“Um tal de Olacyr…”

4 de agosto de 2015 § 24 Comentários

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O cerrado desaparecera completamente, imerso numa névoa espessa. O casarão todo em madeira, improvável para um fim de mundo como aquele, era só um vulto maciço no meio da cerração trazida pela frente vinda dos lados da Bolívia. Fazia um frio de rachar e a cachorrada, contida pelas correntes estaqueadas ao chão no galpão por trás da sede, oferecia-se aos caçadores aos arrancos e repelões, numa algazarra de ganidos quase uivos de incontida sofreguidão.

Impossível sair para o campo naquele fog, apesar da excitação de um ano inteiro de espera…

Fica então entendido, senhores”, emendou mais uma vez o figuraça do capataz, “a partir deste ano não se pode mais caçar do lado de lá dos trilhos porque essa parte da fazenda foi vendida”.

Vendida?! Para quem?!

Um tal de Olacyr”…

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Eu estava – e só compreenderia isso muito tempo depois daquele momento – “presente no ato da criação” de um Brasil revolucionariamente novo que até hoje, ainda que sob forte ataque, é o que nos mantém à tona nos mares bravios da globalização apesar dos rombos da nossa incompetência política no casco. Nos anos que se seguiriam eu veria, passo a passo, esse novo país brotar quase miraculosamente das mãos de um homem de uma força instintiva incoercível que seria desde o primeiro minuto uma referência de admiração apesar da forte dose de ambiguidade que sempre temperou nossa amizade.

Chegar à “Fazenda Santa Virgínia”, em “Ponta Porã” – nomes cuja mera sonoridade fazia ferver a minha imaginação de adolescente sujeito desde o nascimento a uma poderosa febre atávica de nostalgia do “sertão” naqueles inícios da década de 70 — era sempre uma aventura cheia de imprevistos. Eu estava para entrar nos meus 20 anos e só havia três ou quatro que fora autorizado a me juntar às expedições de caça às perdizes no mitológico “Mato Grosso” que dois de meus tios organizavam anualmente e com que eu já sonhava desde antes de me entender por gente.

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Naquele tempo, para quem ia de São Paulo para Oeste, as geometrias impostas pelas cercas e roças desapareciam ali pela altura de Araçatuba. “Paranazão” além, então, era outro mundo. O dos campos de homogênea “macega” nativa e arvoredo esparso do finado Cerrado Brasileiro, território das perdizes, dos lobos guará, dos graxains, das emas e dos veados de rabo branco que rolava interminavelmente em leves ondulações quebradas de mil em mil quilômetros por abruptas fraturas geológicas formando chapadões sucessivos – uma lagoa, uma cabeceira d’água aqui e ali, com seus buritis elegantes, as matas de galeria sombreando águas de beber desenhando “veias” nas depressões da camparia; um gado muito rarefeito e meio brabo, criado solto naquelas vastidões quase inteiramente vazias de gente – até se juntar, pouco acima de Cuiabá, com as beiradas da Floresta Amazônica e, de lá até além do Equador, recobrir outros milhões de quilometros quadrados povoados de eternidade, de lendas, de sonhos e de tragédias potenciais, sem que praticamente nada feito por mãos humanas interrompesse aquele mistério todo.

Sertão”…

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Para Sudoeste, a partir de Bataguassu e até o Paraguai e além, a viagem só era interrompida, ou pelas muitas armadilhas do caminho, ou pelas “comitivas”, algumas gigantescas, de homens de outras eras, curtidos de sol e vento, volteando na poeira por cima de oceanos de reses montados em cavalos e bestas formidáveis aparelhadas de todos os couros, argolões e fivelas que remetiam às grandes lidas, os 38 invariavelmente nas guaiacas, facalhões e chairas cruzadas às costas no cós das calças, os berrantes retorcidos, tangendo, às vezes por meses a fio, as boiadas que, ao som de gritos guturais e estalares de chicote no ar que soavam como tiros, “ilhavam” por longos minutos de puro encantamento o nosso valente F-350 de carroceria de madeira lonada num mar de carne semovente.

Quando conheci a Santa Virgínia que, de alguma forma fora parte da implacável Companhia Matte-Laranjeira em que planta raízes a primeira versão do Estado do Mato Grosso, ela ainda era um latifúndio de 200 mil alqueires vigiados por esparsos “retireiros” instalados em velhas casas de madeira distantes quilometros de trilheiros abertos a cascos umas das outras, onde tantas vezes “viajei” ouvindo ao pé do fogo, sob mantos de estrelas que quem viu, viu, a eletricidade apagou para sempre, os “causos” das não tão longínquas lutas de morte entre “changa-y’s” e “barbacuás” (“ladrões de mate”) e os implacáveis capangas do “Império no Sertão” de Thomaz Laranjeira e seus sócios argentinos.

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A área original, dizia-se, fora doada pelo Imperador em pagamento por serviços de transporte para abastecer os exércitos brasileiros na Guerra do Paraguai aos tropeiros Prates, ancestrais da família a que a fazenda ainda pertencia. Pela borda Sul a Santa Virgínia encostava na última das tres ruas de terra delimitadas por fileiras de casas de tábuas acinzentadas pela intempérie, sem pintura e muito pobres, iluminadas a lamparina, do lado brasileiro de Ponta Porã, vila com fama de “faroeste barra-pesada, coito de bandidos e contrabandistas procurados num ou no outro lado da fronteira”, cuja rua principal, a única em que todas as construções, sempre avermelhadas pela poeira, eram de alvenaria, marcava a divisa entre o Brasil e o Paraguai.

O capataz que inadvertidamente acabara de nos anunciar o fim de seu mundo – bombachas, botas curtas e chapelão mas sem o sotaque gaucho, um bigodão recurvado à inglesa e a eterna “bomba” de “terere” nas mãos – tinha a noção de autoridade de quem se sabia detentor de poderes absolutos. A cada cinco ou seis dias fazia-se raspar a cabeça à navalha quase cerimonialmente por um menino negro, de seus 14 ou 15 anos, que marchava atrás dele – pincel, pote de sabão em louça grossa e toalha branca pendurada do braço – até uma velha cadeira de barbeiro com pedal e elevador que o moleque “bombava” a custo com todo o peso de seu corpo e depois basculava para ter acesso ao alvo, surrealisticamente plantada no meio da camparia, olhando para o infinito a 50 ou 100 passos do casarão.

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Aquela viagem não era só um estirão de infindáveis quilometros, mais da metade em chão batido coalhado de obstáculos às vezes formidáveis; era uma passagem no tunel do tempo que me despejava diretamente num ambiente mágico onde, com o 20 virando a curva dos finalmentes, tudo estava ainda referido ao século 19 e dele para tras.

Mas aquilo, eu veria com meus próprios olhos e não sem grandes dores, eram só “os últimos dias de Pompéia”.

Na caçada de 1974 já éramos hóspedes de Olacyr. A regra sempre fora quanto mais “sertão”, quanto mais “no nada”, melhor. A mudança da “mordomia” da sede da Santa Virgínia para os desconfortos do semi-acampamento da incipiente Fazenda Itamaraty-Sul era, portanto, um ganho. Punha-nos ao alcance campos “virgens” a que nunca chegavamos a partir da base anterior….

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Mas então “o tal de Olacyr” começou a nos mostrar quem era ele. O primeiro sinal foi o surgimento de uma ou duas máquinas de esteira amarelas, nunca vistas na região, e a súbita transformação em estrada – o que para os nostálgicos de “sertão” parecia uma agressão – de uns poucos quilometros do antigo caminho que ligava a fazenda a Ponta Porã. A própria rua principal da vila, aliás, ganhou por essas mesmas alturas, um “ameaçadoramente destoante” calçamento de lajotas hexagonais de cimento.

Mais um ano e já éramos “promovidos”, muito a contragosto, das duas casinhas de tábua de dois cômodos perdidas no meio do nada ao lado de um simpático olho d’água com seus buritis em que acampávamos com nossos 14 ou 15 cachorros, para um “hotel” de alvenaria ao lado de uma pista de aviação, tres ou quatro quartos de cada lado de um corredor, um páteo aberto onde eram servidas as refeições. Era, literalmente, um corpo estranho encravado num pequeno rasgo no manto verde que recobria o Brasil selvagem e chegara quase intacto da eternidade até ali e que, estranhamente, ainda se podia pisar, idêntico ao que sempre fora, dois ou tres metros além da área de terreno trabalhado para aquela construção. Mas daquele momento em diante o meu tão sonhado “sertão” da infância e da juventude nunca mais parou de encurtar…

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Outro ano e surgiram mais tres ou quatro casas e um laboratório de botânica. Como todo grande empreendedor Olacyr era antes de mais nada um fabricante de gente capacitada. Varejava as escolas de agronomia, identificava os melhores, trazia-os para o meio do “sertão” a peso de ouro e dava-lhes condições de trabalho que não existiam em nenhum outro lugar do país. Foi lá que vi pela primeira vez as enormes antenas parabólicas de TV, mastodônticas precursoras dos pratinhos de hoje. Tudo que pudesse contribuir para segurar aqueles jovens agrônomos e, mais especialmente, suas esposas e filhos pequenos naquelas lonjuras sem recursos era imediatamente providenciado.

Seguiram-se uns tres ou quatro anos de paz relativa em que a única novidade foi um quadrilátero medindo alguns hectares do outro lado da pista de aviação, onde plantava-se, ano após ano, uma dezena ou pouco mais de longas faixas de diferentes variedades de soja, selecionava-se e cruzava-se as sementes das sobreviventes que melhor desempenhavam e assim sucessivamente até que se chegou à planta ideal para uma operação de maior escala naquele novo habitat.

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E então a coisa literalmente explodiu. Mil, 10 mil, 30 mil, 50 mil hectares, a cada ano mais e mais “sertão” desaparecia sob a soja, mais gente chegava do Sul e mais aquele Brasil primitivo era subitamente atirado para a ponta do século 20. Tres ou quatro dos maiores fabricantes de tratores e máquinas agrícolas do mundo, farejando o futuro, instalaram ali extensas oficinas e laboratórios de engenharia para desenvolver in loco seus novos equipamentos; o hangar de aviação chegou a abrigar perto de 20 aviões entre meios de transporte e agrícolas; fabricantes nacionais e internacionais de gigantescos equipamentos de irrigação desenvolveram nos campos da Itamaraty os primeiros pivôs, com centens de metros de extensão, a serem utilizados na agricultura brasileira; as filas de colheitadeiras altas como prédios alinhadas até onde a vista alcançava para as cerimônias anuais de início de colheita lembravam um cenário de guerra e faziam tremer teluricamente o chão quando ligavam os motoroes e avançavam juntas pelo mar de soja; os silos da gigantesca “área industrial” da fazenda abrigavam impressionantes montanhas de grãos, suficientes, como Olacyr gostava de mostrar, para sustentar por um ano inteiro, primeiro, dois anos, depois, e assim crescendo sempre, ano após ano, as necessidades de proteína de uma população igual à do Brasil que se alimentasse só disso; uma cidade com tres ou quatro clubes, escolas diversas para crianças e para adultos, hospitais e igrejas de diferentes confissões, hotéis e restaurantes surgiu no meio do cerrado, fazendo sombra à própria Ponta Porã.

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Na virada da década seguinte, na sua insaciável sêde de fazer, Olacyr iniciava projeto semelhante em área ainda mais extensa dos sertões dos Parecis, já nas primeiras águas amazônicas, onde repetiria com a cana e com o algodão o mesmo milagre tecnológico que empreendera com a soja mais ao Sul.

Olacyr de Moraes liderou o último e o mais poderoso dos arrancos dessa parcela do Brasil onde, ao contrário do que aconteceu no da praia, a sociedade precedeu o Estado e, tendo desfrutado ¼ de século, pouco mais ou menos, fora do alcance das garras do vicioso “Sistema” eleitoreiro/trabalhista que nos parasita, instalou no Brasil Central uma ilha de meritocracia onde a vontade de trabalhar, a coragem de empreender e a capacidade de inovar e desenvolver tecnologias novas foram, para uma ou duas gerações de brasileiros, as únicas formas de legitimação do enriquecimento.

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Uma ameaça, é certo, para “O Sistema” que a Polícia Federal força, hoje, a nos mostrar a cara. Esses dois Brasis, está mais claro a cada dia que passa, são mutuamente excludentes. Pela virada do milênio, após uma longa e inglória luta, a Fazenda Itamaraty-Sul, já então uma referência global, era “desapropriada para fins de reforma agrária” . Virou uma favela rural.  E pelo novo Brasil ao qual ela deu início afora, a vanguarda do atraso e as máfias do privilégio políticamente adquirido atacam, atritam, invadem e destróem ritualmente centros de inovação tecnológica, enquanto a máquina do Estado, com os tentáculos aumentados pela tecnologia de informação importada, alcança cada vez mais fundo os bolsos do agronegócio, refém, por outro lado, da miséria infraestrutural de que nosso sistema nacional de transportes é um dos símbolos máximos.

Last but definitivamente not least, o deslassamento moral generalizado, com fonte original na política mas fortemente anabolizado por uma televisão nada menos que deletéria na área dos costumes, facilita a penetração de um interior até ha pouco mais apegado ao senso de honra, pela gelatinosa praga advocatício/trabalhista com que Getúlio Vargas e seus sucessores lulo-petistas tratam de nos condenar a todos à mesma miséria moral e material.

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Só um desses dois Brasis sobreviverá ao duelo final, que se está aproximando rapidamente. E não será a polícia nem o juiz Moro quem irá decidí-lo.

A reforma potencialmente possível será exatamente proporcional ao tamanho da queda que estaremos levando como sociedade. Tende a ser definitiva, portanto, para bem ou para mal. Cabe, assim, tratamento de choque para arrancar o país a esse estado de hipnose em que o mantém o incessante tiroteio de dossiês entre bandidos de que a cobertura da mídia não é só uma tradução, é também um componente, e tratar de identificar e ter prontos para uso na curta janela de oportunidade que se abrirá em algum momento dessa débacle, os mais eficientes e modernos remédios da moderna farmacopéia institucional global capazes não só de blindar o Brasil do trabalho contra o Brasil bandalho mas, sobretudo, de submeter este definitivamente àquele.

Recall neles!

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NESTE LINK, COMO O RECALL PODE CURAR AS DOENÇAS DO BRASIL

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