Em defesa do latifúndio ecológico
4 de fevereiro de 2011 § 2 Comentários
O vale do Yandegaia, Patagônia chilena
Os jornais andam publicando notinhas dando conta da intenção do ministro Wagner Rossi, da Agricultura, de alterar aquela lei idiota passada no ano passado proibindo estrangeiros de comprar terras no Brasil.
Sempre achei que tinha dente de cachorro grande nessa história, que rolou não mais que de repente quando grupos internacionais se movimentavam para tomar posição na corrida pelos bio-combustíveis e pelas commodities brasileiras, bem na hora em que um gigante privado local dava os últimos pontinhos para fechar o seu esquema hegemônico.
Passar uma rasteira nos concorrentes estrangeiros foi sopa no mel naqueles tempos em que gritar “Fora gringo!” era coisa de repercussão garantida e imediata no Itamaraty “bolivariano” de Celso Amorin/Marco Aurélio Garcia.
É verdade que mesmo neste Brasil mais sério da Dilma não existe nada mais improvável que passar da proibição total para programas de conservação do meio ambiente com a participação de capitais internacionais como eu quero propor que se faça também aqui neste longínquo grotão do mundo isolado da modernidade pela barreira da língua onde os dinosauros do ecoideologismo e as velhas viuvas do mundo com fronteiras que ainda se entrincheiram em órgãos públicos, redaçōes e ONGs cevadas com dinheiro do governo reagem em ordem unida se, e somente se, o objetivo final for apedrejar “O Império”.

Mas como ha muito tempo deliberei ignorar todas as provas em contrário que tenho colhido da experiência concreta e me aferrar com unhas e dentes até o fim ao otimismo e à fé na razão sem a qual a prática do jornalismo não faz sentido, vou insistir:
Não ha nada mais absurdo que agir (e legislar) como se fosse possível a um gringo que investisse em terras por aqui arrancar o seu terreno do nosso mapa ou mesmo as benfeitorias nele plantadas e leva-los pra casa debaixo do braço.
A balela do “roubo de biodiversidade” e de segredos dos nossos matos então é mais ridícula ainda. Primeiro porque sem bilhões de dólares em cima e décadas seguidas de pesquisa, experimentação e aplicação intensiva de altíssima tecnologia, nada no mato deixa de ser o que é no estado natural: apenas e tão somente comida para formiga. Segundo porque achar que proibindo gringo de comprar terra vai se impedir que ele contrate índios ou quem mais seja pra catar folhas por aí e mandar-lhe, até pelo correio, promessas de bons princípios ativos é história da carochinha em que nem debiloide embarca com fé.
Douglas Tompkins
Dinheiro gasto em preservação – isto é, para manter uma área intacta como a Natureza a fez – é, portanto, o dinheiro mais desinteressado e mais facilmente nacionalizável do mundo. Não ha rigorosamente nenhum risco de prejuízo que não se possa recuperar integral e imediatamente com uma simples assinatura da autoridade competente.
Muito bem.
O ministério da Agricultura de Dilma, ao que se informa, não baba nem perde a capacidade de raciocinar à simples menção da palavra “estrangeiro”, como ainda acontece em certos arraiais do petismo. “Restrinjam-se as compras dos grandes fundos por traz dos quais estão até governos como o da China. Restrinjam-se as compras dos grandes traders de commodities que querem verticalizar seus esquemas porque uma e outra restrição fazem, sim, sentido. Mas libere-se o investimento privado que vá virar produção, melhoria tecnológica e emprego, venha de onde vier o dinheiro”, é o que diz o novo ministro.
Já é alguma coisa…
Mas se é justificável que o dinheiro estrangeiro venha fazer nossas terras produzirem, não é muito mais justificável ainda, no país que tem dado mostras de que não consegue garantir sozinho a conservação de suas florestas, os alvéolos do pulmão do mundo, não só permitir como, mais que isso, incentivar por todos os meios e modos as compras por capitais internacionais de áreas ainda integras para preservação ou mesmo de áreas degradadas ou já exploradas pela agricultura para devolvê-las à Natureza? Não seria prudente fazê-lo enquanto é tempo, sobretudo neste momento em que o governo prepara a eletrificação da Amazônia, coisa que vai multiplicar vertiginosamente a velocidade e a extensão da devastação?
Parque Pumalin
Andei por 10 dias neste inicio de ano pelos confins da Patagônia chilena, nas cercanias do Canal de Beagle, que está quase exatamente do mesmo jeito que Darwin o viu em 1832.
Na primeira baia chilena na margem Norte do canal, pouco além da fronteira com a Argentina, onde ancoramos por um dia e uma noite, fizemos um extenso passeio a cavalo pela propriedade de um dos muitos bilionários estrangeiros que se dedicam a gastar o que têm de sobra para preservar ou devolver áreas como aquela ao seu estado natural. Trata-se de Douglas Tompkins, dono das marcas americanas de roupas para a prática de esportes de natureza The North Face e Espirit que comprou os 40 mil hectares da bacia do rio Yandegaia, um dos que nascem nas milenares geleiras da Cordilheira Darwin, uma das pontas dos Andes que mergulham na encruzilhada do Atlântico com o Pacífico lá perto do Polo Sul. É uma área que tinha pertencido a um traficante de drogas que precisou de dinheiro para pagar advogados, foi comprada por um grupo de conservacionistas chilenos e depois por Tompkins, que entregou sua gestão à ex-ministra do meio ambiente do Chile. Hoje está aberta ao publico. O trabalho que corre lá neste momento é o de arrancar todas as cercas e construções deixadas pelos antigos proprietários, deter as queimadas para abertura de pastagens e controlar a população de cavalos selvagens descendentes de ancestrais abandonados por fazendeiros derrotados pela aspereza da natureza local, que tomou de assalto o habitat dos pumas, dos guanacos e de outros espécimes endêmicos .

Mais ao Norte, cortando, literalmente, o estreito território chileno ao meio, Tompkins tem outra propriedade de 300 mil hectares de florestas pluviais temperadas intactas que vai da fronteira argentina até o Pacífico e que ele transformou no Parque Pumalin, recentemente declarado Patrimônio da Humanidade, apesar da gritaria dos nacionalistas chilenos que, como muitos que conhecemos por aqui, preferem ver aquilo depredado por conterrâneos que preservado por um estrangeiro.
Joseph Lewis, dono do Hard Rock Café e do Planet Hollywood, Ted Turner, ex-CNN, apaixonado pela pesca de truta com fly, Ward Lay, da Pepsi. Co, e até Sebastien Piñera, o bilionário que se tornou presidente do Chile, estão entre os muitos ricaços internacionais que compraram grandes áreas na Patagônia chilena ou argentina, uma das regiões mais preservadas do planeta, para mantê-las para sempre livres das pressões que vêm empurrando inexoravelmente santuários semelhantes para o extrativismo criminoso, a agricultura intensiva ou a especulação imobiliária pelo mundo afora.
Dinheiro contra dinheiro. A receita que, para o bem ou para o mal, resolve muito mais que conversa fiada. E o que pode ser mais coerente que investir em conservação ambiental sem consideraçōes retrógradas sobre fronteiras nacionais, dinheiro que hoje se ganha comprando e vendendo globalmente sem consideraçōes retrógradas sob fronteiras nacionais?
Douglas Tompkins, um pioneiro da causa ambiental na Patagônia, tem a seu favor um retrospecto que torna indiscutível o seu espírito altruísta e o aprofundamento da sua visão ecológica. É odiado pelos nacionalistas xiitas do Chile como de qualquer modo nunca deixaria de ser. Mas é respeitado e tido como um amigo do país por todo chileno que raciocina e é permeável ao testemunho dos fatos.
Árvores de 3.500 anos em Pumalin
Agora um numero crescente de bilionários segue os seus passos. Sejam quais forem as intenções que os movem – ainda que se trate só de vaidade ou qualquer outra forma secreta de cobiça – uma coisa é certa: eles nunca poderão mover suas propriedades de onde estão nem impedir os governos nacionais aos quais respondem de dar-lhes outra destinação no futuro, se assim decidirem.
Se a intenção é a de preservar, cabe aos governos nacionais condicionar o direito ao latifúndio ecológico a esse propósito e incentivar ao máximo a disposição dos ricos do mundo de financiar a manutenção dessas reservas.
Já os “ecoideologistas” profissionais que continuam preferindo a depredação “soberana” à conservação a cargo de cidadãos do mundo, mesmo diante da crescente ameaça para a sobrevivência da espécie humana, estão apenas dando mais uma prova de que, na sua escala de prioridades, conservar a natureza e manter florestas em pé está onde sempre esteve: nos últimos lugares.
Para charter no barco da foto em Beagle e Patagônia chilena veja
Você precisa fazer login para comentar.