China: moderados vencem 1º round da sucessão
15 de março de 2012 § 1 comentário
A ala moderada do Partido Comunista Chinês (PCC) ganhou a primeira batalha da sucessão de sete dos nove membros do Politburo marcada para acontecer este ano.
Bo Xilai (foto), secretário do PCC da província de Chongqing, que despontava como o mais radical dos pretendentes ao mais alto cargo de poder na China foi defenestrado ontem assim que a seção anual de 10 dias do Parlamento chinês foi encerrada.
O expurgo decidido pelo Comitê Central do PCC foi anunciado em uma nota de uma única linha pela agência de notícias do governo, Xinhua, que não deixou claro se ele está preso ou não.
Poucas horas antes o primeiro ministro Wen Jiaobao que, junto com o presidente Hu Jintao e outros cinco membros do Politburo, deve deixar esta que é a mais alta instância de poder na China no final deste ano, tinha feito criticas diretas a Bo Xilai em uma inusitada conferência de imprensa televisionada com a presença de jornalistas chineses e estrangeiros.
O caso é emblemático da barra pesada que é a política nesta China que todo o Ocidente trata de igual ($$) para igual ($$) e o governo Lula considera “uma plena economia de mercado”.
Bo Xilai é filho de Bo Yibo, ex-vice-primeiro-ministro e veterano da Longa Marcha de Mao Tsetung, que iniciou a revolução comunista chinesa e, desde 2009, vinha acenando com o “Modelo de Chongking“, uma versão nostálgica e brutalmente violenta da Revolução Cultural maoísta temperada com novos molhos populistas de grande sucesso entre as massas mais pobres daquela província.
Acusando-os de “atividade mafiosa”, ele prendia os empreendedores privados de Chongqing, submetia-os a tortura e cobrava pesadas “multas” para libertar os mais ricos entre eles, usando o dinheiro para financiar políticas assistencialistas. Parentes e amigos que se dispusessem a testemunhar a favor dos prisioneiros também eram presos e torturados.
Chongqing reeditou, de 2009 até ontem, os tempos do terror maoísta com milhares de pessoas enfiadas em “prisões secretas”, seções de tortura, sentenças de morte, execração pública dos “chefes das máfias” e o mais do costume.
Mas o principal alvo dessa “cruzada contra os ricos” era Wang Yang, o antecessor de Bo no comando da seção de Chongqing do PCC e seu principal rival na disputa por um assento no Politburo. Todos os “empresários” atingidos tinham feito sua fortuna no governo do rival, cujo chefe de polícia Bo mandou executar em julho de 2010.
Seu grande erro foi voltar-se contra o seu próprio chefe de polícia, Wang Lijun, conhecido como “Robocop” ou “Crazy Wang”, um homem sanguinário que tinha mania com armas pesadas e carros esportivos e que, “nas horas vagas, dedicava-se a fazer autópsias” e gabava-se de “ter inventado um método super eficiente de retirar órgãos de prisioneiros executados para transplantes”.
Não se sabe exatamente por que – “tsu si gou peng” (“quando o cachorro não serve mais para caçar coelhos é ele que vai para a panela“), dizem os chineses – Bo e “Crazy Wang” se desentenderam e o chefe achou por bem queimar aquele arquivo vivo das barbaridades que tinha perpetrado em Chongqing.
Wang porem fugiu a tempo para o consulado americano da cidade vizinha e pediu asilo no mês passado. 24 horas depois saiu do consulado e foi preso por autoridades ligadas ao governo central “para investigação”.
“A China está numa encruzilhada“, dizia ha poucas semanas Jiang Weiping, veterano jornalista chinês exilado em Toronto. “Ou bem ela parte para uma reforma política e se moderniza, ou cai numa nova revolução cultural como quer Bo Xilai. Se ele vencer será um desastre para o país e para o mundo“.
Esta é a China, a onda na qual surfa a economia do Brasil do PT
2 de fevereiro de 2012 § 1 comentário
Enviado por Ruy Mesquita Filho
Se você quer entender como a corrupção do Partido Comunista Chinês leva à construção dessas cidades-fantasma e como isso pode afetar o Brasil, veja neste link a matéria publicada no Vespeiro em 20 de agosto de 2010.
Steve Jobs, o mau patrão, ou, Há capitalismos e capitalismos
30 de janeiro de 2012 § 3 Comentários
O “golpe do gato” consistia no seguinte. O sujeito ia lá para os mais miseráveis grotões do Brasil e oferecia uma boia de salvação. “Precisa-se gente disposta e decidida para trabalhar em frentes de desmatamento na Amazônia. Paga-se bem“.
Eram os anos 70 e as beiradas da Amazônia estavam tão longe do mundo com leis quanto um planeta distante.
O cara ia e logo se dava conta de que para comer, se vestir, tomar um remediozinho, ter qualquer contato com a civilização, dependia da estrutura montada pelo patrão. Só aí começava a aparecer o outro lado da moeda. Na vendinha do patrão, a única lá daquele fim de mundo, tudo custava 10 vezes mais caro. Mas podia ser comprado a prazo…
Moral da história: o sujeito ficava devendo sempre mais do que ganhava e virava escravo.
O golpe arquitetado por Tim Cook para Steve Jobs, o mau patrão, é exatamente semelhante.
Tinha gente que se achava esperta ganhando dinheiro no mole nos Estados Unidos explorando, aqui e ali, condições de trabalho na China que, em casa, os meteria na prisão. Mas isso já se tinha tornado uma commodity. Mortos os concorrentes mais “patrióticos” e “moralistas” que insistiam em não trocar trabalhadores americanos por chineses, todos os que tinham sobrevivido eram igualmente “modernos”.
Assim, simplesmente explorar miseráveis chineses deixou de ser um fator definitivo de sucesso. Era preciso “inovar“.
Jobs tinha o homem certo para o momento certo. E sentiu que esse momento chegara. Lá se foi Tim Cook para a China para descobrir onde estavam as “novas oportunidades de aprimoramento de gestão e ganhos de escala” sobre a miséria chinesa.
A China é um país novo, apenas emergindo do pesadelo maoísta que, debaixo de porrada, levou aquele quarto da humanidade de volta para a Idade Média sob o aplauso entusiasmado de boa parte da inteligentsia ocidental. Tendo regredido ao ponto zero de industrialização, tinha tudo por fazer e nada por reformar.
“É isso“, pensou Tim!
Depois de espremida a laranja até o bagaço dentro dos limites das legislações de trabalho civilizadas, o Ocidente andava, ultimamente, apertando parafusinhos nas cadeia de fornecimento para reduzir estoques e obter pequenas vantagens competitivas. Mas a coisa acabava batendo sempre na dispersão das estruturas existentes e na dificuldade e no custo de reorganizá-las.
Na China não. Onde antes não havia nada não era preciso derrubar para construir ou deslocar para abrir espaços. E, especialmente, não era necessário perder muito tempo fazendo contas. Lá estava o Estado chinês, único dono da economia nacional, e seus ávidos, todo poderosos e sempre seduzíveis funcionários, fiscais de si mesmos, para pagá-las quaisquer que fossem.
Tem mais que um dedinho da Apple, portanto, essa Chengdu, no Sudoeste da China, onde brotou do chão “o maior, mais rápido e mais sofisticado polo de manufaturas do planeta Terra“.
Ali pode-se realizar o sonho de todo contador de tostões: uma série de fabricazinhas absolutamente focadas para cada componente de um produto, umas vizinhas das outras, com centros de montagem espargidos pelo meio, alimentando-se mutuamente com transporte e estoque zero; uma força de trabalho sem nenhum direito constituído, flexível o suficiente para ser jogada pra lá e pra cá, a qualquer hora do dia ou da noite, para atender milimetricamente, para cima ou para baixo, as flutuações da demanda.
E tudo pago a preço vil.
Estava feito o milagre do supply chain!
Uma verdadeira maravilha. E irreplicável fora da China!
Mas o melhor ainda estava por vir. Como a rede de fornecedores, e de fornecedores dos fornecedores, constituía-se para atender a um único cliente – a Apple – este ficava com a faca e o queijo na mão. Com cada fábrica fazendo um pedaço de peça interessante apenas para a fabriqueta vizinha, não se corria o risco, nem de se ver pirateado, nem de ter tal mão de obra disputada por outro.
No way out!
No primeiro ano as coisas corriam conforme o combinado. Mas a cada renovação de contrato, Steve Jobs arrancava mais 10% de seus “parceiros”.
“Não gostou? Ok. Procure outro comprador. Ou feche as portas” (os diálogos são imaginários).
Começava a aparecer o outro lado da moeda…
Espremidos contra a parede, toca cortar custos.
E se foi desenhando o quadro que o New York Times descreveu em minúcias nas reportagens publicadas na semana passada (veja o original aqui):
- montadoras com até um milhão de operários trabalhando seis dias por semana sem sair de dentro da fábrica, dormindo amontoados em quartinhos, quase celas;
- cartazes “à la Aushwitz” dominando os salões de montagem, lembrando àqueles meninos e meninas vindos do interior da China para as garras do “gato”: “Trabalhe duro na tarefa de hoje ou você terá de trabalhar duro para arranjar outro trabalho amanhã“;
- “castigos” para quem chega atrasado à sua bancada variando entre “escrever autocriticas”, copiar centenas de vezes a mesma frase ou fazer flexões deitado no chão da fábrica;
- casos comprovados de “trabalho involuntário” (prisioneiros do regime, talvez?);
- instalações muito mais que precárias, cada vez mais inseguras;
- repetem-se em escala crescente as explosões, com mortos e queimados, de salões de montagem sem ventilação pela acumulação de pó de alumínio (limado do corpo do seu lindo iPad);
- empregados envenenados pela substituição de álcool pelo ultra cancerígeno n-hexano, que evapora três vezes mais rápido, na limpeza das telas dos iPads montados (resultando em mais iPads limpos por pulmão intoxicado);
- salários de fome;
- exploração de menores…
A lista segue em frente.
Sob pressão de ativistas chineses, ONGs dos próprios Estados Unidos e até de organismos do Banco Mundial, a Apple, durante anos, finge que não é com ela. Quando entende que não dá mais para evitar o assunto institui comissões e relatórios anuais de “responsabilidade social” e “normas mínimas de segurança e condições de trabalho”.
Mas, alegando a necessidade de segredo industrial, não revela a lista dos seus fornecedores chineses, sujeitos a tais regras.
Depois da onda de suicídios na Foxconn, cede e “revela” o nome de 156 deles. Reporta punições cosméticas contra alguns, agora que se tornou possível checar o que os relatórios afirmam. Mas os casos de envenenamento e as explosões se multiplicam: os fornecedores desses fornecedores, continuam “secretos”…
“Se você se depara com os mesmos problemas nos relatórios, ano após ano, é porque a companhia os está ignorando em vez de tentar resolvê-los“, diz um funcionário graduado da Apple pedindo anonimato.
Em compensação os números da companhia vão à estratosfera. Steve Jobs brilha. “É tão bom para inventar e desenhar quanto é para gerir“. Eu mesmo caí no logro. A Apple desliza de braçada por sobre o lodo da miséria chinesa, até chegar ao fantástico lucro de US$ 13,06 bilhões de dólares sobre US$ 46,3 bilhões em vendas em um único trimestre anunciados na semana passada.
São esses recordes sucessivos que provocam reuniões sem fim entre os concorrentes e a fila crescente dos “I wannabe Apple” pelo mundo afora: “Então, seus perdedores! Cadê a performance? Não me venham com desculpas românticas. Eu quero é a satisfação dos acionistas“.
É o grito da dupla Jobs/Cook para o lumpen chinês voltando como um eco maldito para o lugar de onde partiu.
E, pelo Ocidente afora, dezenas, centenas de milhões de trabalhadores com direitos vão para a rua da amargura com a substituição da onda “monte seu produto na China ou morra” pelo tsunami “exporte toda a sua cadeia de produção para a China ou morra“.
Eficiência? O milagre do supply chain?
Nada disso. “Quando a esmola é demais até o santo desconfia“. Tem sempre alguém pagando por qualquer “almoço grátis” que se oferece por aí…
“Voltar atrás significaria deter o ritmo da inovação“.
A desculpa de Steve Jobs num seminário onde era acusado de explorar a miséria alheia pouco antes de morrer, é a que resta diante da contundência dos fatos. Uma espécie de curinga para sair de saias justas morais. O mesmo ao qual recorrem, de mr. Kim Dotcom, o megauploader de mercadoria roubada defendido por certa inteligentsia cibernética pelas mesmas razões que seus predecessores defenderam Mao Tsetung, ao Google e todas as criaturas do lado escuro de Silicon Valley sempre que se lhes aponta as vergonhas desnudas.
“E não é isso o capitalismo?“, vem o coro dos que não resistem a uma boa tragédia americana.
Não. Não é isso o capitalismo.
O capitalismo democrático (que antes não precisava ser adjetivado porque não havia outro a não ser este bandalho que conhecemos, que se diz capitalismo mas apenas bandalho é) é, precisamente, o sistema que coloca em campos opostos e nitidamente delimitados o Estado e o capital privado, cabendo ao primeiro fiscalizar o segundo e dizer-lhe, em nome do coletivo, até onde ele está autorizado a crescer, mesmo que jogando inteiramente dentro das regras.
É isto que o define e distingue de tudo o mais.
O capitalismo democrático é aquele que vê o homem como o perigo que ele é e trata de cerceá-lo na sua essência feral, enfim.
É um corolário da democracia, invenção que parte exatamente da mesma visão e tem exatamente o mesmo propósito, e que teve o seu apogeu no século 20 com a criação das legislações antitruste desenhadas para impedir que qualquer homem, qualquer empresa, se tornasse “grande demais para quebrar” ou para se impor ao comum dos mortais, mesmo que exclusivamente em função de competências próprias.
Este da China está muito além deste quase ingênuo capitalismo bandalho nosso velho conhecido. Tem o Estado não apenas como sócio mas como proprietário único do Capital e, consequentemente, todo o resto da sociedade na palma da sua mão.
Nada de conter a fera humana. Nele juntam-se o Capital e o Estado para caçar em matilha. Sobreviva quem puder.
O fato da internet ter permitido que ambições há muito domesticadas por legislações antitruste nacionais hoje escapem delas para ir matar as saudades dos bons velhos tempos da lei da selva alhures, forçando o resto do mundo a se “achinezar”, prova apenas que a tal “inovação” que eles tanto invocam para justificar a sua sede de suor alheio não altera rigorosamente nada o pendor do homem de explorar o homem, que voltará a se manifestar com toda a força da Natureza sempre que a um deles for dada essa prerrogativa.














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