do Estado ao poder do Capital, para fazer frente à competição predatória que os grandes monopólios chineses estão impondo ao mundo na disputa pelo mercado dos manufaturados que ainda sustentam a maior parte dos empregos do mundo.

Dos Estados Unidos democrata-goldmansachianos de Barak Obama ao Brasil petista-gerdau-mckinseyniano de Dilma Rousseff e Fernando Haddad, passando por onde mais se queira passar, o Estado e o Capital cada vez mais se dão as mãos com a consequência necessária de que não sobra em cena nenhuma força capaz de se lhes opor.

A lição reintroduzida pelo pragmatismo chinês, superados os mal entendidos do século 20, é a de que nada se parece mais com o “centralismo democrático” leninista que a organização interna de uma empresa capitalista, havendo, portanto, muito mais a aproximar do que a afastar o governante autoritário do megaempresário, estes irmãos siameses que nasceram para buscar o poder pelo caminho do dinheiro ou o dinheiro pelo caminho do poder.

A verdade histórica, aliás, é que eles sempre andaram de mãos dadas sendo a democracia – um artifício da inteligência inventado exatamente para forçá-los a separar-se e opor-se um ao outro – um mero interregno a truncar o livre curso das forças da natureza nos pouquíssimos lugares onde chegou a realizar-se de modo pleno.

E no entanto, todos os segmentos “educados” dos diversos países do mundo, sob a regência de uma imprensa em crise que, por assim dizer, lidera a onda mundial de pânico, age e vocifera como se o que estivesse acontecendo fosse precisamente o contrário.

O problema é que, especialmente quando estão com o rabo preso no torniquete da crise da hora, as pessoas costumam perder todo sentido de perspectiva. Que dizer, então, da perspectiva histórica.

E é aí que mora o perigo.

O mundo viveu o certame Obama x Romney como se fosse seu. Num instigante artigo para o New York Times anterior à reeleição, Capitalists and other Psycopaths, William Deresiewicz argumentava com humor para concluir que “a ética, no capitalismo, é puramente opcional e extrínseca à sua natureza”.

Não é só “no capitalismo”. A ética é extrínseca aos seres humanos enquanto espécie. É uma construção defensiva das sociedades humanas (entidade com natureza própria) que tem de ser imposta à força a cada um de seus membros.

O pormenor sintomático é que, para ilustrar seu ponto, Deresiewicz teve de viajar 300 anos para traz para lembrar “A Fábula das Abelhas – Vícios Privados, Benefícios Públicos”, do inglês Bernard Mandeville, “um Maquiavel do reino da economia que nos mostrou como realmente somos e afirmou que a sociedade comercial criava prosperidade ao constranger (para uma boa direção) os nossos impulsos naturais para a fraude (não há lucro sem ao menos uma pequena mentira), a luxúria e o orgulho” (que criam a demanda), de onde saiu o conceito que teria inspirado Adam Smith a formular o seu sobre “a mão invisível” do mercado.

A ‘mão’ de Smith era ‘invisível’”, alertava Deresiewicz. “Mas a de Mandeville tinha de ser ‘manejada com destreza por um político muito qualificado’, ou seja, em termos modernos essa ‘mão’ seriam a lei, a regulamentação e os impostos”.

Os Estados Unidos podem dar-se o luxo de dividirem-se apaixonadamente em torno da nuance da “mão visível” x a “mão invisível”, que parece ridícula para quem vive a realidade esmiuçada no julgamento do Mensalão, porque nos 300 anos que nos separam do início dessa discussão têm sido uma excrescência histórica: o primeiro e único governo da Terra desenhado a partir da premissa de que “os homens não são santos”, por isso necessitam que a lei lhes imponha à força um comportamento (ético) que os afaste de sua natureza corrupta, aperfeiçoado logo a seguir com a definição complementar de que a principal função do Estado, encarnado por gente movida a sede de poder, é impor limites ao Capital, detido por gente movida a sede de poder, mesmo quando o que o Capital conquista é estritamente função de mérito.

Fogo contra fogo.

Já a esmagadora maior parte do resto do mundo vem desde os primórdios e sem nenhuma interrupção, submetido a ligeiras variações do eterno modelo de um rei cercado de seus barões para os quais não vale lei nenhuma vivendo em eterno banquete, enquanto o resto da patuléia pasta.

O medo é o maior inimigo da razão, já se sabe. Mas a Era das Comunicações Instantâneas já vai longe o bastante para que os jornalistas vacinem-se contra a ilusão da “aldeia global”, que por enquanto só se realizou no que diz respeito ao alcance da voz, e reaprendam a focar seu discurso na sua própria realidade em vez de confundi-la com a realidade alheia.

Está na hora, aliás, de todos os que vivem sob patrões e governos se lembrarem, dentro e fora dos Estados Unidos, que o auge da democracia foi a cruzada antitruste que o tsunami chinês afogou e que este continua sendo o grande objetivo a ser perseguido.

Ou seremos todos engolidos, feito patos laqueados, e jogados de volta para o passado da selvageria política.

Utopias cibernéticas e outras ilusões de noiva

6 de agosto de 2012 § Deixe um comentário

Em plena era do “mundo em rede“, enquanto os arautos da utopia global saúdam o Terceiro Milênio como o portal de um novo tempo de liberdade e transparência, o futuro visível da humanidade começa a ser decidido numa reunião secreta de 9 pessoas de uma entidade que não se pauta por nenhuma regra conhecida ou publicada dentro de um quarteirão murado de um longínquo balneário no litoral chinês.

É lá que será decidida a sucessão dentro do órgão máximo de decisão da China e, em função dela, a velocidade em que passará a andar a claudicante economia mundial.

Se ha uma ilustração poderosa das contradições e ilusões que o rompimento de novas fronteiras tecnológicas põe em campo, esta é das mais eloquentes.

As minorias ilustradas e “conectadas” que, em diferentes países da região, protagonizaram a Primavera Árabe estão sentindo na carne o amargo despertar da ilusão vivida ha um ano e meio de que a graça alcançada de “poder falar” que lhes coube como efeito colateral do milagre das novas tecnologias, bastaria para transformar minorias em maiorias ou para igualar às suas, tomadas de culturas exóticas, as expectativas e horizontes sedimentados por milênios de isolamento e servidão das massas miseráveis dos seus compatriotas que agora ameaçam empurrar os países “libertados” de ditaduras laicas para ditaduras religiosas.

Assim com o resto do mundo.

As novas tecnologias tornaram-no menor. Ficou mais difícil manter o isolamento.

Mas o que não estava suficientemente percebido é que era à numericamente insignificante minoria politicamente civilizada – ou quase – que esse isolamento favorecia, e não o contrário.

Tudo ficou mais perto, sim, mas como sempre primeiro para os tubarões.

E aí está o mundo do trabalho com direitos, com proteção social, com tribunais; aí está o mundo que respeita minorias, põe a lei acima da força e tem a liberdade como um valor indiscutível, desarvorado, em pânico com a dissolução das suas conquistas no grande oceano dos sem nada, dos que trabalham por migalhas debaixo de pau e agradecem aos céus por isso, predando seus mercados, transformando seus direitos em luxos insustentáveis, arrastando para baixo os que sonhavam que bastaria abrir as comportas para que todos viessem para cima.

Beidaihe, o balneário preferido da nomenklatura chinesa, posto em verdadeiro estado de sítio para que nunca se chegue a saber como nem porque foram tomadas as decisões que vierem a ser anunciadas ao fim desse misterioso evento, tem sido o retiro de verão de gerações sucessivas dos poderosos da nova dinastia que tomou a China a partir de 1949.

A cidade em torno do quarteirão murado de três quilômetros a beira-mar, feito versão moderna da Cidade Proibida dos imperadores em Pequim, está paralisada desde sexta-feira quando chegaram em seus carros pretos de janelas escuras, os membros quase desconhecidos do Comitê Central do Politburo do Partido Comunista Chinês para começar a discutir a sucessão dos nove membros do órgão que tem poder de vida e morte sobre 1/5 da população da Terra e de regular a velocidade daquela que, com a unificação global dos mercados, se tornou o motor de uma economia mundial por isso mesmo em crise.

À distância – e com tanta precisão quanto a que se podia esperar dos oráculos do passado ancestral – os jornalistas mais bem equipados do mundo, sem wi-fi, tentam captar os sinais cifrados que os ajudem a antecipar o que poderá sair de trás daqueles muros.

Teoricamente todos os membros da liderança do Partido Comunista Chinês são eleitos pelos membros do Comitê Central“, lembram estudiosos do labirinto chinês citados pela imprensa inglesa, “mas na verdade o sistema funciona muito mais de cima para baixo do que o contrário, mesmo nesse círculo restrito. O secretário geral do partido ainda tem força para impor a maior parte das suas decisões“.

E, sendo assim, a tendência darwiniana é, salvo acidentes de percurso, que ele garanta a perpetuação da sua própria genética política.

A expectativa é, portanto, a de que prevaleçam as escolhas do premier Hu Jintao, tido como um “liberal” pelos padrões chineses, expectativa esta que se sustenta em um único acontecimento, ou num acontecimento e meio, de acordo com os mais otimistas.

Foram eles o expurgo, em maio passado, de um membro do comitê central, Bo Xilai, tido como um “linha dura” acusado de ensaiar namoros com as massas em vez de conchavos com seus pares para subir na hierarquia do partido e, mais recentemente, a nomeação de outro conhecido “liberal” para o mais alto cargo da hierarquia militar, onde se abriga a ala mais forte da resistência à continuação da “ocidentalização” da economia chinesa, “ocidentalização” esta que, como o mundo sabe melhor hoje, é mais de fachada que de fato.

Se tudo der certo pouco mudará, é pelo que se torce mais do que o que se sabe aqui fora.

Mas os sinais que vêm de dentro da China são de que é preciso haver mudanças, mas ninguém sabe bem quais, nem como promovê-las sem que o circo pegue fogo.

De certo mesmo, nesta nova era da “economia do conhecimento“, restam-nos os sinais de que o que antes levava cem anos para acontecer, agora leva menos de 10. Fica por decidir se tal multiplicação de velocidade se dará no sentido ascendente ou descendente. Ou, se quisermos ser otimistas, quanto ainda teremos de descer antes que a orientação geral do todo vire para cima de novo.

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