Indo e voltando no “capitalismo de relacionamentos”

29 de outubro de 2009 § Leave a comment

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Socialismo?

Quem teve medo de Lula e do PT por causa dele estava lhes fazendo um elogio imerecido.

Pa-tri-mo-nia-lis-mo.

Aliás, diga-se, a bem da verdade, foi assim em toda a parte. Socialismo é a formulação teórica. Patrimonialismo é a tradução prática. As diferenças são só de grau.

É inescapável. Também existe um Estado teórico, bom pras discussões, e o Estado concreto. O Estado concreto são pessoas. O teórico serve a si mesmo. O concreto serve pessoas. Primeiro, é dos seus funcionários. Depois é do governo que o controla (e o governo também são pessoas…). O que sobra é para a parcela do resto que não desafia nem uns nem o outro. É para quem – “capitalista de relacionamentos” ou miserável – retribui os favores renovando-lhes o mandato.

Para os independentes e sobretudo para os críticos, a lei…

E assim vamos nós, volta após volta, presos no mesmo bom e velho círculo vicioso.

Abrir um negócio próprio e trabalhar só é uma maneira viável de se ganhar a vida e até, eventualmente, de enriquecer, quando se exclui todas as outras. Só é possível onde o Estado está completamente fora da atividade econômica, trabalhando para fiscalizá-la e regulamentá-la. Quando o Estado é um agente direto da economia, quanto mais amplo for o espectro dos seus gastos, mais fácil fica fazer dinheiro desviando recursos públicos ou ganhando contratos e favores regulatórios.

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Aí, não há competição possível. Com raríssimas exceções, as grandes fortunas privadas serão filhas das conexões políticas e da corrupção. E quanto mais fortunas privadas forem filhas das conexões políticas e da corrupção, mais o sistema, como um todo, será avaliado como injusto e indefensável.

Afinal, para quem nunca viveu outra coisa, não existe um capitalismo democrático e um “capitalismo de relacionamentos”. Só existe o “capitalismo de relacionamentos”…

Para evitar uma identificação com ele no imaginário do publico, os políticos oportunistas são os primeiros a insuflar os ataques contra o capitalismo que temos. Isso assusta os investidores legítimos, que passam a não ter mais certeza de contar com o cumprimento dos contratos e o respeito à lei. Encurta o espaço para estes, que passam a procurar freguesias mais seguras, enquanto aumenta o território para os “dispostos a tudo”. Afinal, como não estar disposto a tudo se a regra do jogo é a que é?

Ao fim e ao cabo, a hostilidade do publico acaba fomentando e “justificando” a busca de privilégios junto ao governo. E a concessão desses privilégios aumenta a hostilidade do publico contra os empresários, o que joga mais água para o moinho daqueles a quem interessa mais estatização…

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E a quem interessa mais estatização?

Às pessoas que são o Estado, entre as quais se inclui as que são o governo. O país politicamente organizado, que é o dos funcionários do Estado, quer mais Estado porque sabe bem como isso vai irrigar a sua tetinha particular. O país miserável quer mais Estado porque espera que isso resulte em que a sua esmola aumente. O país dos “capitalistas de relacionamentos” espera, como sempre sentado, para morder o seu pedaço da caça abatida. E o país dos profissionais do poder saliva e lambe os beiços, prelibando a proteína extra que lhe vai ser servida.

Já o país moderno, este vai encolhendo enquanto tenta explicar, no meio do barulho dos fatos, como as coisas poderiam vir a ser.

Ou emigra.

Os jornais que sempre o citam quando ele elogia, desta vez omitiram a declaração. Mas o prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, já sentiu o cheiro, esta semana na Argentina: lá vai o Brasil, o “eterno país do futuro”.  Lá vai o Brasil, onde a imagem da mobilidade social – ficar milionário jogando futebol, cantando pagode, sendo um “famoso” na TV ou se aliando a Judas – corre o risco de permanecer para sempre no “padrão Cinderela”, e onde o esforço e o mérito, esmagados pela conformada remediação do funcionalismo ou pela exposição do sucesso dos corruptos e dos “capitalistas de relacionamentos”, seguirão, para sempre, valendo nada…

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Em que momento da presente volta no velho círculo nós estamos nesta reedição lulística da nossa história de sempre?

Você decide…

Dentro do governo, os honestos que sobraram estão ligando o alarme. Domingo, no Estadão, Luciano Coutinho clamava no deserto, soando como um eco de um passado distante: “é preciso controlar os gastos, reformar a Previdência, incentivar a poupança e o investimento publico…”

Por trás das suas palavras, no meio da balburdia ufanista do governo do qual ainda faz parte, estão o aparelhamento desenfreado da máquina publica; 20% de aumento da folha de salários do Estado em um ano; a explosão do déficit da Previdência; o afrouxamento das metas fiscais…

Lá se foi a “Carta aos Brasileiros”…

À frente das suas palavras está a apropriação do petróleo futuro e o “agrandamento” da Petrobras, acompanhado da proverbial “banana” para os seus sócios e acionistas; o início do jogo do lobo e do cordeiro com a Vale; o avanço dos bancos públicos com toda a sua nefanda memória de abusos e de instrumentalização política…

E o que há de novo na versão lulística da nossa velha história?

Uma dose maior de bílis. Um amargor; um travo de desvirtuado “profissionalismo” no crime. O Estado não está se voltando apenas para servir mais um grupo de bandalhos, como sempre. Estes que estão aí querem mais e por muito mais tempo. O Estado, agora, serve a um projeto de poder. Os caronas sindicais, os caronas privados, são iguais aos de sempre. Mas existe no ar um novo condimento policialesco; uma guilhotina moral que uma polícia e uma TV aparelhadas acionam, de quando em quando, para as nossas “tricoteuse”; tentativas sucessivas, insistentes, de calar a imprensa, de tutelar a produção intelectual, de controlar a mídia eletrônica; uma forma crescentemente assumida de patrocinar o desrespeito à lei ou de aplicá-la seletivamente; uma desfaçatez cada vez mais acintosa na afirmação de mentiras patentes; um alinhamento cada vez mais ostensivo a governos criminosos e aos párias do mundo.

Daqui não parece tão brilhante o futuro do “país do futuro”.

cinderelav

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