“I wanna be” Édison Lobão

6 de fevereiro de 2014 § 7 Comentários

Paulo Skaf

A propósito do artigo de Eugênio Bucci hoje no Estado sobre a campanha do atual presidente da Fiesp, Paulo Skaf, em prol de si mesmo (aqui), e de sua pergunta final sobre se a Fiesp está a serviço da indústria ou a serviço do PMDB, aproveito para, ao dar minha contribuição para desvendar esse mistério, homenagear três autores de minha especial predileção.

O  primeiro é Mario Monicelli, no seu “Amici Miei”, comédia genial levada às telas em 1982, onde se dá o impagável diálogo entre Adolfo Celli e Hugo Tognazzi, o amigo pobre que vinha comunicar ao amigo rico que tinha um caso com a mulher dele e ia passar a viver com ela que, por sua vez, reivindicava o direito de vir visitar os filhos uma vez por semana.

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Enquanto o casal de crianças com ar degenerado urra e se esbofeteia, a babá, uma alemanzona gigante, grita com elas e o cachorro late sem parar ao fundo, o impassível Celli responde calmamente ao amigo que era indispensável compreender que o que havia ali era “una cadena di sentimenti” onde cada elo não podia viver sem o outro e que, portanto, o conquistador teria de levar o pacote inteiro: a mulher, os dois filhos, a “fraulein” e mais “il Birillo”, o canzarrão maior que um bezerro que “come seis quilos de carne por dia e tem de ser levado três vezes a passeio se você não quiser que ele deposite nos tapetes da casa o resultado da digestão de tudo isso”, e que ele, Celli, agora com um sorrisinho no canto da boca, é que, transferido o pacote, passaria a visitar os filhos somente uma vez por semana…

O PMDB, a outrora gloriosa Fiesp e o governo do PT também formam hoje, como quase tudo o mais em que haja dinheiro envolvido no Brasil, uma indissolúvel “cadena di sentimenti” em que uns não vivem sem os outros, cabendo ao pobre contribuinte brasileiro, sem nunca ter “comido” ninguém, sustentar o balúrdio que faz girar essa roda do qual fazem parte as dezenas de milhões de reais desviados do imposto sindical para enfiar goela abaixo do eleitorado menos ilustrado, bem azeitadas pelas artes de marketeiros profissionais pagos a peso de marcos valérios, as mentiras necessárias para eleger os candidatos a eternizar essa festinha privada onde todos os atores, a torto e a direito, enfiam grossas maçarocas de dinheiro uns nos bolsos dos outros.

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O outro autor que homenageio é o imortal Eugene Ionescu, na peça “O Rinoceronte”, uma farsa sobre a progressiva assimilação da ideologia nazista por uma comunidade em que todos os habitantes se vão transformando em rinocerontes embora ninguém, à exceção de um único lúcido não convertido, enxergue os enormes chifres que vão, aos poucos, tomando o lugar dos seus próprios narizes bem na frente dos seus olhos.

É precisamente o que está acontecendo com o empresariado brasileiro que sobrou em pé, constituído pelos varejistas obesos de tanto absorver a inundação de anabolizantes eleitoreiros que vem sendo injetada nas veias da economia com dano irreversível para a sua saúde futura e pelos “capitalistas de compadrio” de sempre posto que os demais, ou emigraram, ou estão morrendo à míngua longe das tetas do BNDES.

Finalmente rendo meu preito a Spike Jonze e ao genial roteirista Charlie Kaufman pelo estranho “Quero ser John Malkovich”, de 1999.

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É notável o fenômeno que assola o “núcleo duro” do PMDB, aquele que sustenta a aliança com o PT pelo bem do proletariado, onde pululam, ainda que hoje dentro de ternos muito bem cortados, as figuras mais resilientes do velho coronelismo à Primeira Republica, ambiente no qual quanto mais extensa é a ficha policial do indivíduo maior costuma ser o número de fios de cabelos implantados mediante aquele tipo de cirurgia na qual foi flagrado prevaricando, ultimamente, o insigne prócer da Republica, Renan Calheiros.

A cor do tingimento do resultado dessas dolorosas semeaduras das esperanças de quem tudo pode, até contra as leis da natureza – outra das marcas registradas dos aderentes à ideologia que inspira esse grupo – migrou, nos últimos tempos, do acajú patético para o negro chocante por cima do emaranhado de rugas dos rostos que sustentam essas espantosas cabeleiras. A moda é tão generalizada entre os habitantes do topo da cadeia alimentar do regime que transformou-se num símbolo, numa espécie de pendão, numa marca registrada com mais adeptos, até, do que a proverbial barba e as bandeiras vermelhas da antiga vanguarda da nova humanidade socialista que agora congrega as greis de José Sarney, Fernando Collor, Paulo Maluf e cia. ltda., e só ergue os punhos cerrados para gritar o sagrado “No passarán!” quando vêem a polícia correndo atrás de ladrões.

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A coincidência das aparições, frequentemente sequenciais, de Edison Lobão e Paulo Skaf na televisão nestes últimos dias em função do apagão da “gerentona” que afetou metade do país confirmam essa uniformização da estética do “peemedebpetista de resultados“, a ponto de levar o telespectador distraído, sempre dividido entre o computador e a TV lá no fundo como são quase todos hoje em dia, a confundir, de relance, os dois personagens.

A transformação visual de Paulo Skaf com seu novo gorro cerrado de pelos negros como a asa da graúna por cima do telhado luzidio a que estávamos acostumados até ontem foi tão súbita e impressionante que o primeiro impulso do sujeito, ao se certificar de que é mesmo ele, é lembrar-se de Michael Jackson e imaginar onde isso tudo ainda pode ir parar.

Mas quando, logo a seguir, surge Edison Lobão na tela, recoberto de idêntico e rigoroso negror apesar da incomum abundância de rugas a vincar-lhe o longevo rosto, todas as dúvidas se desvanecem: Paulo Skaf, indubitavelmente, “wanna be” Edison Lobão, com o que julgo dirimidas todas as dúvidas do doutor Bucci.

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Estamos todos virando rinocerontes

10 de junho de 2013 § 9 Comentários

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A grande celeuma do momento é a “revelação” pelo Washington Post e pelo Guardian, em edições sucessivas, de que ha sete anos o FBI e a Agencia Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos, amparadas em ordens judiciais ainda que secretas, têm tido acesso a ligações telefônicas de clientes da Verizon, a segunda maior companhia telefônica do país, e a trocas de mensagens suspeitas em nove das maiores redes sociais em uso no país.

Essas “escutas” não podem ser acessadas em seu conteúdo pelos agentes do governo, são, antes, rastreadas contra um programa que detecta conexões entre endereços suspeitos e combinações de palavras em diversas línguas que o computador identifica.

Só as separadas por esses programas automáticos chegam a ser examinadas.

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Tudo isso são ações amparadas no Programa Prisma baseado em lei recentemente renovada pelo Congresso promulgada por Bush Filho em 2001, dentro do espírito do Patriot Act, o pacote de leis de prevenção e combate ao terrorismo que se seguiu ao ataque a Nova York.

É claro que a vigilância não se limita à Verizon e nem, possivelmente, aos sites mencionados mas a todas as comunicações telefônicas e online feitas no país e no mundo. Estes são apenas os casos que os dois jornais puderam comprovar.

E é claro, também, que estão cercadas de todas as garantias que um Estado de Direito pode dar para a consecução de uma missão básica de segurança obviamente necessária para os tempos em que vivemos.

Por isso o que me escandaliza é o escândalo em torno de tão momentosa “novidade”.

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Ha dois dias programas jornalísticos nas TVs de todo o mundo e jornais ao redor do globo todo não falam de outra coisa, sempre no tom sintetizado no iracundo editorial do NY Times que sentenciou que o governo Obama “perdeu toda a credibilidade em matéria de transparência”, que “usará todo poder que lhe for dado e muito provavelmente abusará dele”, etc. , etc. e tal.

É função básica da imprensa saber o que e como os governos estão fazendo e prestar-nos contas disso. É para isso que ela foi inventada nas democracias. E ha nesse caso, é verdade também, o fato de Obama ter feito críticas aos abusos em torno do Patriot Act em suas campanhas eleitorais e a obrigação que a ética protestante sente de reagir diante de um flagrante de mentira.

Mas o que definitivamente não ha nele é novidade ou surpresa. Nem mesmo as pessoas menos informadas do mundo que já tenham assistido a algum seriado básico de televisão estão alheias ao fato de que esse tipo de monitoração é feito e, mais que isso, tem de ser feito no mundo em que vivemos, ainda que ninguém goste do que está acontecendo.

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Até aí, portanto, estou como a proverbial “torcida do Corinthians” diante da “novidade“…

A discussão que deveria estar havendo é outra.

O que realmente me choca é ver esse escândalo todo vociferado pelos mesmos jornais que, embora estando entre as maiores vítimas não só da vigilância ilegal, ilegítima e movida por interesses vis que grupos privados praticam, sem ordem judicial ou lei alguma a ampará-los, contra todo e qualquer cidadão do mundo vivo hoje para trocar seus segredos e o “log” das suas preferências, deambulações e hábitos por dinheiro, mantêm um silêncio cúmplice sobre essa prática generalizada dos mesmos meliantes que são também os autores do roubo sistemático de qualquer peça escrita, gravada ou filmada alguma vez transformada em bits, especialmente as informações apuradas a um custo altíssimo por jornalistas profissionais.

E se ha uma ameaça séria à democracia é essa. Pois eles fazem isso de modo tão agressivo, desonesto e implacável que estão matando a profissão que sustenta um elemento constitutivo dos sistemas representativos democráticos de governo que morrerão com ele se o jornalismo profissional morrer.

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O resumo, enfim, é que se houve tempo em que o famigerado “complexo industrial-militar” é que inventava as práticas sujas e as armas que, mais adiante, teriam a sua versão civil e viriam a mudar os costumes do mundo e as práticas de negócios, agora a equação se inverteu.

São as grandes corporações privadas, infinitamente mais poderosas e com infinitamente mais tentáculos estendidos sobre todo o planeta que os pobres governos nacionais (aí incluido o dos EUA), que inventam as armas e os golpes baixos que o “complexo industrial-militar” eventualmente assimilará para levar adiante suas ações que, diga-se de passagem, têm cada vez mais semelhança com ações policiais focadas e restritas do que com as antigas ações de guerra.

A guerra sem regras nem fronteiras e as violências contra os direitos civis são os açambarcadores gigantes, especialmente os concentrados na operação das grandes ferramentas globais de comunicação, que levam a cabo.

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A covardia moral humana, entretanto, ao contrário do que se afirma, é mais forte até que o instinto de sobrevivência pois, diante da clareza dos fatos prevalece o critério do milênio passado de apedrejar a “CIA” da vez, o que para os dinossauros da imprensa continua parecendo bonito e heroico, mas não os novos tubarões travestidos de heróis da “liberdade na rede” que não passam dos mesmos oportunistas insaciáveis famintos de poder de sempre que estão por trás de todas as grandes tragédias da história da humanidade.

A estes é dado, livremente, gravar as suas conversas, as suas movimentações, as suas gravações, as suas fotos, os seus filmes, e até os seus batimentos cardíacos e as alterações na sua respiração diante dos estímulos subliminares com que eles o provocam para saber mais sobre você do que você mesmo sabe e vender essas informações a quem interessar possa, à sua revelia.

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Tudo isso lhes é franqueado sem que quase ninguém na old mídia os chame pelo nome que descreve o métier a que se dedicam, que junto com a prostituição está entre os mais antigos do mundo, por medo de parecerem menos “modernos” do que a maioria.

Enfim, nada de novo sob o sol, como sempre.

O que estamos assistindo é só a mais uma das vésperas das grandes tragédias que assolam a nossa espécie de tempos em tempos, e à onda de covardia coletiva que costuma antecedê-las, idêntica à que foi magistralmente descrita na peça O Rinoceronte, de Ionesco, sobre a cidade em que, um por um, os habitantes se vão metamorfoseando em rinocerontes sem que ninguém, menos um solitário cidadão, admita o que está acontecendo ou faça nada para preservar seu senso crítico e, com ele, a sua condição humana, por medo de destoar do discurso prevalecente na manada.

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