E a Dilma, o que é?
10 de novembro de 2011 § 4 Comentários
Na fase de absoluta indigência moral que o Brasil atravessa ouvir um mero discurso da autoridade máxima da Nação afirmando princípios elementares como austeridade, probidade, humildade, esforço, dedicação e mérito na prestação de serviços fundamentais como a saúde publica é algo que pode ser festejado como um raro acontecimento político. Chega quase a cheirar a revolução.
O espetáculo deprimente oferecido pelos alunos da “melhor universidade do país” reivindicando o direito de se drogar impunemente em plena via pública na mesma semana em que o Brasil inteiro assistiu ao vivo a morte de mais um jornalista (para quebrar a rotina dos policiais sacrificados) na guerra do tráfico, dá a dimensão inteira da força da herança maldita que Lula nos legou.
A delirante alienação que perpassava no jargão esquecido desde os anos 30 do último século do milênio passado com que os alunos da USP exibiam o “fervor revolucionário” que, num planeta mobilizado pela indignação geral, eles se negam a brandir contra a sistemática operação de saque de que o país tem sido vítima, para espanto dos jornalistas estrangeiros que tentam entender o Brasil, não é apenas a medida da profundidade abissal a que chegou o aparelhamento granmsciano da educação pública nesta que, em plena Era do Conhecimento, se tornou a meca do analfabetismo funcional da metade ocidental do planeta Terra.
Ela é o diagnóstico perfeito da extensão alcançada pela infecção disseminada pelo antecessor de Dilma que, até à véspera de ser detido pela doença, era sempre o primeiro a se abraçar a todo corrupto pego em flagrante de crime de lesa pátria para solidarizar-se com ele contra a Nação e recomendar-lhe de público que não “abaixasse a cabeça” e resistisse agarrado ao seu osso.
A impunidade, gritava-nos a elite da nossa juventude nas ruas da Cidade Universitária, é um “direito” que se aprende na escola e que – do movimento estudantil “engajado” na verba pública aos ministros que se pretendem invulneráveis desta Republica bandalha – os brasileiros reivindicam cheios de “orgulho cívico”.
Este é o panorama naquele setor da sociedade que, em todo os lugares e em todos os tempos, concentra a reserva moral da Nação.
Mais para além, a paisagem é de terra arrasada. A oposição não existe e os grandes empreendedores “privados” foram literalmente comprados pelo governo.
Agora dispare mais uma vez o vídeo que ilustra este comentário. Ouça-o com o pano de fundo acima descrito em mente e olhando nos olhos de quem fala.
O que lhe parece?
A voz que timidamente se levanta desse pântano para falar em “mudança de atitude“, “responsabilidade“, “humildade“, “coragem para reconhecer erros“, “gestão“, “combate sem tréguas aos desvios e mal feitos“; para tratar de saúde publica e não de mais um programa maciço de suborno eleitoral; para lembrar que “partidos, governos, pessoas, somos apenas instrumentos passageiros da grande e permanente ação republicana de garantir o bom funcionamento das instituições, a melhoria da qualidade do serviço público e o bem estar de todos os brasileiros e brasileiras” é só a voz de mais um fariseu interessado em ficar eternamente mamando nas tetas do poder?
É claro que todo esse discurso se esboroa diante da consagração da regra “ladrão, ladrão; quadrilha não” definida para tratar da roubalheira nos ministérios.
São coisas incompatíveis e mutuamente excludentes, eu concordo.
Mas teria sido esta regra ou este discurso que foi imposto por forças nem tão ocultas a quem pediu uma rede nacional de televisão para proferi-lo neste especial momento do apagão moral brasileiro?
Por mais culpas que tenha no cartório pela parte que lhe coube no esforço que levou ao poder a força subversiva que ela agora admoesta timidamente, lá da sua solidão (mas menos timidamente que a oposição), seriam inteiramente falsos o discurso proferido e as intenções esboçadas?
Tudo isso é só deboche?
Ou é um pedido de socorro?
PS.: Se quiserem uma descrição prática sobre como o PT usa a educação pública para moldar o Brasil do futuro leiam o artigo de Demétrio Magnoli hoje no Estadão (aqui)
PS2.: Vale a pena, também, ler o artigo de José Serra no Estadão de hoje (aqui), que mostra como se faz para conseguir o que a Dilma diz que quer para a saúde pública e indica o tamanho da luta política e da coragem que se requer para fazer o Brasil que herdamos de Lula voltar a possibilidades como a que ele descreve.


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