“Vergonha na cara” ou polícia na política?

20 de outubro de 2014 § 9 Comentários

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Dia sim outro também, vendo os jornais da manhã nas televisões enquanto faço a minha caminhada na esteira, vou contando a infindável quantidade de vezes em que os apresentadores repetem a palavra “vergonha”.

Seja a dose diária de miséria hospitalar, as escolas caindo aos pedaços, as ruas e estradas de asfalto de mentira sendo engolidas pelos buracos, a roubalheira na Petrobras, ou a ínfima quantidade de crimes que chegam a resultar numa punição que nos servem todo santo dia em doses cavalares antes de cada refeição, tudo acaba sempre nessa frase do comentarista chamado para arrematar as matérias: “Quando é que os nossos políticos vão criar vergonha na cara?

A resposta, adianto-lhes, começa justmente por onde acaba a pergunta: “Quando eles não tiverem mais a opção de ter ou não ter vergonha na cara”.

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Se um político ou um funcionário público virá ou não a ter vergonha da omissão que mata ou do “malfeito” que faz dele um criminoso, um dia, é um tipo de luxo japonês que eu gostaria de me reservar o direito de pagar para ver somente depois que o culpado estivesse na prisão e, mesmo assim, só se tivesse garantias de que uma coisa (a pena de prisão) de modo algum pudesse vir a ser substituída pela outra (o “pedido de desculpas” alegadamente “envergonhado”) que andou tentando nos induzir a aceitar a grei de Lula nos bons tempos dos primeiros dias do Mensalão.

De lá para cá veja-se onde chegamos…

Não me venham, portanto, com “ética na política”. O que nós precisamos é de polícia na política. Quem tem de discutir ética é o legislador. A ele sim, cabe definir os limites do que é ou não é ético na forma de arregimentar funcionários e nomear pessoas para o exercício de cargos publicos; na forma de estruturar essas hierarquias e de colocá-las em ação para usar os dinheiros públicos no interesse da coletividade; nos meios e modos admissíveis de tratar de se eleger e de se reeleger. Ao político e ao funcionário público cabe apenas cumprir a lei que resulta dessa tertúlia filosófica e impor essa lei com toda a força do braço armado dela é tudo quanto é necessário para resguardar a saúde da coisa pública.

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Não é preciso incluir aulas de “cidadania” nas escolas públicas nem constituir ONGs para dar pregações regadas com dinheiro do governo. Distinguir o certo do errado é algo que se faz com tanta precisão no Vaticano quanto no Morro do Borel, dependendo o pendor para um lado ou para o outro, tanto la como cá, da certeza de que a uma coisa corresponderá o Céu e à outra o Inferno.

O resto é conversa mole.

Basta que ao crime suceda inexoravelmente o castigo e à inoperância, à inépcia, à preguiça e à incompetência suceda inexoravelmente a demissão como já ocorre aqui fora com todos nós outros simples mortais, para as coisas entrarem naturalmente nos eixos.

Assim, quando você se sentir a ponto de se afogar no mar de lama que aflora dos debates presidenciais, perdido entre a meia e a anti moral em que tratam de inserir os nossos falsos dilemas, sem pé na aparente inexistência de terra firme em que tudo por aqui parece se dar, lembre-se sempre de que o milagre pelo qual você anseia já é o milagre sob o qual você mesmo vive.

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Não é necessário esperar que do além desça uma vaga “cultura política” que ninguém sabe bem como definir, ou esperar que da mera sucessão das gerações venha ela um dia a se instalar espontanea e milagrosamente para nos redimir. Não ha nada de complicado nem muito menos de esotérico para esperar ou para aprender. Basta que “eles” passem a viver pela regra pela qual você já vive, pela mesmíssima razão pela qual você vive nela, a saber, porque se viver fora dela você está demitido ou vai em cana.

É simples assim.

Se continuar sendo sinalizado à casta dos ungidos da política e do serviço público que não haverá polícia para forçá-la a seguir a lei e pagar penas pesadas quando se desviar dela; se o funcionário público continuar indemissível, seguro de que basta-lhe por uma vez um pé dentro do Estado para que nenhuma força terrena possa removê-lo de lá jamais; se o servidor do Estado puder seguir trabalhando por baixo daquele cartaz que diz que ele não pode ser “desacatado”, sob pena de prisão, por mais que desacate quem lhe paga o salário todo mês não haverá “vergonha na cara” que espontaneamente cure a doença nacional.

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Nem aqui, diga-se de passagem, nem no Japão, onde exige-se do faltoso, além do cargo, da multa e da pena de prisão, uma exibição pública e cerimonial de vergonha cujo sentido é acrescentar a esse pagamento em espécie também (mas nunca apenas) uma sessão formal de execração pública.

Lembre-se disso porque lembrar-se disso é o primeiro passo na direção da saída desse labirinto. Lembre-se sempre disso porque lembrar-se sempre disso é o único ingrediente necessário para que isso de fato aconteça.

Como tudo o mais, entretanto, lembrar-se disso é também um aprendizado. Para que comece, finalmente, a ser aprendido pelo povo brasileiro é preciso que seja aprendido antes pelos jornalistas posto que é à imprensa que cabe pautar os costumes da Nação. É ela quem deve fincar o marco abaixo do qual disparam os mecanismos de sanção pela ausência de mérito e, daí para baixo, os de repressão ao crime do colarinho branco.

Trata-se de um treino: estímulo e resposta; crime e cobrança de castigo. Não me venham com “vergonha na cara”…

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Não ha, para resumir, nada por ser inventado. Para que sejam curadas as doenças do Brasil basta fazer valer para “eles” o que já vale para nós todos, sem “julgamentos administrativos”, nem foros e nem, muito menos, prisões especiais, como está prescrito na fórmula universal do remédio para este mal, aquele que se define pelo axioma da igualdade perante a lei.

O primeiro passo, senhores jornalistas, é tornar isso lembrado.

O que vem depois é mais fácil. A maneira mais prática e segura de se instituir a meritocracia na vida política e no serviço público e ir dando a cada um, “lá em cima“, exatamente aquilo que fizer por merecer, sem complicar a vida de todos quantos já temos de trabalhar e mostrar desempenho para continuar vivendo aqui fora – pois que é disso e nada mais que isso que se trata – é, como tantas vezes já se demonstrou aqui no Vespeiro, armar a mão também do eleitor brasileiro do mesmo voto distrital com recall de que já estão armadas as de todos os eleitores dos países remediados deste mundo, sem meias medidas nem meias soluções.

Nesta eleição trata-se de reconfirmar o princípio da alternância no poder que é anterior a todos os anteriores. Mas até para saber porque é tão necessário reconfirmar esse princípio sem o qual seremos atirados de volta para a Idade Média, é bom que você não esqueça o que é que queremos para sempre estável, uma vez garantida a mudança que nos manterá aptos a todas as demais mudanças.

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Que tal filmar o governo?

14 de fevereiro de 2013 § 2 Comentários

vigi8Você não dá um passo sem que o governo saiba onde você está e, se quiser, veja o que você está fazendo.

Não vamos nem falar dos satélites e dos drones, capazes de ver as pintas do seu rosto lá de cima. O seu cartão de crédito, o seu telefone celular que embute um GPS, todas as ruas, estabelecimentos comerciais ou locais que concentram gente em cada cidade e cada vila de cada canto do mundo com suas câmeras filmando tudo, os softwares de identificação de rostos, hoje equipamento padrão de qualquer máquina da Apple, tudo isso está monitorando cada um dos seus passos.

E, pairando acima de todos, lá estão o Google e o Facebook, sempre dóceis aos pedidos dos governos e dos juízes, montando, com o seu beneplácito, dossiês sobre cada um de nós, do nascimento até a morte, capazes de lembrar, sobre cada indivíduo que passou por este vale de lágrimas, para todo o sempre, coisas que ate sua mãe ou você mesmo já esqueceram.

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Não deveria ser o contrário?

A democracia não se define exatamente pela negação do direito à privacidade aos governantes versus a afirmação do direito inviolável a ela pelos governados? Não somos nós que deveríamos fiscalizar-lhes cada passo e não eles aos nossos?

Recentemente o governo de São Paulo plantou um dos mais espantosos marcos dessa inversão de privilégios quando anunciou que seus policiais não poderão mais prestar ajuda a cidadãos feridos “para evitar a destruição de provas e os assassinatos de suspeitos perseguidos ou feridos em perseguições”.

E porque não instalar câmeras e microfones não só no interior das viaturas policiais mas também câmeras com visão de 360º fora delas, em estruturas levantadas acima das suas sirenes e luzes de advertência, registrando tudo que acontece ao seu redor? E nos próprios capacetes e quépis dos policiais, transmitindo suas imagens e sons para “caixas-pretas” invioláveis, como as dos aviões, a serem abertas sempre que houvesse mortes ou suspeitas de violações de direitos envolvidos?

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A polícia de Alagoas, com um aparato muito menos abrangente que esse, conseguiu reduzir as “mortes em conflito” à terça ou à quarta parte.

E porque não instalar vigilância eletrônica semelhante nas delegacias e nos presídios?

Nos hospitais públicos e seus consultórios e ambulatórios? Nos balcões de atendimento das repartições e nos plenários e gabinetes dos legisladores municipais, estaduais e federais, registrando todas as reuniões agendadas?

É a mesma história dos radares nas ruas e estradas e dos celulares em presídios. Salvador instalou um bloqueador nas suas prisões durante alguns meses e, desde a primeira semana da experiência, a criminalidade caiu para uma fração das médias costumeiras. Instala-se um radar acoplado a uma máquina fotográfica em qualquer rua ou rodovia e imediatamente as infrações e mortes no trânsito naquele local despencam.

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Mas nós nos submetemos a tudo isso como carneiros sem ao menos exigirmos a contrapartida óbvia sobre os nossos “representantes” e “servidores”.

Eles usam e abusam da tecnologia para nos vigiar e cercear mas nós deixamos que permaneçam no escuro para nos negar atendimento, nos escorchar, nos trair e nos violentar.

Os jornais choram e reproduzem quilômetros de colunas de “especialistas” com infindáveis discussões sobre o sexo dos anjos em torno da criminalidade e do descalabro no atendimento ao público pelo Estado, mas nenhum trata de abraçar uma campanha tão elementar como esta.

Por que?

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Onde estou?

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