Por quem os sinos dobram
21 de setembro de 2011 § 3 Comments
“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
John Donne (1572 – 1631)
Uma só economia; uma só humanidade.
Passado meio milênio e no limiar da desintegração da economia mundial a partir da Grécia e cercanias, as palavras de John Donne que inspiraram tantas utopias transformam-se de devaneio poético em profecia realizada.
Não pela revolução nem pela transfiguração da nossa natureza egoísta e autocentrada com que tantos sonharam nestes últimos 500 anos mas – quem diria! – como um subproduto imprevisto da tecnologia.
Vejo nos jornais os dados de 2010 do Cense Bureau dos Estados Unidos. Mais de 46 milhões dos habitantes do país mais rico do mundo vivem abaixo da linha da pobreza. 15,1% da população. É um recorde. No ano em que, tecnicamente, a recessão iniciada em 2008 “acabou”, mais 2,6 milhões de americanos caíram abaixo da linha da pobreza.
Não é atoa que a leitura dos jornais dos Estados Unidos hoje passa-me a estranha impressão de estar lendo a imprensa brasileira dos anos 70 e 80, no auge da conflagração ideológica.
A polarização ideológica é uma consequência de se estar mal disposto, diria o Fernando Pessoa Álvaro de Campos. Modernamente isso poderia ser traduzido como uma reação exasperada à perplexidade gerada pelos problemas sem solução. A falta de perspectivas azeda os humores do bicho homem, a espécie que se caracteriza pela busca perpétua da segurança, sinônimo de previsibilidade e controle. Uns passam a culpar os outros pela parte que lhe cabe na marcha a ré geral e isso se reflete pateticamente na política.
Mas, ainda que haja muito a ser feito para melhorar as coisas em Washington e em Bruxelas, a raiz desta crise econômica não está nem nos Estados Unidos nem na União Européia. Está fora do alcance dos legisladores deles. É um reflexo da integração da China – ou melhor, “das chinas”, pesando mais de um terço da humanidade – à economia global ou pelo menos à rede que passou a ser o espaço vital em que ela se desenvolve.
Não haverá empregos nos Estados Unidos nem na Europa enquanto houver “chineses” de qualquer nacionalidade dispostos a trabalhar quase de graça e sem desfrutar de nenhum direito. E ha bilhões deles no mundo ainda…
Agora mais do que nunca, enquanto um único povo for escravo estaremos todos ameaçados de nos tornarmos escravos. Enquanto um único povo for pobre, estaremos todos ameaçados de ver nosso emprego sumir. Enquanto houver multidões que se disponham a trabalhar sem direitos, os que já os conquistaram estarão ameaçados de perde-los.
Na realidade do trabalho exportável e do mercado do tamanho do mundo, subiremos ou desceremos todos juntos daqui por diante.
A economia planetária é um sistema vaso-comunicante. E o líquido que lhe serve de medida encontrará a altura média trazendo para baixo quem está acima dela e empurrando para cima quem está abaixo.
O lado positivo é que num futuro que já se pode discernir não haverá mais extremos de pobreza. Mas até lá o trabalhador ocidental só voltará a ter o que já teve depois que o trabalhador asiático tiver o que nunca experimentou antes.
Dilma Rousseff dá sinais de ter compreendido claramente a nova realidade.
O apelo da Europa à China, o pedido de socorro do “mundo rico” aos Brics, a iniciativa dos “pobres irresponsáveis” de ontem de socorrer os novos pobres de hoje pela via do FMI são os primeiros passos da nova ordem política global que terá de vir a galope para se adequar à nova realidade econômica global que já está instalada e é irreversível.
E, como sempre, será um parto com dor, empurrado mais pela falta de alternativa que pela inteligência e pelo bom senso.
A solidariedade não é mais uma escolha ou um gesto de doação altruísta. É um imperativo de sobrevivência. Uma urgência especialmente premente para quem está descendo nesse inexorável movimento planetário de redistribuição das riquezas. Mas também uma condição para que quem acabou de começar a subir não tenha de confirmar amargamente, logo adiante, que alegria de pobre dura pouco.
Só haverá empregos e direitos para cada um se houver empregos e direitos para todos. Libertar os trabalhadores asiáticos; empurrá-los para as conquistas que já foram características exclusivas do Primeiro Mundo é a única maneira do Primeiro Mundo reconquistá-las e consolidá-las na nova realidade do Mundo Único.
Porque, sobretudo nesta aldeia global conectada em rede, nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do mercado; se um torrão é arrastado para o mar, o mundo inteiro fica mais pobre.
Por isso, ao ouvir as notícias das desgraças da Europa e dos Estados Unidos, não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.





Você precisa fazer login para comentar.