Seja um filho da puta que o governo garante

19 de setembro de 2012 § 2 Comentários

A democracia foi inventada para opor o Estado ao Capital e dar uma chance aos peixes. Porque quando esses dois tubarões se unem, todo o resto é só comida. O problema é que a soma da China com a internet está empurrando o mundo inteiro para essa receita, nossa velha conhecida.

A Petrobrás já perdeu mais de metade do valor que já teve no mercado internacional desde o início do governo Lula, apesar de ter anunciado, nesse mesmo período, nada menos que 63 descobertas de petróleo no pré-sal em volumes que, afirmam os petistas, porão o Brasil em pé de igualdade com os países árabes em matéria de petróleo.

Nessa pequena charada encerra-se a chave para o entendimento do velho dilema brasileiro que explica porque, para quem olha para um pouco adiante da ponta do próprio nariz – categoria dentro da qual estão também os investidores internacionais de longo prazo – os números brilhantes que os governos petistas não se cansam de alardear não provocam júbilo nenhum mas, ao contrário, assustam e afugentam.

Esta tarde mesmo, leio num site de notícias econômicas, as ações da Petrobras caíam outros 3  a 4% “em função de declarações de Maria das Graças Foster de que não há prazo a vista para o início da correção dos preços dos combustíveis“, defasados em mais de 50% nesta véspera de eleição.

O movimento “inverteu a tendência anterior de alta puxada pelos mercados internacionais que reagiam à última medição de desempenho do mercado imobiliário dos Estados Unidos“.

Declarações políticas de um lado, medições de desempenho do outro.

Este é o “X” da questão.

Na semana anterior, as ações das elétricas perderam, em um só dia, R$ 14,5 bilhões em valor depois que a presidente Dilma anunciou, ao iniciar sua participação direta na campanha de Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo, que haverá grandes reduções nas contas de eletricidade dos consumidores industriais e residenciais.

Obviamente, quando alguém perde R$ 14,5 bilhões numa tarde na Bolsa, outro alguém ganha esse mesmo valor. E se o que determina saltos dessa grandeza são declarações de políticos é de todo provável que pessoas do entorno de quem as vai dar fiquem sabendo antes o que vai acontecer.

Quanto vale a informação que pode render R$ 14,5 bi numa única tarde? Impossível resistir…

Mas esta é só a pequena corrupção que se torna inevitável num sistema sujeito a esse tipo de interferência.

Para o investidor o pior é a instabilidade que o ativismo do governo acaba gerando” diz Mauro Rodrigues da Cunha, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais. “É difícil imaginar hoje um setor que não esteja sujeito a essa falta de previsibilidade“.

Somente na semana passada mais de 100 tarifas de importação foram aumentadas, na sequência de uma série de anúncios semelhantes feitos nas semanas anteriores. Cada uma dessas movimentações determinou enormes perdas para quem acreditou na regra anterior e possíveis ganhos para quem estava na outra ponta sem que o mérito ou qualquer outra coisa de concreto tivesse a menor interferência no processo.

Hoje a Bolsa de Valores de São Paulo, que vinha financiando a produção no Brasil com dinheiro barato depois das reformas dos anos 90, está reduzida a isso: um espelho da grande loteria das decisões do dia do governante de plantão em que se vai transformndo a luta para ganhar o pão de cada dia neste país.

E isso reconfirma todos os céticos que apostaram na esperteza e derruba, mais uma vez, todos os brasileiros que acreditaram que esforçar-se e fazer por merecer não é sempre um logro ao Sul do Equador.

Por todas as empresas, por todas as escolas, em todos os lares brasileiros essas notícias estão se desdobrando em duras realidades neste preciso momento: quem investiu no trabalho chora a “puxada no tapete”; quem investiu em cabalar as pessoas certas para que o seu produto entrasse na lista dos protegidos da semana festeja o “empurrãozinho” com os bolsos recheados.

Ora, se já éramos um dos países mais fechados do mundo, agora somos mais. E se podemos contar sempre com a proteção do governo contra a eficiência alheia, estudar pra quê? Gastar dinheiro com educação pra quê?

Uma coisa puxa a outra…

Sem investidores de longo prazo nas bolsas não ha dinheiro barato para financiar a produção nem mérito a determinar quem sobe ou desce a rampa. O governo tem, então, de entrar em cena para prover as aposentadorias que, no mundo, os fundos de ações que financiam a produção é que sustentam.

E aí, começa: para “os nossos“, contribuições parciais e aposentadorias integrais; para os demais, contribuições integrais e aposentadorias parciais. Com o tempo, fica assim: o funcionário público brasileiro, que paga um milésimo da conta, tem em média aposentadoria 36 vezes maior que o brasileiro comum que paga as 999 partes restantes. O troco é que cada um deles vira um agente eleitoral de quem lhe garante a mamata.

E a produção? Por um tempo, o BNDES segura. Mas só pros amigos. Os 28 fucking-mega-giga-power “empresários” do Conselho de Gestão da Presidência da República, pesando, por enquanto, 2/3 do PIB brasileiro, recebem a parte do leão e decidem quem entra e quem não entra para a próxima lista dos protegidos.

Em troca…

“Filtra de novo”:

O problema não é haver corrupção, defeito inerente à espécie humana“, dizia há mais de 100 anos um memorável presidente americano. “O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.

Seja um filho da puta que o governo garante“, repetem, ad aeternum, os atos dos nossos.

Como defender um sistema desses? Daqui a pouco, quando só restar memória viva dele, acaba-se com o fingimento e parte-se logo pra porrada, pondo o jogo todo por cima do pano.

Tá comigo? É tubarão. Não tá? É peixe. Metade da Europa já foi assim. Muito mais da metade do mundo ainda é…

A democracia foi inventada para opor o Estado ao Capital e dar uma chance aos peixes. Porque quando esses dois se unem, o resto todo é só comida.

É por aí que a coisa vai. E o pior é que a soma da China com a internet estão empurrando à força o mundo inteiro para essa receita.

E as mães das favelas, que dormem com esse barulho, que dêm tratos à imaginação para argumentar com seus filhos adolescentes que o melhor para eles é estudar (naquela sórdida escola pública) e não entrar para o tráfico.

O novo canto da velha sereia

5 de janeiro de 2010 § 2 Comentários

Está aí, passados 36 anos, o lance que Alain Peyrefitte previu em 1973: a China acordou … e o mundo tremeu.*

O lado bom dessa história é mais visível do Brasil que de qualquer outro lugar do mundo. Um quarto da humanidade mantida à força fora do século XX e levada à miséria extrema solta-se de repente e, sem lei e sem ordem,  salta para o século XXI faminta de commodities, em busca do tempo perdido…

Benza deus!

Abram os bolsos e fechem os olhos (para a pirataria institucionalizada e para a brutalidade do regime) porque esta é uma oportunidade única e, da China para dentro, o problema é dos chineses…

Será mesmo?

Não é o que Lula está enxergando. E se existe alguém que tem faro para os grandes eventos da meteorologia política, é ele.

O vôo da economia chinesa se dá, como alguém lembrou na imprensa esta semana, “num contexto de desastrosa perda de autoridade” da receita pregada pela grande democracia ocidental. A crise financeira, que promete mantê-los amarrados a crescimentos medíocres por não poucos anos, abalou fortemente a reputação de competência dos Estados Unidos. E os desastres  do Iraque e do Afeganistão, alem de não contribuírem em nada para reconstituí-la, apontam para o valor relativo da hegemonia militar no novo contexto que se anuncia.

O mundo já enfrentou o poder do capital, em conluio ou não com o poder do estado, e tambem o poder do estado totalitário incapaz de performance econômica. Mas a nova besta que a China soltou em campo mistura tirania com prosperidade. O capitalismo de estado, este híbrido que junta o pior de dois mundos, tira de cena os corolários ate aqui obrigatórios das tiranias – o atraso econômico e a pobreza – que, mais que todos os exércitos e todos os sonhos idealistas, as condenavam a uma duração limitada no tempo.

É uma perda terrível, essa do monopólio da afluência!

“…existe no coração humano um gosto depravado pela igualdade – dizia Tocqueville –  que leva os fracos a querer atrair os fortes ao seu nível e que reduz os homens a preferir a igualdade na servidão à desigualdade na liberdade”.

Sempre foi essa a força sedutora da tirania. Explorado por todos os tiranos para se instalar no poder, ironicamente foi tambem esse “gosto depravado”, com o sentido invertido, que acabou com as grandes ditaduras do século XX, quando elas ainda eram incapazes de produzir prosperidade. Mais que qualquer outra coisa era a vontade de possuir e de desfrutar, como os do outro lado, que atraia os olhares dos tiranizados para alem do Muro…

Agora, tudo empurra numa só direção. Quantos, como o Brasil, se deixarão seduzir pelo autoritarismo que põe dinheiro no seu bolso? E o capitalismo democrático, poderá sobreviver nesse ambiente?

Aquele “mercado”, força de sustentação e regulação do capitalismo democrático, é uma frágil construção jurídica. Um pacto entre pessoas. Baseia-se na subordinação de todos aos mesmos custos, às mesmas oportunidades e às mesmas regras do jogo. É um subproduto do estado de direito e do império da lei. Ultimo grau de refinamento do estado nacional, foi criado para funcionar em águas interiores.

Soçobrou na primeira onda do grande oceano sem lei da economia global.

Quando a revolução tecnológica derrubou as fronteiras nacionais e o capitalismo com limites, dos mercados com regras, passou a enfrentar o capitalismo sem limites das empresas-estados em mercados sem regras; quando a mão de obra do primeiro mundo passou a competir com a mão de obra quase escrava dos últimos  mundos, a primeira vitima foi a legislação antitruste que impunha a moderação dos apetites no capitalismo democrático.

Crescer ou morrer, o grito de alarme do primeiro momento de pânico, deu início à corrida de volta à lei da selva.

E o jogo mudou de natureza.  Sob a lei do mais forte, a escalada foi vertiginosa. Os cacifes, agora, já são de proporções nacionais. Ninguém pode banca-los sem o concurso do estado.

O que se vai desenhando é um mundo de poucos senhores e muitos servos, onde os reis de cada bloco, espontaneamente ou arrastados, anabolizam empresas com os BNDES e os TARPs da vida, criam um feudo em cada setor da economia grande o bastante para tragar todos os concorrentes à sua volta, e os distribui à sua corte de “empresários de relacionamentos”. E o resto dos mortais se torna, para tudo (do emprego ao consumo), dependente deles…

Não ha recuo suave dessa nova realidade da competição global sem limites. A volta às fronteiras nacionais instalaria uma guerra comercial de proporções catastróficas. Impossível mantê-la fria. Se for para seguir para frente, o mundo terá de caminhar junto daqui por diante.

Não parece ser o fim. Soa mais como um recomeço da História.

Seria o primeiro capítulo de uma nova História da Comunidade Humana que teria de partir da sopa ralíssima da presente média mundial de desenvolvimento político resultante da diluição, num caldeirão único, de todas as experiências nacionais vividas até aqui.

Por quanto tempo teríamos de fervê-lo até que esse caldo geral apurasse o suficiente para voltar a ter a consistência alcançada pelos povos que estão na vanguarda do desenvolvimento político nesta reta final da infância da humanidade? Eles consentirão num recuo? Terão condições de evitá-lo ?

Quem viver, verá…

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