Ainda Lula e Getúlio

10 de fevereiro de 2015 § 18 Comentários

a18

Os partidos da chamada “base” apresentaram 620 emendas às MPs 664 e 665 (notem que falta só uma para incidirmos no “numero da besta”), que tratam de fechar brechas nas regras de concessão do seguro desemprego, do abono salarial e da pensão por morte.

Se conheço bem o meu país haverá entre elas desde sugestões que abrem ainda mais brechas de acesso a esse maná até propostas criando exceções à regra e “direitos especiais” para cada membro da torcida do Corinthians nesse paricular segmento do “ajuste”.

É absolutamente certo, ainda, que nenhum dos 513 deputados e 81 senadores que nos representam teve a idéia de propor o corte de uma migalha sequer dos obscenos privilégios dos marajás dos três poderes que pudesse substituir um tostão que fosse dos R$ 18 bilhões que o governo “dos trabalhadores” espera arrancar do zé povinho trabalhador com essas medidas com que tratam de tomar-lhes também a bóia de flutuação no momento em que o tsunami da orgia de gastos dos chefes dos ladrões da Petrobras se aproxima rugindo da praia.

a4

Joaquim Levy com certeza tratou de alternativas do gênero mas logo foi avisado sobre quem pode e quem não pode “ser ajustado” nesta “Pátria Educadora” do PT. E como Dilma e seu exército Brancaleone – Freddy Mercadante Mercury, Pepe Legal Vargas  e Miguel Rossetto à frente, tinham acabado de confirmar que fazem mesmo tudo que lhes dá na veneta sem perguntar nada a ninguém, ninguém lá no Congresso também se sente obrigado a sustentar-lhes as propostas com votos.

O Joaquim que se rebole, e nós com ele…

Para tranquilizar a Nação, os jornais de hoje informam sobre duas providências decisivas: Aldemir Bendine – loiro? moreno? peruca? implante? – vai iniciar o seu périplo de “conversas com o mercado” para “acalmar investidores” dentro do mais disciplinado espírito da “Batalha das Comunicações”, enquanto Dilma, ela mesma, inicia uma bateria de aulas de reforço sobre como se comportar numa crise de confiança … com Lula Eu Não Sabia de Nada da Silva e João Invertido Santana.

a5

Por conta disso, o dólar passou hoje dos R$ 2,8 e é provavel que vire a quarta-feira de cinzas já a R$ 3. Bye, bye Terceiro Milênio…

Por coincidência terminei na noite passada a leitura do volume 3 do Getulio, de Lira Neto, onde constatei que entre o ditador do Estado Novo e criador do sindicalismo pelego de que Lula é a criatura por excelência e o nosso inventor da Dilma, o que há de mais perfeitamente comum é a inabalável “distração”.

Getulio, como Lula, “não sabia de nada” do “mar de lama” em que chafurdavam todos quantos habitavam os porões do Catete até a véspera do suicídio. Seus filhos vendiam fazendas da vida inteira da família Vargas para o capanga Gregório Fortunato por milhões e nem disso ele ficava sabendo. Jornalistas enlouqueciam sob tortura nos calabouços da sua polícia e ele nada. Toda uma “nova nobreza”, como esta que vai nascendo das quinas daquele prédio esquisito da Petrobras, constituiu-se comprando e vendendo licenças das importações e exportações que ele proibira ou explorando os cassinos e os “campeões nacionais” de infraestrutura da época e ele nem desconfiava. O nepotismo frequentava a sua sala de visitas e a cama de sua filha e nada.

a9

Às vésperas da tragédia seu ministro da Justiça, avô da nossa oposição, proclamava a sua inocência quase com as mesmas palavras com que o ministro da Justiça de Dilma voltou a proclamar a dela ainda ontem. “Não ha nenhum fato que indique que a presidente da Republica tenha qualquer envolvimento no escândalo da Petrobras“, exceto, naturalmente o da assinatura dela, de próprio punho, na qualidade de presidente do Conselho de Administração da Petrobras, de ministra das Minas e Energia, de ministra-chefe da Casa Civil ou de presidente da Republica, estar no pé de cada contrato mediante os quais foram surrupiados da “nossa” petroleira R$ 88 bilhões “ou mais”.

Insignificâncias!

Carlos Heitor Cony, assim como Samuel Wainer ha 60 anos, escreve e assina, hoje na Folha, que acredita que Dilma não soubesse de nada, ainda que o escândalo venha sendo coberto ao vivo e em cores, dia por dia, delação por delação, falcatrua por falcatrua diante dos olhos de toda a Nação já faz uns bons anos; ainda que os promotores do Paraná tenham vindo mais de uma vez a público para dizer ao país que, mesmo com a polícia lá dentro e parte dos ladrões na cadeia a roubalheira não cessou. Até José Dirceu, agora está provado, como todo chefe de quadrilha que se preza nesta nossa republica de novo “popular” continuou comandando de dentro da Papuda a emissão das “consultorias” mediante a mera assinatura das quais ganha-se o direito de arrombar os cofres públicos, exatamente como fazia Gregório Fortunato ha 60 anos quando, exatamente pelo mesmo expediente, amealhou 65 milhões de cruzeiros sob as barbas do bom velhinho.

a15

É curioso, a propósito, conferir a diferença de qualidade da pesquisa do próprio Lira Neto ao longo dos seus três volumes. Enquanto ele tratou do Brasil e dos personagens da virada do século 19 para o 20 quando os Vargas degolavam gente viva lá na fronteira, à la Estado Islâmico, até a queda da ditadura do Estado Novo, nos idos de 1945, tempos de personagens e de jargão ainda bem distantes dos de hoje, ele mostrou um nível de objetividade e isenção. No “período democrático” do Getúlio já convertido do nazismo para o filo-socialismo estatizante do ultimo volume, onde já estão presentes diversas das vacas sagradas que ainda assombram esta geração de brasileiros com os respectivos carimbos ideológicos oficializados por nossas escolas  — Tancredo, Leonel Brizola, Jango Goulart, Carlos Lacerda e alguns dos militares que chegaram até 64 — ele passa a derrapar com frequência crescente.

A falha do livro como um todo – na média muitíssimo bom de ler e equilibrado quanto a tudo que “já passou”, imprensa inclusive, mas nem tanto com tudo quanto continua por aí, de novo imprensa inclusive) – é, aliás, estar centrado exclusivamente na pessoa de Getulio e não na história das instituições que ele urdiu e do país que ele moldou, que são estas que entortam irremediavelmente o Brasil até hoje e continuarão a entortá-lo irremediavelmente enquanto durarem. Estas mal são mencionadas a não ser superficialmente, ao longo do livro todo, e disso resulta que, o tempo inteiro, o leitor menos passivo sinta um estranho descompasso entre a figura sempre afável de uma espécie de déspota esclarecido benfazejo e impoluto que, a julgar por Lira Neto, não queria saber de nada do que faziam à sua volta e em seu nome, ainda que tendo passado a vida toda no meio de cenas de sangue e ladroagem de dinheiros públicos protagonizadas por irmãos, parentes, subordinados e próximos brutos, assassinos confessos e corruptos.

a10

No terceiro volume tudo isso se agrava e o próprio Lira Neto, antes mais contido, passa a tomar partido explícito quanto aos fatos e os personagens de ha 60 anos que chegaram ate os nossos dias em carne e osso ou como os mitos ainda frescos que “explicam” o Brasil atual. Ele não chega a afirmá-lo porque isso seria impossível à luz dos documentos em que se baseia, mas pensa e escreve como se acreditasse sobre Getulio no que Carlos Heitor Cony diz acreditar sobre Dilma.

Ele aparece sempre — menos pelas interrupções de fatos documentados que parecem enfiados como cunhas numa história que lhes é estranha — como a vítima inocente de jornalistas psicopatas que queriam o mal do Brasil e, só pelo gosto de feri-lo, tiravam do nada as denuncias que, nunca substanciadas suficientemente no livro, compõem o quadro de uma conspiração de ódios gratuitos e calúnias cujo alvo último era o povo que Getulio “amava”.

a8

No meio da madrugada passada, enquanto sublinhava os paragrafos abertos para os fatos no meio do discorrer sobre o drama pessoal daquele bom velhinho do final do último volume, eu me perguntava porque será que os intelectuais brasileiros são sempre tão irresistível e irrefreadamente pró-poder. E enquanto vinham-me à cabeça, num turbilhão já meio sonolento, a gênese da raça sob 700 anos de “regime militar” combatendo árabes lá na pontinha da Europa e mais outros 300 fugindo das fogueiras da Inquisição e o que isso pode ter resultado em matéria de “survival of the fittest”, pensava comigo se não estava invertida a ordem dos fatores na minha proposição: é porque os nossos intelectuais são os que a tudo isso sobreviveram que o poder é o que é no Brasil.

Enfim, sei lá…

O que sei de excelente fonte é que Lula, que não é de ler nada, leu o Getúlio 3 e ficou fascinado. Tão fascinado que ia e voltava por seus capítulos como Getulio ia e voltava de seus retiros nos pampas, e reuniu-se várias vezes com Lira Neto para ilustrar-se com mais profundidade sobre as artes e manhas de desaparecer de cena quando os efeitos de sua obra afloravam nas ruas na forma de inflação, desemprego e revolta contra a corrupção, ficar esperando de fora até que a água passasse do nariz e então ressurgir do nada atirando bóias para os afogados, em que ele sempre foi mestre.

Tudo de novo?

Na véspera de morrer, para “salvar os trabalhadores do Brasill da sanha do capitalismo internacional“, ele criou a Petrobras e a Eletrobras com que os petistas estão nos matando agora. Quem viver verá.

a7

1889, Getulio e a razão do meu otimismo

10 de janeiro de 2014 § 6 Comentários

gi5

Chego das férias digerindo o mergulho em dois momentos da História do Brasil – o segundo volume do Getúlio, de Lira Neto, e o 1889 de Laurentino Gomes que me fizeram companhia nestes dez dias – com a convicção reforçada de que este país ainda não fez a sua revolução fundadora.

É uma ideia sempre reconfortante esta de colocar-me na perspectiva da pré-história da Nação brasileira, porque deixa abertos todos os horizontes possíveis para o futuro, dependendo apenas de quanto tempo queira-se contemplar para adiante.

Um ajuntamento humano só se torna uma sociedade de fato – uma sociedade “de contrato” – quando o povo impõe aos governantes as condições em que aceita algum grau de redução da liberdade de que cada um, até então limitado apenas pelos seus dotes físicos e pelos ditames da sua consciência, desfrutava no “estado de natureza”, para obter os benefícios de uma ordem política.

A brasileira nunca chegou a isso.

O que tem havido aqui nesse campo, desde o Descobrimento, é uma relação dominante/dominado imposta sob variados disfarces mas sempre imposta.

Nossas 8 Constituições, que começaram a pipocar a partir do momento em que o mundo tornou impossível não dispor de uma, têm sido decretadas ou outorgadas de cima para baixo por príncipes, por ditaduras proto-totalitárias ou por ditaduras mitigadas mais ou menos assumidas como tal, sempre tangidos pelas marés políticas planetárias.

Os fugazes interlúdios de concessões à civilização em nossa normalidade institucional sempre bárbara, ou foram acidentes presos à figura de déspotas benevolentes, ou foram hiatos decorrentes do esgotamento dos seus regimes determinados, ou por grandes viradas na conjuntura internacional, ou pela exacerbação até o paroxismo da desordem decorrente da mistura de incompetência com voracidade desses predadores e a consequente auto-falência das ditaduras por eles encarnadas.

gi17

Ao povo, suposta fonte exclusiva de toda legitimidade política, tem cabido assistir a tudo isso de longe e tratar, depois de estabelecidas as novas regras do jogo sempre viciadas na mesma direção, de engendrar os “jeitinhos” para deixar de cumprí-las sem pagar as consequências formalmente estipuladas para isso.

Houve as duas semi-portuguêsas – 1822 e 1824 – feitas por e para portuguêses, mas também “pra inglês ver”.

A Abolição foi, igualmente, “pra ingles ver”. Fomos constrangidos pelos canhões apontados pelos navios britânicos que fecharam nossos portos ao tráfico negreiro, a “escolher” o fim da escravidão.

Com ela, de troco, veio a Republica e a Constituição de 1891. Pura ficção. O país continuou no “cabresto” dos “coronéis”, na fraude eleitoral e no uso e abuso dos muitos pelos poucos até reassumir o namoro com a ditadura a partir de 1930 e casar-se definitivamente com ela em 1937, ano da edição da “Polaca“, que institui a ditadura do “Estado Novo” fascista, documento comparado com o qual o AI-5 parece um manifesto libertário.

A única exceção – pela natureza autenticamente autóctone do movimento que acabou por impô-la, caso único na História do Brasil – foi a Constituição de 1934, a mais democrática que já tivemos e que vigorou por menos de três anos, enfiada goela abaixo de Getúlio Vargas por São Paulo e o Movimento Constitucionalista de 1932.

Mas isto será tema de outro artigo logo adiante.

A “democratização”, em 1946, foi outra farsa imposta de fora: a ditadura de Getulio só caiu formalmente porque o cavalo em que ele apostou perdeu. Chamava-se Adolf Hitler e foi derrotado pelos “ingleses“, pelo que fomos constrangidos a “escolher a democracia” depois de sermos obrigados a morrer por ela antes de conhece-la na guerra da Europa.

gi8

No Brasil mesmo, nada se opunha ao ditador senão a meia dúzia de gatos pingados de sempre. E eu sei bem quais e quantos eram eles, e com quanta disposição de sustentar suas atitudes sob a ameaça de sacrifícios físicos e econômicos se apresentavam, porque boa parte deles era gente da minha própria família que sentiu literalmente na pele essa desértica escassez.

A verdade dolorida e sintética é que o país inteiro – “explorados” e “exploradores” das categorias marxistas em que nossos intelectuais com carteira assinada em Brasília insistem até hoje – estava, todo ele, gostosamente entregue à exploração sem aspas da ditadura getulista.

Quem quer que alimente ilusões sobre o que veio depois – e de lá até hoje – deveria ler o penúltimo capítulo do segundo livro de Lira Neto, onde ele transcreve a receita de “constituição democrática” encomendada pelo ditador a Marcondes Filho, seu ministro da Justiça e do Trabalho, cargos que não por acaso eram cumulativos no “Estado Novo” fascista, para que, seguindo os cânones estabelecidos pelo Secretário da Presidência, Luis Vergara, que faria jus ao título de Machiavel brasileiro, a ditadura “ganhasse o tirão”, expressão gaucha que significa antecipar-se ao inimigo numa peleja, para que tudo continuasse igual embora passando uma impressão de mudança diante do incontornável tsunami democrático que atingia nossas praias a partir da Europa.

O povo se cansa dos mesmos figurantes da encenação governamental, como se cansa e se desinteressa dos comediantes que no palco se apresentam todos os dias, vestindo do mesmo modo, entrando e saindo pelas mesmas portas, usando dos mesmos truques e fazendo as mesmas momices”, dizia o secretário ao grande comediante da pantomima nacional de então. E aconselhava o ditador: “É preciso oferecer coisas novas, prender a atenção do público e evitar-lhe o cansaço…”.

gi18

Como excluir candidaturas adversárias jogando com os prazos; como manipular os sindicatos e outras formas de “representação da sociedade civil” e fazer delas o filtro prévio das eleições legislativas; como “aparelhar” os cargos responsáveis pela fiscalização das eleições; como manter esses “representantes do povo” e as “bancadas” por eles formadas no Congresso Nacional sob a firme tutela do governante de plantão; como comprar os grandes empresários e, através deles, manter sob controle todos os demais que deles dependem, seja como consumidores dos insumos básicos cuja produção o ditador lhes outorgara, seja como únicos compradores de sua produção; como cooptar artistas e intelectuais e torná-los mansos e servis; como estruturar “uma campanha nacional de filmes subordinada ao titulo ‘O que o presidente realiza’ e inundar com ela o país”; a criação da Hora do Brasil, no ar até hoje, precursora do Horário Eleitoral Gratuito; como “preparar um folheto de divulgação da Constituição escrito em linguagem simples, de emoção patriótica, de sensibilidade e até mesmo de certa poesia, de acordo com a índole brasileira”…

Não iventou rigorosamente nada que já não estivesse nesse documento o famigerado Plano Nacional de Direitos Humanos que o PT já tentou nos fazer tragar uma vez e vem nos impondo aos pedacinhos desde então.

Instalado um filtro de seleção negativa no sistema político“, ensinava meu avô, “só o pior aflora“. E isso, graças aos expedientes acima descritos, na sociedade inteira e não apenas na política. A cada nova “bombada” no caldo ele se torna mais toxicamente homogêneo e mais difícil fica reverter o processo. O perigo, portanto, é cair no “vórtice argentino” do qual parece não haver retorno.

Getúlio se inspirou em Domingo Perón. Getúlio caiu, Getúlio voltou, Getúlio morreu mas a vida institucional do país permaneceu torta como ele a fez. O hiato da ditadura militar é um ponto fora da curva, resquício ainda da herança da Força Expedicionária do Exército Brasileiro que foi lutar pela democracia na Itália. Jango, o exumado “El Cid” pelas avessas posto para cavalgar pelos incansáveis “revisores da história oficial” petistas era mole demais; Brizola era irresponsável demais; os agentes da luta armada eram sanguinários demais…

Lula é o herdeiro perfeito que segue o mestre ao pé da letra, especialmente no ultra pragmático cinismo e na arte da manipulação das ambições e das vaidades dos áulicos que Lira Neto descreve tão bem em Getulio e na qual o ex-metalúrgico de São Bernardo também é doutor suma cum lauda.

A transição da “faccetta nera” para o que viria a ser a “estrela vermelha” a que o “Sistema ” chegaria por inércia ainda foi obra de Getulio e o seu clássico bordão “Boa noite, trabalhadores do Brasilll…”.

gi9

A Constituição de 1988 com seus 250 artigos, milhares de parágrafos e 72 emendas (por enquanto) é apenas a “Arca de Noé” na qual tentaram salvar-se do dilúvio que acabou não vindo todos os privilégios e “direitos adquiridos” cavados ao longo de quase seis décadas de corporativismo explícito e mais os 25 anos de desembesto legislativo que se seguiram.

A grande contribuição dos “companheiros de estrada” da Academia ao lulismo é a vitória avassaladora de Gramsci nestes trópicos com que muito provavelmente o grande teórico da conspiração italiano nunca sonhou: a substituição dos banhos de sangue e das armas barulhentas de conquista do poder da “esquerda século 20” por um programa maciço de lavagem cerebral ministrado nas escolas, através da mídia e com o concurso de artistas e celebridades de que até Fidel Castro, industriado por Lula, se tornou um arauto depois do Foro de São Paulo, com o qual a “esquerda século 21”, sem utopia mas armada de dinheiro até os dentes, pretende partir do Brasil para a conquista do mundo.

O próprio Lira Neto é uma vítima desse processo como se verá num próximo artigo.

Essa nova ditadura que se fantasia de democracia apoia-se numa “história do Brasil” cotidianamente reescrita segundo as conveniências do partido e no assassinato ritual da verdade, das novelas da Globo para cima terminando nos palanques e tribunas oficiais, até que não sobre valor algum em pé. Uma vez conquistado o aparelho de Estado ela passa a se impor mediante a operação de um implacável aparato de opressão econômica que, nos bastidores, executa dissidentes, ou pelo “garrote vil” da concorrência com o “campeão nacional” ungido pelo BNDES para controlar quem passa e quem não passa pelas grandes encruzilhadas do jogo econômico, ou pela “guilhotina” de uma Receita Federal que exige, seletivamente, o cumprimento de uma “ordem tributária” especialmente desenhada para ser letal quando cumprida.

O esforço e o merecimento não garantem nada a ninguém, muito pelo contrário. Ameaça ao “Sistema” que é, a meritocracia é mais temida por essa “nova esquerda” que a cruz pelos vampiros. É o grande inimigo a ser combatido pois é imprescindível que não exista um direito à sobrevivência economica institucionalmente balizado e que só Sua Majestade possa concedê-la, caso a caso.

O que antes se fazia com a espada, primeiro, e com o fuzil Kalashnikov, depois, hoje faz-se, portanto, a golpe de bilhões ou brandindo as leis onde, desde sempre, segue havendo mais de uma para cada caso, aplicavel conforme a cara do freguês.

É sobre esse monopólio da concessão de “segurança (econômica)” (a admissão dentro das muralhas do castelo em troca de servidão), a ancestral arma de submissão do homem que, em tais ambientes, não pode ser conquistada de outra forma, que repousa toda força do “Sistema“.

gi14

Para os amigos do rei, dinheiro fácil (pouco ou muito, não importa), mesuras e, quando inevitavel, prisões especiais. Para o povão – que “a tudo isso assiste bestificado” como registra Laurentino Gomes citando uma testemunha do golpe republicano – pouco mudou. A tortura faz parte do cotidiano de todo “” que cruza com a polícia ou cai doente num hospital público. No mais, é a esmola, o “cabresto” do trabalho hiper-regulamentado, o poder de vida e morte do governo sobre os empregadores, a realimentação permanente dos dependentes químicos com as drogas corrosivas da distribuição de pequenos privilégios e da corrupção socializada e, no extremo, as prisões que o próprio Ministro da Justiça teme mais que a morte.

Da senzala para as favelas; dos grotões para as cinzentas periferias “de bloco”, o “País Oficial” só lhes dirige o olhar se e quando tangido pelo mundo exterior.

A rapina do dinheiro público só arrefece quando a corrosão da moeda nacional face à baliza do dinheiro estrangeiro toma o aspecto doméstico de inflação galopante; a segurança pública só é ensaiada onde os “ingleses” da Copa vão passar; os trogloditas das torcidas e das prisões dantescas só são reprimidos se a ONU se coçar; o saneamento básico só chega à antiga capital da República, em pleno Terceiro Milênio, como exigência do Comitê Olímpico Internacional pra “inglês” poder se banhar…

Brasileiro foda-se.

Nesse eterno mar revolto da selvageria institucional onde as “excelências” nadam de braçada vêm naufragando seguidamente as classes médias, sempre eleitoralmente insignificantes mas que, apesar de tudo, conseguem erigir-se pelo merecimento (a outra, do funcionalismo público, não sabe o que é crise), e os democratas autênticos, frequentemente acompanhados pela esquerda honesta que incomoda a outra mais que os primeiros pelas mesmas razões que Abel incomodava Caim.

Mas mesmo assim eu sou otimista!

Laurentino Gomes, no seu 1889, apresenta os números que justificam essa insistência. Descontados os primeiros séculos do Brasil Colônia o dado que menos se alterou é a proporção de analfabetos e ilustrados deste nosso gigante adormecido. Descontado o leve verniz acrescentado desde então às duas pontas dessa equação, seguimos nos mesmos 85% contra 15% dos albores da República. A comparação do nível dos “alfabetizados” daqui com os alfabetizados dos países institucionalmente desenvolvidos completa os dados da charada brasileira.

Da Abertura dos Portos para o Império; do Império para a Primeira República; do fim da “Era Vargas”, ainda nos estertores, até os nossos dias, o país tem vivido ciclos sucessivos de apuração da ordem institucional e econômica instalada pela fatia sempre exígua dos “incluídos” de cada momento seguida da diluição resultante da inclusão de uma nova “tranche” de “excluídos” que, até então, limitavam-se “a tudo assistir bestificados”.

gi11

Só que as retomadas, a cada volta nesse círculo, se dão a partir de um patamar mais baixo que o anterior em função do progressivo enfraquecimento de um Estado cada vez mais esvaziado da sua função de agente equlizador das oportunidades e mais pervertido em vetor de disseminação de privilégios a que só os piores fazem jus.

Ainda assim o Brasil segue inserido no mundo, razão pela qual o esforço nunca é de todo inútil e o contingente dos “incluídos” consegue crescer pouco a pouco, o que prova conclusivamente a superioridade do brasileiro como agente produtivo. Nenhum dos seus concorrentes “civilizados” permaneceria vivo meia hora na arena global com 10% das adversidades que enfrentamos na nossa cotidiana guerrilha econômica. Livres de metade do peso que carregamos, “malhados” como temos de estar os que sobrevivemos, daríamos “um passeio” na disputa mano-a-mano em qualquer um deles.

Como sociedade, entretanto, só a partir do momento em que uma maioria estiver “incluída” no universo dos com alguma educação, memória, poder de consumo e preparo para enfrentar as responsabilidades da democracia haverá condições objetivas de chegarmos à nossa “revolução fundadora” que constrangerá o Estado, provavelmente mediante o uso das mesmas armas que redimiram outros povos oprimidos como a do voto distrital com recall entre outras, a reassumir a condição de agente positivo do processo, focado na busca da igualdade de oportunidades pelo único caminho efetivo para isto que é a educação.

No preâmbulo do seu 1889, Laurentino Gomes dá a sua versão do mantra que venho repetindo aqui sobre o papel do estudo da História como a “psicanálise das sociedades” ao saudar a safra crescente de produção historiográfica de qualidade e a enorme curiosidade do público pelos seus frutos que se tem constatado nos últimos anos no Brasil.

Tomar consciência da ancestralidade dos engodos que continuamos a tragar de geração em geração graças ao meticuloso trabalho de lavagem da memória nacional que os inimigos da democracia empreendem por aqui, tem um efeito fulminante.

Concordo que este renovado interesse pela História do Brasil são as primeiras luzes do alvorecer de uma nova etapa no nosso processo de amadurecimento político que tem o potencial de agir tão rápida e irresistivelmente sobre o mar de mentiras que hoje prevalece quanto o sol sobre os cogumelos que vivem da sombra.

Os que hoje nos parecem invencíveis são a versão tropical dos “tigres de papel” do hemisfério Norte do milênio passado, prestes a ser amarfanhados e atirados à lata de lixo da História com atraso mas com a mesma surpreendente e inesperada presteza e ausência de resistência com que seguiram esse mesmo destino os totalitarismos que os inspiraram e que até hoje eles insistem em mimetizar, agora proverbialmente como farsa.

gi12

MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O VOTO DISTRITAL COM RECALL NESTE LINK

O psicanalista psicopata

16 de outubro de 2013 § 2 Comentários

get1

Li ontem o 11º capítulo do 2º volume do “Getúlio”, de Lira Neto, história que conheço por vivos relatos na primeira pessoa já que é parte constitutiva da saga de minha própria família.

Tudo, nessa experiência, dos fatos propriamente ditos que vão da louca tentativa de golpe comunista em 1935 – a chamada “Intentona” – à oficialização e  ao violento recrudescimento da ditadura de Getúlio Vargas para a qual ela serviu de pretexto, até o modo como eles são reconstituídos por Lira Neto, que também não consegue ocultar suas próprias baldas, passou-me a impressão de déja vu; reforçou a penosa sensação de desperdício que sempre é, nesta solidão dos ilustrados num país que não lê, revisitar a História do Brasil.

get10]

São tantas as semelhanças entre os erros que se repetem em 1930 (o surgimento de Getúlio Vargas), 1935 (a “Intentona Comunista”), 1937 (início do período negro da ditadura Vargas), 1964 (o contragolpe que abortou a “republica sindicalista” janguista), 1968 (a “luta armada” respondida pelo AI-5 e a repressão dos anos 70), 1992 (Collor), 2003 (o início da “Era PT”), tanto da parte da esquerda “revolucionária” internacionalista quanto dos idealistas da democracia liberal em seu desespero comum contra a iniquidade social e a corrupção de que nunca conseguimos nos livrar, que dá pena vê-los outra vez à beira de serem reeditados, ainda que como farsa.

As duas pontas autênticas dessas elites se alternam regularmente, de geração em geração, do protagonismo nas tentativas de mudar o rumo deste país ao pau-de-arara e ao exílio, traídas sempre, uma vez instalado um dos lados no poder, pelo núcleo duro da corrupção que espera sentado a poeira baixar para se alinhar ora a um lado ora ao outro até fazê-lo cair de podre, tenha o ultimo episódio sido iniciado pela ação de uns ou pela reação dos outros às iniciativas de um dos dois.

get11

Eles nunca conseguem muito mais que alçar da periferia para o centro, nos momentos de desespero, o “tertius” que parece limpo porque ainda não teve a oportunidade de se sujar e encarnará a próxima safra de violências políticas, institucionais e morais porque o país terá de passar. Isto quando escapamos das colheitas também de violências  físicas…

A “revolução”- seja a feita com a intenção de empurrar, seja a feita para resistir aos empurrões – não faz mais que manter em suspenso o processo histórico ao qual se terá de retornar fatalmente mais adiante. E retornar do ponto de partida, o que redunda em atraso num mundo em que atrasar-se é erro cada vez mais impiedosamente punido.

get8

Não ha como aprender democracia senão praticando-a ininterruptamente por tempo suficiente para experimentar alhos e bugalhos e constatar – física e palpavelmente – que não ha senão gente neste nosso vale de lágrimas, sendo a ausência de santos e de diferenças essenciais entre os não santos – e portanto a alternância em si mesmo – a única resposta razoável ao desafio do poder. E como a acumulação de tais experiências normalmente toma mais tempo do que o que vive um homem, a História é a chave da charada. Só depois de assegurar o domínio dela é que se pode caminhar para adiante.

A História é a psicanálise das sociedades. Assim como um indivíduo só pode assumir o controle do seu destino e escolher caminhos novos depois de entender como e porque veio a ser aquilo em que se transformou, assim as sociedades.

get6

Muito mais que as tecnologias do futuro, é na reconstituição fidedigna do passado que está o valor mais importante da educação. E ninguém sabia melhor disso que Antonio Granmsci, o grande guru da esquerda brasileira.

A tática, desde sempre desonesta, foi inventada quando ainda havia um alegado objetivo moral a justificar o emprego dela. Hoje não há. Foi apropriada por cleptocracias cujo único objetivo é empanturrar-se de poder, sem distinguir as duas formas que ele assume: a da prepotência e a do dinheiro.

A esta altura, aparelhar as escolas e os demais meios de difusão da cultura para falsificar deliberadamente a História como tem feito sistematicamente o PT antes e depois de chegar ao poder, é igualar-se ao analista psicopata que se aproveita da fragilidade e da desorientação do seu cliente para induzi-lo ao suicídio.

gr

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com Lira Neto em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: