Eleições democráticas x eleições brasileiras – 2

24 de junho de 2022 § 2 Comentários

O Brasil discute apaixonadamente a insegurança das urnas e tem boas razões para isso. Ninguém recheia pacientemente um supremo tribunal com militantes, anula irreversivelmente as três instâncias do Poder Judiciário abaixo dele resgatando um criminoso condenado para enfia-lo diretamente na eleição e mata a pau o Poder Legislativo inteiro ao derrubar três votações democráticas maciças dos representantes eleitos do povo mandando imprimir um comprovante do voto alegando razões futeis porque esteja bem intencionado. Tirar da eleição o caráter de argumento indiscutível da pacificação nacional que a transparência da contagem dos votos lhe confere em todas as democracias do mundo certamente não vale os caraminguás que se quer “economizar” negando ao eleitorado brasileiro um comprovante do voto que ele possa ler.

Mesmo assim, na merda em que estamos a questão da urna chove no encharcado!

A “fraude”, quando “aparece”, verdadeira ou “falsa”, consiste na pessoa votar num nome e seu voto ser transferido para outro pela máquina. Mas o fato é que o otário do eleitor brasileiro vota numa pessoa e elege outra sem o concurso de qualquer hacker. No sistema do voto proporcional essa transferência fraudulenta já é operada PELA LEI. Só 15 a 20% da fauna que habita os legislativos brasileiros, conforme lembrou artigo publicado ontem por José Serra em O Estado de S. Paulo, foi eleita por votos em sua pessoa. 80 a 85% dela ganhou o poder de ditar-nos leis “de carona”.

Hoje essa fraude sistematizada está delimitada ao interior de cada “partido político” criado e sustentado pelo Estado. Até 2020 rolava até entre partidos diferentes, desde que estivessem mancomunados numa mesma “coligação”.

O resultado é esse que está aí. O eleitor não sabe quem elegeu e o eleito não deve lealdade a ninguém senão ao “dono” do partido em que se homiziou. E sua única missão na vida passa a ser a de defender o sistema sem o qual jamais se elegeria e reelegeria, os menos ruins para ter privilégios vitalícios e hereditários às custas do favelão nacional, os mais iguais à média para assaltá-lo impunemente. 

E enquanto rasga-se assim, já não digo a nossa constituição drogada e prostituída, coitada, mas até a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, a imprensa nacional das redações franqueadas aos “jornalistas” formados no “sistema educacional” criado pela fauna dos 15 a 85%, dança em frenesi a dança do “estado democrático de direito” em torno da fogueira da ignorância (e não só da ignorância) como um bando de anacrônicos pajés de uma tribo institucionalmente primitiva.

O resto da tragédia nacional é mera consequência.

O lulopetismo nunca entregou o poder perdido no voto. Parte sempre para a chantagem. Trata de destruir a economia e tornar o país ingovernável até que, sufocado pela miséria multiplicada, pela violência e pelo desespero resultantes o eleitorado aceite pagar-lhe o resgate da devolução ao poder. A diferença é que, até Bolsonaro, alguma imprensa resistia-lhe…

A “vantagem” de quem destrói sobre quem constrói é proverbial. Daí terem tomado os milênios todos do primeiro homem até hoje para que tão poucas democracias se tenham consolidado no mundo. Os bens imateriais que só elas provêm não podem ser “entregues”, nem direta, nem imediatamente. São conquistas indiretas e progressivas do controle do poder de fazer leis pelos próprios interessados nelas que dependem, como toda obra humana, de longos e intrincados processos de construção coletiva aprendidos por ensaio e erro sob a pressão das intempéries formadas nos bolsões onde resiste com unhas e dentes a multimilenar privilegiatura, seja no próprio país, seja nos inúmeros clusters ditatoriais ou totalitários que subsistem na cena planetária. Forças que hoje atuam com potência redobrada pela internet que deu materialidade ao internacionalismo em que só o socialismo antidemocrático investiu e se especializou desde que nasceu.

Só no campo do Brasil do pós-lulismo houve uma mudança “material” de qualidade na recuperação do direito de trabalhar em paz que veio como corolário da reconstituição do direito de propriedade. No vasto favelão nacional houve, quando muito, alterações na quantidade da opressão exercida: o crime seguiu imperando como sempre, mas agora com a polícia formalmente proibida de entrar no território dele pelos supremos militantes, outro dado inacreditável dessa nossa nova “normalidade democrática”. 

E se eles já se sentem livres para agir assim e para “prender e arrebentar” quem lhes ofereça resistência estando fora do poder, imagine dentro, e com todas as condições de reconstituir o pleno sistema de seleção negativa que se vinha tentando desmontar na educação, no serviço público, nas forças de segurança e no resto das instituições do nosso Estado onipresente.

A inflação da soma dos efeitos dos lockdowns, da guerra de Putin e dos trilhões de dólares “grátis” com que Joe Biden engraxou sua eleição que ameaça derrubar todos os governos que estão no poder, independentemente de serem “de esquerda” ou “de direita”, é apenas um fenômeno episódico. Nos países com sorte a tempestade chega para enfraquecer governos antidemocráticos. Nos sem sorte…

A ameaça real é, no entanto, muito mais profunda e resiliente. Nem a democracia americana está incólume ao ódio crescente aos monopólios criados a pretexto de enfrentar os dos “capitalismos de estado” que hoje todo socialista doméstico trata de cooptar e ao achinesamento dos salários e com eles, dos direitos civis que, eliminados os da escolha do patrão e do fornecedor, deixam de existir.

Mesmo as democracias mais sólidas deixaram o inimigo entrar pela porta de saída e agora ninguém sabe como pô-los para fora.

Nesse mundo em que resta tão pouco em que se agarrar, a que distância está este Brasil monocrático, indigente de qualquer memória de cidadania, do ponto de não retorno?

Essa é a pergunta que deveria orientar esta eleição, se conseguíssemos voltar a pautá-la pela razão.

A competição de colapsos

22 de março de 2021 § 13 Comentários

O governador democrata Gavin Newson, da California, ex-prefeito de San Francisco eleito em 2018, anunciou na 2a feira, 15, que começou a levantar dinheiro para financiar a campanha contra a eleição de recall que pode tomar-lhe o mandato ainda em novembro deste ano. Iniciada por mães de alunos que tiveram de deter sua rotina de trabalho para cuidar de seus filhos em casa em função do fechamento das escolas determinado pelo governador, a campanha teve forte adesão de eleitores proibidos de trabalhar pelas determinações de lockdown por ele baixadas.

Ele não deu nenhuma escolha a ninguém” disse uma signatária do recall à Associated Press. “Simplesmente nos proibiu de fazer qualquer coisa com um ‘é aceitar ou aceitar’”.

O Brasil ainda discute se deve ou não ter um comprovante impresso do voto. Na democracia americana não apenas esse comprovante existe – quase todos os votos são exclusivamente em papel – como o voto é um contrato assinado de próprio punho por cada eleitor, entre ele e a autoridade organizadora das eleições. E como o sistema eleitoral é o distrital puro, onde cada candidato só pode concorrer pelos votos de um único distrito eleitoral, ou seja, a representar os eleitores residentes num determinado endereço e pedaço do país, a assinatura no voto das eleições majoritárias passa a ser o padrão com o qual deverão ser cotejadas todas as outras manifestações dele dali por diante, como adesões a propostas de recall ou de leis de inciativa popular, aprovação de compras e obras públicas ou pedidos de referendo a leis dos legislativos, entre outras questões que lá o eleitor decide diretamente no voto.

Na Califórnia uma campanha de recall de funcionário do Executivo só vai a voto se seus organizadores conseguirem assinaturas correspondentes a 20% dos votos recebidos para elege-lo, o que no caso de Newson significa no mínimo 1,5 milhão. Os organizadores já conseguiram mais de 2 milhões que agora estão sendo conferidas.

A dúvida favorece sempre o eleitor, nunca o eleito. Somente uma assinatura com “múltiplas, significativas e óbvias discrepâncias” com a de votos anteriores pode ser impugnada. E mesmo assim, dois funcionários têm de concordar “acima de qualquer duvida razoável” para desqualificá-la. E como todo funcionário público também está sujeito a recall não ha duvida sobre para qual lado pende a lealdade do funcionalismo.

Na legislação da Califórnia o eleitor que assina uma petição de recall tem 30 dias para se arrepender. É para uma campanha com esse apelo que Newson está agora arrecadando dinheiro. Não que ele ache que pode evitar o recall. É que quanto mais longe tiver ido a vacinação e estiver a memória dos lockdowns no momento da votação, acredita ele, maior a sua chance de escapar da cassação que, no momento, parece muito provável. É de esticar prazos que se trata, portanto.

Os problemas, como se vê, são idênticos, apesar das abissais diferenças de níveis médios de renda e educação. A diferença está em quem tem o poder de participar das e decidir as discussões políticas. Nas democracias, onde “todo poder emana do povo e em seu nome ou por ele diretamente é exercido”, o povo debate, o povo decide e o governo obedece. Nas “democracias” de mentira que já estão podres mas ainda não caíram, os governantes “debatem” com seus especialistas de estimação e o povo, que assiste a tudo calado e de longe, apenas sofre a decisão que eles baixarem, isso se os 11 monocratas acharem que ela foi boa…

Ouço cada dia mais gente que herdou o luxo da liberdade, inconsciente da gota d’água que é a condição de desfrutá-la no vasto oceano da história da servidão humana neste “vale de lágrimas”, dizer de boca cheia, diante das idas e vindas desta pandemia nos países livres, que prefere o sistema chinês.

Ali sim, resolvem-se as coisas! Quando ‘o cara’ manda fechar fecha mesmo. Ninguém morre de covid na China”.

Primeiro é preciso saber se é isso mesmo. A avareza com que soltam para o exterior as doses das suas vacinas – menos para a África que é o mais imediato objeto da sua cobiça geopolítica – parece indicar o contrário. Não é atoa que ha anos sem fim víamos imagens dos chineses andando de máscara nas ruas, sem saber o que estava por trás daquela estranha “moda”. Ninguém morre de covid na China? Jamais saberemos ao certo, fato que diz a qualquer sujeito com um pingo de desconfiômetro tudo que é preciso saber sobre a quantidade de porrada que se distribui num país de extensão continental onde se amontoa 1/4 da espécie humana, para garantir que só se saiba, do que se passa lá dentro, aquilo que a ditadura do partido único quiser que seja sabido.

A China criou a covid, isso é absolutamente certo, reduzindo sua gente à condição de comer morcegos e, principalmente, a fazer isso em obsequioso silêncio. 

Mas o que move essa gente, pelo mundo afora, a insistir em sair de casa na iminência da catástrofe com a pandemia matando como está? 

“Negacionismo”? 

O que com certeza não há, posso garantir aos sem imaginação, é qualquer diferença na reação dos donos de botequins brasileiro, americano ou chinês – e mais ainda, na dos empregados quase miseráveis dessa fatia dos remediados que têm de batalhar hoje o prato que sua família vai comer amanhã. 

Quando “o cara” lhes diz que vão ter de perder tudo que conseguiram na vida arriscando, dia após dia, o seu sangue, o seu suor e as suas lágrimas, o que se instala é uma competição de colapsos: o da luta da vida de cada um versus o dos governantes, que eles desde sempre e com toda a justiça culpam por mantê-los no limiar da miséria apesar de toda essa luta, que não quer encerrar sua carreira com a colheita dos anos todos de incúria que levaram, ao primeiro desafio sério, à falência de sistemas de saúde e capacidade de produção de vacinas que o povo sempre pagou mil vezes melhores do que são. 

Então o remediado e o quase miserável chineses engolem em seco e voltam a comer morcegos porque a alternativa é o tiro na nuca. Já os nossos ainda podem chiar, enquanto Alexandre, O Pequeno, e cia. ltda., que dispensam-se olimpicamente das penas que impõem a quem precisa desempenhar para manter seu emprego e seu salário, não se tiverem tornado tão grandes quanto se enxergam ao se olhar no espelho.

O resumo, brava gente brasileira, é que pandemia desse calibre é, pra todo mundo – governantes e governados – andar sobre o fio da navalha. “Se correr o bicho pega, se parar o bicho come”.  Mas isso de democracia talvez seja como todas as outras conquistas humanas: pai rico, filho nobre, neto pobre. Vai embora quando se perde a memória viva da epopeia que foi para conquistar aquilo que, para o herdeiro estroina, não custa nada jogar no lixo.

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