A canalha vai ao paraíso
20 de janeiro de 2014 § 13 Comentários
Eles estão como pediram ao diabo.
As capas dos jornais deste fim de semana (e quem é que consegue ir além delas?) tinha para todo mundo. Eles “tiveram acesso” a denúncias de “suposta corrupção” “envolvendo” o PSDB em delitos cometidos ha 20 anos, Marta Suplicy, do PT, em outros de ha 10, Gilberto Kassab, do PSD, por mutretas de ha quatro ou cinco, o ubíquo Jorge Murad da Roseana do PMDB, por mamar até no sangue das masmorras sórdidas de madame e mais uma meia dúzia de gatunos, todos menos um sócios do PT, mamando em falcatruas variadas.
A imprensa esforça-se por mostrar-se democrática na sua nulidade. E todo dia a lista se repete. E todo dia a lista cresce. No mais são as especulações de praxe sobre quem, no meio desse mutuo escoicear, está disposto a se juntar com quem para escoicear o próximo. E disso não passa.
A concorrência entre os “contemplados” é a isca que a canalha usa para rebaixar a disposição dos jornais e televisões de apurar aquilo a que os seus arapongas e aloprados lhes “dão acesso”. Como se um não publicar o outro publica e os Conselhos de Administração sem jornalistas que mandam no jornalismo de hoje exigem “medidas aferíveis de desempenho” (nada desses critérios subjetivos de qualidade de alienados que não se dedicam exclusivamente à nobre arte de “add value to the shareholder”) e “furo” é o que dá pra medir com régua nesse vago mundo dos escrevinhadores, o desastre se completa.
O resultado é que a imprensa que alardeia que está saneando o país fazendo exclusivamente papel de polícia está mesmo é fornecendo ao partido do “Eu sou, mas quem não é?” o grande liquidificador em que ele trata de moer todas as frutas no mesmo malcheiroso “suco de nada” diante do qual o poder de optar, que é a única arma de que dispõe o eleitor, fica completamente anulado.
É a mesma receita que eles aplicaram para transformar as esperanças ressuscitadas pela quase zebra da quase condenação dos mensaleiros em um idêntico “suco de nada” graças à mesma boa “condição objetiva” que se lhes apresentou: a falta de uma liderança das manifestações de junho capaz de expressar em português claro o que é que eles queriam à par daquilo que não queriam, de modo a se diferenciar daqueles “black blocs” de encomenda, providencialmente mascarados que, para confundir alhos com bugalhos, transformaram as ruas do país inteiro numa “zona” nos meses que se seguiram às primeiras manifestações espontâneas até que os ressuscitados do STF enfiassem suas esperanças no saco e voltassem, mudos, para a toca da desesperança de onde tinham saído. Repararam como o tal “fenômeno black bloc” em torno do qual tanto se elocubrou, desapareceu tão de repente quanto surgiu assim que se esvaziou a onda de protestos que roeu em um mês metade da aprovação da Dilma em junho? Pois é…
Deserto de liderenças e passividade da imprensa, uma coisa é consequência da outra, na verdade.
É à imprensa que cabe abrir os novos caminhos. Ou pelo menos indicar os que já estão abertos mas ninguém está vendo. Levar os olhos e os ouvidos do cidadão para além do ponto a que a canalha quer mantê-los limitados. Municiá-los com exemplos e argumentos até que surja um líder com vontade de gritá-los e capacidade de traduzí-los para as massas.
Da rua só saem lideranças revolucionárias. As lideranças reformistas, que são as que fazem o mundo andar para frente, quando surgiram, surgiram na imprensa ou pela imprensa. Isso é um dado histórico.
No jornalismo de CEO, em que os donos das empresas de comunicação abrem mão da responsabilidade de liderar a pauta da discussão nacional e os CEOs não estão autorizados a assumí-la nem que surja um com capacidade para fazê-lo, entretanto, quem assume essa tarefa desprezada é o governo e, mais especialmente, as suas polícias, arapongas e aloprados. Ou, quando muito, os governos que estão e os governos que querem estar, alternadamente, já que acusar é muito fáçil e amor com amor se paga.
Os jornais, que nasceram para ser ferramentas constitutivas do aparato institucional das democracias tão imprescindíveis que um dos inventores dela (Thomas Jefferson) dizia que a governos sem jornais ou jornais sem um governo, preferia a segunda opção, transformaram-se, no Brasil do Terceiro Milênio, em meros bonecos de ventríloqüo dos contendores da briga de navalha no escuro que por aqui se trava pelo poder. São armas que atiram a esmo as balas com que eles os carregam para alvejarem-se uns aos outros.
Charles de Gaulle, o estadista que impediu que a França “passasse do chão” depois de cair quase sem resistência nos braços de Hitler e a reergueu para o clube restrito das potências que mandaram no século 20 nos dois períodos em que esteve no primeiro posto da Nação entre o fim da 2a Guerra Mundial e 1969 quando se retirou para morrer, dizia que para governar o país e levá-lo a recuperar um papel condizente com sua história, o sujeito tinha de ter “une certaine idée de la France”.
Para governar e pautar um jornal de modo a torná-lo relevante como ele precisa ser para não se tornar dispensável na luta pelo aperfeiçoamento institucional do meio em que atua e, como consequência, um mau negócio, também é preciso ter “uma certa ideia do Brasil”.
Ainda que o tipo se proíba de propor suas próprias soluções como elemento norteador dessa tarefa – coisa que, vá lá! – tem ao menos a obrigação de divulgar as que foram testadas e aprovadas por outros povos empenhados na mesma luta que nós para crescer livres de quem lhes chupe o sangue da carótida.
A internet está aí, janela escancarada para o mundo precisando de edição, cobrindo ao vivo e em cores até o que acontece de bom nele, só que caoticamente e em inglês. E o jornalismo de CEO só fala inglês para papaguear termos adinistrativos ou financeiros em voga junto às fontes dessas especialidades encarnadas por outros “Chief Executive Officers” e seus interlocutores em “boards” de administradores de empresas que seguem, todos eles, a cartilha do “benchmarking” expressão que significa, literalmente, medir-se tomando por referência o seu semelhante, o que é o avesso de ousar e de inovar.
Funciona para fabricar parafusos e salsichas, assim como para outras atividades igualmente indiferentes à necessidade de inovação e insumos culturais.
Para promover a democracia é um desastre porque as respostas para esse desafio estão todas em inglês e como as “fontes” das seções de Política são aqueles nobres senhores de cabelo implantado e pintado que você conhece bem, que não falam inglês e têm horror a quem fale porque é nessa língua que estão os remédios capazes de varrê-los para o lixo da História, o jornalismo de CEO também abre mão do seu.
Enquanto for assim não ha como escaparmos ao “suco de nada” que disso resulta, este que, enquanto durar, garante que a canalha não sai do paraíso.


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