O Itamaraty, a Síria e os sonhos do Irã

30 de novembro de 2011 § 3 Comments

O fato de ter sido um brasileiro insuspeito de viés ideológico avesso ao PT o autor do relatório da ONU sobre as atrocidades que vêm sendo cometidas pelo ditador Bashar al Assad apenas reforça a imoralidade da posição que o Itamaraty vem mantendo de bloquear toda ação internacionalmente coordenada para frear a carnificina na Síria.

Mas não se trata apenas de uma questão moral.

A cartada que se joga na Síria pode mudar totalmente o equilíbrio de poder naquele ponto do mapa mundi em que purga o mais perigoso e renitente dos abcessos que ameaçam a paz mundial. E se ha uma coisa sobre a qual não paira nenhuma dúvida é a perfeita coerência com que o Itamaraty tem jogado as suas mãos nessa parada.

Com a saída iminente dos Estados Unidos do Iraque abre-se um vácuo de poder que o Irã vem se preparando ostensivamente para ocupar, com a finalidade de estabelecer um corredor que irá do Afeganistão, na sua fronteira oriental, até o Mediterrâneo e inclui o controle do estratégico estreito de Hormuz por onde passa 40% do petróleo transportado por mar em todo o mundo.

Não é por acaso, portanto, que a Arábia Saudita e a Jordânia, na fronteira Sul desse potencial corredor, e a Turquia, na fronteira Norte, venham se articulando para substituir os Estados Unidos como força de dissuasão na região, e que a Liga Árabe, pela primeira vez desde a sua criação em 1945, baixou duras sanções contra a Síria, o primeiro país árabe a ser tratado por ela como inimigo.

O Irã, por seu lado, vem fomentando a rebelião das maiorias xiitas nas áreas de influência saudita (Bahrein e outros), enquanto trabalha para se armar de um artefato atômico.

A influência de Teerã sobre o governo iraquiano vem crescendo desde que o primeiro-ministro Nouri al-Maliki subiu ao poder e a virada final se dará com a retirada dos últimos soldados americanos no fim deste ano. E o Irã é o único país da região que segue apoiando o regime de Assad que, apesar da torcida contra, mantem sob firme controle as forças armadas nas quais todas as posições-chave estão nas mãos de membros da tribo alauíta à qual pertencem os Assad.

Eles tomaram o poder em 1970, com um golpe do pai do atual ditador, exatamente porque se infiltraram nas forças armadas até controlá-las completamente.

Os alauítas são uma minoria que não conta mais que 7% da população da Síria, de maioria sunita. Mas o fim de Kadafi deu a Assad e seus comandantes militares a senha de que é tudo ou nada, estão lutando por suas vidas, o que fez com que desaparecessem todos os limites para o uso da violência contra a rebelião interna.

A questão que une Síria e Irã, mais que religiosa é, portanto, de geopolítica (temperada pelo mais puro instinto de sobrevivência).

Os alauítas são muçulmanos heterodoxos que recusam as leis da sharia e estabeleceram um governo secular que se afirmava socialista (nasserista) e foi construído essencialmente em torno da estrutura militar.

Na guerra do Líbano, alinharam-se aos cristãos contra os radicais xiitas e, desde o início, tiveram forte apoio do Irã para calar a pau a sua própria maioria sunita.

Com a revolução dos aiatolás, no começo dos anos 80, porém, os iranianos mudaram de lado e passaram a ser o centro do islamismo radical xiita que, desde então, trabalha para sublevar as populações xiitas, frequentemente majoritárias mas submetidas a governos sunitas, pelo mundo árabe afora.

Ideológica e religiosamente falando, portanto, a Síria dos Assad e o Irã dos aiatolás não podiam, em tese, estar mais distantes um do outro.

A aliança entre a Síria e o Irã consolidou-se principalmente no alinhamento dos dois países para interferir no Líbano, que a Síria considera como território ilegitimamente destacado do seu. E o seu instrumento de ação no Líbano passou a ser as facções radicais xiitas apoiadas pelo Irã. O Hezbollah é, de certa forma, obra de ambos. Através do Irã, essa organização se transformou num instrumento do poder da Síria sobre o Líbano.

A chave para conseguir a queda de Assad está em dividir os militares. Mas esta parece cada vez mais uma missão impossível. Outra ação militar da Nato como a da Líbia provocaria reações em todo o mundo árabe, já suficientemente conturbado neste momento. E os Estados Unidos em crise não têm mais como pensar em sustentar guerras por muitos anos ainda.

Se Assad sobreviver, o que essa conjunção de fatores torna mais provável, o grande vencedor será o Irã, restando a possibilidade ao mundo árabe de atuar sobre o Iraque que, por enquanto, parece estar totalmente alinhado com o projeto do corredor para o Mediterrâneo.

Apoiam os interesses do Irã a Rússia (que vê com bons olhos esse corredor), a China e os párias da comunidade internacional de sempre, mais o Brasil, menos agressivo sob Dilma que, entretanto, também nisso se mostra impotente para decidir as coisas em consonância com o seu próprio discurso.

Na outra ponta, Estados Unidos, Israel, para quem, durante muito tempo, Assad foi “o demônio conhecido”, mais seguro que as maiorias muçulmanas ortodoxas, Turquia e os demais países árabes ainda sob situações políticas estabilizadas, além da Europa, é claro.

É mais fácil derrotar a violência que a corrupção

31 de agosto de 2011 § 6 Comments

Mencionei ontem o heroísmo do povo sírio, que me impressiona (e humilha) cada dia mais.

Depois dos fuzis, os tanques; depois dos tanques, a marinha e seus canhões; depois da marinha, rajadas com munição antiaérea nas paredes das casas para atingir a esmo as famílias escondidas lá dentro. A única arma que Bashar al Assad, o sanguinário engomadinho, ainda não usou contra seu próprio povo foram os bombardeios aéreos.

Mas quanto mais ele apela para a violência, mais cedo os manifestantes voltam às ruas.

Esses processos têm uma lógica própria. Passado um determinado ponto, não ha mais retorno. Para os rebeldes, recuar seria se entregar à caçada um a um que o regime assassino já se tem provado disposto a fazer. E para Assad e suas tropas, a cada rebelde assassinado mais clara fica a noção de que, se caírem depois de toda essa barbárie, serão esquartejados na rua.

Mas, inexoravelmente, esse momento está chegando.

As deserções são cada vez mais frequentes entre suas tropas despreparadas, mal equipadas, mal pagas e, segundo o Economist, até mesmo mal alimentadas. A misteriosa desaparição do seu ministro da Guerra no auge dessa revolução é sintomática. Fontes próximas ao serviço secreto israelenses dizem que Assad, seu irmão mais moço e seu cunhado, chefe da inteligência militar, comandam sozinhos a repressão, vendo “traidores” em cada sombra.

Agora, a ultima barreira começa a cair. Os países vizinhos, que temiam que mudanças na Síria pudessem resultar em emenda pior que o soneto, e a comunidade internacional em geral começam a formar uma frente de pressão que pode dar a Assad o empurrão que está faltando.

Os Estados Unidos tinham tomado uma posição clara desde maio. Mas seu esforço por sanções na ONU foi barrado pela Russia, a China e a diplomacia lulista, entre outros.

Agora, um atras do outro, Turquia, Arábia Saudita, as demais monarquias do Golfo, a Liga Árabe e o Egito têm se manifestado com veemência crescente pelo fim da matança. Russia, China, o Itamaraty e outros amigos do assassino que fecharam os olhos às suas mãos sujas de sangue em função de cálculos mal feitos sobre a reação do mundo árabe têm dificuldade cada vez maior de explicar sua posição.

O mundo árabe mudou. Os petrodólares, afinal, parecem ter promovido mudanças profundas também no nível geral de educação daquela parte do mundo. E os ditadores e autocratas locais nos quais sobreviveu algum senso crítico são os primeiros a entender isso.

Os Kadafis e Assads terão o que merecem.

Mas o Brasil ainda terá de esperar. É mais fácil derrubar as duras muralhas da violência que romper a complacência mole e insidiosa da corrupção.

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