Os perigos das decisões precipitadas

8 de agosto de 2018 § 18 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 7/8/2018  *

A onda nacional de repúdio que o vexame do Roda Viva com Jair Bolsonaro provocou teve, afinal, um subproduto positivo. Poupou o Brasil do que poderia ter sido o vexame da Globonews se ela tivesse chegado virgem ao candidato, com o ímpeto em que vinham vindo a maior parte das redações. Na noite da sexta-feira, 3/8, nenhuma agressão lhe foi dirigida e quase tudo lhe foi perguntado no tom que convém.

O vexame esteve nas respostas.

O fenomeno Bolsonaro é independente de Jair Bolsonaro. O candidato transformou-se no valhacouto de todos os exilados do Brasil com voz. Na sua praia acabaram por encalhar os censurados pelos ditadores da “correção politica”, os resistentes ao terrorismo moral, todos quantos as subideologias fabricadas repulsam, os rebelados contra a sistematização da mentira, os que se recusam a não ver o que seus olhos enxergam, os que insistem em educar eles próprios os seus filhos, os condenados à não existência midiática, os que persistem no index dos “ismos” probidos.

O liberalismo de Paulo Guedes também foi lá bater fugido da censura e logo passou de resgatado a resgatante, tal é o vazio que encontrou. No seu rastro vieram os cacos da classe média meritocrática em extinção e os exauridos todos do welfare state moreno com sotaque francês, a unica outra alternativa à venezuelização que se apresenta.

Mas tudo isso aconteceu mais pela precisão desses desvalidos que pela boniteza do “candidato honesto” que veio até à véspera desta fugindo de debates e de entrevistas montado apenas em peças editadas de whatsapp.

Foi quase por acaso, aliás, que ele fez saber aos espectadores da Globonews que, sim, a seu ver são também honestos não só o seu particular auxilio moradia como também os privilégios todos dos marajás de farda. Ele nada mais disse porque não lhe foi perguntado, o que é muito triste. Mas a avaliação abrange também, “por isonomia”, os dos marajás sem farda.

O deficit acumulado pela previdência do setor público de 2001 a 2015 foi de 1 trilhão e 300 bilhões de reais para atender 1 milhão de aposentados! O deficit da previdência privada, atendendo a 33 milhões de aposentados, no mesmo período, foi de 450 bilhões. A média das aposentadorias do setor privado é de 1,5 mil reais. No setor publico, a média é de 9 mil reais no poder executivo, o pedaço do marajalato mais sensivel ao voto, de 25 mil no legislativo, 29 mil no judiciário e acima de 30 mil no ministério público.

Quase todos os estados brasileiros, responsaveis pela segurança publica dos 63 mil assassinados por ano, pela saude e pelo saneamento dos re-assolados pelas pestes medievais e pela educação dos ladrões de medalhas de matemática gastam mais hoje com aposentados que com funcionários na ativa. É a mais vasta máquina de transferência de dinheiro de pobres para ricos jamais criada na face da Terra e a trajetória do deficit põe uma explosão de proporções telúricas imediatamente além da proxima curva.

Mas isso continua sendo um não problema. Não entra na pauta do debate presidencial.

Esse desinteresse da imprensa (ha exceções raras inclusive na televisão) pelo assalto à riqueza da Nação com a gazua da lei; esse acobertamento do estupro coletivo do Brasil pelas corporações que tomaram o estado de assalto é a última coisa que une esquerda e direita no Brasil. Essa cumplicidade mole, silenciosa, acovardada e com medo da vida do “país com tetinhas” para com o “país com tetonas”, que irmana partidos e conecta os extremos do espectro ideológico é que empurra os nossos muitos rios de janeiros para o nihilismo da desesperança e para a guerra. Mas foi o único ponto em que as visões de Bolsonaro e da banca examinadora da Rede Globo não gerou faíscas por baixo da polidês com que tudo transcorreu.

“Nem os quilombolas, nem ninguém tem direito de ter comida servida na boca”.

“Nenhum centímetro mais de terra indígena”.

“Gays, sim, kit gay não”.

“Brancos e negros, ricos e pobres, gays e heteros, somos todos brasileiros”.

“A história do Brasil foi a que foi, não a que é narrada”.

O Brasil está tão desesperadamente carente que tem ejaculções precoces com a mera declaração do óbvio em público. Mas, de parte a parte, faz-se um enorme barulho com o que não tem a menor importância para manter abafado o que tem toda.

Jair Bolsonaro e Donald Trump são filhos da mesma negação só que Trump é arrogante e Bolsonaro é humilde, Trump sabe o que é capitalismo – de “laços”, vá lá – e Bolsonaro nem isso. Ha uma enorme diferença certificada por uma obra concreta na capacidade de formulação, de montagem de equipe e de execução entre Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin. Mas assim como o “candidato honesto” ladra mas não morde, a democracia da vaidade, aristocrática e sem povo, do PSDB não chega nunca à penetração. Nenhum dos dois está contra o “sistema”, estão apenas fora dele e muito desgostosos com isso. Nenhum dos dois propõe reformas que mudem a essência ou a direção do que quer que seja, ambos contentam-se com “ajustes”, com meras regulagens de velocidade, com vender anéis para preservar os dedos.

O Brasil terá de ir ainda mais fundo no inferno antes de sermos arrastados de volta ao purgatório. Tiradentes foi o último momento em que estivemos parelhos com a ponta mais moderna do pensamento político. Desde que fomos invadidos pela corte e viciados nas blandícias da “aquisição de direitos” nunca mais acertamos o passo. É sempre o mundo que acaba nos arrastando para as modernidades depois que elas ficam velhas.

Nós não. Nós nos aferramos às nossas escravidões e somos sempre os últimos a aboli-las. Quem está dentro não sai e quem está fora sonha em entrar. Estamos sempre duas ou tres revoluções atrasados. Só somos “avançados” no papo furado.

Privilégio é o nosso negócio! O favelão continental que se exploda!

  • Por um erro de comunicação o Vespeiro publicou ontem o artigo que só será publicado n’O Estado de S. Paulo em 14/8/2018. O artigo acima é o que foi publicado ontem no Estadão.

O verdadeiro problema do Brasil

13 de abril de 2017 § 10 Comentários

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com maraja em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: