Porque os ianques me irritam tanto

29 de janeiro de 2014 § 3 Comentários

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Nos idos de 2009 e 2010, quando a crise financeira estava no auge e o Estado “saiu do armário” e se atirou sem mais cerimônias nos braços do Capital em plena pátria do capitalismo democrático, a perspectiva do suicídio da democracia era um tema obsessivo do Vespeiro. Esse suicídio seria função da completa inapetência dos políticos profissionais movidos a voto de enfrentar o pânico geral causado pela destruição maciça de empregos e direitos do trabalho provocadas pela avassaladora entrada em cena, pelas portas da internet, do capitalismo de Estado chinês e das hordas de miseráveis fabricados pelo socialismo real dispostos a trabalhar por nada e em condições desumanas, tomando o lugar dos trabalhadores dos poucos territórios do planeta onde as relações de trabalho e entre empresas e consumidores tinham atingido o grau de civilização. (Confira neste artigo.)

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Desde então a involução do Brasil para o presente padrão de getulismo mitigado louco para vestir uma farda de coronel sul-americano a que fomos arrastados pelo PT tem merecido o melhor das minhas reservas de exasperação intelectual.

O esquerdismo americano com aquele seu tom peculiar que mistura uma sinceridade infantil meio idiota de “descoberta da pólvora” própria de quem nunca tinha tido de enfrentar os leões em cujo covil o resto do mundo tem vivido, á la Opinion Page do New York Times, com a estridência mercenária dos que se apressam por atender e monetizar a demanda por um discurso “líbr’ol” (leia-se com pronúncia ianque), à la Huffington Post, entretanto, nunca deixou de merecer um lugar de honra no receptáculo das minhas descargas de bílis. E isto porque, se a do resto do mundo teoriza sobre o que nunca viveu, a esquerda americana faz pior: nega ou finge dolosamente que esqueceu a sua própria história e mesmo a excepcionalidade da condição em que vivem ainda hoje sem ter a desculpa da desinformação e do analfabetismo centralmente planejados que nós outros temos.

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Hoje foi dia.

Levou-me a voltar a eles o artigo Capitalism vs. Democracy, de Thomas B. Edsall, comemorando no NYT (aqui), assim num tom de “Eu não disse!”, o livro de Thomas Piketty – Capital in the Twenty-First Century – que vem sendo festejado pela esquerda ianque como “um marco da ciência econômica”.

Ali afirma-se sem mencionar uma única vez as palavras “China”, “internet”, “exportação do trabalho” e “monopólio” (= a sociedade entre Estado e Capital), que o feroz efeito de concentração de renda que eu apontava nos artigos de 2009/2010 como o veneno que inevitavelmente faria isso, matará o capitalismo democrático. E fará isso pela extinção de todo o entusiasmado apoio que ele tinha entre a pequena parcela da humanidade que sempre desfrutou dele e que, recordo eu, em função disso avançou tanto nas ciências e no progresso material que conseguiu derrotar sozinho todos os totalitarismos selvagens que tentaram destruí-lo ao longo do século 20.

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E porque me irritaria tanto ver confirmado o meu próprio vaticínio?

Porque o ultra titulado senhor que, apesar do nome soando inglês, escreve originalmente em francês e leciona na Escola de Economia de Paris – e talvez venha daí a desonestidade essencial dessa sua “análise” que os aposentadocratas gauleses repetem sem nenhuma alteração desde antes dos tempos da fundação da USP na sua mauvaise conscience de quem sempre viveu às custas do Estado – afirma que esse processo de concentração de renda não é o resultado da derrota do capitalismo democrático pelo capitalismo de Estado – o nome do socialismo do Terceiro Milênio que trocou os kalashnikovs pelos bilhões de dólares – mas sim o fruto necessário das “contradições internas” do próprio capitalismo e blá, e blá, e blá

Um discurso de Zé Dirceu em tempos de centro acadêmico, em outras palavras. O da Papuda já não o repetiria sem piscar marotamente um olho e pôr um sorriso cínico nos lábios…

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Mas vai mais longe o homenzinho que o NYT leva tão à sério. Ele tem o requinte de afirmar que o “hiato” de justiça social e justa distribuição da renda vividos pelos Estados Unidos entre 1914 e 1973 – 60 longos anos! – deveu-se às guerras mundiais, à crise de 29 e a outros terremotos que fizeram os ricos perder dinheiro, veja você!

Não foi a condição dos pobres de ganhá-lo que melhorou. Não foi a extinção das mumunhas entre os donos do poder e os donos do dinheiro, essas duas invenções do diabo para catar gente para os seus porões, que as proporcionou. Não foi o triunfo do merecimento sobre a corrupção que fez a mágica.Tudo aquilo que compôs o “sonho americano” não aconteceu de fato; foi só uma ilusão que afetou misteriosamente milhões de trouxas dispostos a morrer por ela em territórios alheios pelo mundo afora.

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A coincidência exata de datas entre a única ocasião em que o Estado e o Capital foram forçados pela conquista de instrumentos de democracia direta pelo povo dos Estados Unidos da América como o voto distrital com recall entre outros, mediante as reformas da Progressive Era encerradas precisamente em 1914, a permanecer afastados um do outro respeitando estritamente a fronteira entre as funções de cada um, especialmente na ordem econômica, e o maior surto de progresso vivido pela humanidade em todos os tempos não sugere sequer uma hesitação a este honesto “pensador”.

Não, monsieur Pikkety não faz concessões aos conceitos de causa e efeito. Sugere um “imposto global” para tirar dinheiro dos ricos e entregá-lo aos pobres, como estes que o PT nos impõe, de quase 40% do PIB na entrada que viram 1 ou 2% do PIB na saída da esmola do Bolsa Família e deixam esta Brasília morbidamente obesa e os vendedores de “assesso” aos cofres e obras “públicos” ainda fora da Papuda podres de ricos pelo meio do caminho. Ele quer insistir nesse remédio que todo o mundo que permaneceu onde estava em 1914 ao longo de todo o século 20 seguiu usando.

Admite, entretanto, que é impossível coordenar o mundo de hoje em torno desse “imposto global” e que portanto, pela falta dele, a democracia não resistirá.

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De modo que para apaziguar-me a urticária intelectual só resta mesmo correr de volta para o unguento do bom senso honesto do professor Fabio Barbieri, também recentemente citado aqui.

É ele que nos lembra que “não existe a dicotomia capitalismo-socialismo mas sim economias em pontos variados da distância que separa as quimeras teóricas da economia pura de mercado x a economia totalmente planificada”; que o poder de legislar sobre assuntos econômicos “abre a caixa de Pandora da dedicação à busca de privilégios legalizados”; que essa “pilhagem legalizada” elevada à condição de profissão dos poderosos gera um impulso permanente ao crescimento do Estado e da sua interferência nos mercados para aumentar os ganhos desses mercenários e que, quando essa pilhagem sistemática finalmente leva uma economia nacional à breca, logo surgem os intelectuais que vivem à sombra do Estado para dizer que o fracasso foi do capitalismo e do mercado e não da intervenção do Estado que mandou os dois a escanteio e que, portanto, é preciso mais intervenção…

Sobre aquele “hiato” de 60 anos, os únicos da história da humanidade durante os quais vigorou o capitalismo democrático num canto do mundo que por isso se tornou mais rico e mais sábio que todo o resto do planeta somado,  diz o dr. Barbieri, agora com mais sobradas razões, que foi mesmo um hiato, nada mais que um hiato: “o intervencionismo, em outros tempos chamado de mercantilismo, não é transitório mas sim a forma de organização social mais estável da História”, c.q.d.

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As novas versões de um velho filme

20 de dezembro de 2013 § 1 comentário

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O professor Fabio Barbieri da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-USP), está lançando o livro “A Economia do Intervencionismo”, que torna mais fácil entender o Brasil e o mundo de hoje.

Alinho trechos que achureei de um artigo que ele próprio publicou na internet – “A Maré Estatista na América Latina e a Teoria do Intervencionismo” – acrescidos de alguma “costura” desses pedaços de minha autoria, para explicar a sua tese.

Veja lá se não faz sentido:

A teoria econômica de ciclos intervencionistas é inspirada na obra do economista austríaco Ludwig von Mises que desnudou as “contradições internas” do intervencionismo.

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A coisa consiste em analisar o intervencionismo como um sistema econômico em si: substituir a dicotomia “capitalismo-socialismo” pela dicotomia “economia pura de mercado—economia planificada centralmente” e em reconhecer que os países do mundo real não são capitalistas ou socialistas, mas economias mistas situadas entre os extremos de estado zero e estado máximo.

O mecanismo funciona assim: o poder de “legislar” sobre assuntos econômicos abre a caixa de Pandora da atividade de se dedicar à busca de privilégios legais. Essa possibilidade de “pilhagem legal“, de que ja falava Bastiat no século 19, gera uma tendência ao crescimento do estado e de sua interferência nos mercados, situação que, por sua vez, aumenta o ganho de se dedicar à atividade de busca de renda em comparação à atividade de produção.

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O abuso desse círculo vicioso vai gerando distorções cada vez maiores: políticas keynesianas que pretendiam estabilizar as economias geram déficits crônicos que perpetuam os desequilíbrios macroeconômicos; a construção do estado de bem-estar falha em resgatar a população da pobreza e acaba causando dependência, e assim por diante.

As falhas de governo, entretanto, geram demanda por mais intervenção, na medida em que a ideologia intervencionista joga a culpa de seus próprios fracassos no “capitalismo” e não no próprio intervencionismo. Veja-se o exemplo recente da reação-padrão à crise econômica iniciada em 2008 em que novas intervenções são adotadas para corrigir o que na verdade é fruto de intervenções anteriores.

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Os intelectuais, por sua vez, buscam uma mítica “terceira via“, ignorando o fato de que nossos males são causados justamente por vivermos numa terceira via.

Bem olhados os fatos, portanto, a conclusão é de que o intervencionismo (ou mercantilismo) não é transitório, mas sim a forma de organização social mais estável da história, levando em conta as sociedades que avançaram além de um estágio tribal.

Quando o abuso dessa “pilhagem legal” vai ao paroxismo e a economia se desorganiza, recorre-se a reformas liberalizantes. Mas assim que elas aliviam os males causados pelo acúmulo de intervenções, aumenta novamente a demanda pelas mesmas intervenções.

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A teoria esboçada no livro, conclui Barbieri, se assemelha a um modelo biológico de parasita-hospedeiro, empregado para explicar a dinâmica do intervencionismo. A atividade parasitária mina a vitalidade do hospedeiro, de forma que no longo prazo o parasita é enfraquecido, gerando a necessidade, por assim dizer, de hospitalizações liberalizantes, o que caracteriza o sistema de ciclos de intervenção alternados com hiatos liberalizantes.

Os efeitos desses ciclos numa realidade globalizada onde as economias nacionais funcionam como vasos comunicantes são de longo alcance.

Eis como Barbieri explica o que vem acontecendo na América Latina:

A inundação de crédito orquestrada pelos bancos centrais dos países desenvolvidos, em especial o americano (Fed), responsável pelo ciclo de crescimento artificial que resultou na crise econômica recente, influenciou diretamente a dinâmica do ciclo interventor na América Latina.

No Brasil, a abundância de crédito externo alimentou o crescimento do estado intervencionista, virtualmente silenciando as vozes que apontam para a urgência de reformas.

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O mesmo boom artificial inflou o preço do petróleo, que sustentou a recente experiência socialista na Venezuela, restando saber, sobre esse país, se a presente estagnação com inflação e escassez de produtos básicos levará ao abandono do chavismo e a uma fase de contração do estado, ou se teremos um empobrecimento secular, como ocorre na Argentina, que não consegue se livrar da herança peronista.

É o mesmo horizonte, acrescento eu, que se desenha para o Brasil se ele se entregar de corpo e alma ao lulopetismo, condição de que de modo nenhum o país está distante neste momento.

Barbieri, aliás, é um economista “estranho” no ninho das universidades que fizeram do Brasil este fenômeno inédito no mundo que é um país com 32 partidos políticos, todos “de esquerda”, disputando os votos de uma sociedade onde, dos comedores de caviar aos comedores de calangos, os primeiros se afirmando mais radicais que os últimos, todos também se declaram “de esquerda”.

E como tal, fotografa nos termos precisos e polidos da academia sem aspas a realidade que a “academia” com aspas tenta esconder, pelo mundo afora, mantendo vivas as ideias mortas dos séculos 19 e 20 para distrair as plateias acostumadas a tragar produtos similares made in Hollywood.

Já é coragem demais para quem está na posição dele.

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Faltou registrar, nessa sua objetiva leitura da realidade que vivemos, que de Vladimir Putin às “aposentadocracias” da velha Europa ha diversas gradações de brutalidade no uso desse expediente, que é sempre de dominação.

Ele persiste e se universaliza porque é a mais eficiente ferramenta de aquisição e perpetuação no poder à disposição daquela parcela dos grandes predadores que se entregam mais complacentemente à sedução do tipo de eflúvio cuja sintética descrição celebrizou lord Acton: “O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente“.

Se já não é mais possível cortar cabeças e sujar praças de sangue impunemente para se manter no poder como se fazia antigamente, continua sendo perfeitamente possível assassinar economicamente os dissidentes e premiar com as blandícias da abundância fácil os que vendem sua alma ao “rei”.

Faz-se hoje com o dinheiro sujo o que antigamente fazia-se com a espada e o machado mas, essencialmente, trata-se da mesma coisa. É apenas uma reedição  “XX rated” (ou apenas “X rated” na Europa e outras praças de pele mais sensível do que estas curtidas nos trópicos) do mesmo velho feudalismo “XXX rated” de ontem.

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Ligando o foda-se

1 de março de 2013 § 2 Comentários

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Quanto mais esperneia mais se enreda?

É bem pior que isso. Dilma desistiu.

Ou talvez nunca tivesse procurado tentar pra valer.

Passadas 24 horas da reencenação em São Paulo da peça levada no dia anterior a investidores internacionais em Nova York, o governo anuncia a criação de “um fundo para repassar diretamente a bancos estatais e privados recursos subsidiados para financiar projetos de concessão” de equipamentos de infraestrutura.

Privataria por privataria, esta é explícita.

O Tesouro emitirá títulos de dívida pelos quais promete pagar juros tentadores e repassará o dinheiro obtido aos bancos com juros menores que os que pagou. E estes os repassarão às “empresas privadas” que tomarem para si a construção dos portos, aeroportos, ferrovias e estradas que o governo deixou de fazer nos últimos 10 anos.

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A manobra já nasce dotada da mesma manteguiana gambiarra para que a dívida assim emitida não apareça nas contas oficiais que afugentou todos os investidores sérios que viram na “matemática criativa” do PT o sinal inequívoco de que a estabilidade tão duramente conquistada pela economia brasileira está condenada à morte: o Tesouro emitirá a dívida mas contabilizará um “ativo” do mesmo valor (as cotas do tal fundo), assim como já ocorre nos empréstimos que faz ao BNDES.

E havia alternativa?

Havia.

Armando Castelar Pinheiro, hoje no Valor, explica melhor que eu ontem (http://www.valor.com.br/opiniao/3027654/barreiras-ao-crescimento) como o PT se enfiou nessa arapuca e como poderia se livrar dela. Bastaria aumentar os juros até o nível em que voltasse a ser atraente investir no Brasil o que, de quebra, deteria a inflação que já vai passando do trote para o galope.

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Mas aí o que Dilma faria com aqueles lindos anúncios do Reynaldo Gianecchini contando ao povão como a heroica “presidenta” mais o Banco do Brasil puseram os bancos privados de joelhos e baixaram os juros que permitem que todos comprem automóveis e geladeiras novas; “Bom para você, bom para o Brasil”?

Negativo…

Ciente de que com um pibinho de 0,9% não há libido que resista, o PT prefere montar essa operação triangular onde os banqueiros privados, como sempre, lucrarão rios de dinheiro sem riscos e oferecer aos aventureiros que se dispuserem a aceitar esse jogo condições “irresistíveis” (dinheiro “nosso”, 30 anos de concessão a 15% ao ano, cinco de carência), daquele tipo que, ou nos condena a todos a afundar definitivamente em custos proibitivos para o uso desses equipamentos, ou condena quem comprar esse desafio a perder o que investiu logo além da primeira curva.

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E tudo para chegar a 2014 com Gianecchini desfilando nas telas com aquela conversinha pra boi dormir.

Espaço para dúvidas sobre o alcance, a sustentabilidade e o efeito real de tais malabarismos nãp tem mais faz tempo. O mundo já sabe de tudo. Os jornais de hoje registravam que a Bovespa, com – 24,97%, teve o pior desempenho do mundo, consideradas 48 bolsas de valores ao redor do globo.

A conclusão, portanto, é que o PT, definitivamente, ligou o foda-se. Vai pras cabeças para chegar à eleição de 2014 tomando injeções na veia.

Depois vê-se. Sabe-se lá, com o ritmo da desmoralização em que vai a política partidária, se ainda teremos eleições em 2018…

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Uma velha fábula tropical

28 de fevereiro de 2013 § 1 comentário

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Reunida com seus empresários amestrados do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o “Conselhão”, a presidente Dilma repetiu ontem o que o dr. Guido Mantega tinha ido dizer anteontem a uma plateia de investidores internacionais em Nova York aos quais tentava vender projetos de infraestrutura no Brasil: que “o governo vai trabalhar para garantir que os investimentos necessários sejam feitos com estabilidade juridica clara, remunerados devidamente e tenham financiamentos de longo prazo”.

Esse tipo de promessa, porém, é uma contradição em termos posto que “segurança jurídica” é, exatamente, o investidor privado poder prescindir de ou ignorar olimpicamente as promessas presidenciais porque onde ela existe de fato o presidente não tem força para mudar as regras do jogo com a bola em campo, nem para bem, nem para mal.

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Depois de cinco trimestres seguidos de quedas nos investimentos Dilma corre atras do prejuízo acumulado nos dez anos de cigarra em que o PT entoava loas a si mesmo e dava lições ao mundo enquanto distribuia automóveis e eletrodomésticos baratos à farta e deixava displicentemente de lado o trabalho de formiga para prover o país de estradas, ferrovias, portos, aeroportos e outros elementos imprescindíveis ao funcionamento da economia nacional.

Agora que se anuncia o inverno do PIB, corre atras de R$ 235 bi para repor a toque de caixa o que dispersou comprando popularidade fácil nos tempos de fartura.

É por isso que a presidente tem feito das tripas coração para recitar o script que todo investidor gostaria de ouvir. Ontem recorreu até à “cola” desastradamente flagrada em fotografia publicada no Valor.

Mas quanto mais esperneia mais se enreda.

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A promessa de taxas de retorno de 15% ao ano para a exploração de rodovias e de 12,5% para a de ferrovias, por exemplo, provocaria a entrada em cena da polícia em qualquer país onde houvesse segurança jurídica de fato, tão escandalosamente infladas que são num mundo de juros negativos.

No país do PT, no entanto, nem essa quantidade de sangue na água é suficientes para reverter o “instinto animal” dos empresários da condição de defesa para a de ataque, e não é difícil entender porque.

Menos de 48 horas antes dessa promessa, para não irmos longe, o governo suspendia a implementação da MP 595, que trata da modernização da gestão dos portos, diante da simples ameaça de uma greve dos portuários cujos “direitos adquiridos” graças aos esforços de sindicalistas do partido em tempos idos implicam a imposição de um imposto proibitivo e arrasador sobre todo produto que entra ou sai do país.

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É essa a “trave” onde batem todas as bolas levantadas pelo “Conselhão” que a presidente tenta cabecear para o gol. Seus ingentes esforços para recriar uma “lógica de mercado” à sua imagem e semelhança esbarram sempre nos privilégios intocáveis de alguma clientela importante ou mesmo no cerne do esquema de poder em que o PT se apoia.

Primeiro aumentam-se os salários sem aumentar a produtividade. Aí os empresários amestrados avisam que a conta não vai fechar. Então ela reduz por decreto o peso dos impostos sobre as folhas de pagamento aqui e ali, corta na marra as contas de luz e comprime o preço dos combustíveis para promover o “ganho de podutividade” ausente da equação.

Mas a redução na arrecadação sem a correspondente redução de gastos pressiona o déficit público, o corte na conta de luz no tranco afugenta os investidores, o tamponamento do preço dos combustíveis detona as contas da Petrobrás.

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A inflação começa, então, a por a cebeça para fora da toca. Mas como não da para cortar nem o assistencialismo que compra votos, nem o numero de funcionários que são o núcleo duro da militância petista, nem os “direitos especiais” dos sindicatos que mandam nos portos, o Copom fica balbuciando desculpas enquanto entra em cena a “matemática criativa” com que o dr. Mantega, todo pressuroso, trata de por os resultados onde sua magnânima excelência quer vê-los…

E aí não adianta jurar de pés juntos que “o controle da inflação é um valor em si”: ninguém consegue ver no frankenstein costurado por dona Dilma a pin-up que, em sua imaginação, ela pensa estar desfilando para os empresários, e o pibinho dos investidores encolhe cada vez mais. Até Jorge Gerdau, que se senta na cabeceira do Conselhão, anunciou a redução dos investimentos nas suas próprias empresas para os próximos cinco anos…

O problema é que nestes nossos trópicos as cigarras é que fazem as leis e, na hora do vamos ver, as formigas sempre ficam com a conta da festa de que que não participaram.

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Seja um filho da puta que o governo garante

19 de setembro de 2012 § 2 Comentários

A democracia foi inventada para opor o Estado ao Capital e dar uma chance aos peixes. Porque quando esses dois tubarões se unem, todo o resto é só comida. O problema é que a soma da China com a internet está empurrando o mundo inteiro para essa receita, nossa velha conhecida.

A Petrobrás já perdeu mais de metade do valor que já teve no mercado internacional desde o início do governo Lula, apesar de ter anunciado, nesse mesmo período, nada menos que 63 descobertas de petróleo no pré-sal em volumes que, afirmam os petistas, porão o Brasil em pé de igualdade com os países árabes em matéria de petróleo.

Nessa pequena charada encerra-se a chave para o entendimento do velho dilema brasileiro que explica porque, para quem olha para um pouco adiante da ponta do próprio nariz – categoria dentro da qual estão também os investidores internacionais de longo prazo – os números brilhantes que os governos petistas não se cansam de alardear não provocam júbilo nenhum mas, ao contrário, assustam e afugentam.

Esta tarde mesmo, leio num site de notícias econômicas, as ações da Petrobras caíam outros 3  a 4% “em função de declarações de Maria das Graças Foster de que não há prazo a vista para o início da correção dos preços dos combustíveis“, defasados em mais de 50% nesta véspera de eleição.

O movimento “inverteu a tendência anterior de alta puxada pelos mercados internacionais que reagiam à última medição de desempenho do mercado imobiliário dos Estados Unidos“.

Declarações políticas de um lado, medições de desempenho do outro.

Este é o “X” da questão.

Na semana anterior, as ações das elétricas perderam, em um só dia, R$ 14,5 bilhões em valor depois que a presidente Dilma anunciou, ao iniciar sua participação direta na campanha de Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo, que haverá grandes reduções nas contas de eletricidade dos consumidores industriais e residenciais.

Obviamente, quando alguém perde R$ 14,5 bilhões numa tarde na Bolsa, outro alguém ganha esse mesmo valor. E se o que determina saltos dessa grandeza são declarações de políticos é de todo provável que pessoas do entorno de quem as vai dar fiquem sabendo antes o que vai acontecer.

Quanto vale a informação que pode render R$ 14,5 bi numa única tarde? Impossível resistir…

Mas esta é só a pequena corrupção que se torna inevitável num sistema sujeito a esse tipo de interferência.

Para o investidor o pior é a instabilidade que o ativismo do governo acaba gerando” diz Mauro Rodrigues da Cunha, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais. “É difícil imaginar hoje um setor que não esteja sujeito a essa falta de previsibilidade“.

Somente na semana passada mais de 100 tarifas de importação foram aumentadas, na sequência de uma série de anúncios semelhantes feitos nas semanas anteriores. Cada uma dessas movimentações determinou enormes perdas para quem acreditou na regra anterior e possíveis ganhos para quem estava na outra ponta sem que o mérito ou qualquer outra coisa de concreto tivesse a menor interferência no processo.

Hoje a Bolsa de Valores de São Paulo, que vinha financiando a produção no Brasil com dinheiro barato depois das reformas dos anos 90, está reduzida a isso: um espelho da grande loteria das decisões do dia do governante de plantão em que se vai transformndo a luta para ganhar o pão de cada dia neste país.

E isso reconfirma todos os céticos que apostaram na esperteza e derruba, mais uma vez, todos os brasileiros que acreditaram que esforçar-se e fazer por merecer não é sempre um logro ao Sul do Equador.

Por todas as empresas, por todas as escolas, em todos os lares brasileiros essas notícias estão se desdobrando em duras realidades neste preciso momento: quem investiu no trabalho chora a “puxada no tapete”; quem investiu em cabalar as pessoas certas para que o seu produto entrasse na lista dos protegidos da semana festeja o “empurrãozinho” com os bolsos recheados.

Ora, se já éramos um dos países mais fechados do mundo, agora somos mais. E se podemos contar sempre com a proteção do governo contra a eficiência alheia, estudar pra quê? Gastar dinheiro com educação pra quê?

Uma coisa puxa a outra…

Sem investidores de longo prazo nas bolsas não ha dinheiro barato para financiar a produção nem mérito a determinar quem sobe ou desce a rampa. O governo tem, então, de entrar em cena para prover as aposentadorias que, no mundo, os fundos de ações que financiam a produção é que sustentam.

E aí, começa: para “os nossos“, contribuições parciais e aposentadorias integrais; para os demais, contribuições integrais e aposentadorias parciais. Com o tempo, fica assim: o funcionário público brasileiro, que paga um milésimo da conta, tem em média aposentadoria 36 vezes maior que o brasileiro comum que paga as 999 partes restantes. O troco é que cada um deles vira um agente eleitoral de quem lhe garante a mamata.

E a produção? Por um tempo, o BNDES segura. Mas só pros amigos. Os 28 fucking-mega-giga-power “empresários” do Conselho de Gestão da Presidência da República, pesando, por enquanto, 2/3 do PIB brasileiro, recebem a parte do leão e decidem quem entra e quem não entra para a próxima lista dos protegidos.

Em troca…

“Filtra de novo”:

O problema não é haver corrupção, defeito inerente à espécie humana“, dizia há mais de 100 anos um memorável presidente americano. “O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo“.

Seja um filho da puta que o governo garante“, repetem, ad aeternum, os atos dos nossos.

Como defender um sistema desses? Daqui a pouco, quando só restar memória viva dele, acaba-se com o fingimento e parte-se logo pra porrada, pondo o jogo todo por cima do pano.

Tá comigo? É tubarão. Não tá? É peixe. Metade da Europa já foi assim. Muito mais da metade do mundo ainda é…

A democracia foi inventada para opor o Estado ao Capital e dar uma chance aos peixes. Porque quando esses dois se unem, o resto todo é só comida.

É por aí que a coisa vai. E o pior é que a soma da China com a internet estão empurrando à força o mundo inteiro para essa receita.

E as mães das favelas, que dormem com esse barulho, que dêm tratos à imaginação para argumentar com seus filhos adolescentes que o melhor para eles é estudar (naquela sórdida escola pública) e não entrar para o tráfico.

Onde estou?

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