Lula e a “Conexão Portuguesa”

28 de janeiro de 2015 § 11 Comentários

O Diário de Notícias, de Lisboa, noticiou assim, no último dia 10 de janeiro, o depoimento prestado no dia anterior:

Miguel Horta e Costa constituído arguido no caso ‘mensalão’

por Carlos Rodrigues Lima

O antigo presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa, foi esta sexta-feira constituído arguido no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), num processo que investiga corrupção no comércio internacional. Esta investigação foi aberta pelo Ministério Público na sequência de uma carta rogatória enviada pelas autoridades brasileiras para Miguel Horta e Costa. Esta sexta-feira, o antigo presidente da Portugal Telecom respondeu às perguntas do Ministério Público brasileiro e foi constituído arguido no processo português. O DN tentou contactar Paulo Sá e Cunha, advogado que representa Miguel Horta e Costa, sem sucesso.
Esta investigação começou em 2012, depois do publicitário brasileiro Marcos Valério, condenado como o executor do “mensalão”, ter afirmado num depoimento que a Portugal Telecom financiou o Partido dos Trabalhadores (PT) com 2,6 milhões de euros, durante o Governo de Lula da Silva. Esse dinheiro, segundo Marcos Valério, foi negociado diretamente entre o ex-presidente do Brasil e o então presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa, no Palácio do Planalto, em Brasília.
O publicitário explicou ainda, segundo a informação na altura adiantada pelo Estado de São Paulo, que a transferência do dinheiro foi feita através de uma fornecedora da Portugal Telecom em Macau, na China, na conta bancária de publicitários no Brasil que prestaram serviços para a campanha eleitoral do Partido dos Trabalhadores. Como prova das negociações para o pagamento, Valério cita a viagem realizada por ele próprio, seu ex-advogado Rogério Tolentino e do ex-secretário do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) Emerson Palmiere a Portugal, em 2005.

Confira neste link

Recordar é viver

17 de julho de 2014 § 3 Comentários

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Vocês lembram como começou o Mensalão?

Puxo matéria de 29/05/2010 aqui do Vespeiro:

“O Banco Espírito Santo (BES) foi acusado pelo deputado Roberto Jefferson de ser o pivô de uma fracassada operação para resolver parte das dívidas de campanha do PT e do PTB. Este ultimo partido era, na época, o “dono” do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), dirigido por Lídio Duarte, indicado pelo próprio Jefferson. O plano era transferir para o BES US$ 600 milhões de reservas técnicas do IRB aplicados em outros bancos europeus, contra o pagamento de uma “comissão” de 50 milhões com os quais o PT saldaria dívidas de campanha com o PTB. Segundo Jefferson, a operação tinha sido combinada entre Dirceu e o diretor do BES no Brasil, Ricardo Espírito Santo, em encontros articulados, no Brasil e em Portugal, por Marcos Valério.

Jefferson foi mais longe: disse que até o presidente Lula tinha recebido Ricardo Espírito Santo e Miguel Horta e Costa, na época presidente da Portugal Telecom, em Palácio, levados a ele por Marcos Valério em pessoa.

Foi, naturalmente, desmentido por todos os acusados.

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Acontece que o “Mensalão” estava no início e o governo Lula ainda não tinha o know-how que tem hoje. Checadas as agendas nos sites oficiais da Presidência e da Casa Civil, tudo se confirmou. Lula tinha recebido Horta e Costa, Espírito Santo, Valério e Dirceu em duas ocasiões: 21 de janeiro de 2003 e 19 de outubro de 2004.

Instaurou-se o pânico entre os executivos do banco, apavorados com a perspectiva de se verem transformados no elo de ligação que faltava entre Lula em pessoa e o “Mensalão”.

Nos dias que se seguiram, notas oficiais coordenadas foram disparadas pelo Palácio do Planalto, pela Casa Civil e pelo Banco Espírito Santo onde todos admitiam o que era impossível negar, mas alegando que o que tinha sido tratado no encontro foram apenas os investimentos da Portugal Telecom no Brasil.

O banco e a Portugal Telecom continuavam negando, entretanto, os outros encontros mais recentes nos quais, segundo Jefferson, teria sido articulada a operação envolvendo o IRB. Novamente as agendas oficiais, desta vez a da Casa Civil, provaram que ele estava dizendo a verdade, e todos tiveram que reformular suas histórias.

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Sim, tinha havido uma reunião na Casa Civil com a presença de Ricardo Espírito Santo, Jose Dirceu, Marcos Valério e Emerson Palmieiri, tesoureiro do PTB, em 11 de janeiro de 2005. Treze dias depois, Valério, Palmieri e Dirceu seguiram para Lisboa onde, segundo Jefferson, iriam fechar o negócio envolvendo o IRB.

Desmentido pelas agendas oficiais, Ricardo Espírito Santo viu-se em maus lençóis. Convidado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito não conseguia esconder sua irritação: “Não precisamos de intermediários … investimos mais de 7 bilhões de euros no Brasil … O encontro com o ministro Dirceu foi uma reunião de apresentação … De onde conheço Valério? Sei lá como conheci Valério! Foi em contatos sociais…”

A notícia, obviamente, teve intensa repercussão em Portugal de onde veio nova e contundente menção ao nome do presidente Lula relacionado às relações perigosas entre Valério, Dirceu, o BES e a Portugal Telecom.

A mesma agenda publicada no site da Casa Civil registrava outra viagem anterior de Dirceu e Valério a Lisboa, a 7 de junho de 2004, em que participaram de um jantar com o presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa. Apertado, Valério emitiu nota confirmando esse encontro e acrescentando que, na mesma viagem tinha visitado o então ministro de Obras e Comunicações do governo Antonio Guterres, do Partido Socialista, Antonio Mexia, que lhe tinha sido apresentado por Horta e Costa. E, o que é pior, três semanas antes da revelação entrar no foco dos investigadores brasileiros, o ministro Mexia, numa entrevista ao jornal Expresso, de Lisboa, afirmara, desastradamente, que tinha recebido Valério “na qualidade de consultor do presidente do Brasil”.

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Seguiu-se nova bateria de desmentidos e novo realinhamento do discurso de todos os envolvidos. Valério, confirmado pelo ministro português, passou a dizer que suas tratativas em Portugal visavam manter em sua agencia a conta publicitária da Telemig cuja compra estaria sendo negociada pela Portugal Telecom. E disse mais: que Palmieri, o tesoureiro do PTB, seria apenas “um amigo pessoal” que só o acompanhou naquela viagem porque “andava estressado” (tinha sido traído pela mulher) e precisava espairecer.

Investigações subseqüentes indicam que os dois movimentos aconteceram ao mesmo tempo. Valério estava mesmo intermediando a negociação entre a Portugal Telecom e a Telemig, exibindo como credencial o seu acesso privilegiado à Casa Civil. Os contatos que fez em Portugal o colocaram na posição ideal para intermediar, mais adiante, a solução imaginada para as dividas de campanha do PT com o PTB através do “esquema IRB”.

Valério, aliás, já tinha prestado serviços anteriores à Portugal Telecom, influenciando, com ajuda de Dirceu, a decisão da Anatel de manter a divisão de tarifas nas ligações entre telefones fixos e celulares. Pelas regras de 1998, de cada real gasto nas ligações entre aparelhos celulares e fixos, os primeiros ficavam com a maior parte. Sendo a Vivo a única das grandes teles a só operar com celulares, ela é quem mais ganha com essa decisão.

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No julgamento de José Dirceu, só duas testemunhas de defesa concordaram em depor a seu favor: o presidente do Banco Espírito Santo no Brasil, Ricardo Espírito Santo, e o escritor Fernando Morais.”

Corta e salta 4 anos adiante.

Rolam pelo noticiário aos trambolhões, nas últimas semanas, os acionistas minoritários da Oi, aquela “tele” que o Lula fabricou criando leis especialmente desenhadas para tanto, e que deixou o filho dele rico de repente.

De que se trata?

Em outubro de 2013, em mais uma operação que requereu alterações sob medida da legislação que regula o setor para acomodá-la, a Oi (grupos Andrade Guitierrez e Jereissati, presenteados com ela pelo governo, e mais as onipresentes Previ dos funcionários do Banco do Brasil/PT e BNDES) juntou-se aos restos da Vivo, da Portugal Telecom (da qual o BES é o maior acionista individual com 10,05%), e sob a batuta da maior estrela em ascensão do mercado financeiro brasileiro na Era PT, Andre Esteves, do BTG Pactual, fundiram-se todos numa nova multinacional, a CorpCo que nascia com um faturamento de R$ 37,5 bi. A Portugal Telecom ficou com 38,2% da nova companhia e os sócios brasileiros com 13,1%. O resto é capital aberto.

Passados menos de 6 meses, os sócios minoritários brasileiros são acordados, numa bela manhã de abril passado, com a notícia bomba de que, sem consultar ninguém, a Portugal Telecom tinha “investido” 897 milhões de euros na Rioforte, uma subsidiária do Banco Espírito Santo, o maior de Portugal mas que vem tão mal das pernas nos últimos anos que o Fed, dos Estados Unidos, e outros bancos centrais de todo o mundo estão tomando providências urgentes prevendo a sua falência, temendo que o buraco que ela vai abrir no sistema financeiro internacional possa provocar uma nova crise sistêmica, como a que começou com a quebra do Lehman Brothers.

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A chance desses 897 milhões de euros virarem pó são de praticamente 100%, portanto, fato que, quando se configurar, vai reduzir substancialmente o valor da Portugal Telecom que foi a base usada para definer a sua participação na CorpCo. A Portugal Telecom é, por sua vez, dona de 2,9% do capital do BES. A operação toda, portanto, é conflituosa pelas duas pontas e atingirá os dois participantes duas vezes cada um quando o bumerangue voltar.

Por isso os sócios brasileiros da CorpCo afirmam que a Portugal Telecom, descontados os 897 milhões, vale muito menos, e por isso querem que sua participação seja reduzida de 38 para 20%. Estão sendo até camaradas a julgar pelo quanto já despencaram as ações da Portugal Telecom desde que esse caso veio à tona.

A exceção nessa justa gritaria – estranhamente, dir-se-ia se não se conhecesse o que mais se conhece das relações pregressas do PT com a PT – são o representante do BNDES, Luciano Coutinho, que fala também pela fatia da Previ, e o agente Esteves, do BTG Pactual. Eles não admitem ter sido consultados previamente para esse “investimento cruzado” ultra conflituoso de seu “sócio” mas, mesmo assim, põem panos quentes na história: que estão acompanhando tudo de perto, que não ha motivo para tanto alarme, que pode-se até mudar a composição acionária da CorpCo mas não se deve desfazer o negócio com essa gente boa, que a situação do BES não é tão grave quanto diz o Fed, e por aí afora.

Àparte o fato de que estes dois não lidam com dinheiro próprio, ha uma longa história de velhas amizades e mirabolantes interesses pautando esses discursos.

O deadline, seja como for, é em 15 de julho próximo quando o BES terá de pagar à Portugal Telecom os 847 milhões de euros.

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As tramóias entre a Portugal Telecom e o BES, ao longo das quais aparece o tempo todo o rabo do PT, são velhas de muitos anos e estão descritas em minucia numa série de tres matérias publicadas aqui no Vespeiro em 2010.

Nelas relata-se como, aliado ao primeiro ministro socialista da época, José Sócrates, o BES subornou o advogado representante dos acionistas minoritários da Portugal Telecom que estavam dispostos a aceitar uma oferta hostil feita por outro grupo português pela empresa para traí-los na reunião de acionistas que ia decidir essa venda, plantar um testa-de-ferro dentro do Conselho da PT — Nuno Vasconcelos — e, por meio dele, servir-se do caixa da empresa em “aplicações” em “produtos financerios” do BES semelhantes a estes da operação acima discutida, por um lado, e para se tornar dono de mais ações da PT com dinheiro extraido dela própria, de outro (além de aumentar a fatia do BES, Nuno em pessoa ficou com mais de 7% da estatal).

Tudo isso só se tornou possível, como sempre, gracas à conivência do governo de Portugal, à época encabeçado pelo socialista José Sócrates, cuja mirabolante obsessão era vingar-se de órgãos de imprensa e jornalistas que lhe tinham dado flagrantes de corrupção, comprando com dinheiro da Portugal Telecom vazado por subsidiárias e outros desvios indiretos, uma série de jornais e TVs de Portugal e África, demitir seus desafetos e montar uma rede internacional de “imprensa amiga” lusófona.

Zeinal Bava, que esteve presente do primeiro ao último dos episódios mencionados aqui e era o encarregado da compra secreta da maior rede de televisão ibérica para o primeiro-ministro Sócrates, denunciada pela imprensa e barrada no último minuto pela Assembleia da Republica portuguesa, está hoje no Brasil e vem a ser o diretor da Oi, cargo que acumula com o de presidente da Portugal Telecom, de cujos “investimentos internacionais” ele é também o encarregado direto.

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Os golpistas ainda tentaram levar o plano adiante colocando à frente dele o testa-de-ferro plantado pelo BES na PT mas também esse estratagema foi detido pela CPI instalada na Assembleia da Republica. Nuno Vasconcelos acabou vindo, então, para o Brasil onde, violando as leis nacionais sobre propriedade de mídia por estrangeiros, montou o jornal Brasil Econônico, do qual ninguém menos que a mulher de José Dirceu, Evanise dos Santos, vem a ser a “diretora de marketing”.

A imprensa brasileira, hoje em dia, tem memória curta e, com isso, seus leitores perdem o fio da fascinante meada das tramóias do PT, suas conexões nacionais e internacionais e onde se quer chegar com tudo isso, que é sempre mais emocionante que as conspirações comparativamente infantis das novelas da Globo.

O Vespeiro está aqui para refrescar essa memoria.

Entenda como começou e com que objetivo continua rolando a tramóia entre a tele de Lula e o banco que estabeleceu a única ligação direta até hoje comprovada entre ele e o Mensalão colcando-o na mesma sala com Marcos Valério em duas reuniões de propósitos indiscutivelmente escusos, saltando para estas tres materias:

O jogo mundial do poder

Um meteoro no céu da mídia

Obsessão fatal

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Oi! Está lá?

8 de outubro de 2013 § 2 Comentários

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Houve quem dissesse por aí que o esboroamento da Oi (aquela que o Lula criou e que, agradecida, criou o Lulinha) e sua incorporação pela Portugal Telecom foi “o fracasso de um sonho de grandeza”.

Nem tanto…

Conta-se aqui no Vespeiro (neste link) como foi que os socialistas portugueses, como todo socialista no poder associados aos banqueiros portugueses, deram o golpe que os tornou meio donos da Portugal Telecom em cujas costas montaram todos para criar um esquema de poder nos territórios “lusófonos”, incluindo Brasil, Ásia e África.

Conta-se, também, como foi que, lá nos albores do Mensalão, a cobra mordeu o rabo e foram flagrados na mesma sala, em pleno Palácio do Planalto, o próprio presidente Lula, o banqueiro português “dono” da tele, o diretor geral da Portugal Telecom, o carequinha Marcos Valério, o Zé Dirceu e mais o tesoureiro do PTB do Roberto Jefferson para um acerto em que o banco levava 600 milhões do Instituto de Resseguros do Brasil  e o PT e o PTB liquidavam haveres mútuos valendo 60 milhões.

Foi assim que tudo começou.

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Depois, contei também como o testa de ferro da Portugal Telecom, Nuno Vasconcellos, sob os auspícios de don Dirceu, veio abrir jornais neste “Brasil Econômico” onde trabalha, como diretora de marketing, ninguém menos que a esposa oficial do homem por cuja impunidade imolou-se sem um gemido o Supremo Tribunal Federal da Republica Federativa do Brasil.

Agora, na dificuldade, eles se jogam, de novo, nos braços um do outro, enquanto o capo di tutti capi, don Lula da Silva, roda a África, especialmente a portuguesa, como emissário das nossas empreiteiras de obras públicas, vendendo obras gigantes financiadas pelo BNDES que ninguém nunca saberá se chegaram de fato a ser construídas, enquanto angaria votos daqueles governos filo-criminosos para ocupar o lugar que cobiça nos organismos internacionais.

E – atenção muita atenção! – no meio desse imbroglio de ex-presidentes, bancos portugueses, atuais empreiteiros e genocidas africanos, misturam-se as pegadas cheirando a morte dos “diamantes de sangue” e – pasme-se! – até o aliado mais discreto de don Lula, ninguém menos que o “bispo” Macedo que, por mais que se lave nesse mesmo banco e cresça em praças africanas, jamais conseguirá ficar mesmo limpo.

O fim de cada sonho é só o começo do próximo, ó santa ingenuidade!

Fica a dica…

 $$$

manobr4A propósito, a tarifa de celular mais cara do mundo – 5 xs o que se cobra na Espanha – só compra a 62a posição (em 160) no ranking mundial de desenvolvimento de telefonia, acesso à internet e serviços telefônicos em geral.

Não fizeram a conta do resto da infraestrutura – e telefonia e internet hoje são a infraestrutura da infraestrutura – onde esse multiplicador certamente iria à estratosfera.

É assim que se paga por tudo que o governo “”: a marca registrada de povos “espertos” que gostam de levar vantagem em tudo, onde todo mundo tem um deputado particular para cavar uma tetinha, um empregozinho sem trabalho, uma bolsazinha, uma isençãozinha de imposto, uma aposentadoriazinha privilegiada, é pagar preço de ouro por merda.

Tudo isso, aliás, faz parte dessa nossa pétrea cultura da negação do mérito e da responsabilidade individual. Por mais que nos esfolem, todo mundo aqui continua achando que “não enxergando a mão do ladrão entrando diretamente no meu bolso, mas apenas no do alheio, não fui eu quem pagou a conta”.

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Coincidências triangulares

4 de abril de 2013 § 2 Comentários

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A entrevista do Financial Times com Isabel dos Santos, “a primeira bilionária africana”, segundo a Forbes, reproduzida hoje no Valor (aqui. só para assinantes) fez-me voar longe esta manhã.

Isabel é mais um dos produtos indiretos da “luta pela democracia” nos anos 70, que em tudo faz lembrar o nosso “Lulinha” só que mais andada na senda do poder.

Ela vem a ser a filha de José Eduardo dos Santos, ex-“comunista” e ex-paladino da luta “pela libertação” da África que, ha 33 anos ininterruptos tem sido o presidente de Angola.

Quando comecei a trabalhar em jornal, já lá vão 38 anos, a primeira coisa de maior responsabilidade que fiz foi assumir a redação dos textos que o Estdão publicava sobre as guerras de libertação da África.

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Naqueles anos de generalizada conflagração ideológica, coisa que quem não viveu jamais poderá imaginar a que ponto de pressão e de detalhe chegou, não afirmar que os guerrilheiros africanos eram santos heróis da democracia era quase tão grave quanto negar que os generais brasileiros fossem os demônios do mal em pessoa.

Hoje estão no poder lá e cá os que, naquela altura, treinados por Cuba e empunhando armas russas, tentavam derrubar as ditaduras estabelecidas nos dois lados do Atlântico.

O pai de Isabel, aliás, casou com sua mãe, uma jogadora de xadrez russa, no Azerbaijão, base avançada então ocupada pelos soviéticos onde a nata da KGB, a polícia política soviética recheada dos torturadores e dos “delegados fleurys” lá deles, preparava as lideranças comunistas africanas envolvidas na disputa pelo poder naqueles países de localização estratégica e tão imensamente ricos em petróleo e diamantes que se preparavam para iniciar seu vôo solo.

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Passados 35 anos da “libertação” os angolanos continuam pobres, ainda que “com uma classe média em crescimento”, no julgamento de Isabel, e democracia é uma palavra de que já ninguém se lembra. Mas os antigos guerrilheiros comunistas que se tornaram seus governantes estão podres de ricos.

O regime de José Eduardo dos Santos, um homem obcecado pelo segredo sobre o qual paira sempre uma nuvem de mistério, “tornou-se sinônimo de desvio de recursos públicos para bolsos privados”, nas palavras de seus críticos, “uma espécie de capitalismo de compadrio” onde as pessoas ligadas ao Fatungo, como é conhecido o círculo íntimo do presidente, levam tudo, especialmente o petróleo e os diamantes (sim, aqueles “de sangue“), ficando o resto do país com as migalhas.

Faz lembrar alguma coisa?

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Ainda não? Pois veja:

A duas vezes bilionária (em dólares) filha do presidente diz que seu estrondoso sucesso econômico nada tem a ver com a posição do pai. “Eu tinha um talento para negócios desde muito novinha. Eu vendia ovos de galinha quando tinha seis anos”.

Assim como o talentosíssimo “Lulinha” que começou como zelador de parques zoológicos, Isabel deu sorte e saltou das galinhas para o ramo das telecomunicações onde fez seu primeiro grande negócio no fim dos anos 90, “ganhando uma licitação” para a operação de uma rede de telefonia móvel, a Unitel.

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Outra coincidência é que pai José, assim como pai Lula, perdoou os inimigos do passado. Hoje é umbilicalmente associado com os antigos colonizadores que combateu. Isabel não é menos desprendida. Ela detém participações em dois bancos portugueses, o BIC e o BPI e uma participação indireta na Galp, um grupo do setor energético com interesses em vários países, de Moçambique à Venezuela. “Nada a ver com a Sonangol, a estatal angolana de petróleo“, é claro. Tudo é recompensa daquele seu talento nato…

Finalmente, Isabel é dona também da ZON Multimédia, um conglomerado de rádios, jornais e TVS na antiga África Portuguesa. A terceira ponta desse triângulo fecha-se também no Brasil.

A ZON chamava-se PT Multimédia e foi desmembrada da Portugal Telecom em 2007, quando estava em curso o plano do governo socialista de José Sócrates para criar, por baixo do pano, usando testas de ferro, uma rede de imprensa simpática à sua administração a ser comprada com dinheiro surrupiado da telefônica portuguesa que deu origem à nossa Vivo.

O principal agente do golpe, denunciado antes que fosse a cabo, era Nuno Vasconcelos.

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Infiltrado na Portugal Telecom por banqueiros portugueses com ações na companhia, Nuno enriqueceu fulminantemente mas teve de vir colocar os ovos amealhados para chocar – adivinhem! – no Brasil, depois que a conspiração socialista foi denunciada e barrada em Portugal.

O plano dos banqueiros portugueses estragado pela irrefreável sede de vingança de José Sócrates contra a “imprensa golpista” local era criar uma rede de mídia (jornais, rádios e TVs) e telecomunicações em todo o “universo lusófono” (Brasil, África e Ásia).

Degredado, Nuno comprou aqui os jornais do Grupo O Dia, do Rio de Janeiro, uma licença de TV a cabo e fundou o jornal Brasil Econômico, homônimo de sua matriz portuguesa, tudo contra a lei vigente.

E, claro, a atual mulher de Jose Dirceu, Evanise Santos, vem a ser a “diretora de marketing” do “grupo” ao qual pertence o portuguesíssimo Brasil Econômico

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A ZON Multimédia, que foi praticamente roubada de dentro da Portugal Telecom, acabou, como estamos vendo agora, nas mãos da “princesa” duas vezes bilionária de Angola.

E agora o melhor: para quem não se lembra, o banco associado a todo esse esquema vem a ser o Banco Espírito Santo, agente da operação de acerto de contas de campanha entre o PT e o PTB de Roberto Jefferson que acabou resultando no escândalo do Mensalão, aquele que nem Joaquim Barbosa em pessoa consegue vingar.

Donde se conclui que a “lógica triangular” do sistema colonial português unindo por laços estreitíssimos Portugal, Brasil e Angola, uma fornecendo braços escravos para as plantações de açúcar do outro, uma história cheia de personagens fascinantes que está magistralmente contada no livro “O Trato dos Viventes”, de Luis Felipe de Alencastro (aqui), deixou rabos que se arrastam até hoje atrás da mesma raça de ratazanas de sempre.

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A “Conexão Portuguesa” e o homem que “desvirginou” o PT

11 de dezembro de 2012 § 3 Comentários

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Vale a pena refrescar a memória dos mais jovens a respeito das ameaças veladas de Marcos Valério no depoimento ao Ministério Público reconfirmado hoje por O Estado de S. Paulo.

Ao mencionar Paulo Okamoto, protagonista da primeira história a sujar o PT de lama, Ronan Maria Pinto, o “Rei do Lixo“, que estava no olho do furacão que desaguou no assassinato de Celso Daniel e a “Conexão Portuguesa” do Mensalão, ele resume a história da “queda” do PT da posição de vestal solitária da ética na política brasileira para a de campeão incontestável das “malfeitorias” do nosso riquíssimo repertório nesse tema, sinalizando que pode vir a desenterrar cadáveres muito incômodos.

Em todos esses episódios, o centro da corrupção estava colado na pessoa de Lula.

A “Conexão Portuguesa” do Mensalão, que punha Lula, Marcos Valério, José Dirceu e banqueiros portugueses na mesma sala em pelo menos duas reuniões oficialmente confirmadas pelas agendas da Casa Civil e da Presidência da República foi o estopim de todo o escândalo e foi revelada por Roberto Jefferson em pessoa.

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Os detalhes, saborosíssimos, foram minuciosamente reconstituídos aqui no Vespeiro em junho de 2010 no contexto de um segundo desdobramento das relações perigosas entre José Dirceu, o Banco Espírito Santo e a Portugal Telecom, antiga dona da Vivo, que foi o lançamento do jornal Brasil Econômico, onde trabalha a mulher do ex-ministro, parte de um plano que visava horizontes muito mais amplos que os pretendidos pelo Mensalão.

A história dessa quarta conspiração começa neste link.

A do homem que “desvirginou” o PT e o que isso tem a ver com Dilma Rousseff e com o atual ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, eu relembro logo a seguir. A da “Conexão Portuguesa” do Mensalão é a que eu reproduzo abaixo com o mesmo título com que foi publicada ha dois anos e meio neste blog. A de Ronan Maria Pinto/Celso Daniel fico devendo para outro dia.

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Velhas amizades

O Banco Espírito Santo (BES), de Portugal, foi acusado pelo deputado Roberto Jefferson de ser o pivô de uma fracassada operação para resolver parte das dívidas de campanha do PT e do PTB. Este ultimo partido era, na época, o “dono” do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), dirigido por Lídio Duarte, indicado pelo próprio Jefferson. O plano era transferir para o BES US$ 600 milhões de reservas técnicas do IRB aplicados em outros bancos europeus, contra o pagamento de uma “comissão” de R$ 50 milhões com os quais o PT saldaria dívidas de campanha com o PTB. Segundo Jefferson, a operação tinha sido combinada entre Dirceu e o diretor do BES no Brasil, Ricardo Espírito Santo, em encontros articulados, no Brasil e em Portugal, por Marcos Valério.

Jefferson foi mais longe: disse que até o presidente Lula tinha recebido  Ricardo Espírito Santo e Miguel Horta e Costa (na foto abaixo da de Valério), na época presidente da Portugal Telecom, em Palácio, levados a ele por Marcos Valério em pessoa.

Foi, naturalmente, desmentido por todos os acusados.

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Acontece que o “Mensalão” estava no início e o governo Lula ainda não tinha o know-how que tem hoje. Checadas as agendas nos sites oficiais da Presidência e da Casa Civil, tudo se confirmou. Lula tinha recebido Horta e Costa, Espírito Santo,  Valério e Dirceu em duas ocasiões: 21 de janeiro de 2003 e 19 de outubro de 2004.

Instaurou-se o pânico entre os executivos do banco, apavorados com a perspectiva de se verem transformados no elo de ligação que faltava entre Lula em pessoa e o “Mensalão”.

Nos dias que se seguiram, notas oficiais coordenadas foram disparadas pelo Palácio do Planalto, pela Casa Civil e pelo Banco Espírito Santo onde todos admitiam o que era impossível negar, mas alegando que o que tinha sido tratado no encontro foram apenas os investimentos da Portugal Telecom no Brasil.

O banco e a Portugal Telecom continuavam negando, entretanto, os outros encontros mais recentes nos quais, segundo Jefferson, teria sido articulada a operação envolvendo o IRB. Novamente as agendas oficiais, desta vez a da Casa Civil, provaram que ele estava dizendo a verdade, e todos tiveram que reformular suas histórias.

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Sim, tinha havido uma reunião na Casa Civil com a presença de Ricardo Espírito Santo, Jose Dirceu, Marcos Valério e Emerson Palmieiri, tesoureiro do PTB, em 11 de janeiro de 2005. Treze dias depois, Valério, Palmieri e Dirceu seguiram para Lisboa onde, segundo Jefferson, iriam fechar o negócio envolvendo o IRB.

Desmentido pelas agendas oficiais, Ricardo Espírito Santo viu-se em maus lençóis. Convidado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito não conseguia esconder sua irritação: “Não precisamos de intermediários … investimos mais de 7 bilhões de euros no Brasil … O encontro com o ministro Dirceu foi uma reunião de apresentação … De onde conheço Valério? Sei lá como conheci Valério! Foi em contatos sociais…”

A notícia, obviamente, teve intensa repercussão em Portugal de onde veio nova e contundente menção ao nome do presidente Lula relacionado às relações perigosas entre Valério, Dirceu, o BES e a Portugal Telecom.

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A mesma agenda publicada no site da Casa Civil registrava outra viagem anterior de Dirceu e Valério a Lisboa, a 7 de junho de 2004, em que participaram de um jantar com o presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa. Apertado, Valério emitiu nota confirmando esse encontro e acrescentando que, na mesma viagem tinha visitado o então ministro de Obras e Comunicações do governo Antonio Guterres, do Partido Socialista, Antonio Mexia, que lhe tinha sido apresentado por Horta e Costa. E, o que é pior, três semanas antes da revelação entrar no foco dos investigadores brasileiros,  o ministro Mexia, numa entrevista ao jornal Expresso, de Lisboa, afirmara, desastradamente, que tinha recebido Valério “na qualidade de consultor do presidente do Brasil”.

Seguiu-se nova bateria de desmentidos e novo realinhamento do discurso de todos os envolvidos. Valério, confirmado pelo ministro português, passou a dizer que suas tratativas em Portugal visavam manter em sua agencia a conta publicitária da Telemig cuja compra estaria sendo negociada pela Portugal Telecom. E disse mais: que Palmieri, o tesoureiro do PTB, seria apenas “um amigo pessoal” que só o acompanhou naquela viagem porque “andava estressado” e precisava espairecer (porque tinha dado um flagrante de traição e se separara da mulher).

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Investigações subseqüentes indicam  que os dois movimentos aconteceram ao mesmo tempo. Valério estava mesmo intermediando a negociação entre a Portugal Telecom e a Telemig, exibindo como credencial o seu acesso privilegiado à Casa Civil. Os contatos que fez em Portugal o colocaram na posição ideal para intermediar, mais adiante, a solução imaginada para as dividas de campanha do PT com o PTB através do “esquema IRB”.

Valério, aliás,  já tinha prestado serviços anteriores à Portugal Telecom, influenciando, com ajuda de Dirceu, a decisão da Anatel de manter a divisão de tarifas nas ligações entre telefones fixos e celulares. Pelas regras de 1998, de cada real gasto nas ligações entre aparelhos celulares e fixos, os primeiros ficavam com a maior parte. Sendo a Vivo a única das grandes teles a só operar com celulares, ela é quem mais ganha com essa decisão.

No julgamento em que José Dirceu teve seu mandato cassado, só duas testemunhas de defesa concordaram em depor a seu favor: o presidente do Banco Espírito Santo no Brasil, Ricardo Espírito Santo, e o escritor Fernando Morais.

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O homem que “desvirginou” o PT

Esta eu faço questão de lembrar não apenas para a geração que confia na Wikipédia que, no verbete “Paulo de Tarso Venceslau” não faz a mais leve menção ao episódio que o tornou um homem tristemente célebre, como também para fazer justiça à presidente Dilma.

Foi ele quem, nos idos de 1993, “desvirginou” o PT ao denunciar ao jornal da tarde, de São Pauloo esquema de desvio de dinheiro das prefeituras ocupadas pelo partido que, até então, era tido como um solitário “paladino da ética”  no cenário desolado da política brasileira.

Paulo de Tarso Venceslau, ex-guerilheiro e fundador do PT, era secretário de Finanças da prefeitura de São José dos Campos e descobriu a falcatrua, que envolvia todas as prefeituras ocupadas pelo PT e era centralizada nas mãos de Roberto Teixeira, o “compadre” de Lula e proprietário do apartamento em que o ex-presidente mora ate hoje, e do seu fiel escudeiro Paulo Okamoto, então Tesoureiro do PT, o mesmo que Valério diz tê-lo ameaçado mais recentemente de morte.

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Durante quase dois anos Paulo de Tarso Venceslau correu atras de Lula para contar-lhe o que tinha descoberto mas ele dava sempre um jeito de evita-lo. Finalmente, convencido da conivência dele com os “malfeitores“, foi ao jornal da tarde e denunciou o que estava acontecendo.

Foi uma bomba! Era a primeira vez que o partido que vivia com o dedo na cara de todo mundo foi pego em flagrante de vasta “malfeitoria“.

Cabe lembrar, a propósito, que o atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, integrou a comissão especial criada pela Executiva Nacional do PT para investigar o caso. Àquela altura um bom numero dos militantes e dos fãs do partido realmente acreditava que ele não era o que desde então provou ser.

Ao lado do então deputado, jurista e ex-jornalista Hélio Bicudo, que deixou o PT após o escândalo do Mensalão, em 2005, Cardozo concluiu em seu relatório que tanto o compadre de Lula, Roberto Teixeira (na foto abaixo) como o irmão deste atuaram dolosamente para desviar o dinheiro das prefeituras controladas pelo partido através da empresa CPEM com a qual “prestavam assessoria” às prefeituras petistas, e que este “Atuou com evidente abuso da confiança de que desfrutava no partido em face da notória relação de amizade que mantém com o presidente de honra do PT”.

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Essa menção ao fato de que Lula em pessoa tinha credenciado seu compadre a insinuar-se às administrações do partido para montar um esquema de corrupção que, desde então, tornou-se recorrente em todos os escândalos em que o partido se envolveu foi, àquela altura, de uma ousadia quase impensável.

Lula, como sempre, negou que soubesse de qualquer coisa e acabou sendo inocentado na sindicância, acuada sob intensa pressão da tropa de choque do segmento mais profissional da militância petista.

Paulo de Tarso Venceslau foi expulso do partido sob a acusação de que “ao se dirigir à imprensa, empregou adjetivos que desqualificaram Lula e outros dirigentes petistas” e esse resultado definiu para sempre o modo de agir em face de flagrantes e denuncias que o partido mantém até hoje.

Mas Lula nunca mais perdoaria Cardozo por ter tomado seu santo nome em vão.

Quando Tarso Genro deixou a pasta da Justiça para concorrer ao governo do Rio Grande do Sul, com Lula ainda na presidência, ele próprio indicou Cardozo como seu sucessor. Dilma Rousseff, então na casa Civil, apoiou a indicação mas Lula manteve-se inflexível: era contra. E Nelson Jobim acabou ocupando a pasta.

Ao se tornar presidente, Dilma convocou Cardozo e o impôs a Lula, razão pela qual ele é considerado o primeiro e único dos ministros de sua livre escolha no ministério com o qual iniciou seu governo, naqueles longínquos tempos antes de aposentar a vassoura da tal da faxina…

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