Aguinaldinho e “O Fim da História”
6 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário
“O Fim da História“, reza a teoria, seria definido pelo fim dos conflitos entre diferentes visões de mundo como motores das mudanças nas sociedades humanas. Seria o momento em que a humanidade, convergindo passo a passo para o equilíbrio, chegaria finalmente ao consenso em torno de um mesmo modelo.
O primeiro a sonhar com isso foi Hegel (1770-1831) o filósofo alemão que, lá nos albores do século 19, enxergava num ainda indiscernível “fim do túnel” a ascensão do liberalismo e um padrão jurídico universal garantindo os direitos de todos os homens.
No final do século 20 a ideia é retomada por Francis Fukuyama que vê a História “terminar” com o “triunfo do capitalismo e da democracia burguesa” após as derrotas do fascismo e do socialismo, esta última assinalada pela Queda do Muro de Berlim, em 1989.
Palavras. Nada mais que palavras…
Os fatos provariam que foi tudo um sonho.
Era o nosso PT – quem diria! – que estava destinado a fazer do sonho realidade.
Às cinco horas da tarde deste 6 de fevereiro do ano da graça de 2012, quando a puro-sangue marxista, ex-guerrilheira e atual presidente da Republica, Dilma Roussef, deu posse no Ministério das Cidades ao puro-sangue oligarca, formado na mais ortodoxa tradição do coronelismo latifundiário do Nordeste, Aguinaldo Ribeiro, foi superada a última etapa dos conflitos ideológicos que conflagraram o nosso passado.
O acontecimento está tão carregado de simbolismo que pode-se seguramente afirmar que, com ele, chega ao seu destino final a longa marcha de Luís Ignácio Lula da Silva à frente do PT em prol do congraçamento de todas as forças políticas da Nação em torno do ideal universalista do enriquecimento rápido.
Mais uma vez o Brasil poderá oferecer uma lição ao mundo dando-lhe a conhecer a sua fórmula para a superação de preconceitos passadistas.
O Fim da História, afinal!
E, no entanto, tal como a Queda do Muro, quem haveria de prevê-lo?
As diferenças que, de parte a parte, tiveram de ser superadas eram até ontem tão profundas que, historicamente e dos dois lados, cobraram seu preço em sangue.
Dilma em pessoa pegou em armas para combater tudo o que o seu hoje correligionário e ministro representa. E se não temos, ainda, notícia de crimes de sangue diretamente atribuíveis a “Aguinaldinho”, como é carinhosamente chamado pelos radialistas que emprega, seu avô, incansável combatente na defesa das prerrogativas dos coronéis do Nordeste, cujo nome o seu homenageia, celebrizou-se pela autoria de pelo menos dois.
Foi o velho Aguinaldo Veloso Borges quem mandou matar João Pedro Teixeira, fundador da primeira Liga Camponesa da Paraíba numa emboscada em 1962 e, 23 anos mais tarde, em 1985, também a líder sindicalista Margarida Maria Alves, abatida dentro de sua casa com um tiro de 12 no rosto enquanto carregava o neto no colo.
A grandeza do gesto de desprendimento e conciliação da presidente da Republica e de seu padrinho na superação dessas memórias dolorosas pode ser bem aquilatada por suas iniciativas ainda recentes para garantir que as circunstâncias das mortes desses dois mártires das lutas populares jamais fossem esquecidas.
Entre os primeiros atos do presidente Lula, assim que subiu ao poder, esteve o de mandar editar o livro “Direito à Memória e à Verdade” onde se conta a saga de João Pedro Teixeira, o “Cabra Marcado para Morrer” do premiadíssimo documentário de Eduardo Coutinho.
Já a presidente Dilma tomou idêntica providência mandando, faz poucos meses ainda, reeditar o livro “Retrato da Repressão Política no Campo” para celebrar o martírio da ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande (PB), episódio que inspirou a “Marcha das Margaridas” que ha 26 anos ininterruptos reúne anualmente em Brasília trabalhadores rurais vindos em romaria do país inteiro, recentemente saudados pela presidente em pessoa.
“Aguinaldinho”, até onde se sabe, não mandou matar ninguém, é verdade. Mas seria injusto afirmar que é isenta de renuncia e sacrifício a sua decisão de congraçar-se, afinal, com o Partido dos Trabalhadores.
A biografia de “Aguinaldinho” é um testemunho vivo de sua abnegada dedicação ao espírito de clã e às práticas ancestrais das famílias ricas que têm trabalhado a política em regime de mutirão nos estados do Nordeste brasileiro.
Entregou-se às durezas da militância eleitoral desde a pós adolescência nas campanhas para a deputança federal e para a prefeitura de Campina Grande do pai, Enivaldo. Cavou pessoalmente junto à autoridade concedente, pelo menos um par de emissoras de rádio registradas em nome de fidelíssimos pajens, mas postas imediatamente a serviço da causa.
Eleito, reeleito e treseleito com o recurso a tais ferramentas, esteve sempre a serviço da irmã, que fez deputada estadual, e da mãe, prefeita também do município de Pilar, a 65 km de João Pessoa, reforçando os bons propósitos de ambas para com o povo da Paraíba com verbas federais destinadas aos seus respectivos currais eleitorais sempre no momento mais oportuno.
Fez ainda por merecer a liderança da bancada do partido criado pelo patriota Paulo Maluf no Congresso Nacional, destacando-se entre os tantos que se deram as mãos para ajudar o PT a construir este país. E quando, finalmente, o dever o chamou para voos mais altos, entendeu imediatamente quão pequenos eram os sacrifícios implícitos.
“O Brasil e o mundo mudaram. A dicotomia esquerda direita está superada“, assinalou o estadista de Campina Grande.
Não resta a menor dúvida.
O PT criou o Ministério das Cidades na campanha de Lula em 2002, “para mostrar ao Brasil o jeito PT de governar“.
Aí está ele.
Como foi que a Dilma comemorou a Queda do Muro?
10 de novembro de 2009 § 1 comentário
O Brasil, junto com o mundo, passou as ultimas duas semanas vendo e revendo as cenas da construção, dos sofrimentos dos aprisionados, dos que conseguiram e dos que não conseguiram atravessá-lo e, finalmente, da queda do Muro de Berlim.
Mas, por incrivel que pareça, em plena campanha eleitoral, nenhum jornal, nenhuma televisão se lembrou de perguntar à Dilma ou a qualquer outro dos nossos presidenciáveis, como foi que ela “comemorou” a queda do Muro.
Ouvi dezenas de depoimentos emocionados de metade da “torcida do Corinthians” contando na TV como viveu aquele momento decisivo da História. Mas ninguem que realmente interessasse especialmente ao Brasil.
E, no entanto, não é que nossa possivel futura presidente fosse indiferente a isso. Não! Ela era uma militante da política tão apaixonada por suas ideias que pegou em armas para incuti-las nos outros.
A pauta esquecida por todas as redações do Brasil é, portanto, uma pauta que, nos meus tempos de redação, seria classificada entre aquelas que, como dizia Nelson Rodrigues, “clamam aos céus”, de tão óbvias.
Mas ninguem se lembrou dela…
De que lado estava a nossa possivel futura presidente? Dos que fuzilavam ou dos que eram fuzilados? Dos que erguiam muros ou dos que tentavam atravessá-lo? Dos personagens fardados ou dos paisanos dos filmes que você viu na TV? Dos que atiçavam os cães ou dos que eram mordidos por eles?
A Dilma mudou? E como sua consciência lida com esse fato hoje? Que reação tem a senhora de hoje quando revê as cenas dos adolescentes fuzilados tentando atravessar O Muro e se lembra de como a jovem militante de outros tempo as via ao vivo?
Pois é. Ainda tem muito muro de pé nas cabeças brasileiras…










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