Lula, a Líbia e o lado errado da História
22 de agosto de 2011 § 1 Comment
E já que estamos em histórias da família, aqui vai outra que vem a calhar para este momento.
Sempre que ouço falar em “novas auroras para a humanidade” (ou até em versões mais prosaicas do mesmo conceito como o nosso “nunca antes na história deste país”) sinto um calafrio.
Meu pai sempre conta que quando a ditadura Vargas nos tomou O Estado (em março de 1940) e a família estava na maior draga, qualquer esperança no futuro dependia de que alguém conseguisse arrancar o Hitler da jugular da Europa. Então veio a queda da França (em junho de 1940) e foi o maior desespero.
A parada parecia definitivamente resolvida. O nazismo ia dominar o mundo…
E enquanto as esperanças iam pelo ralo, com o pai dele exilado já havia mais de dois anos, a mãe chorando potes debruçada sobre o rádio ouvindo as notícias da Europa nas ondas curtas da BBC e os alemães marchando por baixo do Arco do Triunfo, o Getulio saudava a tomada de Paris com um discurso que começava assim:
“Uma nova aurora desponta para a humanidade…”
Eu quase posso ouvi-lo em minha imaginação, cheio dos “eles” e “erres” típicos dos gauchos, naquele som meio longinquo e chiado do radio de antigamente.
Me lembrei disso esta manhã quando li o artigo de Clovis Rossi, na Folha, dizendo que a queda de Trípoli deixa o Brasil do lado errado da História. E eu mesmo escrevi, semana passada, que é a primeira vez que isso acontece.
É verdade. Mas foi por pouco.
O Getulio Vargas hoje é tido como o grande herói da esquerda brasileira e esse discurso sumiu dos anais. Mas eu sei por fonte direta que ele esteve lá. A verdade histórica é que, até o momento em que não deu mais para continuar nessa, Getulio foi um fervoroso admirador do Hitler que, se fosse para nos enfiar na guerra, teria sido como o quarto elemento do “Eixo” (Alemanha, Itália e Japão).
Tinha razão.
Ele caiu depois que os soldados brasileiros voltaram da Itália se perguntando porque, diabos, deveriam continuar tolerando uma ditadura em casa depois de terem ido morrer pela democracia na Europa.
Uma boa quantidade dos que, logo adiante, vieram a se tornar os próceres da nossa esquerda, aliás, eram, naquela mesma época, “integralistas”, uma gente que gostava de vestir uniformes que lembravam os dos nazistas, fazer um tipo de “saudação” com o braço quase igual à deles e pensar as mesmas barbaridades que eles pensavam.
Nada a estranhar.
Afinal, a própria União Soviética, pátria do socialismo real que naquela época todos veneravam (e depois os mais desonestos entre eles continuaram venerando até que caísse de podre contaminada pelos seus próprios crimes) também tinha se aliado ao Hitler num acordo que só não permaneceu em pé porque o alemão era um louco furioso que atacava até os amigos.
Mas a verdade que remanesce é que antes que as doenças de cada um se exacerbassem a ponto de tornar as coisas mais claras, o socialismo bolchevista russo encontrava mais afinidades com o nacional socialismo alemão que com as democracias ocidentais.
O resto do mundo já sarou dessa doença. Mas aqui nesta nossa ilha cercada de língua portuguesa por todos os lados, esses “pormenores” incomodos continuam expurgados da história que se aprende nas escolas e que, segundo esse pessoal, foi feita mesmo para ser reescrita segundo as conveniências dos donos do poder.
Essa “circularidade” do espectro político, em que os extremos se tocam, sempre foi uma descrição bem mais fiel da realidade que a “polarização” com que os habitantes dessas pontas preferem se fazer representar. E Lula não inova nada também nesse campo.
A sua diplomacia alinhada aos apedrejadores de mulheres do Irã, aos decanos das ditaduras do mundo que, ha 52 anos, queimam livros, prendem e arrebentam em Cuba, aos genocidas do Oriente Médio e da África faz parte de uma sólida tradição das esquerdas de todos os lugares e todos os tempos de se aliarem frequentemente e de se comportarem quase sempre como aqueles que dizem execrar. E se não quisermos sair daqui para ficarmos só com as referências mais próximas dele, está aí para não nos deixar mentir a sua declarada admiração pelo general Geisel, com seu pendor estatizante, o dirigismo megalômano na economia e o estilo “ouça e obedeça” de tratar com a sua “tropa”.
Autoritário com autoritário; ditador com ditador. Nada de novo debaixo do sol.





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