Deus, o diabo, Eduardo e a Democracia Brasileira

15 de agosto de 2014 § 4 Comentários

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É uma espécie de sina e frequentemente é em agosto: a morte entra em cena e joga espalhafatosamente no palco uma forte perturbação emocional nos momentos em que o Brasil mais precisa de racionalidade e serenidade para tomar decisões que podem selar o seu destino por décadas adiante.

Deus (ou o diabo) sempre estiveram nos detalhes, como diz o sábio ditado, e na política brasileira que não permite trânsito totalmente fora do vício, mais que no resto, o que separa o ruim do muito pior, especialmente a esta distância que chegamos do abismo a partir do qual não ha volta é, do ponto de vista da lógica argumentativa dos amigos da confusão, só uma fímbria, embora todo mundo de boa fé e com alguma memória saiba que é um pouco mais que isso. O tanto pouco que põe a diferença no gabarito do detalhe, este que bota deus de um lado e o diabo do outro.

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Eduardo Campos não fez atoa a mesma trajetória de Marina de dentro para fora de um PT que, a cada um em seu momento, passou a parecer impossível de tragar. Os dois enxergavam claramente, portanto, a diferença entre a fímbria e o detalhe que, para o Brasil desta eleição, pode significar continuar dentro ou saltar para fora do campo democrático.

A partir do exato momento em que foi tragado pela tragédia, porém, Eduardo deixou de ser o que foi não apenas como entidade física mas como realidade histórica. Passou para a dimensão dos mitos onde a racionalidade não entra e espargiu uma dose desse embralhador de idéias no ar que esta eleição vai respirar.

É possível que isso ajude aqueles a quem interessa demonstrar que não ha detalhe que permita separar joio e trigo, só ha fímbria que não distingue ninguém de ninguém.

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Marina Silva passa a ser a chave desse enigma e do futuro da democracia no Brasil. Eduardo feito mito deixa uma herança eleitoral maior que a que tinha amealhado vivo. E ela, que provou força insuspeitada quando oferecia a certeza de ser só o voto de protesto, com que força eleitoral ressurgirá neste país tão dado a misticismos agora que foi tocada pelo além? Ela, que já quase foi e já quase deixou de ser por ausência de carisma pessoal, como se reconstituirá na nova entidade que emergirá dessa tragédia?

Lula já começou a trabalhar os sobreviventes do Partido Socialista Brasileiro, século 20 e antidemocráticos como ele, que sempre se sentiram ameaçados por Eduardo, “O Novo”, e nunca engoliram Marina que tem vida própria e está lá só de carona. Têm medo que, Marina crescendo, eles é que se tornem os caronas.

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Seu objetivo é anular a candidatura que possa vir pelo PSB, seja a de Marina ou outra (possibilidade desde já remotíssima), porque as duas roubam votos do PT, a de Marina mais que qualquer outra. Um PSB sem candidato é o seu sonho de verão porque os votos desse grupo tendem a ir para o PT mais que para Aécio, que estava no melhor dos mundos com um Eduardo que ajudava a roubar os votos que o levariam ao segundo turno mas não ameaçava a sua liderança no segundo lugar.

Agora Aécio, que também não tem “it” que chegue para eleger-se só com isso e pendura suas esperanças num voto estritamente racional, torce por Marina mas não muito, porque pode ser ela, e não ele, a ir para o segundo turno contra Dilma. E se for isso que estiver pintando nas pesquisas, Lula sempre poderá, até 20 dias antes da eleição, derrubar o “poste” e ir ele para a disputa.

O detalhe do detalhe nunca foi tão definitivamente importante quanto nesta eleição. Mas a emoção — que só Marina terá o condão de dissipar se mostrar-se grande o bastante para isso — torna bem mais difícil discerni-lo.

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