Para nos livrar dos blocos e centrões

25 de julho de 2018 § 15 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 25/7/2018

O que se disputou até agora, faltando dois meses para a eleição, foram só os 12 minutos e 30 de televisão. Ninguém está nem aí pra você. Nem lhe dirigem a palavra. Cada mandato cooptado dá direito a mais alguns segundos. O PT tem 1 e 31, o MDB 1 e 27, o PSDB 1 e 13. Daí pra baixo, quanto mais novo na profissão menos segundos. Mas vale coligação. Os virgens estão condenados ao silêncio a menos que passem a rebolar-se para as bruacas velhas do “sistema”. A cada dono de partido as suas estatais e os seus ministérios. A cada “bloco” de donos de tetas, a reversão desta ou daquela “reforma”. Os candidatos “se viabilizam” inviabilizando pedaços do nosso futuro. E quem não jogar com a regra nem entra no jogo…

Mas não se indigne ainda. A indignação sem foco é o ópio do cidadão. Mata qualquer esperança de raciocínio objetivo e os põe exatamente onde os querem os profissionais.

O objetivo disso tudo não é dinheiro. Ninguém quer dinheiro pelo dinheiro. Dinheiro é só o meio mais eficiente de comprar poder. Por isso nenhum cofre jamais precisou ser arrombado no país mais roubado da história do universo. Os donos do poder é que os escancaram para comprar mais poder. E no entanto, a voz corrente é que o “poder econômico” é que é o agente e não o mero coadjuvante da ladroagem. A decorrência obrigatória dessa convicção é que o estado, o outro nome do poder, é a solução e não o problema. E tome fundo partidário + um cacife de minutos de suspensão da censura às mídias de massa para vender + o “financiamento público” de campanhas, tudo para “livrar a política da influência do poder econômico”, e cá estamos onde a indignação sem foco nos pôs: ninguém entra, ninguém sai. E como o voto é obrigatório e leva quem tiver a maioria que der, paparicar o eleitor pra quê?

Quem não vive de teta continua no escuro, tentando adivinhar quem “não é contra” esta ou aquela “reforma”. De reforma mesmo, sem aspas, nem os políticos, nem os “especialistas”, nem os seus mais aguerridos antagonistas são a favor. Uns só prometem e os outros só cobram meias-solas para impedir que o organismo parasitado morra já, ou porque estão embarcados na nau do marajalato, como estão todos os candidatos e família, ou porque assim lhes permite o silêncio reinante pois, no escurinho de cada consciência do Brasil com voz, ninguém quer arriscar o caquinho de migalha que as “excelências” e os “meritíssimos” têm a esperteza de conceder a todos e a cada um para dividir os otários. O resto, o Brasil sem teta nem voz, esse está no meio do tiroteio. Tem mais com que se preocupar.

China de um lado, “privilegiatura” do outro. Fusões e aquisições, supersalários e superaposentadorias, tudo sem limites. A classe média meritocrática está em vias de extinção. Só sobrou a corte debaixo do para-raio. O Brasil inteiro vive a “síndrome do Jardim Europa”: menos ricos muito mais ricos, comprando os vizinhos, construindo palácios, e o favelão continental crescendo em volta debaixo de tiro e debaixo de peste. No fim vão sobrar tres ou quatro castelos e quem sair fora das muralhas sem um exército à sua volta será comido vivo.

A sociedade dividida em dois extremos, sem meio, é tudo que os “venezuelanos” querem. Seja quem for que entrar, seguir poupando a corte em detrimento do povo vai nos jogar no colo deles. Eles sabem que só conseguirão segurar a barra que vem vindo a tiro mas é esse o seu diferencial: estão dispostos a saltar para esse nivel de crime. Vivem aplaudindo quem ja está nele. Não acreditam em mais nada e é isso que os faz duas vezes mais perigosos.

O Brasil está sonhando com uma ressurreição moral que sabe que não virá. O que faz o padrão moral da política é a regra do jogo e não a iluminação pelos céus de um mítico “candidato honesto”, seja de que “lado” for. Não haverá pacote de leis, nem que venha assinado pelo Homem de La Mancha em pessoa, que resolva isso. Nós somos todos testemunhas. Todas as leis anti-corrupção viraram as mais poderosas armas da corrupção. Prende este! Solta aquele! Mexeu no meu privilégio? Maldita Geni!

Tem dado pra trabalhar com esse barulho?

Seja quem for que inicie a cena, quem decide o final são sempre os titulares dos “direitos” que só a “eles” é dado “adquirir”. É essa dimensão coletiva, sem rosto, que os une a todos, os mais e os menos mal intencionados, pela ação ou pela omissão. Quem manda, quem escreve a regra, quem nunca sai do poder, é “o bloco” das corporações donas do estado.

A base de toda a trapaça nesse campo – e muito pouca coisa ao norte de Curitiba não é – é a ideia de que são as pessoas e não o “sistema” que esta errado. Se forem só as pessoas, basta prender as da hora e sonhar com a eleição de “um cara honesto” que passa. Se for o “sistema”, então estamos todos errados e será preciso suspender as hostilidades e mudar o país de dono antes de começar a prender de novo, agora para valer.

A lei é a força absoluta. Na mão de qualquer outro, vira uma arma e uma gazua. “Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”. Por isso a grande invenção do milênio foi dar exclusivamente ao povo o poder de fazer e de acionar a lei. O jeito disso mudar de conversa para realidade demorou séculos para apurar. Voto distrital puro porque poder é um perigo e por isso precisa ser picado em pedacinhos. Eleições primárias diretas porque não dá pra funcionar senão por representação, mas nós precisamos da dos índios, não da dos caciques. Retomada de cargos e mandatos a qualquer momento para que os representantes nunca se esqueçam de quem é que manda. Referendo do que vier do Legislativo para que a lei não seja transformada em gazua nem em arma de opressão. Leis de iniciativa popular para que você paute o representante e não o contrário. Eleições de retenção de juízes porque o crime organizado ataca por cima e por baixo e as paradas e tentações são altíssimas.

Aí o controle do seu destino passa a ser seu. Fora daí é rezar, a cada quatro anos, para que o próximo déspota venha menos torto que o anterior.

Quem tem medo da verdade?

7 de abril de 2017 § 19 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 7/4/2017

Aposentadorias e “Benefícios de Prestação Continuada” (BPC) pagos a funcionários “incapacitados” representam 54% do gasto da União. A folha do funcionalismo ativo outros 41%. Sobram 5% para financiar todos os investimentos publicos. Nos estados e municípios é tal a fome dos marajás que nem para pagar a parcela do funcionalismo que, bem ou mal, de fato “serve” o público, tem sobrado.

A carga de impostos é de 36% do PIB e o deficit de pelo menos outros 10%. São 46% do PIB, mais de R$ 2 trilhões e 500 bilhões, apropriados anualmente pelo estado, R$ 2 trilhões e 375 bilhões dos quais (95%) consumidos com salários, aposentadorias, pensões, bolsas e quejandos. Um oceano dentro do qual tudo quanto se roubou em todos os anos investigados pela Lava Jato e, provavelmente nos séculos 20 e 21 somados ou talvez, até, de 1500 até hoje, vira uma gota ou, vá lá, um balde d’água.

Não é preciso mais nada para explicar porque estamos arrebentados. Um simples olhar para as parcelas dessa conta basta, também, para tornar instantaneamente lógica a aparente confusão política em que vivemos. Quinze dias atras Marcos Mendes e Mansueto Almeida, Secretário de Acompanhamento Econômico da Fazenda, publicaram na Folha de S. Paulo extenso artigo destrinchando aspectos centrais da reforma da previdência. Todo servidor se aposenta com 100% do que ganhava no ultimo dia de trabalho, coisa inédita no mundo. (Na verdade costumam ter uma ou duas “promoções” pouco antes de cruzar a linha aos 50 anos). Com 30 anos ou mais pela frente de puro desfrute, camadas sucessivas se vêm acumulando. Todas essas aposentadorias têm sido “reajustadas” muito acima da inflação junto com os salários dos servidores ativos (esses com aumentos contratados até 2020 no meio do pânico do resto do Brasil). Já os súditos no país real “se aposentam” com 70% do ultimo salário (que paga imposto a partir de R$ 2 mil e poucos) e continuam trabalhando até morrer pois se já viviam no limiar da miséria com 100%, que dirá com 70%. Essa situação é tão generalizada que o governo está criando o Regime Especial para o Trabalhador Aposentado isentando o trabalho na velhice de alguns impostos. Aposentadoria “por tempo de serviço” aos 50 anos é, portanto, um luxo exclusivo dos donos do estado. A maioria se aposenta antes disso, aliás, graças aos “regimes especiais”, mais uma das inumeras formas de roubo legalizadas com que nos sangram, exatamente semelhante aos “auxílios” e outros apelidos que dão a pedaços do salário para aumenta-lo alem do teto e sonegar imposto, só que aplicado ao tempo contado para se aposentar.

Pensões por morte são outro luxo hereditário exclusivo do marajalato. Custam 3% do PIB no Brasil quando o padrão mundial é abaixo de 1%. 32% dessas pensões são pagas a funcionários que já recebem aposentadoria. 73% vão para apenas 30% dos domicílios, todos na categoria dos de maior renda do Brasil. O gasto com “Benefícios de Prestação Continuada” (BPC) pagos a “incapacitados”, valendo em média 10 Bolsas Família cada, cresceu de R$ 14 bilhões em 2003 para R$ 49 bilhões em 2016. A maior parte foi conseguida por ação judicial, dispensando, portanto, a evidência de dedos ou membros faltantes ou outras deficiências perceptiveis a olho nu. Só juizes, mais de 10 mil dos quais recebem acima do teto constitucional e, frequentemente, salários acima de seis dígitos, e “peritos judiciais”, foram capazes de “enxerga-las”. 43% dos BPC pagos vão para a faixa dos 40% mais ricos do Brasil.

Vai por aí o escárnio e, por essas e outras, a maioria dos servidores públicos federais está na faixa dos 1% mais ricos do Brasil e quase nenhum está aquém dos 5% mais ricos. Isso antes de contar as frotas de jatos, as dezenas de milhares de automoveis, os planos de saude eternos e as mordomias mil que a favela paga para os palácios.

Uns poucos, muito poucos, entre esses abusos seriam coibidos pela reforma da previdência proposta por Michel Temer que, por ter ousado tanto, está, com todos os seus “negociadores” de reformas no Congresso, varejado de delações e a um passo de ser apeado da presidência.

O problema brasileiro é “biodegradavel”. Expostos os dados ao sol a unica resposta decente, a única resposta aritimeticamente possivel, impõe-se por si só. A sobrevida da “privilegiatura” depende estritamente, portanto, de mante-los escondidos sob uma barragem a mais ruidosa possivel de mentiras. Não é por outra razão que a luta pelo poder se tem resumido à luta pelo controle dos meios de difusão de “narrativas”, o novo nome da mentira, seja pela martelação da discurseira sem contraditório daquela gente sinistra dos “horários gratuitos”, seja pelo “aparelhamento” de escolas e redações. Agora querem dar o golpe final fechando o último canal de expressão sem “tradução” da voz do povo com essa “lista fechada”.

Meu coração tem tentado mas meu cérebro recusa-se a se convencer de que é apenas ingênua e distraída essa justiça sem prioridades que, sempre em perfeita afinação com a imprensa e consonância com o tramite das reformas, arregala um olho para ladrões individuais de milhões mas sistematicamente fecha os dois para a ladroagem coletiva de trilhões sem o fim da qual o Brasil não se salva.

O passado condena? Pode ser. Mas a verdade é que Temer não pode dizer a verdade num pais onde ninguém mais diz a verdade. Como não é dele, é do Brasil que se trata, é preciso lançar uma campanha impessoal para demonstrar, sem eufemismos, a relação direta de causa e efeito entre cada marajá excluído da reforma e cada aumento de imposto, e entre cada aumento de imposto e cada emprego a menos. O Brasil precisa ser instado a fazer as escolhas que lhe restam sabendo claramente quem custa quanto ao estado brasileiro, o quê pode ser trocado pelo quê, quanta dor adicional e quanto alívio podem ser contratados pelo mesmo dinheiro escasso. Sem isso, fica fácil demais para lobos se apresentarem como cordeiros e bandidos como mocinhos enquanto nos empurram, todos juntos, para o ponto de onde não ha mais retorno.

O que você achou de Aécio no debate?

3 de outubro de 2014 § 71 Comentários

a9

Um amigo me enviou essa pergunta quando o debate acabou.

Respondi assim:

Acho que no geral ele foi bem. De longe ele é o melhor dos tres ao vivo. Sempre foi, alias. Acho que o debate dirimiu as duvidas de muita gente que imaginava que Marina era muito diferente do que é.

Ela foi muito mal…

Mas a desgraça é justamente que as campanhas não são mais ao vivo. É tudo um campeonato de falsificações da realidade. E aí as melhores e mais profissas em termos de marketing, planejamento, acabamento e etc. são de longe as do PT.

Eles vêm ha 30 anos com o mesmo cara, corrigindo o rumo e afinando a mira. O PSDB troca de marqueteiro a cada campanha. Recomeça sempre do zero e quando começa a corrigir o rumo a campanha já acabou.

a3

Isso mostra que são mais honestos, que se preoupam mais com o conteúdo que com a embalagem. Mas não é profissional. Para a tribuna televisiva só a embalagem importa. Enfim, uma Presidência da República não se improvisa…

Os marqueteiros do Aécio são muito ruins. Indecisos. Não exploram a vantagem que ele tem quando ele é espontâneo. Insistem em faze-lo dizer textos decorados na TV que não convencem, soam falsos.

Põem ele falando como se o PT não existisse e não estivesse atacando ele com mentiras grosseiras um segundo antes da mensagem dele entrar no ar. Botam sambinha comendo pedaços de um tempo de TV que o candidato não tem…

Erros primários!

Vejo muita gente que se irrita com isso a ponto de mudar de voto. É aquela história: a torcida só apedreja o ônibus do próprio time quando ele perde sem brigar…

a7

Mas volto ao debate:

Aécio encurralou a Dilma varias vezes e só tomou umas duas ou tres ferradinhas no debate inteiro, especialmente quando atacou Marina. Como todo mundo menos os marqueteiros do PSDB já sabe, isso só beneficia a Dilma.

Esta, ao vivo, é um desastre! A pior inimiga do PT é a Dilma. E a Marina idem de si mesma.

Agora, o discurso final, que é a sintese que o próprio candidato faz de toda a sua campanha e fica na cebeça do eleitor me pareceu desastroso. Ele repetiu o mesmo erro do discurso gravado, passado horas antes no encerramento da campanha: em vez de falar de Brasil ou falar de PT e de democracia de forma espontânea e improvisada, repetiu o textinho decorado sobre a familia Neves, coisa que interessa exclusivamente à família Neves.

Mas o pior é o texto decorado. TV é olho no olho. O que o espectador capta, muito mais que o que se diz, é autenticidade ou ausência de autenticidade. Quando o Aécio sai do discurso espontâneo, da conversa, do bate-rebate, ele vira uma nota de R$ 3: não convence ninguém.

a6

Não consigo imaginar que tipo de trip de marqueteiro a respeito de “campanha sentimental” e outros bullshits do gênero faz um cara disputando o 2º lugar voto a voto entrar nesse tipo de roubada.

Como ja disse no Vespeiro acredito que para vencer a mentira só adotando um estilo jornalístico de campanha, como fez o Alkmin…

Resumindo, então: ele foi ótimo no começo (com aquele petardo da ata da Petrobras), bem no meio e mal no final.

Com a Dilma foi o exato contrário: ela foi péssima no começo, ruim no meio e melhor no fim. Redimiu-se com o discurso decorado do final. Ela é o inverso do Aécio: fala sem sentido, gagueja, tem zero de senso de humor. Ela só começa a fazer sentido quando vira o boneco de ventriloquo do João Santana que é esse que fala meia hora por dia no horário gratuito…

Enfim, não sei. O debate pode completar a virada dele em cima da Marina, que foi muito mal, mas não muito mais que isso, dependendo da audiência que teve.

a2

O buraco é mais embaixo

21 de dezembro de 2013 § 4 Comentários

a8

Artigo publicado em O Estado de S. Paulo de 21/12/2013

Acompanho a comemoração na imprensa em torno da votação do Supremo Tribunal Federal que caminha na direção de “proibir” o financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas e bate-me um desânimo ancestral.

Alguém acredita que de fato vai cessar a roubalheira na construção de estradas, de metrôs, de hidrelétricas; na saúde pública, na construção de escolas, na escolha dos livros didáticos comprados pelo governo, na merenda escolar, na compra de remédios e ambulâncias, na expedição de alvarás para construções privadas, na fiscalização de feiras, bares e restaurantes, do guarda que troca a multa por 50 paus – vá lá! escolha você mesmo! – se o Supremo Tribunal Federal proibir o financiamento de campanhas eleitorais com doações de empresas privadas?

Alguém acredita que o horário eleitoral gratuito se tornará menos mentiroso e nefasto se o direito que os político se outorgam de mentir pela gorja sem contraditório em rede nacional em horário nobre  for financiado só com dinheiro público?

a11

Alguém acredita que as próprias doações de campanha cessarão apenas porque os meritíssimos assim decidiram? Que foi por falta de alguém ter essa boa ideia que vimos sendo roubados ha 513 anos?

E o PT, que levantou esta bandeira exatamente a partir do minuto em que chegou “” e nem um segundo antes, fê-lo para que o país deixe de “ser”, ou para ficar sozinho distribuindo bolsas, isenções de impostos, quebrando a Petrobras pra encher o tanque da freguesia a preço eleitoralmente conveniente, destruindo a indústria nacional a custa de aumentos de salário sem aumentos de produtividade, sustentando o consumo contratando dívida e inflação futuras e o mais que a gente sabe, sem mais ninguém na raia?

Porque a imprensa se presta a dar ares de seriedade a tapeação tão evidente e antiga? Ela não consulta os seus próprios arquivos? Os livros de história pra se lembrar de ha quanto tempo a gente que nos explora vive de remexer o acessório para manter como está o principal?

a6

Não, o vício é nacional; não é só dos políticos. Mais que isso, o vício é cultural. Irmana meia humanidade.

Regulamentar o irregulamentavel. Encher bibliotecas inteiras de leis e leis sobre leis sem perder um minuto sequer com considerações praticas sobre a factibilidade de aplica-las. Discutir infindavelmente sobre o nada com uma retórica grandiloquente. Fazer revoluções em palanques, em tribunas e em mesas de bar.

Eis as marcas do DNA latino!

Até as mensagens do Twitter já se propôs regulamentar nos espasmos legisferantes da presente temporada. O que virá depois? O Facebook e o resto da internet? E então a definição das conversas e sussurros regulares e irregulares nas praças públicas?

a3

E que tal começar pelo final, como fizeram os países onde de fato existe democracia? Que tal declarar todo mundo – a começar pelo “rei” – igual a todo mundo perante “A Lei”? Ter um único foro de julgamento para todos? Uma única prisão para quem quer que queira pisar deliberadamente no tomate? Um ou no máximo dois recursos de julgamento?

A doença degenerativa do Brasil chama-se impunidade.

De modo que acabar com a impunidade faria mais pela cura da nossa chaga política e de todas as outras que ela abre e infecciona do que mais 50 decisões do STF sobre a periferia da regra eleitoral.

Ah, mas se formos esperar o Congresso a reforma política não sai nunca”!

Não sai mesmo.

a10

Mas a função do Judiciário não é tomar o lugar dos legisladores sob esse pretexto. A função do Judiciário é enquadrar os legisladores na lei que eles próprios escrevem. Na única lei que deveria viger no país, igual para todos.

É fazer isso que o resto acontece sozinho!

E impunidade não é só a dos ladrões e dos outros criminosos que nos mantêm trancados e acuados porque com eles o Judiciário é tão mole quanto é largo o bolso de advogados e juízes com poderes para decidir a seu bel prazer quem vai e quem não vai para a jaula.

Impunidade é também a do representante que trai o seu representado e vende o seu mandato para quem e quantas vezes quiser.

a12

Para essa vertente da doença nacional existe o remédio do voto distrital com recall, que amarra cada político eleito a um grupo claramente identificado de eleitores, e dá a esses eleitores o direito de cassar-lhes essa representação quando quiserem e pelo motivo que quiserem, como prescreve a Constituição que diz que “todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”.

O problema”, eu não me canso de repetir com Theodore Roosevelt, “não é haver corrupção, condição inerente ao ser humano. O problema é o corrupto poder exibir o seu sucesso, o que é subversivo”.

O problema, vale dizer em termos mais focados no caso em discussão, não é a exposição dos agentes públicos ao poder econômico, o que é absolutamente inevitável; o problema é não poder punir quem é pego abusando dele. E ninguém sabe disso melhor que este STF que tenta, ha oito anos, enfiar e manter meia dúzia de salafrários na prisão e não consegue.

a7

Faria muito mais por nossa remissão esse Supremo Tribunal se tratasse de olhar para o próprio umbigo e acabar com os “embargos infringentes”, a meia dúzia de “tribunais especiais” para “pessoas especiais” e os outros 20 mil recursos que mantém à disposição dos bandidos comuns com carteira recheada que provam todos os dias a cada brasileirinho e cada brasileirinha, desde que nasce, seja na Vieira Souto, seja no Morro do Alemão, que sim, o crime compensa.

E vale repetir: as sociedades funcionam como cadeias de transmissão de forças nas quais o elemento mais próximo do povo, a fonte de onde emana a legitimidade dos demais poderes, é a imprensa. Enquanto ela seguir obrigando-se, por um suposto “imperativo ético” inventado em nossas escolas aparelhadas, a amplificar as iniciativas dos poderes constituídos emprestando-lhes ares de seriedade, eles seguirão tão confortavelmente refesteladas na mentira quanto estão hoje.

a9

VEJA COMO FUNCIONA O RECALL NESTE LINK

O resto da matemática do crime

30 de setembro de 2013 § 1 comentário

carreg1

Carlinhos Brickman, na coluna que escreve para vários jornais no domingo, registra a parte que eu esqueci de mencionar nessa matemática do crime:

O Fundo Partidário distribuiu no ano passado R$ 286,2 milhões entre os 30 partidos existentes então. A propaganda eleitoral “gratuita” nos rádios e TVs custa R$ 900 milhões nos anos eleitorais, que os partidos não pagam mas nós pagamos pra eles.

O dois novos partidos – PROS e Solidariedade – passam a fazer jus, só por terem nascido, a R$ 30 milhões cada um por ano.

carreg6

Isso é, por assim, dizer, o “dinheiro de bolso” que eles recebem porque o grosso mesmo vem depois, das fontes que eu mencionei: os  cargos públicos, as nomeações sem concurso, o aluguel do horário gratuito e tudo que fica ao alcance das mãos ávidas dos contemplados com o controle das grandes encruzilhadas por onde flui o dinheiro público.

Brickman lembrou bem: Dona Dilma, na maior cara-de-pau, ainda teve o desplante de “responder à voz rouca das ruas” de junho (antes delas serem caladas a pau pelos profissionais que passaram os três meses seguintes mostrando aos amadores que se  insistissem em falar nas ruas iam ter de pagar com sangue), “propondo” o “financiamento público das campanhas”.

Que campanha já não é financiada com dinheiro público? Quem é que põe um tostão de seu pra criar  esses partidos?

carreg4

Entenda a matemática do crime

26 de setembro de 2013 § 1 comentário

bunda3

Dois novos “partidos políticos” acabam de nascer no Brasil e ainda temos mais um no forno.

Um deles responde pela adequada sigla PROS (Partido Republicano da Ordem Social) e já nasceu falando que é pró governo. O outro chama-se Solidariedade e é propriedade daquele Paulinho da Força, nosso velho conhecido que doravante passa a ser Paulinho da ex-Força, e diz que vai ser da oposição, ainda que estejam ambos abertos a negociações.

Com isso o Brasil chega ao recorde de 32 partidos políticos, a caminho de 33 porque ha pelo menos mais um em gestação, fato que absolutamente não quer dizer que existam 33 maneiras diferentes de se gerir a coisa pública que é o critério que, pelo mundo afora, faz partidos políticos nascerem. Mas explica porque o Brasil tem 40 ministérios quando ninguém no resto do mundo passa muito dos 10.

bunda11

Desde a Queda do Muro em 1989 ha consenso de que não existem sequer duas maneiras de gerir a coisa pública. Uma e meia, talvez, a diferença resumindo-se a permitir ou não permitir que, nos momentos de crise, o Estado ponha a ponta de um de seus pezinhos dentro da economia. Por isso são raros, hoje, os países onde haja mais que dois partidos, sendo as exceções admitidas em modelos parlamentaristas que abrigam partidos dedicados a temas específicos como os “verdes”, que adoram essa cor, ou os “piratas” que propõem a livre roubalheira de trabalho alheio e doses maiores de “democracia direta” não muito honesta via internet.

Porque, então, nascem tantos partidos no Brasil?

bunda10

Primeiro porque a função dos governos no Brasil não é gerir a coisa pública, é roubar a coisa pública. E para disputar tão gigantesco butim há muito mais do que apenas dois candidatos. Segundo porque o povo brasileiro e a representação política do Brasil são entidades absolutamente divorciadas entre si, não havendo nenhuma possibilidade de contato entre ambas salvo nos momentos em que os eleitores são chamados a sancionar a hierarquia da roubalheira dos próximos quatro anos negociada previamente entre essas 30 e mais agremiações especializadas no alto “comércio de governabilidade” que é o nome que se atira à imprensa para descrever as idas e vindas de cada ladrão ao longo de cada temporada oficial de saque à Nação.

Trata-se de um jogo no qual só se ingressa constituindo-se um “partido político” e no qual a moeda de troca é o tempo de exposição no “horário gratuito eleitoral”.

bunda13

A regra é acertada entre os próprios contendores. Formar um partido é a parte mais fácil. Basta juntar 101 asseclas dispostos a tudo, criar a marca do novo produto e colher assinaturas de 1/1000 dos eleitores que votaram na última eleição em 9 estados. Escolhendo os 9 estados de menor eleitorado bastarão 7.641 assinaturas.

Conseguido isso, só por ter aderido à máfia, sem ter feito nada por ninguém, sem ter tido de pedir nada a ninguém, o “partido” já recebe, automaticamente, um cacife inicial bancado por nós todos para entrar num jogo em que o prêmio final é o resto do nosso couro.

Funciona assim:

O “horário eleitoral gratuito” colocará candidatos no ar em rede nacional dizendo o que quiserem dentro da melhor embalagem que conseguirem comprar, sem contraditório que fica proibido nos meses que antecedem as eleições, durante 30 minutos por dia.

bunda22

Dez desses 30 minutos serão distribuídos “igualitariamente” pelo numero de partidos existentes. Se forem 32, cada um terá 18 segundos e 75 centésimos. Se forem 33, 0’18”18 centésimos.

Os outros 20 minutos serão distribuídos pelos 513 deputados federais eleitos e atribuídos ao partido a que eles estiverem filiados no momento, o que dá 0’02”33 centésimos para cada um.

É, no entanto, uma propriedade inalienável desse deputado, que ele leva com ele independentemente de trair ou não o seu eleitor.

bunda19

Aí começa o jogo que consiste nos partidos roubarem deputados eleitos uns dos outros fazendo a eles a melhor oferta de posicionamento privilegiado para futuros assaltos à coisa pública em caso de vitória da agremiação à qual se aliou.

Essa primeira fase desse jogo de rouba-montinho envolve todos contra todos. O Solidariedade, ex-Força, por exemplo, nas mãos de um veterano de comprovada competência na modalidade, garante que já vai nascer com 46 deputados tirados do alheio.

Isso lhe daria um cacife de 2 minutos 10 segundos e 58 centésimos por dia na TV (2”33 x 46 = 107”60 + 18”75 de cacife inicial = 126 segundos e 35 centésimos ou, /60 = 2’10”58 centésimos).

bunda16

Aí começa a segunda etapa do jogo que, a essa altura, passa a ser de rouba-montão. É quando os donos de partidos negociam entre si a qual dos dois partidos mais cotados para a disputa final eles vão entregar os seus preciosos minutos, e em troca de quais ministérios, autarquias, empresas estatais ou simples encruzilhadas boas de assaltar em caso de vitória.

Esses minutos valem tanto assim porque este é um país onde até os universitários, ou pelo menos 38% deles, são analfabetos funcionais, interessados exclusivamente em ver bundas na televisão e, em boa parte dos casos, comporem-se futuramente com os ladrões postos no seu caminho pra ver se garantem algumas migalhas no mole para si mesmos.

bunda21

Pros alfabetizados sem adjetivos os contendores desse jogo nem olham porque não são suficientemente numerosos para mudar nada nas eleições. Uma vez eleitos, eles cuidarão de manter o sistema de educação pública com o nível de eficiência necessário para parir, na próxima geração, uma igual proporção de otários e miseráveis, contingente que tem de ser amplamente majoritário para que eles possam seguir comprando-os eternamente com bundas e com migalhas.

Passada a eleição começa a fase do rouba-bilhão onde cada voto no Congresso, cada gatuno pego no pulo, cada julgamento que chega ao judiciário, cada crise que eles ajudam a insuflar, cada pânico nacional é uma nova oportunidade de faturamento tanto maior quanto mais grave for a ameaça envolvida. Nessas ocasiões, não é ajuda que venderão, é só a promessa de parar de jogar gasolina na fogueira.

De modo que se você sonha sair dessa arapuca um dia, comece por fazer tudo que você puder para destruir esse tal de “horário gratuito” mantido o qual não ha esperança de nada.

bunda2

Eles sabem o que vem vindo por aí

19 de abril de 2013 § 2 Comentários

ref12

Reforma eleitoral exatamente agora?

Que súbito amor pelo aperfeiçoamento das instituições e, em especial, pela fidelidade partidária é este que acomete os nossos “esquerdistas” abraçadores de josés sarneys, de valdemares da costa netos, de fernandos collors, de paulos malufs e de gilbertos kassabs de dez minutos atrás?

A “zebra” venezuelana parece ter causado funda impressão nos arraiais petistas.

La também “o jogo estava ganho”. Lá também os institutos de pesquisa apontavam uma “lavada” chavista. Lá também só eles tinham uma militância que se manifestava com estridência.

ref5

Mas mesmo com todo o aparato institucional completamente dominado, processo que aqui ainda é incipiente para desespero da parcela do PT com cargos só dentro do partido e livre para dizer o que ele realmente pensa da “democracia burguesa”, o chavismo perdeu, ganhou raspando ou ganhou “no tapetão”, nunca se saberá ao certo.

O que foi que aconteceu?

Calada finalmente a incessante torrente verbal do onipresente líder bolivariano que não dava a seus súditos tempo para respirar, tornou-se mais visível a Venezuela real acuada pelo crime, com sua economia destruída, a inflação galopante e a miséria crescente que dona Dilma foi, hoje mesmo, negar de pés juntos que existe para os próprios venezuelanos que a estão vivendo na pele e exorcizando nas urnas. Assim como nega o que todo mundo que tem nariz já sente que está no ar por aqui também.

ref3

Política é como nuvem”, dizem os mineiros. “A gente olha, ela está de um jeito; a gente olha de novo e tudo mudou”…

Don Lula I, que é um consagrado especialista em antecipar os movimentos das nuvens, olhou para o céu que a dupla Dilma/Mantega vem obrigando o Banco Central a tapar com uma peneira e viu nele os motivos que o Ibope ainda não detectou para antecipar em mais de um ano a campanha eleitoral.

Não foi o bastante. Sua majestade pelo jeito se deu conta de que o costumeiro jogo de joão-sem-braço de fazer campanha na hora errada, com as pessoas erradas e com o dinheiro errado, confiando na máxima de que em Presidente da Republica o Judiciário não toca nem que ele agarre a bola com as duas mãos dentro da pequena área, não vai ser suficiente.

ref8

Partiu, então, para a botinada ordenando à sua tropa de choque na Câmara e no Senado que trate de negar à Rede Sustentabilidade de Marina Silva o tempo de TV e o dinheiro do Fundo Partidário que deram a Gilberto Kassab quando este se comprometeu a vender-lhes o rebanho que conseguisse amealhar roubando reses dos vizinhos para o seu Partido Sem Definição (PSD), até então imaculadamente virgem de urnas.

Marina Silva rouba eleitores de todo mundo. É, no mínimo, uma perigosa parteira de segundos turnos. Com Eduardo Campos à solta, além de Aécio, ensaia-se um perigoso foco de atração para a esquerda honesta. E, de quebra, a manobra mata também a articulação do “Solidariedade”, de Paulinho da Força, que vinha para fazer marolas nas águas plácidas da represa hoje exclusivamente petista do sindicalismo pelego.

ref11

Como o mesmo STF que garantiu a teta a Kassab vai ser acionado para garantir isonomia a Marina, lá vai o Brasil perder mais uma oportunidade de tornar ilegal o lenocínio partidário, hoje tão generalizado e desmoralizante que os novos partidos já nem se querem chamar “partido” porque “partido” é sinônimo daquelas famosas casas que a esse metier se dedicam.

E mesmo que assim não seja, quem disse que amanhã o PT (ou quem mais interessar possa) não reverte a manobra com a mesma cara-de-pau com que a está forçando agora?

Enfim, a confirmação da legalização ou da criminalização por encomenda da prostituição partidária não representará garantia nenhuma de saneamento do nosso insalubre ambiente político. Este só começará a se dar de fato quando formos à raiz do problema e tornarmos ultra instável o emprego do político profissional dando um único voto a cada eleitor, referindo cada candidato a representá-los a um grupo específico deles e dando a esses eleitores condições de cassar a representação concedida muito rápida e descomplicadamente em caso de necessidade.

Só então eles começarão a jogar a nosso favor.

ref2

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com horário gratuito em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: