Marina Silva no Bom Dia Brasil
26 de setembro de 2014 § 15 Comentários
Foi de longe a melhor da série a entrevista de Marina Silva ao Bom Dia Brasil da Globo gravada na última quarta-feira e exibida ontem, 25 (aqui).
Perdeu-se um certo tempo no início do programa em função da obrigação dos jornalistas de ser isonômicos na criação de incômodos para os candidatos. Como Marina Silva não tem, nem ficha policial, nem currículo comparável ao dos outros dois, o jeito encontrado para fustigá-la foi insistir nas obviedades de que Aécio Neves também foi vítima na tentativa de forçá-los a tomar posição em temas que afetam diretamente parcelas eleitoralmente muito significativas da sociedade, o que acaba sendo contraproducente nos casos em que, como o do segundo e do terceiro colocados nas pesquisas faltando poucos dias para a eleição, o entrevistado está correndo atraz do prejuízo.
Vai cortar despesas? Aonde? Como vai lidar com os expedientes assistencialistas do PT? Vai mexer nos direitos trabalhistas? Como? E quanto? E com os incentivos fiscais que, bem ou mal, sustentam empregos?
É paradoxal porque essa forma de pressão – indispensável dentro de um padrão decente de jornalismo nas circunstâncias que vivemos hoje no Brasil – acaba por “congelar” no nosso panorama institucional distorções que terão de ser enfretadas um dia para que possamos finalmente entrar na corrida global sem pagar handicaps, posto que só ha uma resposta possível para essas perguntas num contexto em que qualquer voto pode fazer a diferença: sacramentar e até prometer institucionalizar esses falsos remédios que, conforme se vão cristalizando, deixam o espaço para qualquer reforma real cada vez mais apertado.
Mas diante da questão mais importante em jogo nesta eleição – a da permanência ou não do Brasil no campo democrático – e da inabalável, conquanto incrível, decisão dos jornalistas do país inteiro de não mencioná-la em seus contatos com os candidatos, tudo isso fica pequeno.
Feito o parêntese, registro que, mesmo assim, ressalvadas as exceções inevitáveis, foi Marina Silva quem encontrou a melhor saída para essas armadilhas comprometendo-se, sempre que possível, a “qualificar”, ainda que mantendo-os, os expedientes mais obviamente nocivos em uso pelo PT para cooptar grandes clientelas. Com isso ela conseguiu, ao menos, deixar uma porta aberta para extrair deles a carga mais letal do veneno que carregam.
Sim, os direitos dos trabalhadores são intocáveis mas é preciso considerar também a saude dos empregadores. Sim, os incentivos sustentam produção e empregos em setores importantes mas é preciso cobrar as devidas contrapartidas. Mexer na ordem tributária, sim, em busca de justiça na distribuição da carga, de transparência no uso e na distribuição dos recursos e de simplificação da cobrança. Ambientalismo x necessidades de obras de infraestrutura ou as necessidades do agronegócio, sim, é possível e necessário haver uma conciliação racional que equilibre esses dois objetivos em benefício da coletividade. Manter o papel social dos bancos públicos, sim, mas depois de eliminar sumariamente o sistema de cooptação que levou o BNDES a entregar mais de 500 bilhões, valendo 20 anos de Bolsa Família, a meia duzia de escolhidos do rei, alguns deles falidos…
“Qualificação”, “coexistência”, “simplificação”, “transparência”, “responsabilidade”, “responsabilização”, “segurança jurídica”…
A tranquila naturalidade e o bom senso com que procurou o exato ponto médio de cada questão controvertida com que foi confrontada; a precisão na escolha de palavras, todas elas compatíveis com os sentidos de tolerância, de prudência, de institucionalidade, de aversão ao voluntarismo, apontam para uma pessoa amadurecida e realista; segura de suas convicções mas ciente de que nem só por isso elas têm de ser impostas a toda a coletividade; consciente de que passar a trote por cima do imperativo da conciliação dos interesses em conflito custa um preço proibitivo à Nação.
Já os pontos em relação aos quais fechou inequivocamente questão dizem, todos, respeito a um mesmo e saudabilíssimo compromisso: o de não fazer concessões, vai sem dizer à corrupção escancarada que vai por aí, mas também à corrupção disfarçada em uso político e em aparelhamento dos bens do Estado para a compra de poder político, até na sua forma aparentemente mais branda mas que é na verdade a mais nociva, que é a de por em risco a estabilidade econômica para comprar votos.
Foi reiterado solenemente o compromisso com o famoso “tripé” da responsabilidade fiscal, do câmbio flutuante e das metas de inflação “que vinha dando certo desde Itamar Franco” fiscalizados por um Banco Central formalmente mandatado para fazê-lo, não, é claro, para manter uma rigidez imbecil como quer fazer crer o PT, mas para manter a moeda à salvo dos interesses do partido no poder, o que é nada mais nada menos que o divisor de águas entre os países civilizados e os que se colocam fora dessa categoria. Foi proposta, até, como forma de reforçar a intocabilidade da moeda nacional pelo poderoso de plantão e apressar a recuperação da credibilidade perdida, a criação de um Conselho de Responsabilidade Fiscal independente e suprapartidário para soar o alarme a cada vez que os limites forem violados e cobrar ação do titular do Banco Central nomeado pelo presidente.
Marina Silva, enfim, conhece a floresta. Sabe como ela funciona. Viu com seus próprios olhos como tudo, nela, depende de tudo. Como cada planta e cada animal, mantida a saúde geral do ambiente, trata de fazer a sua parte e multiplica a sua produção.
Propõe, agora, a criação de “um ambiente favorável ao desenvolvimento em que todos sejam beneficiados” (e não só os escolhidos do rei), elegendo esta como a missão essencial de um presidente da Republica: restabelecer a confiança perdida, garantir o respeito aos contratos, manter a transparência das contas públicas, segurar os gastos públicos abaixo do crescimento do PIB.
O resto é com cada um de nós.
O tratamento eco-lógico da sociedade e do complexíssimo conjunto das suas ações que constituem isto que chamamos de economia não pode ser mais apropriado.
Mas não foi só intuição que essa entrevista passou.
Um político capaz de descrever com tanta precisão a nuançada diferença entre um marco regulatório pró-mercado – o que aponta para o império da lei e para processos institucionalizados combinados com ação do Estado contra o abuso do poder econômico – e os expedientes pró-empresas, ainda que revestidos da falsa retórica anti-capitalista de Dilma Rousseff e do PT para favorecer com isenções fiscais e recursos dos bancos públicos “campeões” do tapetão sempre prontos a retribuir o favor com a “bala” que o partido requer para caçar quem o ajude a aplacar sua inesgotável fome de poder, é algo que ha muito não se via por estas plagas.
Daí a conseguir por em prática tudo em que parece que acredita vai, certamente, uma boa distância, sobretudo levando-se em conta o grau de podridão do ambiente que se propõe sanear. Mas isolamento não é exatamente o que a diferencia. Estará isolado qualquer um que de fato tente fazê-lo. Mas quanto mais revejo essa entrevista, treinado como estou em ver gente mentindo ululantemente na cara-dura, mais acredito que é isso mesmo que ela se propõe. Se Marina Silva não é sincera no que está dizendo é certo, primeiro, que aprendeu muito bem e com todas as nuances mais precisamente sensíveis as lições que porventura tenha recebido de fora e, segundo, que deveria se candidatar ao Oscar de melhor atriz.
E quem decolou foi o México…
12 de março de 2013 § 4 Comentários
Lula, chegando ao poder pela primeira vez em 2002 depois de dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso à frente do governo do PSDB, e Enrique Peña Nieto, levando este ano o Partido Revolucionário Institucional (PRI) de volta ao poder após dois governos do Partido da Ação Nacional (PAN), de centro direita, tiveram ambos uma oportunidade única na história política do Brasil e do México: os dois puderam concentrar-se no futuro de seus países em vez de, como todos os seus antecessores, terem de gastar metade de seus mandatos tentando arrumar a bagunça herdada dos governos anteriores.
Tanto o PSDB, no Brasil, quanto o PAN, no México, graças a uma condução civilizada das finanças públicas que os dois transformaram nas suas marcas registradas, entregaram seus países prontos para crescer aos seus sucessores.
Uma herança tão essencial e tão valorizada no Brasil de então por uma população traumatizada pela inflação devastadora herdada do hoje sócio do PT, José Sarney, que Lula só passou a ser palatável para o eleitorado depois de assinar um documento comprometendo-se formalmente a não dilapidá-la como o seu partido jurava que faria.
Outra característica a aproximar os dois presidentes é que seus respectivos partidos, de tradição populista “de esquerda“, têm pleno controle sobre os sindicatos e as demais forças tradicionais de resistência contra reformas modernizadoras de economias amarradas por anos sem fim de servidão corporativista, o que abria uma oportunidade única para que eles finalmente libertassem seus povos dessas amarras seculares.
Mas cessam por aí as semelhanças.
Lula passou seus dois mandatos tratando de eliminar, pela corrupção, toda e qualquer sombra de oposição ao seu poder pessoal e nunca sequer tentou fazer reforma alguma ou, muito menos, levar adiante a obra iniciada por Fernando Henrique de modernização da economia nacional.
Já Enrique Peña Nieto começou a faze-lo antes mesmo de tomar posse.
Em 1º de dezembro, levou seu partido a propor e um Congresso que sempre resistiu a elas a aprovar um pacote de reforma das leis trabalhistas que, segundo a unanimidade dos analistas mexicanos, vai injetar grandes doses de dinamismo à economia local.
Em seguida, fez aprovar uma lei nos moldes da de Responsabilidade Fiscal, pilar da “arrumação da casa” brasileira conseguida por Fernando Henrique que Dilma, a criatura de Lula, vai endereçando à lata de lixo, para forçar a transparência e o manejo responsável das finanças estaduais e municipais que, como aqui no passado, são o maior ralo da economia do México.
Para completar o acerto nas contas nacionais, prepara agora uma reforma para reforçar as receitas fiscais do governo e abrir o setor de energia, aí incluídos principalmente os de petróleo e gás, aos investimentos privados nacionais e estrangeiros, base para o relançamento da economia nacional.
Menos de 24 horas após sua posse, aliás, Peña Nieto havia arrancado dos presidentes do seu e dos demais partidos políticos do país a assinatura de um “Pacto pelo México”, comprometendo-se com 95 reformas de base. E no fim de semana retrasado, enquanto a do PT se reunia para aprovar o “controle social da mídia” fez a Assembleia Nacional do PRI mudar os estatutos que impediam membros do partido de votar o imposto sobre valor agregado que civilizará a ordem tributária mexicana ou modificações no setor estatizado da energia.
No início deste mês, Peña Nieto mandou prender Elba Esther Gordillo, a poderosa e corrupta presidente do sindicato dos professores do México que se punha à frente das reformas, inclusive a que pretende fazer também no setor decisivo da educação.
Gordillo, tida como um símbolo do poder intocável dos sindicatos foi levada para trás das grades mais ou menos no mesmo momento em que Rosemary Noronha e José Dirceu comemoravam juntos num resort da Bahia o feito de sua liberdade ter sobrevivido, um a uma condenação do Supremo Tribunal Federal, a outra aos flagrantes de corrupção e tráfico de influência, além de crimes menores semelhantes aos que levaram Gordillo, que também pagou seus luxos e suas operações plásticas com dinheiro público, à cadeia.
Finalmente anteontem Peña Nieto enviou ao Congresso um projeto de lei que vai sacudir os setores de telecomunicações e televisão, hoje concentrados nas mãos de Carlos Slim, “o homem mais rico do mundo”.
Nada a ver, é claro, com o “controle social da mídia” do PT. Ao contrário. Slim detém 70% do mercado de telefonia celular e 80% do de linhas fixas do México. E com o que aufere aí, sustenta a sua Televisa que detém 70% da audiência de televisão no México. Lá de fato existe uma concentração excessiva, semelhante à que o PT tem posto nas mãos dos diversos “barões do BNDES” que está criando em setores-chave da nossa economia. A lei de Peña Nieto vai na direção contrária: dá poderes a agência de controle do setor de exigir a alienação (para outros players privados) de tudo que ultrapassar 50% de ocupação de cada mercado.
Graças a tudo isso o problema do México é, no momento, o inverso do brasileiro: eles não sabem o que fazer da horda de investidores internacionais que batem à sua porta se oferecendo para participar a qualquer preço da onda de progresso que já está rolando.
De modo que, se derem certo os planos anunciados do PT de levar-nos, primeiro ao degrau argentino com o fim da liberdade de imprensa e a aniquilação do Judiciário, depois ao estágio venezuelano de extinção do direito de propriedade e finalmente ao éden cubano de adoração obrigatória a um Lula já caquético mas ainda cheio de vontade de cagar regras como o seu guru do Caribe, você já tem mais um lugar para onde poderá, eventualmente, emigrar.






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