29 de novembro de 2024 § Deixe um comentário


Thomas Firedman escreveu anteontem (27) um artigo absolutamente imprescindível. O titulo era “Mr. Trump, do you realize how much the world has changed since you were president?” (“Sr. Trump, você tem noção de quanto o mundo mudou desde que você foi presidente?”)
O artigo juntava dois temas que não têm necessariamente muito a ver um com o outro, mas as duas partes são imprescindíveis.
A primeira dava conta de informações colhidas por uma viagem recente dele a Israel:
A derrota que Israel impôs ao Irã no bombardeio de 26 de outubro e nos lances que o antecederam foi a maior vitória jamais obtida pelo país desde a Guerra dos 6 dias em 1967.

A operação do Mossad e da Unidade 8200 de cyber-guerra, de plantação de explosivos nos pagers e walkie-talkies do Hezbolah literalmente dizimou o comando do grupo.
Na sequência, todos os principais depósitos de armas, equipamentos e infraestrutura, tanto no Líbano quanto na Síria, foram totalmente arrasados.
Mas mais importante que isso: a nave-mãe do Hezbolah e do Hamas, o Irã, sofreu um golpe cirúrgico mas arrasador no bombardeio de 26 de outubro passado. Em abril eles já tinham destruído uma das quatro baterias de mísseis russos S-300 do sistema de defesa aérea de Teerã. Em outubro destruiram os outros três.
Mas não foi só: também foram seriamente atingidas as fábricas de combustíveis sólidos para foguetes e as dos explosivos que cercam as cargas de urânio em artefatos nucleares.

O Irã está, no momento, e por muito tempo à frente, sem armas de defesa e sem armas de ataque, e não têm a menor noção de como foi, tecnologicamente falando, que foram atingidos com tanta precisão.
Daí a trégua que acaba de ser negociada e a perspectiva de que o Hamas também venha a negociar com Israel nos próximos dias.
O perigo para Trump, nessa área, segundo Friedman, é só o de se associar sem restrições ao exagero do que Netanyahu está faz medo em Gaza porque quem o segura no poder, e evita que sigam os processos por corrupção que podem levá-lo à prisão, são os partidos ortodoxos que querem avançar colônias e continuam impedindo negociações com a Autoridade Palestina, num mundo em que isto está reacendendo a chama do anti-semitismo.
A segunda parte do artigo é, porém, aterrorizante.
Nela Friedman relata o que ouviu na Google DeepMind Conference sobre a evolução da Inteligência Artificial.
O que está engatilhado para entrar em cena em algo entre 3 e 5 anos é a “Inteligência Artificial Polimática”, que integrará a capacidade de aprendizado cruzado em inúmeras áreas do conhecimento pelos computadores, o que os colocará acima da capacidade humana em praticamente todos os campos do conhecimento (“eles podem até inventar uma língua que não entendemos para se comunicar”) e afetará literalmente todos os empregos hoje existentes.
E, pior, se isso cair em mãos mal intencionadas, porá em perspectiva a possibilidade de eventos de extinção da civilização como um todo.

Assim, se Trump pensa que vai ser julgado no futuro pelo grau de sucesso que possa ter na guerra comercial com a China, ele está enganado. Tanto ele quanto Xi Jinping serão julgados pela avaliação do quanto foram ou não rápidos, eficientes e colaborativos o suficiente para criar um arcabouço de defesa técnica e ética mínimo da humanidade contra a tempestade da Inteligência Artificial que está se armando no horizonte.
Leia a integra do artigo neste link: https://www.twincities.com/2024/11/27/thomas-friedman-mr-trump-do-you-realize-how-much-the-world-has-changed-since-you-were-president/
Novas tecnologias, velhos problemas
27 de setembro de 2016 § 19 Comentários
Artigo para O Estado de S. Paulo de 27/9/2016
Estive segunda-feira, 19, em Belo Horizonte para o 7º Fórum Liberdade e Democracia do Instituto de Formação de Líderes. Bom ver empresários investindo tempo, dinheiro e competência não só para melhorar o Ebitda do próximo exercício mas para tornar o meio ambiente intelectual e institucional brasileiro tão acolhedor para o empreendedorismo, a inovação e a criação de empregos e riqueza quanto já foi quando crescíamos mais que o resto do mundo.
Reconfortante reencontrar um Brasil preocupado em “cultivar”, conceito que para além do de plantio embute o de educação para o melhoramento de “sementes” e o bom desenvolvimento delas, depois desses anos todos de usurpação da cena pelo “extrativismo selvagem” desses personagens sinistros da beira da economia privada que encosta na politicalha para assaltar o Estado e submeter a Nação pela corrupção.
Não ha outro caminho senão um esforço metódico de reeducação promovido pelo Brasil que presta para reconstruir sua identidade perdida e retomar o protagonismo para reerguer o país do tsunami de amoralidade em que se afogou.
Por todo o medo misturado a encantamento que despertam era inevitável que num evento sobre “Liberdade de Escolha na Era da Inovação” as novas tecnologias, neste limiar da conquista da autonomia do seu próprio desenvolvimento futuro com o advento da inteligência artificial predominassem nas apresentações. A “liberdade de escolha” ficou como de fato está no mundo do aqui e agora: no segundo plano a que a relegou a inexorabilidade dessa revolução para a geração “que testemunhará a morte da morte pelo desenvolvimento da medicina e da biogenética em menos de 30 anos” e passará a “viver para sempre” numa ainda indefinível conjuntura da qual estarão ausentes todas as estruturas conhecidas de produção e de trabalho…
…ausentes estas mas com certeza não, é bom não esquecer, a eterna força de corrupção que “O Poder” exerce sobre nossa espécie…
Ha muita confusão no ar. O fato da tecnologia estar provocando a “disrupção” dos poderes do Estado Nacional não é uma notícia tão boa como pode parecer à primeira vista para todos quantos têm bons motivos para festejar a queda dos seus antigos algozes. Esses poderes estão apenas sendo substituídos por outros ainda mais amplos. A tecnologia muda muita coisa mas não muda a natureza humana. E a única que não tem visto qualquer desenvolvimento desde a sua versão “ponto3” que data de 1776 (Atenas, Roma, Inglaterra/EUA) é a que trata de manipular essa natureza para permitir ao homem proteger o homem do homem, dita “democracia”. Nada melhor foi inventado ainda.

Acontece que a liberdade se materializa, dentro das sociedades economicamente orientadas em que nos congregamos, essencialmente nas nossas dimensões de produtores e consumidores. Nada da vasta coleção de “direitos” que se abrigam por baixo do grande chapéu da “cidadania” se transforma em realidade palpável se não houver um grau suficientemente amplo de opções de livre inserção e mobilidade nos universos do trabalho e do consumo.
Isso é ponto pacífico, conforme já ficou provado com rios de lágrimas e sangue, mas não é tudo.
Tendo assumido a forma que lhe deu a elite intelectual do Iluminismo que emigrou para o “Novo Mundo” em função do “milagre” da disseminação da propriedade da terra em pleno feudalismo europeu que a “descoberta” da América ao norte da nossa proporcionou, a História permite afirmar com segurança que a “democracia.3” foi antes a resultante que a causadora daquele inédito processo de distribuição de riqueza. O processo de reconcentração da propriedade chegou, entretanto, ao auge nos Estados Unidos da virada do século 19 para o 20. Para salvar da morte o capitalismo que a democracia engendrou pela retirada do apoio popular que teve durante a fase de aumento da riqueza coletiva, a legislação antitruste foi adicionada à receita original. Essa reforma estabeleceu, agora formalmente, a preservação das liberdades essenciais de escolher um trabalho e negociar preços justos com uma multidão de fornecedores sem as quais nenhuma outra se estabelece como o “Valor nº 1” do sistema, acima até das conquistas do indivíduo pelo merecimento que definem a revolução americana.
Só que a diluição da “democracia.3” no oceano sem fim da miséria dos egressos do socialismo que a internet derramou da Ásia para os mercados de trabalho e de consumo planetários a partir dos anos 80 do século 20, agora sem leis nem fronteiras, empurrou o que foi o capitalismo democrático de volta para a competição sem limites que tende aos monopólios e quase o matara um século antes.
A sinuca sintetizada na alternativa “crescer ou morrer» é de longe o maior desafio que a causa da liberdade já enfrentou. Se Estados Nacionais desenfreados como o brasileiro têm o poder de dar ou tirar a condição de sobrevivência econômica do indivíduo, as gigantescas entidades globais que as novas ferramentas engendraram e engolem tudo à sua volta em escala planetária e à força de bilhões terão amanhã, como demonstraram muito convincentemente os entusiastas das novas tecnologias no evento de Belo Horizonte, o poder de prover ou negar até a vida eterna a quem lhes interessar possa.
Foi sempre complicada essa história de homens que, por não serem anjos, requerem ser governados por outros homens que não são anjos de que falava James Madison. Agora que é de toda a humanidade que se trata não ficou mais fácil. Mas tanto a doença quanto o remédio continuam sendo os mesmos de sempre: “democracia“, com pesos e contrapesos, na economia inclusive e principalmente.
O consolo para os últimos da fila, como nós, é poderem sempre copiar o que já está feito e deu certo como fizeram os japoneses, os coreanos e estão fazendo os chineses, e passar voando por cima dessa anacrônica miséria a que nos deixamos reduzir para nos juntarmos ao resto da humanidade no enfrentamento apenas dos problemas que ainda não se sabe como resolver. Basta quere-lo o bastante.

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