A verdadeira ação antidemocrática

11 de fevereiro de 2021 § 11 Comentários

A “democracia brasileira”, cantada em prosa e verso pelo establishment, está hoje reduzida ao direito a uma escolha entre os escolhidos da privilegiatura a cada quatro anos. Concede, ainda, que os explorados escolham o chefe dos seus exploradores mas não que se livrem da exploração, e já dá sinais claros de que se sente forte o bastante para achar até isso muito. Está nos finalmentes o ensaio geral para a institucionalização da censura de discursos e candidaturas “antidemocráticas”…

Os jornais de ontem estavam especialmente acachapantes. Lá estávamos nós, mais uma vez, chamando os ladrões para encurralar a polícia com a decisão de fazer valer, só para Lula, o tipo de “prova” cuja validade eles próprios mandam invalidar para quem quer que seja mais. Estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal que nada no Brasil está estabelecido, nem mesmo o que for solenemente estabelecido na véspera pelo Supremo Tribunal Federal, está posto o argumento definitivo, se é que faltava algum, para convencer mais uma geração de que, poesia à parte, a única alternativa para “ser um vencedor” na disputa darwiniana à brasileira é mesmo transformar-se em “concurseiro” para saltar, assim que der, da nau dos explorados para a nau dos exploradores.

É talvez ao que se referia o ministro Luis Edson Fachin, o único voto discordante na decisão de anteontem em estranha entrevista à Folha de S. Paulo, quando dizia que “a grande corrupção no Brasil (…) é uma decorrência de uma teia complexa de relações que não começa nem acaba nas esferas administrativas”.

A miséria a que tudo isso nos reduziu chegou a tal ponto que uma injeção de R$ 600 por família (em 56 milhões de famílias oficialmente miseráveis no fim de 2020), pouco mais de US$ 100, determina não só uma “recuperação em V” de uma economia paralisada pela quarentena, mas uma forte onda inflacionária nos itens mais básicos de sobrevivência como comida e material para construções baratas. Esgotada a ajuda de R$ 600 o “V” vira imediatamente um “N” e a inflação morre no jejum de tudo que é o normal de sempre no favelão nacional.

É nu e é cru…

Com R$ 200 por mês o povo e o governo chegam em 2022 se arrastando, se chegarem. Com a vacinação devagar demais para mudar o que quer que seja a tempo, a luta inglória, no front doméstico, fica entre o auxílio reduzido para um numero reduzido de pessoas contra a PEC de Emergência, a nova CPMF, ou o estouro das contas com disparada de juros e dólar que ainda não é carta fora do baralho. Contendo a PEC “medidas impopulares”, leia-se toda e qualquer medida que de leve arranhe os privilégios dos “intocáveis”, já se conhece o empenho até de Jair Bolsonaro e família contra ela apesar do que gostariam de ver a boa aritmética e o ministro Paulo Guedes.

Quando eu me dei por gente, aí pelo final da adolescência no início dos anos 70, o Brasil era o país que mais crescia no mundo e se tinha tornado a sexta economia do planeta. Só quem viveu aquela época sabe que “efeito sistêmico” a festa da sensação de andar para a frente produz numa sociedade, até para a qualidade do protesto da parcela dela que odiava que isso estivesse acontecendo. 

Desde então temos dado voltas na mesma espiral descendente. A constituição da privilegiatura, pela privilegiatura e para a privilegiatura aperta cada vez mais o país. E a cada vez que colhe a safra de miseráveis que semeia, esmaga um pouco mais a classe média meritocrática onde vai morder “o ajuste” que é a única interessada em democracia. Substituída pela privilegiatura, que sustenta a economia privada de consumo que resta, o círculo estreita-se cada vez mais. O único perigo é faltar voto. Daí lá ficar ela, com suas escolas e sua imprensa, falando sozinha, cada vez mais tentada a excluir de vez os excluídos.

É essa a ação antidemocrática insidiosa, sistêmica e sem aspas…

É fundamental notar que os dois brasis que subsistem – o do agronegócio, que sobrevive ao Estado em função da distância, e o outro que vive da proximidade dele – dispõem, ambos, do equipamento mínimo que se requer para se estabelecer numa sociedade patrimonialista como foram todas as sociedades absolutistas e continua sendo a nossa que nunca superou o absolutismo, agora “monocrático”: as suas próprias escolas, a sua própria imprensa e a sua própria representação solidamente plantada no centro de decisões do Congresso Nacional. Foi por abrir mão desses fundamentos que a indústria e o comércio privados foram à breca, deixando-nos reduzidos à horda dispersa e quase famélica dos pequenos prestadores de serviço e aos proto-monopólios protegidos pela privilegiatura porque consorciados com ela de hoje.

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