Churchill nos EUA – 1941

13 de dezembro de 2020 § 15 Comentários

Em 7 de dezembro de 1941 os japoneses atacam Pearl Harbor e os Estados Unidos finalmente declaram guerra às potências do Eixo. Para Winston Churchill e a Inglaterra, que vinham havia dois anos aguentando a guerra na Europa praticamente sozinhos, era a salvação, afinal. Churchill embarca então no encouraçado  Prince of Wales e cruza um Atlântico super patrulhado pelos submarinos de Hitler para reunir-se pessoalmente com Roosevelt.

Em 26 de dezembro é recebido no Capitólio na terceira reunião conjunta da história da Câmara e do Senado americanos:

Churchill começou seu discurso com uma piada: “Não posso deixar de refletir que, se meu pai fosse americano e minha mãe britânica, em vez do contrário, eu poderia ter chegado aqui por conta própria”. Houve risos e uma ovação imediata, mesmo de isolacionistas. “Eu sou filho da Câmara dos Comuns”, continuou ele. “Fui criado na casa de meu pai para acreditar na democracia. ‘Confie no povo’ — era sua mensagem. Eu costumava vê-lo ser aplaudido em comícios e nas ruas por multidões de trabalhadores nos tempos vitorianos aristocráticos, quando, como disse Disraeli, o mundo era para os poucos, e para os muito poucos. Portanto, durante toda a minha vida estive em plena harmonia com as marés que avançaram nos dois lados do Atlântico contra o privilégio e o monopólio, e me conduzi com confiança para o ideal de Gettysburg de ‘governo do povo, pelo povo, para o povo’ […]. Em meu país, como no de vocês, os homens públicos têm orgulho de ser servos do Estado e teriam vergonha de ser seus senhores”.

O trecho foi retirado do livro:

O último a derrotar a máquina

3 de junho de 2013 § 6 Comentários

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É provável que Steve Jobs venha a ser, para a História, o marco da última grande vitória do homem sobre a máquina.

Mesmo com o implacável império do recondicionamento algoritmizado das criações alheias em pleno funcionamento e tendo-o o Google anos antes de sua morte como o principal foco da sua ação predatória, foi a força do seu gênio que, até o seu ultimo dia na Terra, seguiu transformando e retransformando a paisagem cultural humana dando dribles desconcertantes no território do previsível onde a matemática e o Google reinam incontestáveis.

Depois dele, com a acumulação de informações sobre cada pequeno ato do nosso cotidiano municiando a formulação de algoritmos cada vez mais complexos e exatos combinada com a sistemática sanção econômica imposta a quem resistir às novas técnicas “colaborativas” de produção e “criação” em todos os campos de especialização, o indivíduo, pelo menos enquanto agente econômico, estará morto.

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Já não é possível produzir e vender de forma sustentável nem música, nem informação, nem aplicativos (e o que mais se quiser lembrar de incluir nessa infindável lista), senão por meio de um dos dois gigantes do hiper-processamento, a Apple ou o Google, assim como se vai tornando inviável vender qualquer bem físico por fora dos canais da terceira fera detentora dessa capacidade, a Amazon.

Ha erzats desses leviatãs reproduzidos aqui e ali onde o Estado Nacional ainda consegue manter porteiras semi-cerradas, mas não por muito tempo.

E a cada minuto que passa, mais bilhões entram no caixa dessas baleias e mais profundo e intransponível se torna o fosso entre elas e quem possa vir a aventurar-se a sair das profundezas para tentar desafia-las.

ste4Nos próximos semestres, o Google terá tragado também a Apple cuja força estava concentrada na capacidade de criação e invenção de seu falecido dono e não na especialização em espionar e medir comportamentos humanos além de roubar invenções e conteúdos alheios e anaboliza-los sobrehumanamente com algoritmos de modo a açambarcar mercados e amealhar uma quantidade inenfrentável de trilhões.

Esta capacidade, a partir de um limite, opera uma mudança decisiva: mata, por inútil, qualquer veleidade de resistência do roubado, transformando todo e qualquer criador ou inovador em qualquer área de especialização e onde quer que esteja, ainda na casca ou já fora do ovo, no máximo num futuro empregado do gigante que passa a trabalhar desde o início na expectativa de entregar-lhe o que vier a criar contra uma quantia que, quanto mais solitário no mercado estiver esse comprador já quase único, menor tende a ser.

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É o momento em que o fenômeno deixa de ser visto como uma violência para transformar-se em uma nova cultura pacificamente assimilada, como na Idade Média, para lembrarmos apenas do período mais recente em que tal cultura foi dominante.

Esta semana a imprensa especializada noticiava que o Google já ultrapassou o limite que praticamente “condena-o” a transformar-se na plataforma única de venda de aplicativos – o novo nome dos meios de produção – uma das invenções que fez da Apple de Steve Jobs o gigante que foi um dia.

Quase no mesmo dia a Apple anunciou o download do quinquagésimo bilionésimo aplicativo vendido para o seu sistema iOS (iPhone, iPad e cia.) enquanto o Google anunciava a venda do quadragésimo oitavo bilionésimo programa produzido pelos anônimos do mundo e vendido na sua plataforma para os processadores do sistema Android.

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Mas o número importante é o que mede a virada da tendência. Embora a Apple ainda venda 850 mil aplicativos, muitos dos quais ainda não disponíveis para o sistema do concorrente, o Google já espalhou pelo mundo 900 milhões de aparelhos Adroid enquanto a Apple tem só 600 milhões de máquinas iOS em circulção. E isto põe as vendas de aplicativos do Google na conta de 2,5 bilhões de unidades por mês contra apenas 2 bilhões de downloads por mês da Apple.

O resto é apenas questão de tempo, portanto.

Como que a selar o epitáfio, Tim Cook, o sucessor de Steve Jobs na Apple, participando na semana passada da conferência anual do AllThingsD, publicação líder do setor de tecnologia, embananou-se todo para mostrar quais as novidades em gestação na antiga usina de criação de Cupertino.

A fonte secou…

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Já os algoritmos, a ferramenta matemática que deu vida ao Google, são cada vez mais onipresentes e vão tornando a mão de obra humana cada vez mais obsoleta, dispensável e googledependente.

Cito trechos de artigo recente de Sergio Augusto para o Estadão:

É por meio de algoritmos que os sites de busca na internet hierarquizam suas informações, as locadoras online estimam quais os gêneros de filme de nossa preferência, as livrarias virtuais selecionam os lançamentos e as rádios digitais preparam suas programações.

Sem algoritmos, o Google, a Netflix, a Amazon e a Pandora Radio seriam inviáveis, as campanhas políticas e publicitárias se transformariam em meros chutes sem nenhuma base.

Já existe arte criada a partir de algoritmos.

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‘Daqui a 15 anos, 90% dos textos da imprensa serão escritos por computadores (sem intervenção humana)’, prevê Kristian Hammond, fundador da Narrative Science.

Reportagem de Brook Barnes, publicada no New York Times mostra a crescente utilização de dados estatísticos na confecção de roteiros e scripts de cinema”.

Nos bancos, nos fundos de investimentos e nas bolsas de valores, não são mais operadores que compram e vendem ações, são computadores armados de algoritmos que decidem para que lado vai virar a economia global. E nem os médicos podem mais nada sem o recurso a essas fórmulas matemáticas até certo ponto elas também auto engendradas e às máquinas que fazem melhor que eles o que eles antes faziam por nossa saúde.

Do que sobrou, no mundo das manufaturas, de peças de automóveis a órgãos humanos, as impressoras em 3D movidas a algoritmos se encarregarão.

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O que foi dito até aqui, cabe lembrar, não é uma visão de futuro, é nada mais que uma descrição do presente.

É daí que tiro as previsões que se seguem:

Nesse novo “socialismo colaborativo” animado e fiscalizado pela matemática, pelas super-memórias e pela hiper-capacidade de processamento a originalidade de origem humana será sancionada primeiro economicamente, o que já será suficiente para praticamente varre-la da face da Terra enquanto o bezerro de ouro seguir sendo o único deus idolatrado pela nossa espécie.

Mais adiante é provável que venha a ser perseguida também pela polícia pois, como tudo se dará em processos despersonalizados a autoria, primeiro, e a mera diferença, depois, começarão a ser tratadas como crime posto que, não havendo autores nem proprietários tudo desaguará, como no socialismo arcaico que conhecemos no século 20, numa ultra-centralização como esta que já se vem ensaiando no Google, no que diz respeito aos meios de produção (tecnologias da informação). E essas entidades hiper centralizadoras odeiam a diferença.

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O rei de quem todos serão dependentes poderá, então, não apenas cobrar o imposto que quiser para por em circulação as criações alheias como também determinar – e aos seus barões contemplados com os monopólios em que já se vão consolidando cada setor de produção de insumos para os demais setores – que as criações dos seus desafetos não circulem nunca.

É um cenário sinistro, eu concordo. Mas duas coisas me impedem de ser mais otimista: primeiro porque é principalmente em economia que o meio inevitavelmente se transforma “na mensagem”; segundo porque a relação da humanidade com o poder nunca a levou numa direção diferente da prevista acima.

O consolo é que “haverá sempre moicanos” e a imaginação humana para inventar meios de atalhar e moer O Poder também sempre se mostrou inesgotável.

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Agora sim, estamos falando sério!

13 de dezembro de 2012 § 2 Comentários

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Deu no Valor: o Ministério Público Federal entrou na Justiça contra o BNDES por “falta de transparência em suas operações”, exigindo que o banco torne públicas informações detalhadas sobre todos os financiamentos concedidos a empresas e entidades públicas nos últimos 10 anos e de agora em diante.

O MPF pede detalhes desses negócios tais como a forma e a condição da captação dos recursos, os critérios para definir onde o dinheiro é investido, o risco das operações, prazos, taxas de juros cobradas, garantias exigidas e o retorno obtido”.

De dois anos para cá, esgotada a munição própria nos primeiros 10 anos dessa guerra subterrânea, conforme mostrei com detalhe na matéria A “bola” está rolando de novo, o BNDES está repassando dinheiro do Tesouro Nacional a juros subsidiados para empresas e outras instituições privadas.

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Mais de 54% do total emprestado nesse período veio de aportes do Tesouro que já representam mais de 20% da dívida pública líquida e 63,5% desse dinheiro foi entregue a umas poucas empresas-gigantes que têm todas as condições de se financiar nos mercados nacional e internacional.

Mas apesar de se tratar de uma empresa pública que distribui dinheiro público – e, nos últimos dois anos, tirado diretamente do caixa onde os contribuintes depositam os impostos que fazem falta na saúde, na educação e na infraestrutura – o BNDES não divulga informações sobre “seus investimentos” alegando que “estão protegidas pelo sigilo bancário”!!

A Procuradoria da República do Distrito Federal não aceita essa desculpa, acusa o banco de estar descumprindo a Lei de Acesso à Informação e quer dados concretos “para avaliar se os financiamentos a empresas privadas são de interesse social ou relevantes para o desenvolvimento da economia nacional”.

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Agora sim estamos falando sério!

Que Mensalão, que Rosemary que nada!

Mesmo as estripulias e saltos ornamentais do doutor Mântega dizem respeito apenas às operações táticas do PT para colocar índices em posições favoráveis nas vésperas de eleição.

As operações estratégicas que realmente alteram o meio ambiente em que a democracia brasileira tenta sobreviver estão a cargo dos operadores do BNDES, dos fundos de pensão do funcionalismo e dos operadores dos supercomputadores da Receita Federal.

É essa a tropa de elite. É aí que está o “núcleo duro” do PT.  É aí que se jogam as grandes cartadas do vasto movimento de subversão argentária com que o partido pensa construir o seu Reich de Mil Anos.

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São eles que, dos bastidores, determinam quem vai viver e quem vai morrer na arena da economia brasileira. Quem vai comprar e quem vai ser comprado em cada setor de produção.

É aí que se decide se teremos mesmo um ambiente “pró-mercado” com oportunidades iguais para todos, expressão que dona Dilma tem gostado de usar ultimamente, ou se viveremos todos ajoelhados e de mãos estendidas para uma pequena constelação de monopólios girando em torno do sol do BNDES e das mega estatais de petróleo, telecomunicações e energia, neste momento entrando no mesmo processo de encurralamento pelo qual já passou toda a indústria de base que hoje se senta à mesa do governo no seu Conselho de Gestão.

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Um campeão da cara-de-pau

30 de junho de 2011 § 3 Comentários

Bateu todos os recordes da cara-de-pau o dr. Abílio Diniz na sua aparição de ontem nos jornais das TVs para “explicar” a sua tentativa de comprar o Carrefour com o vosso e o meu dinheiro como “mais uma das suas contribuições para o nosso país”.

A indignação com que escrevi o primeiro artigo sobre essa tramóia explica-se pelo fato de que se tornou imediatamente claro para mim o jogo de cartas marcadas que agora tratam de nos empurrar pela goela.

As declarações ao Jornal Nacional aqui reproduzidas são definitivas.

Primeiro porque barões não se manifestam antes do nihil obstat do rei. E o dr. Abílio, que entra nessa jogada só com o corpinho, só poderia mandar a “sua oferta” depois que tivesse garantido o dinheiro do BNDES. Ele deve ter acessos de riso toda vez que roda o vídeo dessa entrevista no trecho em que diz que, ao presentea-lo com R$ 4 bilhões, “o BNDES fez um ótimo negócio e prestou um serviço aos consumidores, à sociedade e a todos os brasileiros“.

Segundo porque, como já tinha intuído, também o destino do contrato entre o Pão de Açúcar e o Grupo Casino, concorrente do Carrefour, em direção à lata de lixo dos achegos da Justiça brasileira, ganha ainda mais impulso com o ultimato velado que este homem pouco dado a improvisos atirou ao seu antigo sócio em rede nacional: “espero que o Casino analise a proposta com atenção, com cuidado (grifo meu) e sem emoção porque poderá até gostar dela”...

Por enquanto o Casino não parece disposto a entrar no jogo, já que, em dois dias, comprou na bolsa mais 6% do Pão de Açúcar para fortalecer seu poder de fogo nesse tiroteio. Mas pela segurança demonstrada pelo novo sócio de Lula, é provável que ele vá ter de escolher entre os males o menor…

A menção à “completa desnacionalização do sistema de abastecimento brasileiro”, aliás, remete ao direito que o dr. Abílio vendeu ao Grupo Casino em 2006, de se tornar sócio majoritário do Pão de Açúcar mediante  exercício de uma opção que vence agora em 2012.

Vendeu mas não pretende entregar.

Foi provavelmente essa a linha de argumentação com que ele começou o seu canto de sereia junto aos altos potentados financeiros do PT. Mas minha aposta é que não foi preciso insistir em temas ideológicos para leva-la mais adiante.

Se ainda tivesse sobrado qualquer sombra de dúvida – e conhecendo o elenco e o país onde se desenrola a farsa já não tinha – a obscena declaração do ministro Fernando Pimentel, que não precisou nem de 24 horas para pensar no assunto antes de afirmar que a concretização do negócio “abrirá uma porta importantíssima para a colocação de produtos brasileiros no exterior”, acrescentando que “a participação do BNDES no negócio tem unicamente essa função”, acabaria com ela.

É fato notório que o PT não entende nada de negócios (excluídos os escusos). Mas uma cretinice desse calibre não pode ser aceita como de boa fé nem na boca de um petista.

Enfim, é como eu digo sempre. Se Sherlock Holmes, por alguma razão, viesse acabar no Brasil, ficaria desempregado. Aqui não ha nada por descobrir. É tudo sexo explícito.

O outro lado: a tecnologia da informação contra a democracia

12 de abril de 2011 § Deixe um comentário

Enquete interessantíssima proposta hoje no site da Reuters (aqui) traz à memória um aspecto pouco lembrado da crise instalada pela mudança de paradigma tecnológico que, junto com o tsunami chinês, está levando à concentração da capacidade de produção em mãos cada vez menos numerosas e, com isso, à perda de força relativa do consumidor e do trabalhador como agentes do processo social, quadro que põe diretamente sob ameaça a democracia como a conhecemos hoje.

A Reuters registra que o iPhone e seus concorrentes cortaram mais uma cabeça ontem no universo dos fabricantes de produtos eletrônicos de consumo com o anuncio pela Cisco, que caminha para a falência, de que esta descontinuando a fabricação das pequenas filmadoras Flip, que fizeram grande sucesso ha dois anos.

A industria de filmadoras, assim como, antes dela a de máquinas fotográficas, vem sendo fortemente abalada desde que, com o lançamento do modelo 3GS, em junho de 2009, uma filmadora foi incorporada às funções do iPhone, apenas três meses depois que a Cisco anunciou a compra, por 590 milhões de dólares, da patente da Flip, uma mini-filmadora em alta definição desenhada pela Pure Digital Technologies, com uma tomada USB acoplada ao aparelho que permitia ao usuário gravar e “subir” seus filmes imediatamente para a web

Desde então o iPhone e seus concorrentes acoplaram inúmeras outras funcionalidades como GPS e outros, e seguem devastando industrias ao seu redor.

A enquete da Reuters está formulada assim.

Marque com um “X”:

Meu “smartphone” é tão inteligente que eu nunca mais precisei de:

  • Maquina fotográfica
  • Vídeo câmera
  • Aparelho para e-mails
  • GPS
  • Gravador de MP3
  • Leitor de livros eletrônicos
  • Vídeogame portátil
  • Cronometro para a minha cozinha
  • Companheiro de vida

O processo de crescente monopolização da produção nos mais diversos setores, com o consequente efeito de concentração de renda e redução de opções nos campos do consumo e do trabalho que são as dimensões sociais onde o cidadão realmente exerce a sua liberdade, não tem final à vista.

A democracia só desceu à base da pirâmide social quando os Estados Unidos, na virada do século 19 para o 20, inventaram a legislação antitruste que estabeleceu limites à concentração do poder econômico em nome da proteção do consumidor e do trabalhador.

Isto não é mais possível no mercado globalizado onde sistemas capitalistas democráticos enfrentam a concorrência predatória do capitalismo de Estado chinês que, como outros players no mercado global hoje, não obedece regras, respeita leis ou reconhece direitos.

O panorama, nesse aspecto, é sombrio.

A tecnologia da informação tem sido saudada como uma ferramenta de libertação, mas seu efeito no panorama macroeconômico é devastador no sentido contrário. Ela está contribuindo decisivamente para concentrar a produção e, indiretamente, para destruir o mercado, que é o habitat da democracia.

Resta esperar que aquilo que antes o Estado nacional podia impor pela lei, em matéria de disciplinamento dos impulsos mais egoístas do homem em nome da preservação da diversidade econômica, que é o outro nome da democracia, a vontade organizada de todos os consumidores do mundo possa impor aos grandes monopólios globais num futuro mais próximo que aquele que é possível vislumbrar hoje.

Por enquanto, não da para imaginar como chegaremos a isso.

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