Pensando o casamento real

29 de abril de 2011 § 2 Comentários

A grande marca distintiva da cultura inglesa, onde ela definitivamente se separa de nós, mediterrâneos, é a recusa do absoluto.

Não sei bem de onde vem essa aversão mas vagamente intuo que a maior intimidade do ilhéu com o seu entorno limitado tem a ver com isso.

Por muito tempo, ser ilhéu de fato significou ter o seu viver balizado sempre pelas mesmas palpáveis referências. A proteção geográfica das culturas ilhadas contra a contaminação pelas modas, que não são mais que movimentos voluntários de suspensão do senso comum e da razão que desaguam na troca do seu gosto pessoal pelo do outro; na súbita rejeição da sua cultura em favor da alheia, foi inexpugnável por milênios.

Já os habitantes do lago mediterrâneo nos exercitamos desde sempre nessa prática. Atravessamos a História varejados por todo tipo de intercâmbio, permanentemente provocados a provar o avesso de nós mesmos, a assimilar o novo, a revogar o passado, a colocar em cheque modelo contra modelo, a refundar tudo que aprendemos, a desrespeitar nossas próprias referências.

Mas o que somos? De onde viemos? Para onde vamos?

As perguntas fundamentais são universais. Todos nós temos necessidade de imanência. Que sentido faz a vida se, de algum modo, não pudermos ser eternos?

O que varia são as respostas.

O ilhéu veio de seu pai, que veio do pai dele, que veio do seu pai. E continuará pelo seu filho e este pelo filho dele ali mesmo, onde todos eles viveram e haverão de se criar e morrer.

E isso basta.

Fomos todos assim, um dia. Mas nós, os desenraizados, os deambulantes, os multiculturais, diluímos a nossa circunstância. E tivemos de ir procurar o que somos para além dela.

Foi por essa porta que entramos no território nebuloso das “essências” e das abstrações, onde tudo são sombras enganosas. E pelos caminhos dos artifícios da lógica, que tão pouco parentesco têm com a vida real, caímos diretamente na armadilha dos absolutos, onde não ha meios tons.

Evolução. Revolução.

Entre nós o novo revoga o velho. O atual substitui o anterior. Nada dura o suficiente para se consolidar. Somos eternamente imaturos. Entre eles um coabita com o outro, o novo obrigando o velho a se reformular; o velho obrigando o novo a moderar o seu voluntarismo imaturo.

As instituições inglesas surgem em função de necessidades práticas. Uma nova realidade se apresenta? OK. Ha que lidar com ela. Mas o que já estava aí continua lá.

Ao longo da História, essas instituições vão se justapondo. Convivem umas com as outras completando-se mutuamente. Que importam as redundâncias? O que abunda não faz falta.

Eventualmente acabam por se fundir, quase sempre pelo esgotamento natural da serventia de uma delas. Mas não se dinamitam as pontes; não se queimam os navios. Sempre é possível voltar atrás se o caminho à frente se fechar, como quase sempre acontece.

As nossas frequentemente surgem do nada apenas para responder a novas modas intelectuais. Basta uma formulação abstrata engenhosa e revogamos tudo que a História sedimentou. Atiramo-nos aos “recomeços”; às “novas auroras para a humanidade”; à miragem de uma vida precisa como a navegação (como se viver fosse preciso). Fechamos o caminho de volta. Cortamos o fio da meada.

Temos vivido saltando de utopia em utopia, queimando as pontes e os navios. Eles, passo a passo na sua ilha de sempre.

A História é a psicanálise das sociedades. Como definir o que queremos ser sem antes entender como nos tornamos o que somos?

Os ingleses fazem a sua com serenidade madura. No sistema da Common Law a História é a porta obrigatória de acesso ao Direito. O exercício de escrutinar o passado é obrigatório e permanente para todos.

Não há “revelações”. Não ha certezas nem erros absolutos. A lei dispensa tudo isso. A lei é a tradição e a tradição é a lei. A lei é o que tem sido lei em cada lugar particular. E isso basta para tornar a convivência civilizada.

Os fatos passados, devidamente relatados e registrados por quem estava lá (as testemunhas e o juri) segundo um rito estabelecido para garantir o máximo de precisão, são a base do direito presente. Assim, cada episódio digno de registro da história inglesa tem de ser reexaminado e reavaliado em detalhe a cada novo julgamento, século após século, até que a sua veracidade e o peso das consequências que produziu para cada parte envolvida sejam reconfirmados além de qualquer dúvida razoável. Disso sai a sentença, obrigatoriamente igual à de sempre para as faltas de sempre.

A Historia da Inglaterra está viva e é a essência que anima as suas instituições.

Para nós a Historia é versão. Um instrumento do jogo do poder. Aquilo que o vencedor obriga as escolas a embutir na cabeça das crianças daí por diante. Move-se para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, ao sabor da luta pelo poder. (“No Brasil nem o passado é estavel”, dizia um de nossos intérpretes). Nada, senão vagos pruridos morais das academias exige, quanto ao registro oficial dela, qualquer nivel de precisão ou compromisso de correspondência fiel aos fatos.

Perdido o fio da meada, restaram-nos as soluções mágicas e as “revelações” para explicar como nos tornamos aquilo que somos e para sustentar, em cada dado momento, aquilo que o governante da hora queira que seja “o direito”.

A Inglaterra, onde não por acaso nasceu a ciência moderna pelas mãos de dois homens dispensados de queimar neurônios com a aridez das discussões abstratas – Isaac Newton e Charles Darwin, cujos restos repousam sob o piso daquela mesma abadia – afluiu em massa hoje a Westminster para reconfirmar o seu pacto com os fatos e com a História, e para reafirmar o direito de cada um de reservar só para si o que está para além deles e a observação empírica não pode confirmar.

A realeza, a instituição do passado que convive e modera as do presente, dá a cada inglês, sobretudo nesta era onde todo ser humano se sente descartável, a sensação de ser parte de algo maior do que ele próprio e funciona como o fio condutor que lhe permite reencontrar-se com suas origens e vislumbrar sua posteridade como algo mais que o mergulho no nada.

Aquele príncipe, filho daquele futuro rei, filho daquela rainha, que se casaram todos nessa mesma abadia e saíram dela naquela mesma carruagem, assim como seus filhos e os filhos deles que vinham na carruagem de traz e amanhã estarão na da frente, fazem com que aquele “eu” de todo inglês anônimo filho de seu pai que, por sua vez, era filho de seu pai, se transforme num “nós” integrados numa mesma História que, graças a esses rituais de todos tão familiares, reúnem a força que os tornou capazes de enfrentar cantando as bombas de Hitler, conforme foi lembrado hoje, naquele mesmo palácio de sempre, quando um velho B-52, escoltado por dois Spitfire, abriu a homenagem da mesma Royal Air Force que derrotou a Lufwaffe na Batalha da Inglaterra ao futuro rei piloto que acabara de se casar.

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