“Cachoeira – O Retorno” e outras obviedades

10 de abril de 2012 § 1 comentário

Ponha-se de lado as lanchas de dona Ideli, que nos deixam outra vez às portas do gabinete presidencial.

Fiquemos só com o senhor Cachoeira, o avô do Mensalão que nos idos de 2004 iniciou, também na sala vizinha à do Presidente da Republica de então, a sua carreira de “estrela de TV” pelas mãos do mesmo “diretor” que filmou este “Cachoeira – O Retorno“, ora em exibição.

O que se pode concluir?

  • que entre Waldomiro e Demostenes o “corte” do suborno para ganhar favores e contratos do governo subiu quase 10 xs (de perto de 3% para perto de  30%);
  • que a liberdade para roubar impõe um outro patamar de competição onde só se tem chance roubando também;

  • que em função disso, nesta republiqueta petista e no seu entorno só se salva quem ainda não foi investigado, ou melhor, quem ainda não teve a sua cine-biografia distribuída em “circuito comercial”;
  • que entre o filme quente estrelando Waldomiro de Dirceu e este vintage 2009 onde Demostenes do DEM encabeça vasto elenco só o que mudou foi o aparelhamento da Polícia Federal e a cumplicidade da imprensa para com os seus explícitos desengavetamentos ad-hoc e customizados de personagens incômodos de um arquivo que mostra evidências de ser muito mais vasto que os relatoriozinhos de caderneta dos aprendizes da ditadura militar em torno dos quais os assalariados da UNE estão fazendo esse barulho todo;
  • que pelo menos na Terceira Divisão – onde hoje joga o DEM – em se denunciando, cai, o que confirma os benefícios da alternância no poder.

O corrupto essencial e o maria-vai-com-as-outras

12 de março de 2012 § 1 comentário

Tanto quanto no que diz respeito a outros atributos humanos, também no que se refere à corrupção existem os autênticos, os inovadores, os grandes criadores e os que são apenas seguidores, esforçados maria-vai-com-as-outras.

A distinção faz toda a diferença. Vai de estar submetida a uns ou aos outros uma sociedade ser vítima de predação sistêmica, podendo ser levada ao esgotamento, ou apenas de atos isolados de rapinagem que ela pode se organizar para coibir e controlar.

Primeiro porque os grandes criadores são muito menos numerosos que os “maria”. Segundo porque, se os primeiros não conseguem se estabelecer como padrão para o resto da sociedade, a corrupção dos outros permanece em estado de latência e eles podem até ser compelidos a comportar-se de modo virtuoso se for esse o caminho obrigatório para o sucesso.

O maria-vai-com-as-outras, em resumo, vai com quaisquer “outras”. Deixa-se pautar pela circunstância enquanto o corrupto “de raiz” em momento algum consegue deixar de ser o que é.

Daí a pertinência da síntese de autoria de Theodore Roosevelt tantas vezes citada aqui:

O problema não é haver corrupção. Corrupção é inerente à espécie humana. O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.

Veja-se, por exemplo, a reportagem que O Estado de S. Paulo traz hoje sobre o loteamento das tetazinhas de R$ 6 mil por mês nos conselhos das empresas do Município de São Paulo entre representantes de sete partidos que o prefeito Kassab acredita que possam vir a contribuir para o sucesso das suas ambições políticas.

Gilberto Kassab não tem nem a personalidade que se requer de um grande criador no campo da corrupção, nem a fibra que caracteriza o tipo que persiste em remar contra a maré para tentar reformar as regras do Sistema. É o exemplo perfeito e acabado da variação “maria”.

Como a esmagadora maioria dos que nos roubam e achacam a cada passo nos municípios e nos estados desde que o PT escancarou as portas do Inferno, ele faz parte daquela legião que não interessa especialmente, nem a deus, nem ao diabo.

Mas como o padrão instalado no Brasil é o que se traduz naqueles 36 ministérios/antros de Brasília, cada um de propriedade particular e intransferível de uma das máfias que, graças ao flagrante do Mensalão, tornaram-se parasitas crônicos da roubalheira lulo-petista, Gilberto Kassab apenas dança conforme a música. A mesma coisa acontece com os barões do BNDES, esses “grandes empreendedores” obcecados pelo “sucesso”, hoje reduzidos a dar testemunho público de vassalagem uma vez por mês sentando-se ritualmente à volta da mesa do “Conselho de Gestão” de um governo que tem como marca registrada a mais sólida e irredutível incapacidade de gestão.

Tudo isso é apenas natural.

Volto a bater em outra nota que sempre toco aqui no Vespeiro: a corrupção é muito menos uma questão moral que uma consequência de se viver sob instituições defeituosas.

A questão é puramente darwiniana. O vencedor será sempre o mais capacitado. E a crise ambiental que se vai tornando aguda está aí para comprovar que o homem é o mais oportunista dos organismos oportunistas que infestam o Planeta Terra.

Se o sistema baliza-se pela corrupção, os mais corruptos estarão no topo e, daí para baixo, haverá uma seleção dos maria-vai-com-as-outras segundo a sua disposição de se corromper. Quanto menos escrúpulos, mais para cima se colocará o “maria” nessa cadeia alimentar artificial que são os sistemas de poder, seja o poder que se compra com cargos, seja o que se compra com dinheiro.

Resistirão à pressão do meio apenas e tão somente os honestos “de raiz”, relegados a uma semi-clandestinidade.

Já se o sistema balizar-se pela capacitação técnica e profissional e pelo merecimento, a escola passará a ser um estágio obrigatório para o sucesso e os corruptos essenciais é que serão forçados a cair na clandestinidade, ficando polícia e bandidos em campos opostos, como convém.

É como com os cupins: se não matar a rainha-mãe, não adianta chorar. Eles continuarão roendo a árvore até depois que ela já estiver morta.

Roubalheira ou liberdade de imprensa: qual dos dois vai acabar primeiro?

3 de novembro de 2011 § 2 Comentários

Quando o resto da humanidade rouba é roubo. Quando a esquerda brasileira rouba é “erro”.

Essa regra nós já tínhamos aprendido com Lula desde os idos do Mensalão.

Mas até os dois, três primeiros ladrões exonerados por Dilma, a atitude da presidente justificou que se alimentasse a expectativa de que o “erro” que, Lula não deixava dúvidas, estava em se deixar flagrar no ato de roubar, passasse a designar o ato de roubar propriamente dito o que, nestes tempos de miséria moral em que vivemos, já representaria um auspicioso avanço na direção correta.

Mas a sistematização da regra de transformar as cerimônias de substituição do ladrão flagrado por outro membro da mesma organização que se beneficiava do roubo e em nome do qual ele era praticado numa sessão de “desagravo” e irrestrita solidariedade ao ladrão exonerado para a qual é invariavelmente convidada a claque dos mais translúcidos salafrários da crônica político-policial brasileira (uso a expressão no seu sentido rodrigueano) é suficientemente esclarecedora.

Não, nós não estamos superando a máxima que inspira aquela parcela precocemente envelhecida da juventude brasileira representada pela UNE e pelo PC do B que aspira, acima de tudo, ao emprego público.

Não, a presidente Dilma não está ensaiando uma requalificação mais “conservadora” do ato de surrupiar o que pertence aos outros como um recurso para ir, aos poucos, reeducando as novas gerações para o desconhecido mundo da ética na política e empurrando o país de volta ao menos ao temor dos 10 mandamentos de deus.

Dentro da perfeita definição de Theodore Roosevelt segundo a qual “o importante não é haver corrupção, mazela inerente à espécie humana; o importante é não permitir que o corrupto exiba o seu sucesso, o que é corrosivamente subversivo“, o governo Dilma continua entregue à subversão.

Age mais ou menos como a polícia carioca. “Mata” o traficante que ameaça o status quo abusando da própria exposição (ou, melhor dizendo, aposenta-o com todos os direitos e proventos paloccianamente multiplicados), mas não toca nas quadrilhas e nem, muito menos, na instituição do tráfico (no caso, de influência e dinheiros públicos) que é a galinha dos ovos de ouro que a todos eles alimenta.

E, no entanto, ou mudamos para um sistema que possa prescindir ao menos desse grau de roubalheira onde já não cabem as ambições da crescente miríade de sócios do governo requerendo feudos para roubar em paz – e o voto distrital, como pelo menos parte do PSDB já admite e prega, é a maneira mais racional e consagrada de se conseguir isso – ou haverá um confronto sério em algum ponto não muito distante dessa estrada.

A cleptocracia institucionalizada e outras formas de violência e abuso de poder não podem conviver com uma imprensa livre, daí ter ela a importância que lhe é atribuída nos regimes democráticos e merecer amplamente o ódio que lhe votam os ladravazes impunes e os candidatos a tirano.

Assim como o regime militar precisou calar a imprensa antes de passar a tratar a questão ideológica na base da violência (mesmo tendo essa violência começado a ser empregada como um revide à violência previamente aplicada pela parte contraria), a roubalheira impune não pode continuar indefinidamente a ser praticada à vista de todos num governo que afirma o seu compromisso com a democracia.

Para que ela continue sem que o governo se esboroe será preciso calar a imprensa, que é, explicitamente, o que vem tentando fazer o núcleo duro da ladroagem desde o primeiro dia do governo petista.

Mesmo porque manter as duas coisas convivendo e, ainda,  a cosmética democrática sem a qual não se é admitido nos círculos internacionais que os novos poderosos do governo petista gostam de frequentar no mínimo levará o governo a esgotar todos os seus quadros, a continuarem os flagrantes na quantidade e na velocidade em que vão.

Registro histórico

19 de outubro de 2011 § 1 comentário

O governo daquele partido do Lula da Silva diante de cujos olhos tudo se passou mas que “não viu nada”, “não sabia de nada”, e que formou pessoalmente esses ministérios todos de cegos e surdos que ha tres mandatos ininterruptos primeiro se lambuzam e depois naufragam na lama bradando sempre uma “indignada” inocência , acaba de anunciar a instituição da primeira “Comissão da Verdade” da história deste país.

As virtudes do fogo amigo

20 de junho de 2011 § Deixe um comentário

Anotações do fim-de-semana – 3

Lula adverte o PT de que o Mensalão só rolou por causa das divisões internas no partido.

Verdade histórica: no PT só se suspende a impunidade absoluta quando eles querem se derrubar uns aos outros.

Ai usam as mesmas armas que normalmente usam exclusivamente contra adversários políticos, os dossiês da PF começam a vazar para a imprensa e o país tem a oportunidade de espiar por baixo da pontinha do tapete sob o qual se costuma esconder a torrente de lixo fabricada “pelos amigos”.

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