A vitória (temporária) dos ladrões

11 de junho de 2019 § 8 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 11/6/2019

A crise não é da democracia. A crise é do estado nacional e, como consequência, do modelo econômico que se apoia no ordenamento jurídico que o estado nacional garantia.

Falo do mundo, não do Brasil. O funcionamento do capitalismo (e a liberdade possível) depende da garantia do direito de propriedade. Foi esse o fundamento que caiu. Sem garantia da propriedade não se renova a capacidade do empreendedor, seja de que tamanho for, de financiar o desenvolvimento do seus próximos empreendimentos e a economia pára, o emprego desaparece, o salário míngua.

Hernando De Soto demonstra com dados objetivos no seu “O mistério do Capital: porque o capitalismo triunfou no Ociente e falhou nos outros lugares”, que a principal causa da pobreza do Terceiro Mundo nem é cultural, nem de falta de espírito empreendedor, nem de diferença na quantidade de trabalho investido (e muito menos da disponibilidade ou não de recursos naturais), é a falta de garantia do direito de propriedade. É especialmente para os mais pobres, obrigados a “refugiar-se de legislações defeituosas na informalidade onde todo trabalho investido transforma-se em capital mortoque não pode ser transacionado senão num padrão arcaico”,  que essa falha é mais funesta. “O pobre é quem mais precisa dessa garantia para poder apropriar-se do resultado da força de trabalho que investe, a única coisa que ele tem”.

De Soto lembra ainda que essa incerteza geral sobre o que é de quem só começou a ser revertida na Europa “favelão nacional” do século 18 em diante, a partir da revolução industrial, e mais tarde ainda nos Estados Unidos que, “na sua luta para fazer um território virgem converter-se numa nação levou a garantia da propriedade às últimas consequências”, o que explica o seu crescimento vertiginoso a partir da virada do século 19 para o 20, quando entregou a chave das decisões políticas a quem mais precisa dessa garantia. “O Terceiro Mundo é o que eles foram há 100, 200 anos. A verdade  é que a legalidade é a exceção. A extra-legalidade sempre foi a norma. A constituição de sistemas integrados de propriedade no Ocidente é um fenômeno muito recente”.

Com a entrada em cena da internet fazendo desaparecer fronteiras num mundo onde a ordem legal plenamente estabelecida é a exceção, o primeiro e o mais formidável dos desenvolvimentos proporcionados pela informática foi o da capacidade de roubar.

Dentro e fora dos EUA as mega-empresas de trilhão de dólares são invariavelmente os grandes ladrões: o Google que rouba deus e o mundo com a inestimável contribuição dos roubados, o Facebook que compete com ele nisso e na venda de informação roubada na diuturna tocaia de cada passo e cada palavra trocada pelos seus usuários, a Amazon, latifundiária do comércio que mata concorrentes e explora todo servo da gleba que tenha algo para vender no planeta, e mais as suas contrafações chinesas…

A China, onde o estado patrocina o roubo planetário (de ideias, de patentes, de desenhos, de tudo), tornou-se imbatível e vai comprando o mundo. No Ocidente os ladrões privados ainda enfrentam algum nível de resistência do estado. Têm de bandear-se literalmente para dentro do “território livre” da China para se tornarem ladrões competitivos, como demonstrou Tim Cook, o verdadeiro artífice do gigantismo da Apple conquistado com a isca do supply chain que, uma vez agarrada a vítima, revela-se um esquema de exploração  de trabalho vil padrão Foxconn.

Sem garantia da propriedade volta-se à Idade Média: é o fim da hegemonia do consumidor que “tinha sempre razão” (e principalmente escolha, que é o nome despido de poesia da liberdade), a morte do princípio antitruste, a concentração extrema da riqueza. A economia como um todo embarca no “efeito Jardim Europa”: cada vez menos gente comprando cada vez mais terrenos em incessantes “fusões e aquisições” até que sobrem só uns tantos castelos murados com os súditos subempregados e o crime à solta em volta, trocando trabalho, inovação e proteção por migalhas.

O embate cada vez mais irracional e furioso entre “direita” e “esquerda” é um eco do sofrimento que essa fissura do fundamento básico do sistema causa. O corre-corre sem saber pra onde no meio do terremoto no escuro. E vai puxado pela imprensa, uma das indústrias mais violentamente assoladas pelo pior lado das novas tecnologias.

Em pânico com o efeito da vitória esmagadora dos ladrões; nas mãos de um número minguante de patrões; inseguras quanto às causas reais da sua desgraça, a primeira reação das pessoas e das empresas é correr para dentro das muralhas dos castelos em busca de proteção.

Sair é que são elas. Mas desta vez, espera-se, não levará mil anos como da anterior.

US$ 4.7 bi, quase tanto quanto os US$ 5.1 bi de todo o resto da indústria da informação dos Estados Unidos somada, foi quanto o Google faturou sozinho em publicidade vendida em cima do noticiário que ele não produz segundo um estudo da News Mídia Alliance que representa mais de 2000 órgãos de informação americanos. O cálculo é, aliás, conservador porque não inclui o que ele ganha vendendo a espionagem dos hábitos de consumo de informação dos seus clientes, o filé mais caro do seu açougue.

Acovardados todos, só agora os donos do que o Google e a meia dúzia de gigantes da praça colhem sem ter plantado começam a reagir. Está no congresso dos EUA, depois de várias iniciativas da União Europeia com objetivos semelhantes, a Lei de Competição e Preservação do Jornalismo, equipamento imprescindível da democracia, que suspende por quatro anos os dispositivos contra a cartelização da legislação antitruste para permitir aos grupos de comunicação negociar conjuntamente com eles a exigência de pagamento pela venda dos seus produtos. A lei tem apoio de democratas e republicanos nas duas casas do Congresso, além do Departamento de Justiça.

É o começo de uma longa marcha que desta vez terá de ser levada pela comunidade humana como um todo, de modo que acabará por arrastar também a nós, como sempre, quae será tamen

“Non duco, ducor”, a Síndrome de Google

28 de janeiro de 2012 § 1 comentário

Para todo lado que se olhe, inclusive e especialmente o das democracias, o cenário é desolador.

Líder”…

Os jornais e as televisões adoram a palavra de que abusam tanto mais quanto menor for a adequação do termo à realidade.

Mas o fato que define o tempo em que vivemos é que eles não existem mais.

Excluído o “Vale tudo por dinheiro” que permeia das religiões televisivas às formas mais íntimas do relacionamento humano, não existe qualquer outro “norte” discernível que seja capaz de por dez gatos pingados na mesma faixa de sintonia.

Do cenário político europeu aos pais diante do desafio da educação dos filhos; da oposição brasileira aos que se confrontam nos impasses que travam a Europa e os Estados Unidos, todo mundo está perdido com exceção dos cínicos cujo rumo se define exatamente em função da falta de rumo dos demais.

Esta é a Era do Google, o moto perpetuo do “é proibido proibir”; a ferramenta matemática de realimentação sem limites (“até além da centésima casa decimal”) de qualquer desejo manifestado.

A humanidade está sem rumo e é proibido que se lhe faça sugestões. E tendo a missão do homem na Terra ficado reduzida a atender “demandas”, é preciso que a política perca o rumo também para não ser apedrejada como elitista e anti-democrática.

Non duco, ducor*.

Vivemos a era da inversão “on demand” da antiga máxima de São Paulo.

É assim que, fácil como nunca antes na história deste mundo, o vácuo vai sendo preenchido pelos que fazem tudo por dinheiro ainda mantendo uma aparência de respeito pelas regras, como no universo dos advogados e das grandes corporções, e os que fazem tudo por dinheiro sem respeitar regra nenhuma, como se vai tornando norma no universo virtual.

Políticos, BBBs, mega-piratas, Estados-piratas, estes sim, agora livres e desobrigados pela promoção da covardia ao status de virtude, sabem, como sempre, exatamente onde querem chegar.

Ja a democracia – coitada! – vai sendo arrastada pela Medina, aos trambolhões. Só se levanta o seu outrora santo nome, hoje em dia, para defender a descriminalização da livre predação que rola na internet.

*Não conduzo, sou conduzido

De que lado você está?

26 de janeiro de 2012 § 3 Comentários


Foi de dar enjôo a gritaria dos últimos dias em torno da tentativa abortada de se discutir uma lei anti-pirataria na internet no Congresso americano.

Entra milênio sai milênio, os personagens da cena política e do debate ideológico não mudam.

O tema em torno do qual se digladiam varia de era para era, mas é só. O verdadeiro objeto dessas disputas por tras do argumento do dia é sempre o mesmo: poder. E dinheiro, a gente sabe, é só um outro nome do poder.

Não se trata, portanto, de convencer ou se deixar convencer por argumentos racionais. Trata-se de ganhar ou perder poder.

E a verdade, como se sabe, é o pior caminho para se chegar a ele.

O discurso ideo-lógico visa, como sempre, defender pelo patrulhamento e pela ameaça moral aquilo que é impossível defender pela lógica. E a escalada dos fascistas diante da superioridade dos argumentos do oponente também não varia: vai do constrangimento moral para a violência física e, no extremo, deságua no terrorismo.

É o caso desse Anonymous, a polícia secreta hacker que age por tras de uma máscara, primeiro calando o oponente, depois ameaçando “varre-lo da face da Terra” virtual com algum tipo de bomba cibernética.

Já a covardia dos políticos que, ao primeiro sinal de que isto poderia custar votos trocaram o que acreditavam pelo que renegavam minutos antes, não precisa de explicação. O exercício consciente da pusilanimidade é, nos dias que correm, um pre-requisito obrigatório para quem quer se tornar um profissional desse ramo.

É o que explica a crise das democracias que foram conduzidas para o buraco pela sistematização da caça ao voto com dinheiro e promessas falsas e, agora, afundam-se cada vez mais nele pela falta de coragem dos caçadores de votos/falsários para declarar terminada a festa.

Aquela covardia meio escondidinha da imprensa que  se manifesta todas as vezes em que o principal prejudicado são os Estados Unidos também não desapareceu com a virada do milênio.

Se é para chutar o saco dos ianques vale até abraçar a máfia, aliar-se aos tubarões contra os peixinhos, esquecer a luta de classes, alinhar-se com os bilionários contra os desempregados.

Coisa feia de ver!

A internet livre e aberta está correndo  perigo”? “Há uma ameaça de censura online”? “Está comprometida a liberdade de expressão na internet”? “Querem enfraquecer a dinâmica inovadora da rede”?

Ora, façam-me o favor!

É dos Megauploads da vida que se está falando! Pode alguém, de boa fé, enganar-se sobre quem é este senhor “Kim Dotcom”? Confundí-lo com o mocinho?

Os jornalistas, muito especialmente, não têm esse direito. Estão vivendo na pele o drama que esta lei quer atalhar.

Têm sido devastadoramente assaltados!

E no entanto, se é para apedrejar “O Império”, lá se apresentam eles, disciplinadinhos, o rabo entre as pernas:

Querem deter o compartilhamento pelos usuários de músicas e videos”…

Mentira! Ha uma industria organizada de pirataria sistemática visando lucrar em grande escala com a venda de produção roubada, implicando em prejuízos de bilhões de dólares e a rua da amargura para os espoliados. E tudo para enriquecer absurdamente dois ou três espertalhões por aí.

Os provedores de internet ficariam obrigados a vigiar e filtrar todos os conteúdos”…

Mentira! Quem não sabe que é exatamente isso que fazem todos e cada um deles, à nossa revelia, para lucrar vendendo o que aprendem espionando a nossa intimidade?

Bastaria um programazinho banal, o irmão mais burro da parafernália que eles usam contra cada um de nós, para catar pela rede só o que é roubado para ser vendido em grande escala, sem esbarrar em nenhum calo de ninguém mais, desde que cessasse a cobertura que lhes dão os gigantes da internet.

Empresários do mundo inteiro ficariam submetidos à lei americana”…

Mentira! Ladrões e receptadores de produtos roubados, de norte-americanos ou não, sim, teriam de suspender os seus “negócios”.

O poder judiciário e as garantias constitucionais perdem espaço”…

Mentira! A suspensão desses sites equivale a uma ação policial diante de um flagrante. O julgamento dos flagrados viria depois, se viesse.

Esta é uma ação dos tubarões da mídia contra os pequenos”…

Mentira! Os mega-tubarões da mídia são os que cresceram além do humanamente possível porque faturam em cima de produção alheia.

Essa discussão toda tem se apoiado numa enxurrada de mentiras, espalhadas para confundir e não para esclarecer. O que realmente incomoda nessa lei é que ela é simples e objetiva o bastante para vir a funcionar.

Assim, para além do fato óbvio de que o crime interessa a quem financia e incentiva a onda terrorista contra as tentativas de defesa dos roubados, só duas coisas ficaram claras nesta briga do lado escuro de Silicon Valley contra Hollywood. A primeira é qual dos dois lados tem sido mais generoso no financiamento das campanhas de Obama. A segunda é que Hollywood terá de aprender a usar melhor as novas mídias para ganhar essa parada. Porque enfrentar a blogosfera militante e os gigantes da internet distribuindo press releases é brincadeira.

No mais, cabe lembrar que esta briga é de toda a humanidade. O direito de propriedade, a garantia pelo Estado de que o que você conseguiu com o seu suor é seu, foi o passo com o qual a humanidade deixou para traz a lei da selva onde o mais forte prevalece sobre quem fez por merecer. O Império da Lei, que decorre desse primeiro passo e não pode sobreviver sem ele, é o que nos permite substituir a caça e a “conquista” (da caça alheia) pela economia organizada.

Hoje ha Estados inteiros vivendo de roubar o trabalho alheio, como na Idade Média.

Não é por acaso que a crise assola com força redobrada as sociedades que vivem de vender os produtos da inteligência humana, poupando apenas quem se beneficia da pirataria global e quem pode se dar o luxo de viver só de matérias primas por enquanto irreplicáveis.

Se queremos namorar a idéia de voltar a um passado pré-econômico, ok. Mas é bom que todos nos lembremos de que nele não é possível sustentar 7 bilhões de seres humanos. A maior parte de nós teria de deixar este mundo (o que, diria outra tribo de extremistas, sempre é uma maneira de resolver o problema ambiental).

Somália: quem são os piratas?

25 de julho de 2011 § Deixe um comentário

Enviado por Roberto Lacerda de Oliveira

Se não é exatamente verdadeiro quanto ao resto, sobre o que não tenho informações precisas (falo do despejo de lixo tóxico), no que diz respeito à pesca predatória que, especialmente a Espanha, segue perpetrando em todos os mares do mundo, os artifícios de que se vale para entrar em mares territoriais alheios com o concurso de políticos corruptos locais – o do Brasil inclusive – e as terríveis consequências que esse comportamento criminoso está tendo para a ecologia marinha, o que se vê aqui é, sim, exatamente verdadeiro.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com pirataria em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: